terça-feira, 8 de julho de 2025

Brasileiro (não) paga muito imposto?, Michael França, FSP

 Dizer que o brasileiro paga muito imposto não é necessariamente uma mentira, mas trata-se de uma meia-verdade usada de forma seletiva. O Brasil apresenta uma carga tributária, ou seja, a proporção entre o total de impostos arrecadados e o Produto Interno Bruto (PIB), considerada de nível médio a alto.

No entanto, ao observarmos comparações internacionais, especialmente com países desenvolvidos, percebemos que ela está longe de ser uma das mais elevadas do mundo.

Aqui, ela gira em torno de 32% do PIB. Isso é mais ou menos o mesmo nível de países da OCDE com Estado de bem-estar social moderado, como Portugal ou Espanha, e bem inferior ao de países como França, Dinamarca ou Suécia, onde a carga supera 40%.

Ou seja, não somos um dos países que mais arrecadam impostos, mas também não integramos o grupo das economias com tributação modesta. Um dos problemas centrais do país não é o quanto se arrecada, mas quem paga e sobre o que incidem os tributos.

A imagem mostra um grupo de pessoas em um protesto, segurando cartazes e bandeiras. Os cartazes contêm mensagens como 'O POVO NÃO VAI PAGAR A CONTA', 'HORA DE BILIONÁRIO PAGAR IMPOSTO', e 'JUSTIÇA TRIBUTÁRIA JÁ!'. As pessoas estão visivelmente engajadas, algumas levantando os braços e outras gritando. O ambiente parece ser um espaço público, possivelmente um edifício governamental ou uma praça.
Integrantes do movimento Frente Popular O Povo Sem Medo ocupam prédio do Itaú na avenida Faria Lima, em São Paulo, para protestar a favor da taxação de super-ricos, da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000 e contra o aumento do número de deputados - Danilo Verpa - 3.jul.2025/Folhapress

Então, quem faz o maior esforço fiscal? Os pobres e a classe média, por meio de impostos indiretos sobre consumo e serviços essenciais. Quem faz o menor esforço fiscal? Os super-ricos, que são muito pouco tributados.

O resultado é um sistema em que os 10% mais pobres chegam a comprometer mais de 32% de sua renda com tributos, enquanto o 1% mais rico, aquele mesmo que concentra cerca de metade de toda a riqueza nacional, paga menos de 10% de sua renda em impostos.

A regressividade é tão crua que, no Brasil, nascer pobre e na classe média significa não apenas começar atrás, mas também financiar o próprio atraso.

Enquanto a classe média e os mais pobres amargam a maior parte da conta, pagando impostos sobre cada litro de leite, cada quilo de arroz e cada conta de luz, os muito ricos seguem confortavelmente protegidos por um sistema moldado para preservar seus interesses

E, quando dizemos que pagam proporcionalmente mais, estamos falando de esforço real, pois, o esforço fiscal não se mede apenas em reais pagos ao Estado, mas no impacto desse pagamento sobre a vida cotidiana.

Para um trabalhador desfavorecido que gasta quase tudo o que ganha em produtos tributados, o imposto é um peso que afeta suas escolhas mais básicas: comer alimentos de qualidade ou não, pegar o ônibus ou andar a pé, comprar o remédio ou esperar a dor passar. Já para alguém do topo da pirâmide, o imposto não tende a ter o mesmo impacto. Ele existe, mas não limita. Não freia. Não ameaça.

Deste modo, afirmar que o brasileiro paga muito imposto pode ser um tanto quanto enganoso. A frase passa a impressão de que todos os brasileiros estão igualmente sobrecarregados, quando, na verdade, a maioria paga muito, e os muito ricos pagam pouco proporcionalmente à sua renda e patrimônio.

Dessa forma, é manipulador ignorar que o peso recai desproporcionalmente sobre os mais pobres e a classe média. Fingir que todos são onerados igualmente é intelectualmente desonesto e politicamente conveniente para quem tem mais a perder. Enquanto isso, o Estado segue arrecadando de quem consome, e não de quem acumula.

O texto é uma homenagem à música "El Cuarto de Tula", de Buena Vista Social Club.

