quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Projeto prevê 'Ibirapuera no centro de SP' para alavancar desenvolvimento imobiliário do Brás e da Sé, FSP

 

São Paulo

Inaugurado na várzea do rio Tamanduateí em 1922, o parque Dom Pedro 2º se tornou a principal área de lazer da cidade de São Paulo à época. Alcançou o ápice da popularidade dos anos 1940 aos 1960 ao abrigar o parque de diversões Shangai, um dos primeiros do Brasil.

A construção de um conjunto de viadutos a partir da expansão e ampliação da avenida do Estado marcaram o início da degradação ainda no final da década de 1960. O processo de urbanização também resultou na remoção de grande parte da cobertura vegetal.

A requalificação da área localizada aos pés da colina onde a cidade foi fundada é o ponto de partida para a série da Folha na qual planejadores urbanos apresentam propostas para a recuperação da região central paulistana.

Vista aérea mostra o Parque da Luz com áreas verdes e caminhos, cercado por avenidas movimentadas e prédios altos ao fundo. À direita, estação ferroviária com trens e plataformas visíveis. No primeiro plano, viadutos e ruas com tráfego de veículos.
Vista aérea do parque Dom Pedro 2º, na região central da cidade de São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress

Cinco projetos serão publicados a partir desta quarta (7). Um minidocumentário com os autores detalhando suas ideias será apresentado em 24 de janeiro, véspera do aniversário de 472 anos da capital.

A primeira proposta é do professor do Núcleo de Habitação e Real Estate do Insper Cidades José Police Neto. Ele aposta na recomposição e ampliação da vegetação do parque, estendendo-a para praças e terrenos vizinhos.

Isso ampliaria em oito vezes a área verde, passando dos atuais 40 mil m² para aproximadamente 330 mil m². Seria o equivalente a dez parques como o Augusta, também na região central, ou a um quinto do parque Ibirapuera, na zona sul, o mais importante da cidade.

Chamado de "Parque Dom Pedro 2º – Laços da Amizade", o projeto mira conectar o ainda incipiente polo de desenvolvimento imobiliário do Brás aos diversos equipamentos culturais e de lazer da Sé.

O "Ibirapuera do Centro", como apelidado pelo autor, atrairia famílias de classe média para seu entorno, promovendo a valorização imobiliária de áreas degradadas.

"A escolha desse espaço é para contar que o parque, na minha opinião, e eu quero convencer a muitos, pode ser um Ibirapuera mais democrático", diz Police Neto.

A ampla oferta de transporte público é o que torna o parque Dom Pedro mais acessível do que o primo-rico da zona sul. Ele é o único da capital a possuir dentro dos seus limites uma estação de metrô, a Pedro 2º, e dois terminais de ônibus, sendo um deles o único BRT (sigla em inglês para trânsito rápido de ônibus) do município.

Ex-vereador por quatro mandatos de 2005 a 2020 e filiado ao PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab, Police Neto é o atual subsecretário de Desenvolvimento Urbano do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Ele discorda, porém, do projeto para o local do prefeito Ricardo Nunes (MDB), aliado do governo do qual faz parte.

Nunes lançou no primeiro semestre do ano passado um plano de reforma do parque Dom Pedro 2º por meio de uma PPP (Parceria Público-Privada).

Police Neto diz que a concorrência induz o vencedor a explorar o local como área para a realização de shows e eventos. Ideia que vai na contramão da criação de um amplo espaço destinado ao lazer e contemplação.

Nos moldes atuais, diz, a PPP repetiria infortúnios recorrentes no entorno de outras arenas da cidade, como barulho incômodo para moradores e constante fechamento do local para eventos. Em vez de atrair moradores, tende a espantá-los.

Com investimento estimado em mais de R$ 717 milhões, a concorrência chegou a ser suspensa pelo TCM (Tribunal de Contas do Município) por suspeita de irregularidades no edital, como falta de prazo para implantação e estimativas de receitas excessivamente otimistas.

A gestão Nunes respondeu que a análise do TCM resultou na aprovação da concorrência e que a requalificação do terminal Parque Dom Pedro 2º e do seu entorno é uma importante iniciativa para a revitalização da região central. Segundo a prefeitura, haverá maior integração ao transporte público e o local ganhará novas áreas verdes. O tribunal confirmou ter autorizado a continuidade da PPP.

