segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Derrubar Maduro provavelmente será a parte fácil para Trump, WP FSP

  

Karen Tumulty
The Washington Post

Após o que parece ter sido uma operação militar bem-sucedida que conseguiu a extradição do ditador Nicolás Maduro, o governo Trump fez comparações com a captura do panamenho Manuel Antonio Noriega exatamente 36 anos antes, em 3 de janeiro de 1990.

A invasão do Panamá pelo presidente George H.W. Bush, embora controversa, foi decisiva e relativamente livre de complicações em seu desfecho. Mas o que está por vir na Venezuela —começando pelo plano anunciado pelo presidente Donald Trump de que os Estados Unidos "administrarão o país até que possam fazer uma transição segura, adequada e judiciosa"— será um desafio com dificuldades maiores e armadilhas mais profundas.

Ex-presidente dos Estados Unidos fala em púlpito com o selo presidencial. Dois homens em ternos escuros estão ao fundo, com bandeiras americanas e presidencial atrás.
Presidente Donald Trump durante entrevista a jornalistas após ataque dos EUA à Venezuela. Atrás o secretário de estado Marco Rubio e o secretário de Defesa Peter Hegseth - Jonathan Ernst/Reuters

E ao declarar que empresas americanas vão entrar no país e assumir o controle das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, Trump também colocou em questão as reais motivações para uma intervenção americana.

"Essencialmente, Trump confirmou que tudo o que ele disse até agora era uma história de fachada para seu plano de assumir a Venezuela e administrá-la em benefício das empresas petrolíferas americanas e de seus amigos bilionários", disse o senador democrata Chris Van Hollen.

Durante entrevista coletiva no sábado (3), Trump deu poucos detalhes sobre como planeja colocar o país no caminho prometido para a estabilidade, prosperidade e governança democrática.

Ele também não descartou uma maior escalada militar ou um envolvimento prolongado de tropas americanas. "Estamos prontos para realizar um segundo e muito maior ataque se precisarmos", disse o presidente.

Com Maduro a caminho de enfrentar o que a procuradora-geral Pam Bondi disse que seria "toda a ira da Justiça americana em solo americano nos tribunais americanos", Trump também sinalizou uma visão de longo alcance da dominação dos EUA no Ocidente, remetendo à Doutrina Monroe do século 19.

Ele advertiu que o que aconteceu na Venezuela poderia ser um prelúdio para a intervenção militar dos EUA em outros países da região envolvidos no tráfico de drogas, e disse que o presidente colombiano, Gustavo Petro, em particular, deveria "cuidar do seu traseiro".

Tudo isso vai contra a postura autoproclamada de Trump como não-intervencionista, que tem sido um artigo de fé para sua base Maga (Make America Great Again) e sua filosofia "América Primeiro".

Mas no último ano, ele ordenou ataques militares no IrãIêmenSíriaIraqueNigéria e outros lugares. Os EUA também fizeram meses de ataques a embarcações acusadas de transportar drogas da Venezuela.

O sucesso de Trump na Venezuela daqui para frente dependerá de vários fatores, disse Andrés Martínez-Fernández, analista sênior de políticas para a América Latina na conservadora Fundação Heritage.

Um deles, afirma, é se Trump conseguirá encontrar aliados confiáveis nos "restos esqueléticos" do regime venezuelano.

regime de Maduro foi considerado eleito de forma ilegítima pelos EUA, mas Trump disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, havia conversado com a vice-líder escolhida por Maduro, Delcy Rodríguez, e afirmou que ela está "essencialmente disposta a fazer o que achar necessário para tornar a Venezuela grande".

No entanto, horas depois de Trump fazer essa declaração, Delcy fez uma aparição na televisão de Caracas na qual exigiu "a libertação imediata de Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores". "O único presidente da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro", afirmou ela.

Trump foi desdenhoso quanto às perspectivas da líder da oposição María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025 que o presidente americano tão abertamente cobiçava, de assumir um papel na nova ordem das coisas na Venezuela.

"Acho que seria muito difícil para ela ser a líder", disse Trump. "Ela não tem o apoio interno ou o respeito dentro do país. Então, uma mulher muito simpática, mas ela não tem o respeito".

