quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Elo com Gilmar Mendes reforça cacife de favorito para a PGR, FSP

 Frederico Vasconcelos

SÃO PAULO

O cacife de Paulo Gustavo Gonet Branco, apoiado por Gilmar Mendes e considerado favorito para o lugar de Augusto Aras na PGR (Procuradoria-Geral da República), vai além da amizade com o ministro do Supremo —seu ex-sócio no IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público).

O advogado Pedro Henrique de Moura Gonet Branco, filho do vice-procurador eleitoral, é próximo de Gilmar.

Paulo Gonet em sessão do TSE - Pedro Ladeira-22.jun.23/Folhapress

Pedro Henrique foi assessor no gabinete de Gilmar e recebeu R$ 14,7 mil mensais (R$ 13 mil líquidos). Foi nomeado em novembro de 2022 por Rosa Weber, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), mas desligou-se meses depois.

Consultados por meio de suas assessorias, Gilmar e Gonet não se manifestaram.

Pedro é advogado inscrito na OAB do Distrito Federal, com inscrição suplementar em Alagoas. Figura com outros advogados em processo no STJ (Superior Tribunal de Justiça) de interesse de empresa de derivados de petróleo.

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É pesquisador, com longo rol de textos publicados. Em 2019, com 20 anos de idade, estudante do curso de direito da UnB, Pedro assinou, em coautoria com o pai, artigo sobre a regulação da internet no Brasil. O texto foi publicado em uma revista do Centro Universitário de Curitiba e citado em voto de Gilmar.

"Às vezes a gente escreve achando que ninguém vai ler ou dar bola. Então, ver isso sendo mencionado na mais alta corte do Brasil, numa decisão de controle concentrado de constitucionalidade, foi uma alegria sem igual", comentou Pedro em boletim da UnB, em 2021.

A menção de Gilmar foi vista como forma de projetar no meio jurídico o jovem filho de seu amigo.

Gonet ingressou no MPF (Ministério Público Federal) em 1987. Foi sócio do advogado Sergio Bermudes, em Brasília, com a advogada Guiomar Feitosa Mendes, mulher do ministro. Publicou com Gilmar o livro "Curso de Direito Constitucional", que está na 17ª edição.

No final dos anos 1990, Inocêncio Mártires Coelho, Gonet e Gilmar criaram o IDP. Coelho, que foi PGR, presidiu o instituto. Gilmar e Coelho se desentenderam em 2010. O processo, sigiloso, foi extinto. Gonet ficou ao lado de Gilmar.

Em 2017, Gonet vendeu sua parte na sociedade para o advogado Francisco Schertel Mendes, filho de Gilmar e atual diretor-geral do IDP.

O site BuzzFeed News Brasil revelou que o advogado comprou 43% do instituto por R$ 12 milhões, no mesmo dia em que o Bradesco emprestou dinheiro ao IDP —ainda segundo a publicação, a taxa foi melhor que 99,92% dos empréstimos do banco.

GONET IMITA ARAS

Em 2019, Gonet tentou ser PGR driblando a lista tríplice da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República). Jair Bolsonaro (PL) recebeu Gonet, fora da agenda, levado pela deputada Bia Kicis (PSL-DF).

"Paulo Gonet é conservador raiz, cristão" (...) "Ele não tem capivara. O fato de ter sido sócio de Gilmar Mendes no IDP em nada interferiu em sua atuação profissional", escreveu a deputada no Twitter na época.

Discreto, Gonet é respeitado no MPF, mas não teria liderança na base da instituição.

Convidado por Aras, Gonet assumiu a diretoria-geral da Escola Superior do Ministério Público da União, acumulando o cargo com as funções no STF, onde atuava como subprocurador-geral nas sessões da 1ª e da 2ª Turma do STF.

Aras interrompeu os mandatos de 16 conselheiros da escola. Alegara haver uma "doutrinação" à esquerda. Gilmar indeferiu o pedido para suspender essa decisão.

Gonet deixou a escola em agosto de 2021. Aras o designou para o TSE no mesmo dia em que Bolsonaro enviou ao Senado a indicação para sua recondução como PGR.

Em 2021, Aras autorizou o afastamento de Gonet por uma semana para participar do fórum do IDP em Portugal, onde falou sobre medidas de exceção sanitárias. A PGR não informou quem pagou as despesas.

Gonet foi elogiado pelo seu parecer no julgamento do TSE que tornou Bolsonaro inelegível. Avaliou que a reunião em julho de 2022 com embaixadores, quando o presidente colocou em dúvida as urnas eletrônicas, foi uma "manobra eleitoreira".

Em 2021, contudo, 36 subprocuradores gerais haviam requerido um procedimento preparatório eleitoral por possível abuso de poder. Bolsonaro questionara a votação eletrônica e acenara com a não realização das eleições em 2022.

Gonet acolheu a representação "como subsídio interno para eventual atuação futura". Alegou que os fatos já estavam sendo apreciados pela Justiça Eleitoral e pelo STF.