Para o professor do Insper, a concessão deveria ser repactuada para abdicar da receita gerada por grandes eventos. O prejuízo do concessionário com a redução da expectativa de ganhos seria compensado pela diminuição da exigência de investimentos.

Com um parque mais atrativo, o município ganharia com a arrecadação de impostos da expansão imobiliária do entorno. Entenda os pontos centrais do projeto:

"Parque do Pedro 2º – Laços da Amizade"

Integração e ampliação de áreas verdes

  • O gramado contínuo por quase 1 km ligaria o metrô Pedro 2º, na extremidade sul, ao Mercado Municipal e ao futuro Sesc, ao norte, passando pelo museu de ciências Catavento instalado no centenário Palácio das Indústrias;
  • Outras potenciais áreas verdes seriam incorporadas com o tempo, como a colina onde está o Pateo do Collegio, local de fundação da cidade, a praça Ragueb Chohfi e o histórico quartel Tabatinguera.

Remoção de avenida e viadutos

  • A pista sentido zona norte da av. do Estado seria retirada, e o fluxo desviado para a av. Mercúrio, criando acesso direto ao rio Tamanduateí;
  • Considerados subutilizados, os viadutos Antônio Nakashima e Diário Popular seriam alvo de estudo de tráfego para que fossem removidos.

Acesso a equipamentos e transporte

  • Remoções de grades, como as do museu Catavento, e novas passarelas para pedestres dariam acesso livre a todos os equipamentos no parque;
  • Novos acessos também integrariam a área verde aos terminais de ônibus Parque Dom Pedro 2º e Expresso Tiradentes, único sistema de BRT (trânsito rápido por ônibus) da cidade.

Rio Tamanduateí

  • Na expectativa da despoluição do Tamanduateí até 2030, as margens seriam dotadas de conjuntos de cais, favorecendo a permanência e o lazer à beira do rio;
  • A Sabesp afirma que a universalização dos serviços de saneamento básico no estado, que deve ser concluído até 2029, irá melhorar a qualidade da água de rios e córregos na Região Metropolitana de São Paulo, incluindo a do rio Tamanduateí.

Resultado econômico

  • O projeto seria realizado por meio de PPP (Parceria Público Privado), com a municipalidade assumindo mais custos devido à potencial redução da receita do concessionário com a proibição a grandes eventos no local;
  • O ganho econômico para o município viria da arrecadação gerada pelo desenvolvimento imobiliário do entorno, especialmente dos distritos Brás e Sé.

Amigos do Master atuam como facção que protege poderosos, FSP

 

As reiteradas investidas do TCU (Tribunal de Contas da União) contra o Banco Central são uma tentativa facciosa de instrumentalizar a fiscalização com o objetivo de conter a emergência de escândalos que podem atingir os quatro cantos da República, como disse recentemente —reforçando o que muitos já haviam apontado— o economista Arminio Fraga, ex-presidente do BC, em entrevista.

Se não é possível apontar o dedo para a totalidade do tribunal, não há dúvida de que seu presidente, Vital do Rêgo, e sobretudo o ministro Jhonatan de Jesus vêm atuando de modo mais do que suspeito para intimidar a autoridade monetária e tentar reverter a liquidação do banco, baseada em evidências clamorosas de fraudes.

Deputado Jhonatan de Jesus (Republicanos-RR) em reunião deliberativa na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça)
Jhonatan de Jesus, ex-deputado, em reunião deliberativa na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara - Billy Boss - 5.dez.22/Câmara dos Deputados

Não é difícil notar por detrás dessas escaramuças a mão visível do centrão e vislumbrar —estarei precisando de oftamologista?— aquela, já não tão invisível assim, do crime organizado.

Quem é Jhonatan de Jesus? Trata-se de um político que exerceu quatro mandatos de deputado federal por Roraima. É unha e carne com o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, que o indicou e, afinal, o levou ao TCU. Os dois se apoiaram mutuamente, Lira em busca de seu segundo mandato e Jhonatan sonhando com o cargo vitalício (até os 75 anos) no tribunal, que é um órgão auxiliar do Congresso para fiscalizar as despesas e a execução do Orçamento.

Se a inadequação institucional e legal da intervenção do TCU é gritante, a iniciativa de Dias Toffoli de chamar a investigação para o STF tampouco tem solidez. É baseada em uma alegação acidental, dada a presença de um parlamentar numa das facetas das investigações.

Como já comentei aqui, Toffoli comporta-se como o abafador-geral do caso ao decretar sigilo e tentar sentar sobre um iceberg com potencial para afundar um Titanic com passageiros graúdos da política e redondezas.

