segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Derrubar Maduro provavelmente será a parte fácil para Trump, WP FSP

  

Karen Tumulty
The Washington Post

Após o que parece ter sido uma operação militar bem-sucedida que conseguiu a extradição do ditador Nicolás Maduro, o governo Trump fez comparações com a captura do panamenho Manuel Antonio Noriega exatamente 36 anos antes, em 3 de janeiro de 1990.

A invasão do Panamá pelo presidente George H.W. Bush, embora controversa, foi decisiva e relativamente livre de complicações em seu desfecho. Mas o que está por vir na Venezuela —começando pelo plano anunciado pelo presidente Donald Trump de que os Estados Unidos "administrarão o país até que possam fazer uma transição segura, adequada e judiciosa"— será um desafio com dificuldades maiores e armadilhas mais profundas.

Ex-presidente dos Estados Unidos fala em púlpito com o selo presidencial. Dois homens em ternos escuros estão ao fundo, com bandeiras americanas e presidencial atrás.
Presidente Donald Trump durante entrevista a jornalistas após ataque dos EUA à Venezuela. Atrás o secretário de estado Marco Rubio e o secretário de Defesa Peter Hegseth - Jonathan Ernst/Reuters

E ao declarar que empresas americanas vão entrar no país e assumir o controle das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, Trump também colocou em questão as reais motivações para uma intervenção americana.

"Essencialmente, Trump confirmou que tudo o que ele disse até agora era uma história de fachada para seu plano de assumir a Venezuela e administrá-la em benefício das empresas petrolíferas americanas e de seus amigos bilionários", disse o senador democrata Chris Van Hollen.

Durante entrevista coletiva no sábado (3), Trump deu poucos detalhes sobre como planeja colocar o país no caminho prometido para a estabilidade, prosperidade e governança democrática.

Ele também não descartou uma maior escalada militar ou um envolvimento prolongado de tropas americanas. "Estamos prontos para realizar um segundo e muito maior ataque se precisarmos", disse o presidente.

Com Maduro a caminho de enfrentar o que a procuradora-geral Pam Bondi disse que seria "toda a ira da Justiça americana em solo americano nos tribunais americanos", Trump também sinalizou uma visão de longo alcance da dominação dos EUA no Ocidente, remetendo à Doutrina Monroe do século 19.

Ele advertiu que o que aconteceu na Venezuela poderia ser um prelúdio para a intervenção militar dos EUA em outros países da região envolvidos no tráfico de drogas, e disse que o presidente colombiano, Gustavo Petro, em particular, deveria "cuidar do seu traseiro".

Tudo isso vai contra a postura autoproclamada de Trump como não-intervencionista, que tem sido um artigo de fé para sua base Maga (Make America Great Again) e sua filosofia "América Primeiro".

Mas no último ano, ele ordenou ataques militares no IrãIêmenSíriaIraqueNigéria e outros lugares. Os EUA também fizeram meses de ataques a embarcações acusadas de transportar drogas da Venezuela.

O sucesso de Trump na Venezuela daqui para frente dependerá de vários fatores, disse Andrés Martínez-Fernández, analista sênior de políticas para a América Latina na conservadora Fundação Heritage.

Um deles, afirma, é se Trump conseguirá encontrar aliados confiáveis nos "restos esqueléticos" do regime venezuelano.

regime de Maduro foi considerado eleito de forma ilegítima pelos EUA, mas Trump disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, havia conversado com a vice-líder escolhida por Maduro, Delcy Rodríguez, e afirmou que ela está "essencialmente disposta a fazer o que achar necessário para tornar a Venezuela grande".

No entanto, horas depois de Trump fazer essa declaração, Delcy fez uma aparição na televisão de Caracas na qual exigiu "a libertação imediata de Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores". "O único presidente da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro", afirmou ela.

Trump foi desdenhoso quanto às perspectivas da líder da oposição María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025 que o presidente americano tão abertamente cobiçava, de assumir um papel na nova ordem das coisas na Venezuela.

