segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O problema é que o radar de Donald Trump não se limita à Venezuela, João Pereira Coutinho, FSP

 1. Acordo na madrugada de sábado com uma mensagem no celular: "Captura pelos americanos é ruim, mas o pior é ter de levar a mulher junto. Dupla punição."

Meus amigos são assim: desbocados e inconvenientes. Talvez seja por isso que eu goste tanto deles. Como democratas genuínos, não hesitam em celebrar a queda de um ditador. Se der para incluir a esposa no pacote, melhor ainda.

Estou com eles. Celebro o fim de Nicolás Maduro. Gostaria de acreditar que isso significa também o fim do regime, mas Trump parece ter outros planos: um "madurismo sem Maduro", com os Estados Unidos faturando o petróleo do país. Onde fica a democracia? Onde fica a liberdade? Onde fica o reconhecimento das lideranças legítimas da Venezuela, vencedoras da eleição de 2024?

Ilustração mostra presidente dos Estados Unidos caracterizado como um vampiro sugando um barril de petróleo
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 6 de janeiro de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Por enquanto, em lugar nenhum. Os neoconservadores —que com razão ganharam má fama— ao menos invadiam países com a ambição ingênua de democratizá-los. Com Trump, nem isso.

Pode ser prudência histórica: depois da invasão do Iraque, George W. Bush desmontou o poder sunita e entregou o país aos xiitas. O resultado foi a guerra sectária —e o nascimento do Estado Islâmico. Mas também é possível que a qualidade da governança seja irrelevante, desde que Caracas permaneça fiel ao novo senhor feudal. Como? Pagando tributo e se afastando das más companhias —Irã, Rússia, China, Cuba.

Seria a ressurreição da velha máxima da política externa: Delcy Rodríguez pode ser uma canalha, mas é a nossa canalha.

2. Celebro o fim de Maduro, repito. Não celebro o método da sua captura, que me parece mais um sintoma grave da crise do liberalismo contemporâneo.

Uma breve digressão. Em 2016, quando Trump chegou pela primeira vez à Casa Branca, as editoras passaram a lançar, em ritmo industrial, livros solenes sobre a morte da democracia. A tese geral era conhecida. O "populismo" corroía o pluralismo, os direitos individuais, a separação de poderes —em suma, o legado liberal que define as democracias liberais.

Li vários desses livros. Concordei com muito do que diziam. Mas notei algo curioso: todos partilhavam uma fé excessivamente otimista. As democracias liberais estariam ameaçadas por dentro, mas o sistema internacional liberal seguiria firme e forte. Que sistema era esse? Simplificando: um mundo baseado na soberania inviolável dos Estados, na ausência de esferas de influência, no multilateralismo e na autocontenção das grandes potências —precisamente o tipo de ordem que protegia países pequenos e médios da lei do mais forte.

Confesso: ri alto. Os autores realmente acreditavam que as mesmas forças que corroíam o liberalismo doméstico não acabariam por contaminar o liberalismo internacional? Quando se defende que o poder não pode ser contido por regras gerais, o céu é o limite.

E assim foi. A Rússia invadiu a Ucrânia. A China ronda Taiwan com apetite crescente —e, na mensagem de Ano-Novo, Xi Jinping voltou a garantir que a "reunificação" é um processo "imparável".

Mas o golpe final veio com a segunda administração Trump e sua estratégia de defesa nacional. Você conhece a Doutrina Monroe? Trump inseriu um "corolário". A América Latina, como esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos, não é lugar para "incursões hostis de potências estrangeiras", muito menos para o controle indevido de seus "ativos estratégicos". Nesse parágrafo, só faltou mesmo a foto de Nicolás Maduro.

O problema é que o radar não se limita a Caracas. Como garantir que a Groenlândia, explicitamente cobiçada por Trump, não seja a próxima parada? E como assegurar que, depois de morder um pedaço da Ucrânia, a Rússia não passe a reivindicar, dentro da sua própria esfera de influência, outras ex-repúblicas soviéticas?

O fim da ordem internacional liberal é uma caixa de Pandora que, como a história ensina, tende a produzir destruição e guerra.

3. Há quem sustente que o internacionalismo liberal é uma utopia perigosa que, ao tentar construir "um mundo melhor", acaba produzindo um mundo pior.