Revelam-se agora bastidores sobre a suposta insatisfação de ministros do STF com a tentativa de imitação da corte suprema por parte do TCU. Não é demais lembrar, entretanto, as ligações perigosas que a jornalista Malu Gaspar revelou em torno de um contrato milionário entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes.

As movimentações para acuar o BC também mobilizam uma milícia digital. E não começaram agora. Já vimos o centrão tentar aprovar na Câmara legislação que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC. Causa estranheza também a acomodação do Executivo diante das pressões em cena. Quanto ao mercado, ao menos instituições mais respeitadas manifestaram-se.

Curiosamente, a ideia de que o BC teria se apressado na liquidação do Master choca-se com o que alguns diziam tempos atrás, quando se lançavam dúvidas sobre a presteza da gestão anterior em detectar os problemas.

O fato é que cresce no cenário a presença dos Amigos do Master –como se poderia designar a aliança suspeitíssima para anular a liquidação, o que seria tecnicamente inviável. Temos presenciado o avanço do banditismo na política e nas instituições. As conexões do caso Master com essa cultura delinquencial são claras. Não é, infelizmente, novidade num país que já havia eleito um golpista ligado a milícias e votou num Congresso que prima pelo descaramento.

Thiago Stivaletti - O celular está nos tornando mais idiotas?, FSP

 O alerta está sendo dado por roteiristas de vários países: ao apresentarem seus projetos às plataformas de streaming, elas estariam pedindo um "dumb down" nas histórias, termo em inglês que significa "deixar mais idiota". A ideia é que os filmes e séries têm que ser superficiais o suficiente para servirem como segunda tela para os espectadores –a primeira, claro, é a tela do celular, com seus vídeos curtos, redes sociais e WhatsApp.

Vários fatores estariam levando a essa demanda perversa dos streamings. Primeiro: as plataformas precisam mais de quantidade do que de qualidade. Elas precisam ter um mínimo de lançamentos a apresentar ao assinante todo mês, para ele sentir que a mensalidade está valendo a pena. Segundo, e mais importante: elas estaria percebendo que, entre a TV e o celular (ou entre conteúdos longos e curtos consumidos no próprio celular), nosso cérebro cada vez mais fragmentado sempre vai preferir a segunda opção.

Os mais saudosistas lembram de outra grande mudança de hábito. Hoje em dia, vemos muito mais séries "maratonáveis" (lançadas na íntegra para vermos de uma vez só) do que aquelas que eu chamo de "padrão HBO", canal que ainda lança um episódio por semana de suas séries premium.

Nessa lógica, para maratonar, uma série "leve" é mais vendável do que uma mais densa. Imagine maratonar em um fim de semana uma temporada inteira de histórias densas como "Breaking Bad", "Mad Men" ou "Game of Thrones". É como enfiar barriga adentro dois quilos de peru de Natal numa tacada.

Toda vez que eu ouço essa expressão, "produto de segunda tela", fico pensando que esse foi justamente o DNA das novelas de TV. Desde sempre, elas são feitas para repetir informações da trama –não porque a dona de casa esteja no celular, mas porque está cuidando da panela no fogo ou botando a mesa para o jantar, escutando mais do que olhando para a TV. Mas as novelas podem ter mais de 150 capítulos; já nasceram com essa natureza "água no feijão". De uma série de no máximo 13 episódios, não é crime nenhum esperar mais.

O BURACO NEGRO DOS STORIES

Voltando ao celular: não sei se vocês já tiveram essa impressão, mas há alguns anos percebi que o meu grau de absorção (ou de vício mesmo) nos stories do Instagram depende muito do meu grau de cansaço. Se estou bem disposto, consigo ficar três minutinhos vendo os stories dos meus amigos e sair. Quando estou exausto, porém, esse algoritmo insano de vídeos curtos pode me prender por 40 minutos, uma hora, às vezes mais.

Daí sempre voltamos a uma questão ainda sem reposta definitiva: a nossa fragmentação visual, o hábito de vídeos curtos, é algo prejudicial à nossa saúde mental? Ou isso é apenas o futuro que já chegou, a geração Z e as que vem depois dela têm apenas um modo diferente de consumir imagens, e pessoas como eu estão sendo apenas velhos chatos e ultrapassados? Se você tem mais de 30, deve ficar mais com a primeira hipótese; se é mais jovem, fica com a segunda.