"Acho que seria muito difícil para ela ser a líder", disse Trump. "Ela não tem o apoio interno ou o respeito dentro do país. Então, uma mulher muito simpática, mas ela não tem o respeito".

Outro desafio para os Estados Unidos, afirma Martínez-Fernández, da Fundação Heritage, será lidar com as perigosas gangues criminosas armadas, muitas aliadas a Maduro, que permanecem em território venezuelano.

Ele sugere que o presidente faria bem em buscar parceiros regionais, inclusive entre os líderes amigos de Trump de países como Bolívia, Chile, Argentina e El Salvador.

Em casa, o governo certamente enfrentará perguntas incisivas do Congresso, que não foi informado com antecedência sobre a operação na Venezuela.

Embora a Constituição atribua explicitamente o poder de "declarar guerra" ao poder legislativo, o Congresso efetivamente cedeu grande parte dessa autoridade ao Executivo nos últimos três quartos de século.

Desde as consequências de Pearl Harbor, o Congresso não aprovou uma declaração formal de guerra, mesmo enquanto dezenas de milhares de militares americanos foram mortos em conflitos prolongados em todo o mundo.

Democratas e alguns republicanos no Capitólio argumentaram que as ações de Trump na Venezuela reforçam a necessidade de o Congresso recuperar seu papel constitucional.

"Usar força militar para promover mudança de regime exige o escrutínio mais rigoroso, precisamente porque as consequências não terminam com o ataque inicial", escreveu o senador democrata Mark R. Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, nas redes sociais.

"Se os Estados Unidos afirmam o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede Vladimir Putin de usar uma justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia?", disse Warner.

"Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a desmoronar, e os regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la", acrescentou ele.

Descriminalização é primeiro passo para enfrentar tráfico com algum efeito, dizem especialistas, Lucas Lacerda, FSP

 

São Paulo

Cerca de dois meses após a operação Contenção deixar 122 mortos no Rio de Janeiro e se tornar a mais letal do país, o saldo da repressão às drogas no Brasil voltou a ser discutido, inclusive por causa do impacto considerado "ínfimo" no Comando Vermelho na ação de 28 de outubro, segundo declaração de um oficial da PM fluminense no Senado.

A operação seguiu um roteiro que resulta, segundo especialistas ouvidos pela Folha, em mais violência e nenhum efeito no consumo de drogas como maconha e cocaína, que têm batido recordes de produção e consumo no mundo. Descriminalizar o uso e regular mercados, por outro lado, seriam abordagens mais eficientes.

A cocaína, mais do que outras drogas, ainda é considerada o principal motor de capitalização de facções do crime organizado, que têm expandido suas atividades para a cobrança de taxas e serviços nos territórios, além de usarem o dinheiro da droga para a exploração de recursos como madeira e ouro ilegais.

Só o refino da cocaína pode ter adicionado mais de R$ 30 bilhões ao mercado da cocaína no Brasil em 2024, cujo faturamento chegou a US$ 65,7 bilhões, segundo um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Esfera.

Três policiais militares armados caminham por uma viela estreita com paredes brancas desgastadas. Um homem de camiseta vermelha e bermuda escura está parado ao fundo, encostado na parede à direita.
Policiais militares caminham em rua da Vila Cruzeiro durante operação Contenção - Eduardo Anizelli - 28.out.2025/Folhapress

E é por isso que o país deveria avançar com a descriminalização do porte de drogas para uso, como uma primeira medida, para depois discutir mercados regulados e riscos. Para o diretor-executivo da Iniciativa Negra Por uma Nova Política de Drogas, Dudu Ribeiro, é preciso superar o que ele chama de apagão de dados.

"Nem as fontes ligadas à repressão têm os dados disponíveis sobre o tamanho, por exemplo, da rede de laboratórios de refino de cocaína [no Brasil]. Há pouca informação sobre como isso tem afetado biomas e populações."