Isso pode acontecer, sim. Mas, nessas discussões, vale ler John Ikenberry, especialmente "A World Safe for Democracy". Não se trata de um liberal romântico, mas de um liberal cético, atento ao poder e aos seus abusos.

A ideia central é simples: defender um mínimo de regras para conter o poder bruto dos predadores talvez seja a posição mais realista de todas. É a postura de quem desconfia da natureza humana. Afinal, o poder corrompe —e o poder absoluto corrompe absolutamente, como lembrou Lord Acton.

O que vale para as democracias liberais vale para as relações internacionais. Mas tudo indica que, mais uma vez, só reconheceremos o valor dessa ordem depois de vê-la ruir. É o eterno retorno.


Precisamos curar nossa dependência do carro, FSP

 Anthony Ling

Urbanista e editor-chefe do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

Roberta Inglês

Urbanista, é editora de urbanismo do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

"O brasileiro é apaixonado por carro" é um senso comum de quem vê nosso trânsito atolado por automóveis. O que a história mostra é que somos tão apaixonados por carro quanto fumantes são apaixonados por cigarro. A relação não é de paixão, mas de dependência.

O carro foi inventado no final do século 19 como uma tecnologia promissora para cidades que cresciam rapidamente. Teóricos do século 20 pregavam que cidades estavam congestionadas, defendendo o "desadensamento" e o zoneamento de atividades. Vias amplas serviriam não apenas para trânsito rápido, como para evitar a "miasma", ideia ultrapassada de que altas densidades e ruas estreitas contribuiriam ao surgimento de doenças.

Viaduto com tráfego intenso de veículos sobre rio em área urbana ao entardecer. Rodovia abaixo do viaduto também apresenta congestionamento, com carros em ambas as direções. Vegetação e árvores cercam a rodovia e o rio, com prédios ao fundo sob luz difusa do pôr do sol.
Trânsito de veículos na via marginal do rio Tietê na altura da ponte do Tatuapé, na zona leste de São Paulo - Adriano Vizoni - 4.nov.2011/Folhapress

A urbanização brasileira ocorreu sob esse direcionamento. Em 1930, Prestes Maia elabora o Plano de Avenidas para São Paulo, prevendo o alargamento e a abertura de vias para carros. Nos anos 1950, iniciaram as obras das marginais Tietê e Pinheiros e, nas décadas seguintes, de incontáveis viadutos, sendo o "Minhocão" o mais emblemático. No Rio veio o elevado da Perimetral, dando um golpe na vida do Centro, e Porto Alegre, antes capital dos bondes, dá início a uma sanha por viadutos que destrói o caráter da cidade.

Brasília coroou o protagonismo do carro. Com largas avenidas e setorização extrema, as distâncias são monumentais, e a vida do pedestre, hostil. Seu conceito de edifícios isolados uns dos outros é replicado nos planos diretores do país.

Diferente dos nossos centros históricos que possuem edifícios contíguos e alinhados à calçada, incentivando fachadas ativas, prédios em novos bairros foram obrigados a se afastarem das divisas e incentivados a deixarem seus térreos vazios. O visual resultante é de calçadas ladeadas por muros, e áreas centrais, mesmo esvaziadas, ainda são as melhores para caminhar.

Jan Gehl, renomado urbanista dinamarquês, teve que dizer o óbvio: "Se você planeja cidades para carros e tráfego, você obtém carros e tráfego. Se você planeja para pessoas e lugares, você obtém pessoas e lugares".

Ao separar atividades e distanciar as pessoas, não só o custo de infraestrutura dispara como as formas de transporte mais sustentáveis e economicamente acessíveis – transporte coletivo, bicicletas e o andar a pé – ficam inviáveis. A explosão na adoção do carro também levou à explosão de mortes no trânsito e de doenças respiratórias ligadas à poluição do ar.

No entanto, enquanto vemos as ruas tomadas por carros, segundo o IBGE, apenas um terço dos brasileiros o utilizam para ir ao trabalho. Carros simplesmente ocupam muito espaço, e normalizamos ocupar as ruas —espaços públicos de uso comum— com bens privados de uso exclusivo. Ao invés de regularmos o uso do carro nas ruas, temos apenas aumentado o seu espaço em detrimento de outros modos de transporte.

"O carro é o cigarro do futuro", já dizia o urbanista e ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner. Conhecido pela inovação no transporte coletivo, na priorização dos pedestres e na valorização dos espaços públicos, Lerner nadou contra a corrente da época. Em Curitiba os carros não seriam protagonistas, mas raras cidades brasileiras tiveram a mesma sorte.