Outro desafio para os Estados Unidos, afirma Martínez-Fernández, da Fundação Heritage, será lidar com as perigosas gangues criminosas armadas, muitas aliadas a Maduro, que permanecem em território venezuelano.

Ele sugere que o presidente faria bem em buscar parceiros regionais, inclusive entre os líderes amigos de Trump de países como Bolívia, Chile, Argentina e El Salvador.

Em casa, o governo certamente enfrentará perguntas incisivas do Congresso, que não foi informado com antecedência sobre a operação na Venezuela.

Embora a Constituição atribua explicitamente o poder de "declarar guerra" ao poder legislativo, o Congresso efetivamente cedeu grande parte dessa autoridade ao Executivo nos últimos três quartos de século.

Desde as consequências de Pearl Harbor, o Congresso não aprovou uma declaração formal de guerra, mesmo enquanto dezenas de milhares de militares americanos foram mortos em conflitos prolongados em todo o mundo.

Democratas e alguns republicanos no Capitólio argumentaram que as ações de Trump na Venezuela reforçam a necessidade de o Congresso recuperar seu papel constitucional.

"Usar força militar para promover mudança de regime exige o escrutínio mais rigoroso, precisamente porque as consequências não terminam com o ataque inicial", escreveu o senador democrata Mark R. Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, nas redes sociais.

"Se os Estados Unidos afirmam o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede Vladimir Putin de usar uma justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia?", disse Warner.

"Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a desmoronar, e os regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la", acrescentou ele.

Descriminalização é primeiro passo para enfrentar tráfico com algum efeito, dizem especialistas, Lucas Lacerda, FSP

 

São Paulo

Cerca de dois meses após a operação Contenção deixar 122 mortos no Rio de Janeiro e se tornar a mais letal do país, o saldo da repressão às drogas no Brasil voltou a ser discutido, inclusive por causa do impacto considerado "ínfimo" no Comando Vermelho na ação de 28 de outubro, segundo declaração de um oficial da PM fluminense no Senado.

A operação seguiu um roteiro que resulta, segundo especialistas ouvidos pela Folha, em mais violência e nenhum efeito no consumo de drogas como maconha e cocaína, que têm batido recordes de produção e consumo no mundo. Descriminalizar o uso e regular mercados, por outro lado, seriam abordagens mais eficientes.

A cocaína, mais do que outras drogas, ainda é considerada o principal motor de capitalização de facções do crime organizado, que têm expandido suas atividades para a cobrança de taxas e serviços nos territórios, além de usarem o dinheiro da droga para a exploração de recursos como madeira e ouro ilegais.

Só o refino da cocaína pode ter adicionado mais de R$ 30 bilhões ao mercado da cocaína no Brasil em 2024, cujo faturamento chegou a US$ 65,7 bilhões, segundo um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Esfera.

Três policiais militares armados caminham por uma viela estreita com paredes brancas desgastadas. Um homem de camiseta vermelha e bermuda escura está parado ao fundo, encostado na parede à direita.
Policiais militares caminham em rua da Vila Cruzeiro durante operação Contenção - Eduardo Anizelli - 28.out.2025/Folhapress

E é por isso que o país deveria avançar com a descriminalização do porte de drogas para uso, como uma primeira medida, para depois discutir mercados regulados e riscos. Para o diretor-executivo da Iniciativa Negra Por uma Nova Política de Drogas, Dudu Ribeiro, é preciso superar o que ele chama de apagão de dados.

"Nem as fontes ligadas à repressão têm os dados disponíveis sobre o tamanho, por exemplo, da rede de laboratórios de refino de cocaína [no Brasil]. Há pouca informação sobre como isso tem afetado biomas e populações."

O Estado precisa, diz ele, qualificar melhor as informações sobre o universo de drogas no país, passo fundamental para iniciar a discussão sobre regulação. O mercado ilegal, já é consenso, não deixará de existir. A opção deve ser por algum tipo de medida que tenha algum efeito e que não desperdice dinheiro.

"Sabemos que o gasto com repressão é muito alto e, na grande maioria, ineficaz. Isso não é culpa da polícia ou do policiamento, mas um problema conceitual do paradigma proibicionista", afirma Steve Rolles, analista sênior de política no Reino Unido da ONG Transform Drug Policy.

