sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

OPINIÃO - GUSTAVO NOGY A falta que Bolsonaro faz, FSP

 Gustavo Nogy

Escritor e roteirista

Logo depois do anúncio da vitória de Javier Milei, na Argentina, pensei ter surpreendido uma certa —e certamente inconfessa— "satisfação" por parte da imprensa, tamanha a fúria com que jornais grandes e pequenos, jornalistas principiantes e veteranos, se prontificaram a adjetivar, com ares de escândalo e esgares de desprezo, o já esperado resultado eleitoral no país vizinho como o obituário quente de um cadáver há muito adiado. Milei é, tanto quanto ameaça, assunto.

Talvez a repetição de manchetes e a profusão de interjeições fossem mesmo a manifestação sincera do horror cívico diante de mais uma tempestade populista, reacionária e antidemocrática na América Latina e arredores. Muito bem, compreende-se. O que não me parece muito bem, e o que não se compreende, é a falta de jeito com o que chamarei, enquanto não me ocorrer expressão melhor, de "vácuo da despolarização".

O presidente argentino, Javier Milei, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante encontro em Buenos Aires - @carmeloneto no Instagram

As datas são imprecisas e convidam ao debate: no âmbito internacional, a vitória de Trump? No cercadinho nacional, a vitória de Bolsonaro? Ou as jornadas de junho? Ou a reeleição de Dilma? Ou a revolta de Aécio Neves com a reeleição de Dilma? Ou a prisão de Lula? Ou ainda as reviravoltas de folhetim da Operação Lava Jato?

O fato é que há quatro, seis ou dez anos, mais do que pautar, a imprensa tem sido pautada por figuras controversas ou francamente condenáveis como alguns dos já citados (e outros por citar). Dessa insalubre obrigação profissional parece ter ficado um vício: o jornalismo opinativo, moralizante e, não poucas vezes, condescendente. Anos de guerra desacostumaram comentaristas, repórteres e editores aos tempos de paz.

Biden venceu nos EUA, Lula ganhou no Brasil e, de repente, tem sido difícil exercitar o papel que nos cabe em um ambiente de relativo —reitero: relativo e precário— apaziguamento. Sim, sabemos, as ameaças à democracia estão aí, os golpistas também, mas é inegável que o fim do período eleitoral serviu para desarmar o disjuntor da polarização. O brasileiro prefere a emoção do mata-mata à regularidade dos pontos corridos. Até 2026, a despeito dos solavancos nas próximas eleições municipais, vizinhos voltarão a emprestar açúcar a vizinhos. Sem veneno misturado.

Acontece que há um presidente eleito, um ministério escolhido, indicações a serem feitas aos tribunais superiores, desencontros na política econômica, desentendimentos na política ambiental, desajustes no que toca à representatividade (de resto tão fundamental quando o criticado é de oposição), desconversas nas relações exteriores e frustrações nos acordos comerciais. Tudo isso está aí e precisa ser reportado e debatido com a mesma independência e o mesmo entusiasmo que nos animaram nos anos e nas batalhas anteriores.

Entretanto não é isso o que se vê. O que se vê —o que eu tenho visto— é, de um lado, uma preguiça, uma letargia, um cansaço, como se estivéssemos sentindo falta da relação abusiva que se estabeleceu entre o populismo e o jornalismo, entre o mainstream e o alternativo: como noticiar quando a notícia já não trata dos preparativos para o apocalipse?

De outro lado, um "falar baixo", um respeito, um cuidado, como se estivéssemos sentindo muito medo de que, se reclamarmos dos fantasmas presentes, as assombrações ainda maiores do passado reaparecerão.

Nenhuma das alternativas é útil ou verdadeira. Ainda que a conhecida frase de Millôr Fernandes seja melhor como frase que como princípio, a imprensa tem, sim, de se lembrar do seu papel de oposição: responsável, objetiva, honesta —mas ainda, em alguma medida, oposição.