Hoje, muitos carro-dependentes argumentam que "não podemos prejudicar o automóvel sem antes ter alternativas de qualidade". Outros defendem carros elétricos (o vape da mobilidade), que melhoram a qualidade do ar, mas mantém os demais efeitos nocivos. A evidência mostra que há curas para nossa dependência, mas requerem liberação do espaço ocupado pelo carro.

Cidades como Singapura, Estocolmo, Londres e Nova York, já colhem frutos da cobrança para carros circularem em certas áreas e horários, reduzindo congestionamentos.

Copenhague atingiu 49% das viagens entre casa e trabalho feitas de bicicleta construindo uma rede completa de ciclovias protegidas. Talvez, com o dinheiro gasto em alargamentos viários e viadutos, poderíamos ter hoje os metrôs mais sofisticados do mundo.

O Rio já demoliu o elevado da Perimetral, recuperando a área portuária, e São Paulo transformou o Minhocão em parque.

O início poderia ser até mais singelo, como eliminar ou cobrar pelo estacionamento de meio fio. Mas só assim tornaremos dirigir uma escolha, e não uma necessidade.


2026 começa: o que é o tempo e o quanto é verdadeira a crença de que só existe o presente?, BBC News FSP

 Max Seitz

BBC News Mundo

O que é realmente o tempo?

2026 já tomou o lugar de 2025, mais uma mudança de calendário que nos lembra da implacável passagem do tempo.

Mas você já parou para pensar no que é o tempo, além do que nos dizem relógios e calendários?

Reflita um pouco. Em nossa experiência como seres humanos, percebemos o tempo como uma sequência de eventos.

Relógio despertador preto com mostrador branco segurado por duas mãos. No lugar dos números tradicionais, aparece o ano 2026 em destaque azul, com o ponteiro marcando meia-noite.
O que é realmente o tempo? - Getty

Ou seja: um futuro que se torna presente e um presente que se transforma em passado.

Sentimos que o presente é tudo o que existe, mas ele é efêmero, desaparecendo a cada segundo que passa.

Consideramos o passado como algo que deixou de existir e está se afastando de nós rumo ao esquecimento, embora parte dele permaneça em nossas memórias.

E acreditamos que o futuro é algo potencial que ainda não aconteceu e promete caminhos alternativos.

Mas o que há de verdade em tudo isso? O tempo é algo real ou uma mera ilusão? Ou uma mistura dos dois?

Prepare-se, porque o que a física clássica e a atual dizem sobre isso pode causar perplexidade, já que colocam em questão algumas das crenças mais difundidas sobre o tempo.

Tempos distintos?

Chamkaur Ghag, renomado astrofísico da University College London (UCL), afirma que os físicos ainda não chegaram a um acordo sobre o que é o tempo.

"Mas há consenso em aceitar o que a teoria da relatividade de Albert Einstein afirma. Ela apresenta um Universo onde espaço e tempo são inseparáveis e se influenciam mutuamente, e onde os fenômenos são percebidos de forma diferente, dependendo do estado de movimento do observador", explica Ghag à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

O tempo é relativo, explica Ghag: se dilata à medida que um corpo se move mais rápido em relação a outros.

Assim, quanto mais próximo um objeto (ou um indivíduo) chega da velocidade da luz, mais perceptível se torna a desaceleração do tempo.

Segundo Einstein, o tempo também passa mais lentamente quando um corpo experimenta uma força gravitacional maior.

No filme "Interestelar" (2014), de Christopher Nolan, há uma cena que ilustra isso bem: o protagonista desce a um planeta sujeito a uma gravidade intensa devido à sua proximidade com um buraco negro.

Quando ele retorna à nave principal depois do que lhe parece pouco mais de uma hora, encontra um tripulante para quem se passaram 23 anos.

A dilatação do tempo foi verificada experimentalmente nas últimas décadas usando relógios atômicos ultraprecisos e modernos aceleradores de partículas.

Isso foi corroborado pela detecção de ondas gravitacionais geradas por distorções no espaço-tempo.

São vários os triunfos para as ideias de Einstein.

"Outro princípio aceito pelos físicos é que o tempo avança e nunca retrocede", diz Ghag.