Criminosos atuam, diz o especialista, a partir da proibição, que também faz crescer as organizações. "Mesmo que você leve indivíduos à Justiça, não há impacto no mercado de forma geral, que tem crescido para atender a demanda crescente ao longo das décadas."

O exemplo do tabaco no Reino Unido ajuda a dar uma perspectiva sobre o que pode ocorrer com outras drogas, diz Rolles. "Ainda há uma porção significativa de contrabando e produtos falsos no setor de tabaco, algo em torno de 25%. Mas 75% desse mercado regulado e tributado ainda é muito melhor do que 100% na mão do crime organizado."

Mas enquanto o Brasil caminha a passos lentos na descriminalização da maconha, afirmam os especialistas, a cocaína precisaria, assim como é o caso de drogas já reguladas, de um debate próprio.

Para o pesquisador Thiago Calil, doutor em saúde global e sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da USP, a discussão precisa ser franca e reconhecer o peso das drogas na sociedade.

"O consumo de drogas acompanha a história da humanidade", afirma. "A folha de coca, com seus valores nutritivos, culturais, espirituais e comunitários, tem muito mais a nos ensinar do que o medo reducionista atribuído a ela como consequência da ilegalidade." Ele defende a cooperação entre países tradicionalmente produtores da folha e dos derivados, como Peru, Bolívia e Colômbia.

"O importante é deslocar o consumidor para dentro da legalidade, para proteger pessoas tanto em relação à violência quanto em relação à qualidade da substância."

O debate na Colômbia, diz Calil, também se preocupa com a proteção do meio ambiente, além das pessoas. Já a Bolívia, diz ele, promove um modelo de produção da folha de coca por meio de cooperativas e federações para a produção direcionada a uso tradicional interno, o que diminuiu a violência associada.

Segundo Dudu Ribeiro, mudar a postura da guerra também passa por reparação às pessoas e comunidades historicamente afetadas pela repressão às drogas.

Uma via seria direcionar investimentos em saúde, educação, assistência e cultura a comunidades como as dos complexos da Penha e do Alemão, no Rio, onde ocorreu a operação Contenção. A outra, a garantia do acesso de grupos historicamente atingidos pela repressão, como populações negras e periféricas, a mercados regulados.

Mesmo casos considerados de sucesso no enfrentamento ao crime organizado e à violência, como Medellín, na Colômbia, ainda revelam dificuldades sobre a forma de lidar com drogas. A cidade, que teve 390 homicídios por 100 mil habitantes em 1991 e registrou 11 em 2024, é exemplo. Mas o país segue como maior produtor do mundo de cocaína, com 66% de participação, seguido por Peru (23%) e Bolívia (11%).

Com a repressão aos cartéis e as iniciativas para erradicar o cultivo de coca, as estruturas criminosas se deslocaram para zonas distantes. "Os cartéis deram lugar a diversos grupos armados de menor porte, que seguiram administrando a economia da cocaína ilícita de forma descentralizada e fragmentada." É o chamado "efeito balão" da repressão, que costuma acontecer em outros casos.

Medellín também viu, além dos investimentos em saúde, educação, esporte e emprego que auxiliaram na redução da violência, a mudança nos grupos de tráfico, que seguem atuantes e responsáveis por conflitos urbanos e rurais.

"A violência atua sob outros moldes, é velada. Apesar da queda em homicídios, a cidade tem lidado com o crescimento dos desaparecimentos, afirma Calil.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Crônica de uma angústia planetária, Dowbor .org

 Uma visão geral dos nossos problemas, como humanidade, não é um exercício surrealista. Tanto progresso tecnológico, mas tanta violência e destruição, tanto sofrimento. E tantas narrativas sobre quem são os bons e quem são os maus. De que lado você está? A única certeza é que sou corintiano. O resto virou um caos.