É preciso criticar o governo que temos, fiscalizar os políticos que elegemos e reprovar os abusos daqueles que nem mesmo são eleitos, mas têm e terão bastante poder até a aposentadoria compulsória. Ou é isso ou as redes sociais tomarão o jornalismo como o que ele não é, ou idealmente não deveria ser: um grande e abandonado armazém de secos e molhados.

Ruy Castro Quanto mais difícil, melhor, FSP

 Assim como os historiadores, bibliotecários e arquivistas, vivo profissionalmente às voltas com livros centenários, documentos antigos e recortes amarelados. Isso significa coabitar com poeira, mofo e populações inteiras de fungos. O problema é que sou alérgico a bolor e sofro as consequências do manuseio dessas relíquias. Um amigo me perguntou se uso máscara para trabalhar. Respondi: "Não. Uso espirro. A cada espirro voam várias gerações de fungos".

A incompatibilidade entre certas condições físicas e a profissão de seus portadores pode ser dramática. Minha amiga, a feminista Rose Marie Muraro, nascida quase cega, precisava usar óculos muito grossos e lupa para conseguir ler. E qual era sua profissão? Leitora da Editora Vozes. Portinari, para muitos o maior pintor brasileiro, era alérgico a certas tintas. Morreu em 1962, envenenado por elas, depois de 40 anos de trabalho. E Garrincha, cujos dribles você sabe, tinha uma perna para dentro e outra para fora, como dois parênteses lado a lado: )).

Beethoven era surdo, o que, pelo visto, não lhe fazia diferença. Django Reinhardt, imortal guitarrista do jazz, tinha dois dedos paralisados na mão esquerda. E a Harold Lloyd, um dos grandes da comédia no cinema mudo americano, faltavam dois na direita —e foi sem eles que escalou um edifício em Nova York em seu filme "O Homem-Mosca" (1923), fazendo ele próprio quase todas as cenas.

John Wayne, Humphrey Bogart, James Stewart, Frank Sinatra, Bing Crosby, Fred Astaire, Gene Kelly, Henry Fonda e Sean Connery tinham algo em comum: eram carecas. Não que haja problema nisso (e eu mesmo já posso tecnicamente ser chamado de), mas, na velha Hollywood, Ava Gardner, Grace Kelly e Raquel Welch nunca poderiam ser beijadas por carecas, ainda que galãs. Sem problema —as perucas eram tão perfeitas que ninguém notava.

Este artigo deve me custar uns cinco espirros.

Harold Lloyd em cena de 'O Homem-Mosca' (1923)
Harold Lloyd em cena de 'O Homem-Mosca' (1923) - Reprodução

Tesla convoca mega recall nos EUA, The News

 

“Peraí, pode voltar todo mundo”. A Tesla anunciou um recall de mais de 2 milhões de carros nos EUA — simplesmente quase todos os veículos da empresa vendidos no país.

Recall é um nome gringo para avisar que os produtos deram problema e que é hora de consertar o quanto antes, muitas vezes mandando de volta para a fabricante. No caso, o BO foi na função do piloto automático.

Fazendo estrago. Entre junho de 2021 até maio de 2022, 70% dos acidentes de trânsito nos EUA com piloto automático envolveram um Tesla — desde 2019, foram 17 mortes nesse modelo.

Como funciona? Embora o carro de fato dirija sozinho, um motorista ainda precisa estar atrás do volante , inclusive dando alguns toques na direção. Acontece que nem todos cumpriam o ideal…

É pra devolver tudo? A Tesla vai facilitar essa parte e o recall será feito por uma atualização de sistema. Todos os donos americanos vão ter que atualizar o veículo para conseguirem dirigir.

Falando nele 🤖 Musk postou um vídeo bizarro do Tesla Optimus, um novo robô humanoide que se movimenta igualzinho a um ser humano. Até os polegares se mexem. É bizarro.