quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Economia de Cuba, castigada há décadas, agora atravessa pior momento desde a Revolução, NYT FSP

 Segundo todos os indicadores, Cuba atravessa o pior momento econômico dos 67 anos desde a Revolução. Embora o país já tenha enfrentado, em décadas passadas, episódios de migração em massa, escassez de alimentos e agitação social, nunca os cubanos haviam vivenciado um colapso tão amplo da rede de proteção social da qual os ditadores da ilha —começando por Fidel Castro— tanto se orgulhavam.

"Eu, que nasci e vivo aqui, digo a você: nunca esteve tão ruim como agora, porque muitos fatores se juntaram", afirmou Omar Everleny Pérez, 64, economista de Havana.

Bandeira cubana a meio mastro em mastro próximo à orla marítima de Havana, com céu azul e nuvens dispersas. Ao fundo, prédios urbanos e o mar calmo.
Bandeira de Cuba hasteada a meio mastro em Havana, que declarou dois dias de luto oficial por cubanos mortos durante ataque americano a Caracas que resultou na captura de Nicolás Maduro - Adalberto Roque - 5.jan.26/AFP

Enquanto autoridades do governo Trump se parabenizam por uma vitória na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro e no controle americano sobre o país sul-americano, os olhares se voltaram para Cuba, que mantinha relações próximas com Maduro e dependia do petróleo enviado por ele.

"Cuba está caindo de vez", disse o presidente Donald Trump no domingo (4), ao descartar a necessidade de ação militar, afirmando que o regime cubano provavelmente entraria em colapso por conta própria.

Odalis Reyes, 56, vê sinais dessa decadência todos os dias. Da janela de sua sala apertada, a costureira moradora de Havana Velha observa a carcaça enferrujada de uma antiga usina elétrica que antes abastecia seu bairro pobre, na borda de uma área turística da capital. Hoje, a estrutura é apenas um lembrete dos apagões constantes.

"Sim, muitas horas sem eletricidade, muitas, muitas —14, 15 horas", disse. "Isso dá medo, muito medo, porque a comida —que é o mais difícil— a gente tem medo de estragar. A gente nem sabe mais como vai sobreviver. Somos como robôs humanos."

Nos últimos anos, os cubanos reclamavam que as cotas mensais de arroz, feijão e outros itens básicos distribuídas por meio do cartão de racionamento duravam apenas dez dias. Agora, esses cartões se tornaram praticamente inúteis, já que raramente há alimentos disponíveis nas lojas estatais.

Para comprar gasolina, é preciso usar um aplicativo e agendar atendimento com pelo menos três semanas de antecedência. Um morador de Havana relatou ter entrado na fila há três meses e ocupar atualmente a posição de número 5.052.

A escassez de combustível tornou a coleta de lixo esporádica, favorecendo surtos de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya. Medicamentos são quase impossíveis de encontrar sem a ajuda de parentes no exterior.

Os apagões agravaram ainda mais a situação, sobretudo nas províncias fora da capital, onde a energia pode faltar por até 20 horas por dia. "Está escuro, as pessoas estão doentes e não há remédios", resumiu Pérez.

O regime cubano atribui de forma consistente seus problemas econômicos ao embargo comercial imposto há décadas pelos Estados Unidos, que, segundo Havana, estrangula a capacidade do país de negociar no mercado internacional. Autoridades afirmam que sanções adotadas por governos republicanos, embora excluam alimentos e medicamentos, agravaram ainda mais o quadro.

"Corrigir distorções e reanimar a economia não é um slogan", disse o ditador Miguel Díaz-Canel em discurso no mês passado. "É uma batalha concreta pela estabilidade da vida cotidiana, para que os salários sejam suficientes, para que haja comida na mesa, para que acabem os apagões, para que o transporte seja retomado, para que escolas, hospitais e serviços básicos funcionem com a qualidade que merecemos."

Segundo Díaz-Canel, ao fim do terceiro trimestre do ano passado o PIB havia recuado mais de 4%, a inflação disparava e as entregas de alimentos racionados não estavam sendo cumpridas. Ele reiterou que os objetivos de longa data do regime são fazer da produção de alimentos uma prioridade e trabalhar para tornar as empresas estatais mais eficientes.