No entanto, uma nova —e controversa— corrente na física, conhecida como teoria pós-quântica da gravidade clássica, adiciona ainda mais complexidade à noção de tempo, imbuindo-a de um grau de aleatoriedade.

De acordo com essa teoria, a passagem do tempo pode oscilar aleatoriamente em certas partes do universo, explica Jonathan Oppenheim, pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia Quântica da UCL e defensor dessa teoria revolucionária.

"Essas flutuações ocorrem devido à interação entre o mundo quântico, que tem um comportamento estranho e imprevisível, e a estrutura do espaço-tempo, que é governada por regras previsíveis", esclarece Oppenheim à BBC News Mundo.

Isso explicaria curiosidades do nosso cosmos, como que uma partícula possa estar em dois lugares ao mesmo tempo ou estar conectada a outra partícula a milhões de anos-luz de distância.

Uma ilusão?

Mas será que o tempo é mais do que tempo relativo com um toque de acaso?

No livro "Uma Breve História do Tempo", o renomado físico britânico Stephen Hawking mencionou a existência do "tempo psicológico".

Segundo Chamkaur Ghag, do University College London, isso se refere à forma como nosso cérebro processa a relatividade temporal.

"Por alguma razão que a neurociência ainda não explicou, uma parte da nossa psique interpreta o fluxo do tempo em termos de passado, presente e futuro."

"Estamos presos a um cérebro limitado que entende algo tão complexo quanto o tempo dessa maneira... O que podemos fazer? Este é um campo de estudo fascinante com muito mais a explorar", afirma o físico.

A questão, então, passa a ser: como funcionam no universo as categorias que conhecemos como passado, presente e futuro?

Um lugar para o passado

Uma das noções mais intrigantes é a de que, em teoria, nosso passado continua a existir em algum lugar do universo.

"Como espaço e tempo são inseparáveis e interagem, cada evento em nossas vidas ocorre em um espaço-tempo diferente, mesmo que aconteça no que acreditamos ser o mesmo lugar", explica Ghag.

"É como se nossa existência fosse uma sucessão de instantâneos."

Para ajudar você a entender, caro leitor, pense, por exemplo, no que você está fazendo agora: lendo este texto, talvez no seu celular.

Mas o seu "eu" atual não ocupa mais o mesmo espaço-tempo que ocupava um segundo atrás. Aquele que você deixou para trás continua a existir em outro plano, mesmo que você não possa vê-lo.

E assim acontece a cada segundo que passa.

Ghag explica que, se soubéssemos as coordenadas exatas dos eventos do nosso passado e fosse possível viajar até esses pontos - algo altamente improvável -, poderíamos encontrar nossos "eus" do passado.

Fascinante, não é? Ou aterrorizante?

Em relação ao presente, a física atual sustenta que o que chamamos de "agora" é o conjunto de eventos que, em nossa percepção humana, ocorrem simultaneamente em um dado instante.

No entanto, como o tempo pode dilatar, passar em ritmos distintos para diferentes observadores e até mesmo apresentar oscilações aleatórias, também é possível que o presente seja uma "duração" em vez de um momento.

Isso o tornaria um tanto menos fugaz do que pensamos.

Futuro certo ou incerto?

E quanto ao futuro, agora que um novo ano está começando? Vale a pena fazer uma lista de resoluções para os próximos 12 meses se considerarmos que o futuro depende da nossa liberdade de escolha?

Ou o futuro é predeterminado, o que invalidaria o livre-arbítrio, mas, ao mesmo tempo, facilitaria a previsão do que está por vir?

É aqui que os físicos se sentem mais desorientados quando se fala sobre o tempo.

"Alguns dizem que podemos influenciar o futuro escolhendo entre diferentes caminhos", diz Ghag.

"Mas suponha que o livre-arbítrio também estivesse sujeito à relatividade. Teoricamente, se você conhecesse todas as trajetórias possíveis das mentes e dos fenômenos, poderia prever o futuro."

Claro, isso criaria um paradoxo, como explica o físico da UCL: "O conhecimento do que vai acontecer acaba alterando o que vai acontecer".

"A verdade é que a física ainda não tem uma resposta clara sobre o que é o futuro", admite Ghag.

Entretanto, o cientista destaca que a esperança e o desejo de mudança nos seres humanos continuam a ser alimentados pela ideia de que o amanhã pode ser moldado —inclusive o ano que acabou de começar.