O Estado precisa, diz ele, qualificar melhor as informações sobre o universo de drogas no país, passo fundamental para iniciar a discussão sobre regulação. O mercado ilegal, já é consenso, não deixará de existir. A opção deve ser por algum tipo de medida que tenha algum efeito e que não desperdice dinheiro.

"Sabemos que o gasto com repressão é muito alto e, na grande maioria, ineficaz. Isso não é culpa da polícia ou do policiamento, mas um problema conceitual do paradigma proibicionista", afirma Steve Rolles, analista sênior de política no Reino Unido da ONG Transform Drug Policy.

Criminosos atuam, diz o especialista, a partir da proibição, que também faz crescer as organizações. "Mesmo que você leve indivíduos à Justiça, não há impacto no mercado de forma geral, que tem crescido para atender a demanda crescente ao longo das décadas."

O exemplo do tabaco no Reino Unido ajuda a dar uma perspectiva sobre o que pode ocorrer com outras drogas, diz Rolles. "Ainda há uma porção significativa de contrabando e produtos falsos no setor de tabaco, algo em torno de 25%. Mas 75% desse mercado regulado e tributado ainda é muito melhor do que 100% na mão do crime organizado."

Mas enquanto o Brasil caminha a passos lentos na descriminalização da maconha, afirmam os especialistas, a cocaína precisaria, assim como é o caso de drogas já reguladas, de um debate próprio.

Para o pesquisador Thiago Calil, doutor em saúde global e sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da USP, a discussão precisa ser franca e reconhecer o peso das drogas na sociedade.

"O consumo de drogas acompanha a história da humanidade", afirma. "A folha de coca, com seus valores nutritivos, culturais, espirituais e comunitários, tem muito mais a nos ensinar do que o medo reducionista atribuído a ela como consequência da ilegalidade." Ele defende a cooperação entre países tradicionalmente produtores da folha e dos derivados, como Peru, Bolívia e Colômbia.

"O importante é deslocar o consumidor para dentro da legalidade, para proteger pessoas tanto em relação à violência quanto em relação à qualidade da substância."

O debate na Colômbia, diz Calil, também se preocupa com a proteção do meio ambiente, além das pessoas. Já a Bolívia, diz ele, promove um modelo de produção da folha de coca por meio de cooperativas e federações para a produção direcionada a uso tradicional interno, o que diminuiu a violência associada.

Segundo Dudu Ribeiro, mudar a postura da guerra também passa por reparação às pessoas e comunidades historicamente afetadas pela repressão às drogas.

Uma via seria direcionar investimentos em saúde, educação, assistência e cultura a comunidades como as dos complexos da Penha e do Alemão, no Rio, onde ocorreu a operação Contenção. A outra, a garantia do acesso de grupos historicamente atingidos pela repressão, como populações negras e periféricas, a mercados regulados.

Mesmo casos considerados de sucesso no enfrentamento ao crime organizado e à violência, como Medellín, na Colômbia, ainda revelam dificuldades sobre a forma de lidar com drogas. A cidade, que teve 390 homicídios por 100 mil habitantes em 1991 e registrou 11 em 2024, é exemplo. Mas o país segue como maior produtor do mundo de cocaína, com 66% de participação, seguido por Peru (23%) e Bolívia (11%).

Com a repressão aos cartéis e as iniciativas para erradicar o cultivo de coca, as estruturas criminosas se deslocaram para zonas distantes. "Os cartéis deram lugar a diversos grupos armados de menor porte, que seguiram administrando a economia da cocaína ilícita de forma descentralizada e fragmentada." É o chamado "efeito balão" da repressão, que costuma acontecer em outros casos.

Medellín também viu, além dos investimentos em saúde, educação, esporte e emprego que auxiliaram na redução da violência, a mudança nos grupos de tráfico, que seguem atuantes e responsáveis por conflitos urbanos e rurais.

"A violência atua sob outros moldes, é velada. Apesar da queda em homicídios, a cidade tem lidado com o crescimento dos desaparecimentos, afirma Calil.