terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CPG - China fica sem lixo para queimar após construir mais de 1.000 usinas de incineração e começa a escavar aterros para alimentar fornos

 

A expansão das usinas criou excesso de capacidade, forçou operação abaixo do ideal e levou empresas a buscar resíduos onde antes havia sobra

A China investiu pesado em incinerar resíduos para gerar eletricidade e aliviar a pressão sobre aterros lotados. A estratégia avançou rápido e virou uma das maiores estruturas do planeta nesse tipo de energia.

Agora, o cenário mudou. Com mais de 1.000 usinas, parte do sistema passou a enfrentar falta de lixo para manter os fornos em ritmo constante, e algumas operações recorrem até a aterros antigos.

O que aconteceu e por que isso chamou atenção

As usinas de incineração no país operam abaixo de 80 % em vários casos, mesmo com uma estrutura gigantesca já instalada. O volume de resíduos não acompanha o tamanho do parque industrial.

A capacidade diária chegou a 1,1 milhões de toneladas. Esse patamar superou metas definidas nos últimos anos e deixou claro um descompasso entre oferta de fornos e disponibilidade de lixo urbano.

O resultado aparece no chão de fábrica. Há linhas paradas, períodos curtos de operação e um custo fixo que pesa quando o forno não tem o que queimar.


Por que há menos lixo urbano disponível

Um incinerador de resíduos para geração de energia em Nanjing, província de Jiangsu (Imagem: Alamy)

A geração de resíduos caiu com uma combinação de desaceleração econômica, redução de população e melhoria na gestão doméstica. Menos consumo tende a gerar menos descarte.

Em 2022, a capacidade das plantas era de 333 milhões de toneladas por ano, enquanto a coleta de lixo doméstico ficou em 311 milhões de toneladas. Mesmo assim, a capacidade continuou crescendo depois disso.

Esse desenho deixa o sistema vulnerável. Quando a entrada de resíduos diminui, as usinas perdem volume para diluir custos e a conta fecha com dificuldade.

Como as usinas estão tentando alimentar os fornos

Algumas instalações passaram a pagar para conseguir resíduos, algo impensável no auge das crises de descarte. Outras tentam complementar a carga com resíduos industriais e restos de construção.

Também surgiram casos de escavação de aterros antigos para buscar material que ainda possa ser queimado. É uma saída que evita desligar equipamentos, já que parar completamente pode elevar perdas.

Em Anhui e Hebei, operadores admitem trabalhar bem abaixo da capacidade nominal. Em certos casos, uma em cada três linhas fica fechada o ano todo por falta de lixo, não por falha técnica.

Excesso de capacidade vira risco econômico

O problema deixou de ser tecnologia e passou a ser estrutura. Quando há mais fornos do que resíduos, a competição pelo material aumenta e a rentabilidade cai.

Linhas que operam apenas alguns meses por ano indicam um modelo sob pressão. A expansão em paralelo, sem considerar a tendência de queda do lixo urbano, amplia o risco de ativos subutilizados.

A indústria enfrenta um dilema direto: manter fornos ligados exige fluxo constante de resíduos, mas o volume disponível já não garante esse abastecimento.

Pontos de atenção sobre saúde, emissões e resíduos gerados


As emissões foram reduzidas com melhorias em filtragem, controle de gases e normas ambientais. Mesmo assim, a incineração continua produzindo materiais que exigem tratamento cuidadoso.

Em 2024, as usinas produziram 13 milhões de toneladas de cinzas volantes e 63 milhões de toneladas de lixiviados. Apenas 15 % das cinzas foram reaproveitadas, principalmente em materiais de construção.

O restante segue como resíduo complexo, caro de tratar e com destino limitado. O debate ambiental continua vivo, especialmente quando o manejo desses subprodutos falha.

Separação obrigatória reduz o lixo que chega aos fornos

A separação obrigatória de resíduos avançou desde 2017 em várias cidades. Onde a regra foi aplicada com rigor, o lixo mudou de perfil e parte dele deixou de ir para incineração como antes.

Em Shenzhen, com 18 milhões de habitantes, não há envio de resíduos domésticos para aterros. A gestão ocorre com valorização e sistemas avançados de separação.

Cinco instalações cobrem uma capacidade diária de 20.000 toneladas, ajustada ao volume atual. Para o ambiente, menos lixo é um ganho, mesmo que complique a operação financeira das usinas.

A China construiu uma rede enorme de incineração, mas o país passou a gerar menos resíduos do que consegue queimar, criando excesso de capacidade e forçando adaptações.

