terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Tentáculos do Master devem ser imensos diante de tantos ataques contra a liquidação, Marcos Lisboa, FSP

 A liquidação do Banco Master desnorteou setores da sociedade brasileira.

Um ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) utilizou argumentos criativos e inéditos para questionar o processo de liquidação. Outros tentaram desqualificar as apurações de jornalistas sobre as ramificações do caso. Outro ministro, dessa vez do STF (Supremo Tribunal Federal), impôs decisões surpreendentes, na contramão, inclusive, da recomendação da Procuradoria-Geral da República.

Alguns fatos estão claros. Outros deveriam ser investigados com profundidade para entender o tamanho do problema e garantir o processo de apuração de responsabilidades de cada parte. O que não está claro, para começar, é qual a motivação para essa reação disfuncional de um ministro do TCU a um processo de liquidação de um banco.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Sede do Banco Master, localizada na Rua Elvira Ferraz, na Vila Olímpia, em São Paulo. - Rafaela Araújo - 29.dez.2025/Folhapress

Desde o Plano Real, algumas instituições financeiras enfrentaram dificuldades, e o Banco Central cumpriu com diligência seu papel regulador, liquidando alguns casos e evitando que o problema se alastrasse pelo restante do sistema financeiro.

O TCU é órgão auxiliar do Congresso Nacional para avaliar a execução do Orçamento federal. Cabe ao TCU, segundo decisão dos seus ministros e do STF, avaliar se houve ilegalidade nos atos de servidores públicos. Não lhe cabe, contudo, avaliar o mérito das decisões discricionárias das agências de Estado, como o Banco Central.

Foi assim que decidiram os ministros do TCU Benjamin Zimler, no acórdão 2138/2007, e Raimundo Carrero, no acórdão 1241/2010. Argumento semelhante foi proferido pelo STF (recurso extraordinário 1083955): "O dever de deferência do Judiciário às decisões técnicas adotadas por entidades reguladoras repousa na (i) falta de expertise e capacidade institucional de tribunais para decidir sobre intervenções regulatórias, que envolvem questões policêntricas e prognósticos especializados e (ii) possibilidade de a revisão judicial ensejar efeitos sistêmicos nocivos à coerência e dinâmica regulatória administrativa."

A decisão do ministro do TCU sobre o banco Master contraria a jurisprudência estabelecida pelo STF e do próprio TCU. Qual a razão para essa ruptura institucional surpreendente?

As regras e jurisprudência da regulação do sistema financeiro no Brasil permitiram a liquidação de instituições com problemas sem resultar em crise sistêmica para o restante da economia.

Esse tema é tecnicamente tão complexo que, em 2022, foi concedido o prêmio Nobel de economia a Douglas Diamond e Philip Dybvig pelos seus estudos sobre crises bancárias e possíveis mecanismos para reduzir a sua chance de ocorrência.

A liquidação do Banco Master não atordoou apenas o TCU. Um ministro do STF decretou sigilo absoluto sobre o caso, em meio a decisões que desrespeitavam o processo legal. Até a Procuradoria-Geral da República discordou da condução do processo pelo ministro do STF.

O Banco Master é irrelevante no cotidiano da maioria das pessoas. Mas esse banco tem interesses com fundos de servidores, organiza eventos com autoridades, tentou operações surpreendentes com bancos públicos e está associado a fundos investigados recentemente por crimes, como revelado pela Operação Carbono Oculto e documentado pelo Banco Central.

Os tentáculos do Master devem ser imensos para tamanha mobilização, propostas de alteração da jurisprudência e ataques contra a liquidação de um banco em meio a tantas dificuldades.

O bom jornalismo brasileiro levanta problemas e provoca o debate. Parte do compromisso é não ter medo da pressão.

Adriana FernandesAlexa Salomão, Alvaro Gribel e tantos outros exercem o jornalismo com maestria. Garantem o sigilo das fontes, investigam o tema por meio de documentos, e reportam o que apuram, revelando as nuances. Malu Gaspar é, na minha opinião, a maior jornalista investigativa da geração.

Pode-se medir um atacante de futebol por quantos gols fez, ou por quantos perdeu. Quantas matérias de Malu foram confirmadas? Quantas foram desmentidas? O que dizer de seu livro sobre a corrupção envolvendo empreiteiras e governo federal, "A Organização"?

Watergate foi reportado por Bob Woodward e Carl Bernstein com base em fonte anônima; Seymour Hersh revelou crimes, como o massacre de My Lai, na guerra do Vietnã, e as torturas em Abu Ghraib, depois da Guerra do Iraque. Muitas fontes anônimas.