Especialistas dizem que ainda não está claro qual será o impacto da queda de Maduro sobre Cuba, à medida que os EUA ampliam o controle sobre o setor petrolífero venezuelano. Durante o governo de Hugo Chávez, a Venezuela enviava cerca de 90 mil barris diários de petróleo à ilha; no último trimestre de 2025, o volume caiu para 35 mil.

Os apagões têm prejudicado indústrias como a de níquel, já que as fábricas ficam paradas quando falta energia. Outro setor crucial, o turismo, também vem sofrendo nos últimos anos. Antes da pandemia de Covid-19, cerca de 4 milhões de pessoas visitavam Cuba anualmente; esse número tem dificuldade para voltar a 2 milhões, segundo economistas.

Analistas concordam que, embora as políticas dos EUA tenham prejudicado Cuba, o mau planejamento e a má gestão também são responsáveis pela crise. Tentativas de ampliar o espaço para a iniciativa privada esbarraram em regulações rígidas.

As micro, pequenas e médias empresas, legalizadas em 2021, tornaram-se uma tábua de salvação, segundo Pérez e outros moradores. Algumas lojas privadas se assemelham a supermercados americanos, com produtos como alimentos da marca Goya e cream cheese Philadelphia. Mas os preços são altos demais para quem recebe salários em moeda local: a remuneração mensal típica é de 3.000 pesos, menos de US$ 7, enquanto uma cartela com 30 ovos custa 3.600 pesos, cerca de US$ 8.

"Há comida, e muita, mas os preços são inacreditáveis", disse Pérez. "Ninguém que vive de salário, nem mesmo um médico, consegue comprar nessas lojas." Cerca de um terço dos cubanos recebe ajuda financeira do exterior ou ganha dólares no setor privado, mas outro terço, sobretudo aposentados, vive na pobreza.

As condições duras impulsionaram protestos em 2021, reprimidos com dureza pelo regime. O colapso econômico também alimentou um êxodo sem precedentes: cerca de 2,75 milhões de cubanos deixaram o país desde 2020, segundo o demógrafo Juan Carlos Albizu-Campos. Embora a população oficial seja de 9,7 milhões, ele estima que o número real seja mais próximo de 8,25 milhões.

Com a produção de energia 25% menor do que em 2019, alguns moradores passaram a cozinhar com lenha. A economia cubana encolheu pelo terceiro ano consecutivo, afirmou Ricardo Torres, economista cubano e pesquisador da American University. "A economia doméstica está em queda livre".

Yoan Nazabal, 32, barman e motorista em Havana, contou que a esposa passou por uma cesariana há seis meses e ficou chocado com o que o hospital exigiu. "Tivemos que levar nosso próprio cateter", disse. "Todo mundo fala como nosso sistema de saúde é bom e gratuito, e historicamente foi. Nossos médicos são de primeira linha, mas não têm recursos para fazer seu trabalho."

Como a China construiu domínio sobre terras raras ao longo de seis décadas, NYT FSP

 Keith Bradsher

Wuxi (China) | The New York Times

O domínio da China sobre as terras raras começou longe dos laboratórios de alta tecnologia. Em 1964, geólogos chineses descobriram que uma mina de ferro perto de Baotou, no norte do país, abrigava também o maior depósito conhecido desses 17 metais hoje essenciais à economia global.

À época, Deng Xiaoping, então um dirigente de alto escalão do Partido Comunista, visitou a área e deixou clara a prioridade estratégica: desenvolver aço e, ao mesmo tempo, desenvolver as terras raras. Décadas depois, essa diretriz se provaria decisiva.

Usadas em aplicações civis e militares —de motores elétricos e turbinas eólicas a mísseis e caças—, as terras raras e os ímãs produzidos a partir delas são insumos críticos da economia. O fato de a China responder hoje por cerca de 90% da produção global desses materiais confere a Pequim enorme poder sobre cadeias industriais e tecnologias limpas.

Vista aérea de complexo industrial com múltiplos galpões e edifícios. Ao fundo, usina com chaminés emitindo fumaça sob céu claro.
Refinaria de terras raras na região de Wuxi, na China - The New York Times

Esse domínio não foi acidental. Resulta de planejamento estatal de longo prazo, investimentos públicos e coordenação direta entre governo, Exército e indústria.