A consequência prática já aparece na rotina das usinas, com operação abaixo de 80 %, busca por novos tipos de resíduos e até escavação de aterros para manter os fornos funcionando.

Socorro do FGC ao Master tinha cláusula que previa corte de ajuda em caso de investigação da PF, FSP

 

Brasília

A linha emergencial de empréstimo do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) para o Master honrar os pagamentos dos CDBs (Certificado de Depósitos Bancários) continha uma cláusula para suspender o socorro de liquidez no caso de o banco de Daniel Vorcaro ser alvo de operação da Polícia Federal ou do Ministério Público Federal.

Confidencial, a cláusula foi feita pelo fundo após reportagem da Folha revelar que a PF havia aberto inquérito, no final de setembro, com base em documentação que sustentou a decisão do Banco Central para rejeitar a operação de compra do banco Master pelo BRB (Banco de Brasília). A investigação apontou indícios de fraudes na venda de carteiras de crédito para o BRB.

O dispositivo de proteção contratual foi incluído na documentação da renovação da linha de assistência de liquidez de curto prazo, que estava em andamento desde maio do ano passado.

Procurado, o Master não se manifestou. O FGC informou que não comenta sobre empresas associadas.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Fachada da sede do Banco Master, localizada na Rua Elvira Ferraz, na Vila Olímpia, em São Paulo. - Rafaela Araújo/SÃO PAULO-SP, BRASIL 29-12-2025 (Foto: Rafaela Araújo/Folhapress)

O documento deixa claro que a cláusula seria acionada no caso de envolvimento não só do Master, como também de "qualquer das sociedades integrantes do conglomerado do banco ou de qualquer dos fiadores". Incluía também a previsão de interrupção do socorro na hipótese de instauração e andamento do procedimento investigativo "ou medida correlata que pudesse configurar ou conduzir ao descumprimento das condições de concessão da linha de empréstimo".

O socorro inicial do FGC foi aprovado em maio, menos de três meses depois de o BRB anunciar ao mercado o interesse em adquirir o Master. .

No pedido ao fundo, o Master alegou que enfrentava uma grave crise de liquidez para pagar os CDBs que estavam vencendo.

A admissão formal de falta de liquidez, o termo técnico que designa o caixa vazio do banco, aparece no contrato firmado pelo FGC com o Master.

O Master requisitou recursos de emergência ao FGC por meio de um instrumento particular de liquidez de curto prazo para honrar seus compromissos e recebeu, em uma primeira parcela, R$ 4,3 bilhões.

O reconhecimento de falta de liquidez e a cláusula confidencial desmontam a tese de que, não fosse a decisão do Banco Central de liquidar a instituição, os pagamentos pelo Master seriam retomados, na avaliação de investigadores ouvidos pela Folha. A liquidação foi comunicada ao mercado pelo BC na manhã de 18 de novembro.

O inquérito da PF estava sob sigilo e só foi efetivamente conhecido com a prisão de Vorcaro na noite do dia 17 de novembro. O episódio acionaria a cláusula confidencial e interromperia os repasses do FGC ao Master. Como a liquidação foi decretada pelo BC, a cláusula não chegou a ser acionada.

Na visão de investigadores, caso a liquidação não fosse decretada, o banco ficaria imediatamente sem recursos para bancar a própria dívida, pois não poderia mais contar com o FGC. E acabaria liquidado por não conseguir honrar os pagamentos dos CDBs.

O banco de Vorcaro só estava sobrevivendo graças ao suporte do FGC, o fundo bancado por aportes das insituições financeiras para ressarcir investidores em caso de quebra de um banco. Desde o início do processo de avaliação do negócio do Master com o BRB, os maiores bancos foram resistentes ao socorro do Master pelo FGC, prevendo que o rombo seria muito grande e drenaria recursos do fundo, o que acabou acontecendo.

A defesa de Vorcaro tem insistido que houve uma coordenação da Polícia Federal com o BC para prender o banqueiro, o que teria atrapalhado a venda do banco para a Fictor Holding Financeira. Para os advogados, a liquidação foi precipitada.

Nos processos que correm no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União), a atuação do BC está sendo questionada sob o mesmo argumennto da precipitação.

A promessa anunciada pelo ex-banqueiro era a de que um grupo de investidores árabes e Fictor aportariam R$ 3 bilhões no Master, o que poderia salvar o banco da quebra.

O relator do caso no TCU, ministro Jhonatan de Jesus, questiona, no despacho que autoriza a inspeção no BC, se propostas privadas, como a do Grupo Fictor, foram submetidas a "avaliação prudencial completa, tempestiva e formalmente motivada antes ou se o seu tratamento pode ter sido influenciado por contexto temporal sensível marcado por fatos supervenientes de natureza".