(Ladislau Dowbor)

Trocamos a mão invisível do mercado que funciona bem, de Adam Smith, pelo punho invisível do poder monopolista.
(Nicholas Shaxson – The Finance Curse [A Maldição das Finanças])

Yet let’s be content, and the times lament, You see the world turn’d upside down.
[No entanto, vamos nos contentar, e os tempos lamentam, Você vê o mundo virado de cabeça para baixo.]
(Balada do século XVII)

Eu sou economista. Minha principal área de interesse é linguística, falo vários idiomas, leio a Bíblia em hebraico, Dostoiévski em russo, Dante em italiano, Jorge Amado em português brasileiro e assim por diante. Sim, e Keynes em inglês, claro. Entrei na economia porque senti a necessidade de entender nossa bagunça. Isso foi em 1963, no dramaticamente desigual Nordeste do Brasil. Com tanto sofrimento e miséria diante dos opulentos magnatas da cana-de-açúcar, não pude deixar de sentir o absurdo. Quão profunda é a nossa capacidade de fingir que não vemos? Não foi porque estudei economia que fiquei indignado: a indignação me levou a esses estudos. Encontrei as respostas? O que descobri foi uma mistura de justificativas, em nome dos mercados livres – pode-se justificar qualquer coisa com um tanto de matemática e modelos – e construções idealistas. Eu ainda estou procurando. Não estamos todos?

Fiz o dever de casa, estudei com bons banqueiros na Suíça, com especialistas em planejamento na Polônia, ajudei países em diversos continentes, até trabalhei como consultor do Secretário Geral da ONU. Assisti à descolonização, à ascensão dos direitos das mulheres, à erosão do apartheid na África do Sul, a tantas esperanças. E atualmente me aferro às dramáticas estatísticas, a desigualdade, a fome, o desastre climático, a perda de biodiversidade e toda esta violência. Mas essas coisas não são estatísticas para mim, tenho 82 anos e ainda não suporto ver uma mãe com filhos dormindo na calçada de São Paulo, a cidade mais rica da América Latina, enquanto as pessoas atarefadas e os carros circulam de um lado para o outro. Que tipo de animal nós somos? Homo sapiens?

Assisto às horríveis notícias sobre a calamidade que ocorre na Palestina/Israel. Será essa uma questão de lados? Bem, cada um dos lados tenta fazer veicular na mídia as coisas mais horríveis que o “outro lado” fez, e temos a possibilidade de escolher bebês, crianças, mulheres, numa demonstração de barbárie de ambos os lados, um campeonato de notícias. Dependendo de quem é o dono da notícia, teremos mais barbárie de um lado ou de outro. E depois temos os comerciais, com rapazes sorridentes, moças lindas e as oportunidades que não devemos perder. Não olhe para cima. O que é isso tudo? Cada um de nós viveu a sua própria história e ela pesa.

Nasci em 1941, na fronteira espanhola, de nascimento seria catalão. Durante a guerra, na Europa, ninguém podia escolher o local de nascimento, cada um nascia onde quer que os seus pais tenham sido empurrados. Os meus pais, poloneses, um engenheiro e uma médica, escaparam à invasão alemã em 1939 através da fronteira sul e chegaram a França. Não eram judeus, mas se tivessem permanecido na Polônia o meu pai teria terminado, como engenheiro mecânico, em trabalhos forçados em fábricas alemãs. Depois os alemães invadiram França, por isso os meus pais fugiram para sul, para a fronteira espanhola, mas esta foi fechada por causa de outra guerra, a tragédia espanhola a que o mundo assistiu com curiosidade, discutindo que lados tomar, no final dos anos 1930. Assim, nasci na fronteira espanhola, na França, de pais poloneses.

Como família, estávamos presos nos Pireneus, meus pais e quatro filhos. Eu me lembro, provavelmente tinha quatro anos, quando íamos para o campo com minha mãe colhendo pissenlit, um tipo de erva que se podia usar para comer ou fazer chá. Muitas gangues buscaram a sobrevivência na confusão geral, meu pai foi pego por milícias armadas, torturado, mas sobreviveu. É impressionante como produzimos milhares de filmes glorificando guerras, soldados heroicos, belos tanques, bombas. Vende bem. Temos que fazer uma pesquisa profunda para encontrar um filme sobre o que significa para as famílias viverem numa guerra. A miséria, o frio, a fome, a insegurança e a angústia permanentes. Angústia, em francês, é uma palavra mais forte. Não me fale sobre guerras. Mudamo-nos para o Brasil porque os meus pais, tendo vivido as duas Guerras Mundiais, perderam a confiança na Europa e na sua barbárie cultural. Sou, portanto, atualmente um economista brasileiro.

