terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Pecuária brasileira esteve à beira do colapso no ano passado, Mauro Zafalon - FSP

 Por pouco a pecuária do Brasil não entrou em colapso em 2025. O país assumiu a liderança mundial na produção de carne bovina e manteve a posição de maior exportador, mas as coisas poderiam ter sido muito complicadas no comércio externo.

Em boa parte do segundo semestre, os brasileiros conviveram com uma taxa de 76,5% imposta pelos Estados Unidos, o segundo maior importador de carne bovina brasileira. Nesse mesmo período, o país poderia ter sido alvo de uma tarifa de 67% dos chineses, os principais importadores. Programada para o fim de junho, a tarifa chinesa foi adiada para o início deste ano.

Grupo numeroso de bois da raça Nelore reunidos em pastagem sob luz natural. Animais com pelagem branca e orelhas escuras, alguns com chifres curtos, em ambiente rural com cercas e vegetação ao fundo.
Gado em São Félix do Xingu (PA) - Nelson Almeida - 18.jun.2025/AFP

Um somatório dessas duas tarifas teria sido fatal para a cadeia da pecuária. A China salvou o Brasil enquanto as pesadas tarifas americanas estavam em vigor, e os Estados Unidos ajudarão o Brasil nessa entrada em vigor das tarifas chinesas.

Assim como o setor teve de se readaptar durante a vigência das taxas americanas, terá de fazer o mesmo com as da China. A diferença é que o volume importado pela China é bem maior.

Com as medidas de salvaguardas, a China deu ao Brasil uma cota de 1,11 milhão de toneladas para 2026, com tarifa de 12% para o produto que está dentro dessa cota e sobretaxa de mais 55% para o que estiver fora. No ano passado, em setembro, esse volume já havia sido superado. O setor tem o primeiro semestre para negociar com os chineses eventuais mudanças.

Os caminhos para a pecuária vão ser tortuosos neste ano, mas sem grandes gargalos. A China ainda vai precisar de carne bovina, com previsão de compras de 2,7 milhões de toneladas neste ano, e o produto brasileiro, mesmo com a tarifa pesada, tem mais competitividade.

O Brasil perde espaço em um mercado importante, mas a China, a exemplo do que ocorreu com os Estados Unidos, vai levar mais inflação para dentro do país. Até quando?

Os Estados Unidos retornam ao mercado brasileiro com força, uma vez que a previsão é de queda na produção deles para 11,7 milhões de toneladas. Em 2020, estava em 12,4 milhões. O consumo é de 12,7 milhões, e as importações devem superar 2 milhões.

No primeiro semestre de 2025, os Estados Unidos importaram 30 mil toneladas de carne bovina brasileira por mês. Mantido esse patamar mensal em 2026, as compras poderiam atingir 360 mil.

As compras virão também de outros países. O Brasil vendeu para pelo menos 173 países em 2025, e 31 deles compraram volume superior a 10 mil toneladas. Há dez anos, a Ásia comprava 357 mil toneladas do Brasil. Até novembro, o volume atingiu 1,78 milhão. Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietnã e Singapura registram boa evolução nas importações, e, neste ano, o Japão avalia o sistema sanitário brasileiro.

Na América do Norte, México e Canadá também aumentaram as compras, o mesmo ocorrendo com importantes países da África, como Marrocos e Egito. Brasil e Austrália receberam cotas inferiores ao que exportam, mas Argentina, Uruguai e Nova Zelândia venderam menos do que o volume recebido. Os países sul-americanos devem importar mais produto brasileiro para consumo interno e destinar parte da sua produção para a China.

Por que a China impõe cotas nas importações? Nos últimos dez anos, a produção interna subiu 26%, para 7,8 milhões de toneladas. Já as importações cresceram 524%. O país quer defender a produção local, mas os gargalos para o aumento de produtividade interna são muitos e vão necessitar de tempo para uma solução.