A versão é contestada por investigadores, que alegam não ter visto substância na proposta da Fictor capaz de dar conta dos compromissos assumidos pelo banco, ainda mais após o rompimento da ajuda do FGC.

Ozempics acabarão com a fome do mundo, Bruno Gualano - FSP

 Esqueçam a pílula anticoncepcional e o viagra. Nenhuma outra droga transformou o mundo como os ozempics (nome artístico dos análogos de GLP-1). Os primeiros revolucionaram pelo prazer; os segundos, pela anedonia.

Para Epicteto, reprimir os desejos levava à felicidade; para Freud, à neurose. Mas não é preciso pôr filósofos cara a cara quando os fatos se impõem. Vejam esta: gatos gordos também estão tomando ozempics. Conforme anúncio de uma farmacêutica, a droga tem o potencial de não só reduzir o peso dos ozempets, mas também estender, como nunca antes visto, seu tempo de vida.

Fico pensando se os bichanos das canetinhas, indiferentes a um Churu, serão mais felizes. E se nós, humanos, desejamos viver num mundo de felinos magricelas. Quando a tendência pegar e pandas forem convertidos a texugos, com qual pelúcia encantaremos nossos filhos?

A imagem mostra três canetas de medicamento em primeiro plano. A caneta superior é transparente e contém o nome "mounjaro" e a dosagem de "10 mg". As duas canetas abaixo são azuis e têm o nome "Ozempic" visível. O fundo da imagem é escuro, destacando as canetas.
Canetas para tratamento da diabetes tipo 2 e obesidade - Karime Xavier - 9.jan.25/Folhapress

Voltemos ao reino do homo sapiens, onde as coisas já andam complicadas o bastante. Nossa ceia de Ano Novo, partilhada com vizinhos no salão do prédio, é um bom índice disso. Por tradição, a quantia de comida é calculada como se a última refeição do ano fosse a da vida. E para evitar a pecha do exagero, a esbórnia avança até o primeiro almoço do ano.

Mas os tempos são outros. Não que alguém tenha desfilado pelo salão com camisetas "I Love Ozempic", mas o Dr. Paulo do 53 —autoidentificado como médico integrativo— estimou que ao menos 60% dos presentes estavam sob efeito das canetinhas. Seu cálculo baseou-se na contagem daqueles que, ao longo do ano, murcharam o corpo em ao menos 20% e envelheceram o rosto na mesma proporção. Pelancas e roupas folgadas —especialmente entre os homens, sabidamente desleixados com a renovação do guarda-roupa— ajudaram no diagnóstico.

O resultado foi que a comida encalhou. O que seria um almoço para matar as sobras virou um jantar. Depois, outro almoço. E um novo jantar. O jeito foi convidar amigos dos amigos para a comilança. Mas a maioria dos estranhos também carregava a marca dos ozempics. Gente que encarava um lombo suíno com mostarda, mel e alecrim servido com arroz de polvo com o mesmo tesão dedicado a um pote de whey.

Escrevo esta coluna no dia 3, de dentro do salão, enquanto abro outro botão da bermuda para dar vazão aos efeitos da orgia alimentar. Não há luz no fim da geladeira que aponte o fim do martírio. Em breve, a mesa estará posta. Ou reposta? Preso nesse looping glutão, ontem à noite vislumbrei um fiapo de esperança.

Meu vizinho Tiagão, que nem é magro nem gordo, ganhou o ticket para o Ozempic pelo fígado, nem sadio nem doente. A cara ossuda denuncia a aderência à canetinha. O que não o deteve.

Ontem à noite, alguém teve a ideia de comprar pães para fazer lanches do interminável pernil. Como se mais comida fosse nos tirar desse buraco. Ouço então Tiagão protestar contra a escassez: "dois pães por pessoa é um absurdo! Tô com fome!". Vê-lo resmungar enquanto abocanhava insaciavelmente os pãezinhos não me deixou alternativa senão ceder-lhe um da minha própria quota —devorado com ainda mais gozo que os anteriores. Não obstante drogado, o homem preservara essa coisa démodé que é a vontade de comer.

Tiagão representa a resistência. Num futuro de gente, gatos e pandas sem apetite, em que a fome terá acabado no mundo —não pela conquista civilizatória da distribuição justa de alimento, mas pela astúcia da indústria em adicionar ozempics à água de beber—, bem-aventurados serão os que, por razões desconhecidas da ciência, ainda sentem prazer em comer.