Muniz Sodré - A negação ativa do horror, FSP

 Negação ativa é o que ocorre quando diante de um fato claro e simples, uma evidência, o sujeito finge que não vê, para aplacar a consciência. É um mecanismo de defesa, individual ou coletivo, em geral por cinismo ou perturbação mental profunda. Aplica-se bem à indiferença generalizada a uma postagem do famoso produtor de televisão israelense Elad Barashi: "Não consigo entender as pessoas aqui no Estado de Israel que não querem encher Gaza com chuveiros de gás... ou vagões de trem... e acabar com essa história! Que haja um Holocausto em Gaza!" (5/5/2025).

"O horror, o horror", balbuciaria o atormentado Kurtz de "Coração das Trevas" (Joseph Conrad). Mas houve reação da mídia internacional à gravidade dessa linguagem. Embora muitos cidadãos israelenses reajam a isso, os círculos oficiais não criticaram os comentários de Barashi, que pertence à TV Canal 14, porta-voz de ultradireita do premier Netanyahu. Entre nós, o destaque ao fato deveu-se apenas à forte voz semanal da jornalista Dorrit Harazim.

A imagem mostra uma grande multidão em um evento ao ar livre. Algumas pessoas estão levantando uma bandeira que combina elementos da bandeira do Brasil com a imagem de um leão. O público parece animado e envolvido, com várias pessoas visíveis em primeiro plano, algumas com expressões de entusiasmo. Ao fundo, há uma grande quantidade de pessoas, sugerindo um evento significativo.
Participantes da Marcha para Jesus exibem bandeira de Israel na área próxima do palco no Campo de Marte - Eduardo Knapp - 19.jun.25/Folhapress

Tão grave quanto naturalizar o horror é a negação ativa por parte de vozes públicas. Disso não está isenta a grande imprensa, focada na "objetividade" da contagem dos mortos na represália da máquina de morte de Netanyahu ao pogrom terrorista do Hamas.

Entre nós, um paralelo chocante é a espetacularização jornalística da Marcha para Jesus, em que o governador e o prefeito de São Paulo desfilaram enrolados nas bandeiras de Israel. Aos leigos em religião, muitos, cabem dúvidas sobre a pertinência desse estandarte no evento. O judaísmo não cultua Jesus, e deve ter havido confusão entre israelenses e os hebreus das Escrituras. Mesmo esses não tinham Jesus nem bandeira, muito menos aquela que a polícia remove à força dos bairros da zona norte do Rio agrupados por traficantes como Complexo de Israel, onde matadores formam o Bonde de Jesus.

Não se trata da mesma divindade venerável da Hebreia. A menos que as identificações remontem às passagens do Velho Testamento, em que o combativo Davi, divina escolha para governar a nação de Israel e Judá, se mostrava crudelíssimo para com os inimigos, filisteus ou amalequitas, quase todos exterminados, mulheres, crianças até o gado. Nesse caso, a inflexibilidade bíblica explica a retórica genocida de Barashi: "Gaza merece a morte. Os 2,6 milhões de terroristas em Gaza merecem a morte! Homens, mulheres e crianças, de todas as formas possíveis (...) Sem medo, sem hesitação, simplesmente espatifar, erradicar, massacrar, demolir, desmoronar, esmagar, estilhaçar". Edward Said, o grande intelectual da causa palestina, se espantaria: ele reconhecia e abominava a Shoah, o holocausto dos judeus.

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Esse terror passa ao largo do pacifismo da marcha. Mas por que marchar, perguntaria o leigo, se Jesus caminhava a passos crísticos com seus seguidores? Sem resposta cívico-militar: o argumento impositivo seriam os 590 milhões injetados no comércio pelo evento, na mesma semana do aumento das isenções tributárias às igrejas. Algo contraposto ao Evangelho (Lucas, 6:13), de que não se pode servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamon (demônio bíblico das finanças). Disso não sabe ou esqueceu o governador em sua retórica teocrática. Aliás, também esqueceu em casa o boné de Trump.


segunda-feira, 7 de julho de 2025

Justiça suspende novamente licença prévia de asfaltamento da BR-319, FSP

 Jéssica Maes

SÃO PAULO

A Justiça Federal restabeleceu a validade da liminar que suspende a licença prévia para o asfaltamento da BR-319 —estrada federal que liga Porto Velho a Manaus e que enfrenta, há anos, dificuldades de licenciamento ambiental para que seja novamente pavimentada.