Núcleo duro do Ministério da Justiça deve deixar a pasta com Lewandowski, FSP

 Raquel Lopes

Brasília

O núcleo duro do Ministério da Justiça e Segurança Pública deve deixar o governo Lula (PT) junto com Ricardo Lewandowski.

Ao menos dois secretários já sinalizaram a pessoas próximas essa intenção: o secretário-executivo da pasta, Manoel Carlos de Almeida Neto, e o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo.

Homem idoso de cabelos brancos e expressão séria, vestido com terno escuro, camisa azul clara e gravata amarela, gesticula com as mãos abertas em frente a um fundo desfocado de árvores.
Lewandowski fala sobre as medidas do governo Lula após operação policial no Rio de Janeiro - Pedro Ladeira - 29.out.2025/Folhapress

Outro nome que deve deixar a pasta ainda no primeiro semestre é o do secretário de Assuntos Legislativos, Marivaldo Pereira, que deve se lançar como candidato a deputado federal nas eleições de 2026.

A previsão inicial era a de que Lewandowski deixasse o cargo após a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança, ainda sem data definida para ser apreciada na Câmara dos Deputados. Segundo interlocutores, porém, a saída deve ocorrer na sexta-feira (9).

Lewandowski, com férias previstas até o fim da semana, adiantou o retorno e reassumiu as atividades nesta segunda (5). A saída do ministro da pasta foi antecipada pela colunista Mônica Bergamo.

Ainda segundo relatos, Lewandowski pediu uma audiência ao presidente Lula para esta semana, reforçando a suspeita de antecipação de sua saída.

Na conversa em que informou ao presidente que pretendia entregar o cargo, Lula pediu que esperasse até o fim de janeiro ou início de fevereiro para que saísse na mesma época que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Lewandowski tomou posse na pasta em 1° de fevereiro de 2024, após o ministro Flávio Dino deixar o cargo para se tornar ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).

Na ocasião, ele nomeou Manoel Carlos de Almeida Neto, Mario Sarrubbo, Jean Uema (Secretaria Nacional de Justiça), André Garcia (Secretaria Nacional de Políticas Penais) e Lilian Cintra (Secretaria Nacional de Direito Digital), além de promover a reorganização das demais secretarias com quadros que já integravam o ministério.

Em seu discurso, Lewandowski prometeu foco na segurança pública e falou da importância de combater o crime organizado, os delitos digitais e as milícias.

Em sua gestão, o ministério apresentou um arcabouço legal para o combate ao crime organizado. Além da PEC da Segurança, Lewandowski elaborou o PL Antifacção. Os projetos tramitam na Câmara dos Deputados e ainda não possuem data para serem apreciados.

O atual ministro da Justiça havia deixado o Supremo em abril de 2023, um mês antes de completar 75 anos, idade máxima de permanência na corte.

A indicação para ser ministro do governo Lula enfrentou inicialmente resistência de sua família. Durante as tratativas, o presidente chegou a falar por telefone diretamente com a esposa do magistrado, Yara de Abreu Lewandowski, fazendo um apelo para que ela apoiasse a indicação.

A saída de Lewandowski foi pactuada com Lula há poucos dias. A cúpula do governo percebe, há meses, cansaço no chefe da Justiça.

Há, entre aliados do presidente, grupos que defendem uma mudança no perfil de quem comandará a pasta. Principalmente se ela for dividida em um Ministério da Justiça e outro da Segurança Pública —hoje as duas áreas estão sob o comando de Lewandowski.

Para esses setores, falta alguém de perfil combativo em posição de destaque no governo para disputar a pauta da segurança junto à opinião pública. O assunto é tradicionalmente dominado por forças políticas de direita, adversárias de Lula.

No entanto, membros do governo Lula dizem que a criação do Ministério da Segurança Pública pode ocorrer apenas após a aprovação da emenda constitucional que trata das competências da União relativas ao tema.