Somos bons em pensamento mágico. Os dramas simplesmente desaparecerão? Na história, sempre deixamos as coisas apodrecerem a tal ponto que a insegurança, as frustrações e a ganância evoluíram para formas ideais de libertação de pressão, através do ódio, da violência e da guerra. Acabei de ler um livro lindo, As Cruzadas Vistas pelos Árabes [The Crusades Seen by the Arabs], de Amin Maalouf. Não anticristão, apenas pesquisa sólida nos documentos do Oriente Médio daquela época, por volta do século XIII. As batalhas, as destruições, os massacres, os estupros, as humilhações. Por cristãos tementes a Deus, por xiitas, por sunitas ou entre si. Os dois séculos de guerras bárbaras foram seguidos pelas invasões mongóis. Mais massacres. Queimar livros não foi uma invenção nazista, na época já era um esporte para todos os lados.

Chegamos em 2024. Acabamos de sair da guerra do Afeganistão, com resultados trágicos para todos. E a guerra do Iraque, com a confusão que vemos atualmente. E o drama da Líbia. No momento em que escrevo, temos a Ucrânia, claro – Zelensky queixa-se de que o conflito na Palestina nos distrai –, mas a trágica guerra do Iêmen está fora dos noticiários, não são europeus brancos que estão a morrer. E temos os massacres no Sudão, claro, a África é muito instável. Que curiosos os golpes de Estado no Mali, no Níger e em Burkina Faso! Por que eles simplesmente não respeitam a democracia? Bom, eu trabalhei nessas regiões sete anos. Já vi milhares de pessoas morrerem de cólera. Não temos as tecnologias para garantir água potável? Bem, Bezos precisa fazer uma viagem ao espaço. Seria ele um estúpido? Zuckerberg é idiota? Larry Fink? Prefiro considerá-los high tech assholes Sim, sei bem que esta não é uma categoria econômica. Mas eles não veem o que acontece com o mundo?

Os humanos adoram narrativas. Pode-se justificar praticamente qualquer coisa, e a humanidade é impressionantemente propensa a acreditar em praticamente qualquer coisa. Se há uma narrativa da qual temos que nos livrar é a de que você pode egoisticamente buscar a sua própria prosperidade, sem dar a mínima para o que acontece com os outros, e o resultado será uma contribuição para o bem comum. É como se a ganância individual resultasse em prosperidade geral. Bem, isso não acontece. A dura realidade é que estamos destruindo o nosso mundo pelo poder e para a riqueza de uns poucos felizes. Você tem que ser um estúpido em Wall Street ou na ‘City’ para acreditar que “a ganância é boa”. Não é apenas um desastre para o ambiente que nos sustenta, é um desastre para a humanidade e, portanto, para a democracia. Bilhões de pessoas frustradas em todo o mundo acreditarão em quem quer que se aproveite da sua frustração e do seu ódio. O mundo não carece de demagogos.

Como podemos acreditar na narrativa da “externalidade”? É coisa que se ouve e lê em cada esquina. Sim, produzimos armas, mas é só para a segurança das pessoas – e não somos nós que puxamos o gatilho. Só produzimos as armas e respondemos a exigências legítimas. O mundo está se afogando em dívidas abusivas? Bem, aqueles que contraem dívidas deveriam ser mais responsáveis. Shaxson vai direto ao ponto: “Precisamos de financiamento, mas a medida da contribuição desse financiamento para a nossa economia não é se ele vai gerar bilionários e grandes lucros, mas se será capaz de nos fornecer serviços úteis a um custo razoável” (p.12).1 Mas estamos perante gigantes financeiros, e eles financiam tudo o que lhes trará mais dinheiro, sejam lá quais forem os dramas sociais ou ambientais que essas atividades produzam. Eles são seguros, grandes demais para falir. Assegurados pelos nossos impostos, quando necessário. Em poucos anos as externalidades serão internas para todos e já estamos sentindo isso.