No começo do século 20, a jornalista Ida Tarbell expôs as práticas de monopólio da Standard Oil Company, controlada por John Rockefeller.

Malu reportou o contrato de prestação de advocacia da esposa de ministro do STF para o Banco Master; R$ 3,6 milhões por mês. Ela também reportou conversas sobre o caso Master entre o ministro e o presidente do Banco Central.

A desonestidade das críticas a Malu superou o desatino. Jornalista não revela fonte. Jornalista apura os temas com base, muitas vezes, em documentos vazados e relatos anônimos, por temor de retaliações. Cabe ao Estado investigar, provar com base nas evidências. Assim funcionam as democracias.

Demétrio Magnoli, na sua coluna nesta Folha no dia 2 de janeiro, teve a paciência de explicar as diferenças entre o papel do jornalista e do investigador de Estado. Não saber a diferença revela ignorância preocupante ou desonestidade.

A denúncia parece valer apenas contra quem é considerado adversário. Os que estão do mesmo lado devem ser protegidos. Não importa o que fizeram.

Preocupa um ministro do TCU questionar a intervenção do BC em um banco imerso em denúncias de operações de crédito inexistentes, de associação com atividades criminosas ou de advogados relacionados com juízes das cortes supremas.

O STF poderia explicar suas regras de sigilo e deliberar publicamente sobre um código de ética, incluindo a relação com parentes que advogam no seu tribunal. A troca de ideias, sem censura prévia, auxilia a encontrar soluções para os desvios que prejudicam o país.

Não se trata de conversa fácil. Reconhecer caminhos errados pode constranger no curto prazo, mas fortalece as instituições.


O triunfo de Thomas Edison, Jerson Kelman, FSP

 O filme "A Batalha das Correntes" (2017) retrata a disputa entre Thomas Edison e Nikola Tesla no final do século 19 sobre qual seria a melhor solução para fornecimento de eletricidade: em corrente contínua (DC) ou alternada (AC). Edison saiu na frente com a opção DC.

Seu sistema operava em tensão baixa e constante, tipicamente 110 volts. Não havia risco de morte caso alguém tocasse a fiação. Por outro lado, a dissipação de energia (transformação em calor) no transporte era grande, o que limitava a 2 km a distância entre geração e consumo.

Utilizar tensões maiores em DC para diminuir a perda energética em distâncias maiores era na época tecnologicamente inviável. Hoje é possível. Mais do que isso, é uma ótima solução para transporte de grandes blocos de energia por milhares de quilômetros, em altíssima tensão, desde que não haja derivações pelo caminho. É assim que se transporta a energia produzida pelas hidrelétricas de Itaipu, Santo Antônio e Jirau para os centros de consumo.

Estátua de Tesla em seu antigo centro de pesquisa no Estado de Nova York
Estátua do inventor sérvio Nikola Tesla em seu centro de pesquisa no estado de Nova York - Museum of Nikola Tesla via BBC News Brasil

Tesla venceu a disputa porque na época já se sabia como utilizar transformadores em circuitos AC para (a) elevar a tensão junto à usina de geração, em geral localizada distante do consumo; (b) transportar a energia em alta tensão para minimizar perdas; (c) baixar de alta para média tensão, com possibilidade de derivações, para uso industrial e de redes de distribuição; (d) baixar de média para baixa tensão para uso seguro dos consumidores residenciais.

Assim, ainda no início do século 20, consolidou-se o sistema em AC formado por grandes usinas, extensas linhas de transmissão e distribuidoras de eletricidade.

Recentemente, voltou a ser economicamente atraente localizar a geração perto dos consumidores graças à queda vertiginosa dos preços das placas fotovoltaicas. No Brasil, essa vantagem econômica tem sido desnecessariamente turbinada por subsídios, que há muito deveriam ter sido extintos.

Para consumir eletricidade nas horas sem sol, os consumidores com placa solar precisam manter a conexão à rede elétrica. Todavia, se o preço das baterias cair nos próximos anos, como ocorreu com as placas solares, pode ser que a conexão deixe de ser necessária.

Um homem idoso, com cabelo grisalho e uma expressão séria, está posando em um ambiente interno. Ele usa um traje escuro, incluindo um colete e uma gravata borboleta. Em sua mão esquerda, ele segura um frasco de vidro, enquanto a mão direita está em seu bolso. O fundo é desfocado, sugerindo um laboratório ou um espaço de trabalho.
O cientista norte-americano Thomas Edison - Divulgação

As baterias de lítio, popularizadas por carros elétricos, ainda são caras e dependem de materiais escassos. Por outro lado, as baterias de sódio são promissoras e utilizam matéria-prima abundante e barata: o sal. Se forem produzidas em larga escala, têm o potencial de viabilizar o armazenamento doméstico.

