sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Bolsa Família e o mercado de trabalho brasileiro, Braulio Borges, FSP

 Vem repercutindo bastante nas redes sociais nos últimos dias o relato de um empresário do setor de comércio de Santa Catarina. Ele apontou que iria fechar seu negócio por conta da dificuldade de contratar mão de obra e associou isso ao programa Bolsa Família. Como quase tudo nos últimos tempos, esse episódio nasceu carregado de preconceitos e gerou forte polarização. E, quando isso acontece, geralmente um debate mais equilibrado costuma ser a primeira vítima.

De fato parece haver evidências empíricas de que a forte expansão do Bolsa Família, tanto em termos de cobertura como de valor médio do benefício, gerou algum efeito negativo sobre a oferta de trabalhadores e aumentou a informalidade, como argumentei em uma coluna anterior.

Duas mãos de manequim de madeira seguram um cartão amarelo com a inscrição 'BRASIL Bolsa Família' em fundo verde.
Cartão do benefício do Bolsa Família, com cerca de 20,5 milhões de usuários

Contudo, é importante destacar que esse efeito pode estar se reduzindo bastante mais recentemente, sobretudo desde meados de 2025. Isso porque o número de beneficiários vem recuando, seja por conta da melhoria do mercado de trabalho (que faz com que muitas pessoas deixem o programa), seja pelo aperto na fiscalização pelo governo.

Entre 2014 e o final de 2021, o número de beneficiários do programa oscilou de 14 milhões a 14,5 milhões (famílias). Com a alteração para o Auxílio Brasil no final de 2021, a cobertura foi ampliada para pouco mais de 18 milhões até meados de 2022. Às vésperas das eleições presidenciais de 2022, o governo anterior promoveu uma nova rodada de ampliação, de modo que o contingente de beneficiados se aproximou dos 22 milhões ao final daquele ano.

Entre o começo de 2023 e junho de 2025, esse número recuou um bom tanto, para perto de 20,5 milhões. Ao longo do segundo semestre de 2025, a queda foi mais expressiva, com a cobertura chegando a 18,7 milhões em dezembro de 2025. Portanto, em relação ao pico, observado na virada de 2022 para 2023, houve uma redução de mais de 3 milhões de famílias beneficiadas pelo programa.

Ademais, embora as estimativas empíricas –realizadas com dados que ainda não levaram em conta essa queda expressiva dos beneficiários no segundo semestre de 2025– apontassem para algum efeito negativo sobre a oferta de mão de obra, não necessariamente isso era de todo ruim, já que parte dessas pessoas, sobretudo os mais jovens, passaram a estudar mais (como apontou meu colega de Instituto Brasileiro de Economia, Daniel Duque, em um estudo publicado em agosto do ano passado), algo que tende a gerar efeitos favoráveis sobre o mercado de trabalho mais à frente.

No mais, uma política pública deve ser avaliada a partir da comparação entre os seus benefícios e seus custos (ou seja, o saldo líquido). Por mais que essa ampliação recente do Bolsa Família possa ter feito emergirem alguns efeitos contraproducentes sobre a oferta de mão de obra, os benefícios do programa ainda superaram largamente seus custos, como atestam diversos estudos. De todo modo, o ideal seria tentar aprimorar continuamente o programa, buscando potencializar os efeitos favoráveis e minimizar os efeitos desfavoráveis (até mesmo porque os recursos fiscais não são infinitos).

Voltando ao caso do empresário, outros fatores certamente estão afetando muito mais adversamente a oferta de mão de obra para as empresas além do Bolsa Família. Se entre 2016 e 2024 havia excesso de desemprego, hoje isso já não acontece, uma vez que estamos próximos do chamado "pleno emprego".

Por fim, empresários como ele estão cada vez mais sofrendo concorrência com a chamada "gig economy", o mundo dos trabalhadores por aplicativos, que são "conta própria". De acordo com estimativas do Banco Central, o número de pessoas nesse segmento saltou de 770 mil em 2015 para 2,1 milhões em 2025.