Marjorie Kelly, como tantos economistas hoje em dia, separa o setor financeiro (PIB do setor financeiro) e o crescimento do resto da economia (PIB do setor real), “que é a economia real de empregos e gastos em bens e serviços. Quando separamos estes dois, vemos que cerca de um terço do PIB está sendo extraído pelas finanças. E essa extração é muito maior do que já foi no passado” (p.147).Calculei os números correspondentes para o Brasil e cheguei aproximadamente ao mesmo número: mais de 30% do PIB drenado pelo rentismo financeiro improdutivo.3 Este mundo era para ser um em que os capitalistas lutam para ganhar o seu dinheiro, servindo-nos cada vez melhor. Em contraste, a Oxfam apresenta o quadro real: “Nos termos atuais, os países de rendimento baixo e médio-baixo serão forçados a pagar quase meio bilhão de dólares todos os dias em juros e reembolsos de dívidas entre hoje e 2029. Países inteiros estão à beira da falência, com os mais pobres os países gastam hoje quatro vezes mais no pagamento de dívidas a credores ricos do que em cuidados de saúde”.4 Isto representa mais da metade dos países mais pobres do mundo, 2,4 mil milhões de pessoas.

Se demorarmos muito para engolir as narrativas, quem pode nos ajudar são os think tanks, atualmente uma enorme rede de formação de opinião. Shaxson nos traz “a organização ideológica mais influente”, a Atlas Economic Research Foundation, bem como “a Templeton Foundation, financiada por Wall Street, as redes do magnata dos fundos de hedge Robert Mercer (um apoiador de Steve Bannon e Breibart News), e o que alguns chamam de “Kochtopus” – o nexo tentacular de ligações políticas e financeiras financiadas pelos irmãos bilionários Charles e David Koch. Os membros da Atlas incluem o American Enterprise Institute, o igualmente influente American Legislative Exchange Council (ALEC), o Cato Institute, a Freedom Foundation, a Heritage Foundation e, no momento em que este artigo foi escrito, mais de 180 outras instituições. E essas são apenas as redes de financiamento nos Estados Unidos: a Atlas encheu o mundo com 475 instituições parceiras – e a aumentar” (p.127). Seriam todos cegos?

O sistema tornou-se disfuncional. Os interesses dominantes são atualmente globais, sejam eles financeiros, de comunicação, de informação, de comércio de mercadorias ou de comércio de informação privada. Mas não temos capacidade de regulação global, exceto pelas enfraquecidas instituições internacionais herdadas do pós-Segunda Guerra Mundial, há 80 anos. Ainda temos autoridades que verificam as nossas bagagens nos aeroportos internacionais, enquanto os fluxos econômicos reais são apenas entradas virtuais em computadores. E tantas finanças desonestas e paraísos fiscais, tantas vendas ilegais de armas, tantos oligarcas navegando na confusão institucional e jurídica global.

Sim, sabemos o que deve ser feito, temos isso nos ODSs, no ESG, no Global Green New Deal, no Pacto Global, entre outros. Mas estamos desamparados, apenas observando o mundo descendo pelas corredeiras e se aproximando das cachoeiras. Apenas para lembrar que as tecnologias que dominamos e os recursos financeiros que desperdiçamos são mais do que suficientes para garantir que temos o suficiente para todos, sem destruir o nosso futuro. A ganância é para estúpidos. E constatar como estamos à deriva em meio a essa catástrofe em câmera lenta é repugnante.

Notas

1 Nicholas Shaxson – A Maldição das Finanças: como as finanças globais estão a tornar-nos mais pobres – Grove Press, Nova Iorque, 2019.
2 Marjorie Kelly – Supremacia da Riqueza: como a economia extrativa e as regras tendenciosas do capitalismo impulsionam as crises de hoje – Berrett-Koehler Publishers, Oakland, 2023.
3 L. Dowbor – A fuga financeira no Brasil, 2023 – Para uma reversão desta tendência desastrosa, veja L. Dowbor – Resgatando a Função Social da Economia, Cambridge Scholars, Reino Unido, 2023.
4 Oxfam – Os países mais pobres do mundo vão reduzir a despesa pública em mais de 220 bilhões – Oxfam, 9 de outubro de 2023. 

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