A obra corta o que é considerado um dos trechos mais preservados da amazônia e foi o estopim dos ataques dos senadores Omar Aziz (PSD-AM), Plínio Valério (PSDB-AM) e Marcos Rogério (PL-RO) à ministra Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança Climática) em sessão da Comissão de Infraestrutura da Casa, no final de maio.

A imagem mostra uma estrada de terra de cor alaranjada que se estende em linha reta através de uma vasta área de vegetação. À esquerda, há um corpo d'água com várias formas, enquanto a vegetação ao redor é densa e verde. O céu está nublado, dando uma aparência de neblina ou fumaça na atmosfera.
Trecho não asfaltado da BR-319 no Amazonas - Bruno Kelly - 9.set.24/Reuters

A decisão da 6ª Turma do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), na última quarta-feira (2), atendeu a um recurso do Observatório do Clima, rede que reúne mais de uma centena de organizações ambientais. O pedido integra uma ação civil pública que pede a anulação da licença prévia, concedida durante o governo Jair Bolsonaro (PL), para asfaltar o chamado "trecho do meio" da estrada devido a "inconsistências legais, técnicas e ambientais no processo de licenciamento".

A autorização tinha sido inicialmente suspensa em julho de 2024, pela juíza Mara Elisa Andrade, da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, que aceitou os argumentos de que a concessão traria "riscos de danos irreversíveis à floresta amazônica".

No entanto, três meses depois, o relator, desembargador federal Flávio Jardim, decidiu a favor de um recurso da União, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), sustando a liminar.

Na manifestação ao TRF-1, o advogado do Observatório, Paulo Busse, aponta que a concessão da licença prévia em 2022 já desencadeou uma escalada de 122% do desmatamento no entorno do trecho da rodovia. Mencionou também um relatório do DNIT que alerta para o surgimento de diversos ramais (pequenas estradas) não autorizados conectados ao trecho principal da rodovia.

"O que se observa neste momento é o aumento desses ramais não autorizados, impulsionado pela expectativa de que, assim que a obra for retomada, esses acessos facilitarão a ocupação. E, com isso, o desmatamento tende a explodir ainda mais", argumentou.

"Nós não somos necessariamente contrários à estrada. Mas somos contra a estrada sem todos os cuidados necessários, do jeito que está agora, sem ações estruturantes que garantam a viabilidade ambiental para a estrada", explicou Busse à Folha.

Entre as medidas necessárias, ele citou iniciativas que protejam unidades de conservação e terras indígenas, que façam a destinação de terras públicas e que garantam a consulta prévia, livre e informada de indígenas e comunidades tradicionais.

"Também é preciso que se garanta a presença do Estado na região para combater o crime ambiental, evitar o desmatamento e a construção de ramais irregulares e para lidar com a presença do crime organizado na amazônia", acrescentou. "Todas essas medidas devem ser tomadas, na nossa opinião, antes da emissão da licença prévia —e é isso que o tribunal reconheceu mais uma vez."

Ele acredita que o governo federal, através da AGU (Advocacia-Geral da União), deva recorrer da decisão tomada em segunda instância nesta semana.

Procurado, o DNIT disse que vai se manifestar "somente após ser comunicado oficialmente da decisão da Justiça". Já a AGU informou que a União irá aguardar a publicação do acórdão "para analisar a medida cabível".

O Ibama também foi procurado pela reportagem, mas não respondeu.

RODOVIA CONTROVERSA

A retomada da estrada é defendida por parlamentares da região, enquanto enfrenta forte resistência de organizações civis e ambientalistas, que veem no retorno do asfalto o aumento da destruição ambiental.

Já o governo afirma que será justamente a pavimentação o que permitirá um controle intensivo da rodovia. Por ano, cerca de R$ 200 milhões já são gastos com manutenção da estrada, que tem fluxo constante de caminhões.

Aberta pelo governo militar em 1976, a rodovia de 877 quilômetros já chegou a ser completamente asfaltada. Porém, sua manutenção foi abandonada e, no fim dos anos 1980, estava intrafegável.

Hoje os primeiros 200 km de rodovia, a partir de Porto Velho, são pavimentados. Em seu outro extremo, a partir de Manaus, 250 km da estrada também têm asfalto. No chamado "trecho do meio", entre os km 250 e 656, uma extensão de 400 km está hoje em leito natural, após a deterioração completa.