Bráulio Borges

Mestre em teoria econômica pela FEA-USP, é economista-sênior da LCA Consultores desde 2004 e pesquisador-associado do FGV IBRE desde 2015


Startup brasileira usa AI para salvar vidas em hospitais, The News

 

Quando se fala em inteligência artificial, talvez a primeira coisa que venha à sua mente seja BIG TECHs e Vale do Silício. Mas tem empresa brasileira que também tem crescido neste mercado.

Uma delas é a NoHarmstartup de AI criada por dois irmãos brasileiros para reduzir erros médicos. Atualmente, está presente em cerca de 200 hospitais e analisa milhões de prescrições por mês — além de funcionar gratuitamente no SUS.

Como funciona: A tecnologia cruza dados clínicos e identifica riscos em receitas médicas antes do medicamento chegar ao paciente. A AI não decide sozinha: alerta, e o farmacêutico avalia.

Em um hospital público de Minas Gerais, por exemplo, a taxa de prescrições analisadas saltou de 0,6% para 49%, enquanto os erros caíram de 13% para apenas 0,3%.

Por que isso importa? Erros de prescrição estão entre as principais causas de falhas evitáveis no cuidado médico no Brasil. Estimativas apontam que 829 pessoas morrem todos os dias por falhas desse tipo — cerca de 3 óbitos a cada 5 minutos.

Curiosidade: Mesmo reconhecida globalmente — a cofundadora Ana Helena Ulbrich entrou para a lista da TIME das 100 pessoas mais influentes do mundo em AI — a NoHarm recusou até R$ 10 milhões em investimentos para manter o acesso gratuito no sistema público.

O projeto é todo financiado por investimentos sociais e por contratos com hospitais privados.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Mariliz Pereira Jorge - O Brasil tem molho ,FSP

 A cantora espanhola Rosalía, que esteve há poucas semanas no país, foi vista na noite desta segunda (29) no samba da Pedra do Sal, no Rio: saia, camiseta, cara lavada, cabelo preso num rabo de cavalo. Nada de fantasia de diva em turnê. Ela não é exceção. Nos últimos anos, uma fila de famosos tem batido ponto por aqui não apenas a trabalho, mas para cumprir um roteiro afetivo do que a gente tem de melhor: praia, rua, boteco, comida, samba e simpatia. O Brasil é um parque temático de estilo de vida —e sem catraca.

Duas mulheres conversam em poltronas na plataforma do Cristo Redentor iluminado à noite no Rio de Janeiro. Luzes de estúdio cercam o cenário aberto.
A cantora espanhola Rosalía, em pé, durante gravação para o Fantástico, da Globo, no Cristo Redentor - Reprodução

Nos 48 do segundo tempo, você já deve ter ouvido sobre o tal do Brazilcore. É a brasilidade embalada como estética: colorida, quente, musical, saborosa, alegre. A gente oferece informalidade como idioma, um lugar com um filtro de férias constante. A gringaiada ama porque, apesar de todos os pesares, aqui tudo é espontâneo, sexy, acessível e vem com gingado de fábrica.

O problema é quando a vitrine engole o produto. O Brasil que seduz gringo não é o Brasil "ultraprocessado" que invade alguns destinos de verão: maquiagem, salto alto, cabelo modelado, look pensado para a foto. Pior, todo mundo com visual "pasteurizado". Outro dia topei com um tutorial de "make para a praia", como se a única exigência do sol não fosse um bom protetor solar.

A informalidade que vem de graça no pacote brasileiro não entra na mala do próprio brasileiro. O "acordei assim" pede duas horas de espelho e um ring light. Justo quando a estação exige menos, vejo —sobretudo mulheres— a oferecer mais: mais produção, mais pose, mais teatro social. Pode até vir na embalagem do autocuidado, mas é só cobrança estética.

A moda do nosso verão sempre foi outra: banho tomado, cheiro de frescor, cara de saúde, sorriso fácil, pele livre para respirar. O que faz sucesso lá fora é justamente um estilo que parece improvisado, mas é nossa marca registrada. O Brasil tem molho, mas tem gente que acredita que precisa de Tabasco quando já nasceu com tempero de pimenta caseira.

Obrigada aos leitores por mais um ano de companhia. Que 2026 seja leve. Não será, mas é o que desejo.