Nos anos 1970, em plena Revolução Cultural, o Exército de Libertação Popular lançou programas de pesquisa para usos militares das terras raras. Um dos personagens centrais desse avanço foi o químico Xu Guangxian, responsável por desenvolver um método barato e eficiente de purificação desses metais —um gargalo tecnológico que limitava sua exploração em escala.

Após a morte de Mao Tsé-Tung, Deng Xiaoping aprofundou essa agenda ao priorizar ciência e tecnologia. Nos anos 1980 e 1990, ao lado de Wen Jiabao —geólogo que mais tarde se tornaria primeiro-ministro—, Pequim reorganizou um setor fragmentado, fechou minas ilegais, reduziu contrabando e consolidou o controle estatal sobre a cadeia produtiva.

Naquele momento, as terras raras ainda tinham aplicações relativamente simples. Isso mudaria com a descoberta, nos Estados Unidos e no Japão, de ímãs ultrapotentes feitos a partir desses metais, essenciais para motores elétricos, eletrônicos e, mais tarde, veículos elétricos.

Sem dominar essa tecnologia, a China optou por comprá-la. O episódio mais emblemático foi a venda, em 1995, da americana Magnequench —subsidiária da General Motors— a um consórcio que incluía empresários chineses com fortes vínculos estatais.

Poucos anos depois, a produção foi transferida para a China, encerrando as operações nos EUA e ensinando ao país como fabricar ímãs de terras raras em escala industrial.

O controle chinês mostrou seu peso geopolítico em 2010, quando Pequim suspendeu discretamente as exportações desses minerais ao Japão, em meio a uma disputa territorial sobre ilhas ao norte de Taiwan.

O embargo forçou Tóquio a negociar, mas também revelou fragilidades internas, como o contrabando. A resposta foi uma repressão dura, que colocou o setor definitivamente sob comando estatal.

Sob Xi Jinping, as terras raras passaram a ser tratadas explicitamente como recurso estratégico. Em 2024, a China impôs novos controles de exportação, afetando cadeias industriais no Ocidente e pressionando os Estados Unidos em negociações comerciais. Para analistas, o impacto só encontra paralelo no embargo do petróleo dos anos 1970.

Hoje, Pequim busca consolidar sua vantagem investindo pesadamente em educação e pesquisa. Dezenas de universidades chinesas oferecem programas especializados em terras raras, enquanto EUA e Europa carecem de formação equivalente. O resultado é um domínio não apenas da extração, mas também do refino e das aplicações mais avançadas desses minerais.

A China tem centenas de cientistas explorando tecnologias ligadas às terras raras. Técnicos em uma refinaria em Wuxi, cidade próxima a Xangai, passaram sete anos realizando experimentos para refinar o disprósio —uma terra rara— a um grau extraordinário de pureza.

A refinaria é hoje a única fonte mundial desse elemento, usado em capacitores, pequenos dispositivos de controle elétrico, presentes nos chips de inteligência artificial Blackwell, da Nvidia.

Até o ano passado, a maior parte das ações da refinaria pertencia à Neo Performance Materials, a empresa canadense que adquiriu a Magnequench em 2005. Uma empresa controlada pelo Estado chinês comprou a maior parte das ações em 1º de abril.

Três dias depois, em 4 de abril, Pequim interrompeu as exportações de disprósio e de outros seis tipos de terras raras para os Estados Unidos e seus aliados.

Em outubro, a China adotou novos controles de exportação que lhe permitiram reter o fornecimento de terras raras e de ímãs de terras raras, forçando o presidente dos EUA, Donald Trump a ceder em tarifas.

Paciente que recebeu polilaminina por ordem judicial relata emoção ao mexer o pé e a perna, FSp

 

São Paulo

"Acordei de madrugada com o pensamento de que conseguiria mexer meu pé. Minha esposa dormia ao lado da minha maca, aqui no hospital. Pensei, vou mandar um estímulo para baixo, vou mexer meu pé. E não foi um movimentinho, não. Eu mexi o meu pé direito por inteiro. Eu fiz a contração."

O relato é de Diogo Barros Brollo, 35, que sofreu lesão medular total, de acordo com a equipe médica que o atendeu, após uma queda de um prédio durante o trabalho, em Friburgo (RJ). Ele ficou paraplégico, sem movimentos e sensibilidade da cintura para baixo.

Há um mês, por ordem judicial, ele recebeu aplicação da polilaminina, substância ainda em fase de testes clínicos na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que pode ser capaz de regenerar lesões na medula espinhal, de acordo com um grupo de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), liderado pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio.