A novidade é que a maior produtora de baterias do mundo, a chinesa CATL, promete produzir baterias de sódio a US$ 10/kWh, o que corresponde a 8% do que custa hoje e a 0,8% do que custava 16 anos atrás. Se conseguir, a notável conquista mudará o panorama do setor elétrico.

Com armazenamento barato e eficiente, a intermitência da geração solar deixará de ser um problema e unidades consumidoras poderão depender unicamente de redes locais, em DC. Numa etapa inicial, será necessário usar inversores DC-AC para alimentar aparelhos eletrodomésticos convencionais. Porém, com a popularização de sistemas DC, o mercado oferecerá mais eletrodomésticos nativos em DC.

Se esse salto tecnológico ocorrer, Thomas Edison afinal triunfará em áreas com baixa densidade habitacional.

Jerson Kelman, Mudança climática e de uso do solo, FSP

 "Hidrelétricas da amazônia podem perder até 40% de força de geração nos próximos anos." Esse é o título da didática reportagem de André Borges (Folha, 27/12) sobre um estudo da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e do IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas), da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), para a produção de cenários de futuras condições hidrológicas, visando adaptação às mudanças climáticas.

O estudo pode ser lido por não especialistas porque apresenta, logo no início, conceitos básicos de hidrologia e de climatologia. Por exemplo, explica que previsão de tempo e previsão de clima são conceitos que não se confundem.

Meteorologistas fazem previsão de tempo quando afirmam, por exemplo, que é alta a probabilidade de que amanhã chova. E fazem previsão de clima quando afirmam, por exemplo, que é alta a probabilidade de que a década de 2040 seja mais seca do que a de 1940.

A imagem mostra uma rua durante uma forte chuva, com uma árvore caída bloqueando a via. Um carro está estacionado próximo à calçada, e a rua está molhada, com poças de água. Ao fundo, há um muro com grafite colorido e vegetação ao redor.
Queda de árvore causada por chuvas na região central de São Paulo - Rubens Cavallari - 12.mar.25/Folhapress

Se o clima futuro for estatisticamente distinto do observado no passado, diz-se que o processo hidrológico é não estacionário. A causa pode ser mudança climática, devido ao aquecimento global, ou mudança de uso do solo, devido a diversos fatores, como desflorestamento ou reflorestamento.

Durante décadas, a China plantou milhões de árvores para conter a desertificação, recuperar áreas degradadas e combater as mudanças climáticas.

Como regra geral, obteve bons resultados, apesar da leve diminuição da disponibilidade de água devido ao aumento da evapotranspiração. Porém, a redistribuição da umidade na atmosfera teve resultados espacialmente heterogêneos ("Land Cover Changes Redistribute China's Water Resources Through Atmospheric Moisture Recycling" - An - 2025 - Earth's Future - Wiley Online Library).

Anos atrás, estive envolvido num estudo semelhante, realizado por uma equipe da Universidade Harvard, sobre o efeito da substituição de área florestada por área de agricultura na bacia hidrográfica do rio Paraná. Nesse caso, a diminuição da evapotranspiração causou aumento da vazão média afluente à usina hidrelétrica de Itaipu.

Planejar o futuro é sempre difícil, seja o processo estacionário ou não. Em ambos os casos não existe uma bola de cristal para prever, por exemplo, qual será a vazão média afluente à usina hidrelétrica de Furnas, em 2040. Se o processo for estacionário, é possível calcular com razoável precisão qual a probabilidade de que essa variável aleatória caia, digamos, no intervalo entre 800 e 1.000 metros cúbicos por segundo.

Se, ao contrário, o processo não for estacionário por efeito de mudança climática, a série de vazões observadas no passado por si só é insuficiente para calcular probabilidades desse tipo. É preciso combinar com cenários de clima derivados de MGCs (Modelos Globais de Circulação), que utilizam as leis fundamentais da física, como expliquei recentemente neste mesmo espaço.

Nos próximos artigos comentarei como essas complexas questões afetam o planejamento do setor elétrico, começando pela necessidade de um reexame do uso múltiplo dos reservatórios de usinas hidrelétricas para que a geração hídrica melhor complemente a solar e a eólica.