Homem usando óculos escuros e camiseta cinza carrega mulher de cabelos longos e escuros nas costas. Ambos sorriem, com paisagem natural ao fundo.
Diogo Barros Brollo e sua mulher, Cintia Py Cordeiro, antes do acidente que provocou nele uma lesão medular - Arquivo pessoal

Duas semanas após a aplicação, ele começou a retomar sensibilidades em partes das pernas e a conseguir mexer o pé, contrair a coxa e também a musculatura do esfincter. A constatação é narrada por ele mesmo e foi documentada pela equipe científica da bióloga Tatiana.

"Não se trata de impulso involuntário. Eu mexo o meu pé quando quero. Consigo segurar minha perna dobrada, o que era impossível até dias atrás. Estou tendo contração muscular voluntária", afirma Diogo.

Durante a pesquisa científica, também chamada de pré-clínica, com autorização da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), a polilaminina foi injetada em animais e em seis voluntários. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, 31, diagnosticado com tetraplegia, voltou a andar.

São raros os casos de pessoas com lesões medulares completas que conseguiram retomar mobilidade e sensação tátil. Médicos fisiatras afirmam que, em alguns casos, após o chamado trauma medular, quando a região desincha, é possível haver alguma melhora, a depender do dano.

Diogo, que é vidraceiro e pai de três meninas, diz estar muito grato. "Dou graças a Deus de ter tido acesso à aplicação. Tive uma grande chance, uma grande oportunidade. É muito bom ver que o estudo da doutora Tatiana está dando certo, está caminhando para ser liberado para outras pessoas."

De acordo com a equipe de fisioterapia do HECI (Hospital Evangélico de Cachoeiro do Itapemirim), onde está internado para reabilitação Luiz Fernando Mozer, 37, que também recebeu a aplicação há pouco mais de duas semanas, também por ordem judicial, após ter uma lesão completa em um acidente de moto, a recuperação tem sido "significativa".

"Mesmo diante de um quadro complexo, o paciente apresenta evolução gradativa, com registro recente de contração voluntária em membro inferior, considerado um ganho funcional significativo para o estágio atual da recuperação", informa a equipe do hospital, por nota.

Ainda segundo os especialistas, "a reabilitação segue com foco no controle de tronco, fortalecimento muscular, melhora da sensibilidade e progressão da independência funcional".

"O caso representa uma experiência inovadora e desafiadora, que reforça o compromisso da instituição com a ciência, a reabilitação baseada em evidências e a crença no potencial de recuperação dos pacientes, destacando a importância do trabalho em equipe e da atuação precoce no cuidado às lesões medulares", diz o texto.

Uma mulher de 35 anos que teve lesão gravíssima após acidente de carro, que recebeu a substância por ordem judicial, em Governador Valadares (MG), também está registrando melhoras, segundo a família e pesquisadores da equipe de Tatiana. Ela tem sensações de toque nas pernas e consegue contrair a coxa.

Os testes oficiais da polilaminina, que verificam a segurança do fármaco, só poderão ser realizados com voluntários com lesões medulares completas e agudas —ocorridas em no máximo 72 horas, que têm maior chance de recuperação.

LIMINARES NA JUSTIÇA PARA A APLICAÇÃO JÁ SÃO DEZ

Mais seis decisões judiciais mandam o laboratório Cristália, o grupo de pesquisadores da UFRJ e o poder público viabilizarem a aplicação da polilaminina em pessoas que tiveram lesões medulares após traumas. Até agora, ao todo, são dez, sendo cinco já cumpridas.

Quatro das liminares foram ou devem ainda ser cumpridas nesta semana. As cirurgias já ocorreram em Caraguatatuba (SP) e Vitória (ES), e devem acontecer em Maringá (PR) e em Salvador (BA) nos próximos dias.

O laboratório Cristália, apoiador financeiro da pesquisa e quem vai produzir o fármaco, caso ele seja futuramente aprovado pela Anvisa, informou que vai seguir cumprindo as ordens judiciais, que passam por aval da agência.

Até agora, a empresa tem absorvido os custos das aplicações. A substância, caso se torne um medicamento aprovado, poderá ser fornecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde), de acordo com conversas já abertas entre a Cristália e o Ministério da Saúde.