Somente em fevereiro deste ano Gonet promoveu o arquivamento, com os mesmos argumentos. Membros do MPF questionaram internamente o fato de Gonet não ter tomado antes a iniciativa, que havia sido solicitada em 2021 pela metade dos 74 subprocuradores gerais da República.

Erramos: o texto foi alterado

O advogado Gustavo Teixeira Gonet Branco não é filho do procurador Gustavo Gonet Branco, e o advogado Pedro Henrique de Moura Gonet Branco não atua mais no gabinete do ministro Gilmar Mendes, como afirmou versão anterior deste texto.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Farmacêuticas estudam ir à Justiça contra nova regra para cobertura de plano de saúde, FSP

 Joana Cunha

SÃO PAULO

No momento em que o setor de planos de saúde atravessa uma crise com prejuízo operacional sem precedentes, a indústria farmacêutica avalia uma ofensiva na Justiça para questionar uma nova regra da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Divulgada pelo órgão regulador na semana passada, a medida determina que os produtos classificados pela Anvisa como terapia avançada deverão passar por análise técnica e etapas de participação social, como audiências e consultas públicas, antes de serem incluídos no rol de coberturas obrigatórias garantidas pelas operadoras de planos de saúde.

Entidades representantes de grandes fabricantes de medicamentos estudam ir à Justiça contra a determinação. Segundo a indústria, a regra cria um novo obstáculo para a categoria que abrange produtos biológicos obtidos a partir de células e tecidos humanos submetidos a um processo de fabricação.

Imagem mostra enfermeiras em um corredor de hospital. Algumas delas estão sentadas e outras, em pé.
Médicas no corredor da UTI infantil de um hospital de São Paulo - Rubens Cavallari - 11.dez.22/Folhapress

Também se encaixam na categoria os ácidos nucleicos recombinantes, moléculas de DNA ou RNA manipuladas em laboratório para combinar partes de material genético de diferentes fontes.

"Estamos pensando seriamente em judicializar, em nome dos nossos associados que têm esses produtos", diz Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, sindicato que reúne grandes companhias farmacêuticas.

Na visão de Renato Porto, presidente da Interfarma, outra entidade da indústria, faltou debate com todos os elos do setor antes da aprovação da medida. Ele afirma que se trata de mais um obstáculo para o acesso do paciente ao tratamento.

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"Fomos surpreendidos com essa decisão. Estamos fazendo uma avaliação técnico-regulatória desse cenário e, concomitantemente, uma avaliação jurídica para ver se vamos judicializar", diz Porto.

Por enquanto, existem somente cinco registros na categoria de terapias avançadas, que inclui produtos para doenças raras ou linhas de tratamento oncológico fabricados por Novartis, Janssen e Gilead.

Um deles é o Zolgensma, da Novartis, cujo custo elevado –que pode superar R$ 8 milhões, segundo operadoras– vem preocupando executivos do setor de planos de saúde.

Também classificado como terapia avançada, o Kymriah atua por meio da retirada de células T do sangue do paciente para colocar um novo gene e atingir as células cancerosas do corpo, segundo a fabricante Novartis.

Em nota à Folha, a farmacêutica afirma que vem acompanhando a discussão. Segundo a empresa, este é um tema amplo e que diz respeito a todo o ecossistema de saúde.

De acordo com a nota técnica da ANS, os produtos em questão não são medicamentos comuns, mas uma "cadeia de produção e manipulação gênica, envolvendo etapas que, segundo a regulamentação sanitária, precisam estar estabelecidas e registradas para a adequada utilização".

Ainda conforme o documento, "mesmo ao se realizar todo o processo de forma padronizada e dentro das especificações, há ao final o risco de que o produto a ser dispensado e aplicado não preencha as características necessárias estabelecidas como critérios clínicos para a eficácia do produto".

Procurada pela reportagem, a ANS afirma que sua decisão "foi no sentido de proteger o consumidor, pois torna indispensável o estudo da terapia por meio da avaliação de tecnologias em saúde e privilegia a participação social", diz o órgão em comunicado.

Entre os pontos da análise para a definição das novas regras, a agência diz também que a necessidade de criar uma regulamentação específica sobre o tema e as características de preparo de alguns destes produtos sugerem que eles não são comparáveis aos medicamentos até então registrados na Anvisa, tanto pela complexidade de sua produção, quanto pelo seu custo.

Cassio Ide Alves, superintendente-médico da Abramge (associação que reúne empresas de planos de saúde), afirma que a questão da sustentabilidade financeira é, de fato, um dos pilares da avaliação das tecnologias em saúde, ao lado da eficácia e da segurança, mas essa categoria de produtos exige atenção.

"Estamos falando de terapia gênica. Se tiver alguma complicação na população em termos de herança genética, quem se responsabiliza?", afirma Alves.

Em comunicado divulgado sobre o assunto, a FenaSaúde (federação do setor) diz ver rigor científico nas novas regras estabelecidas pela ANS para a cobertura de tratamentos de terapia avançada.

"Essas terapias são de natureza complexa e inovadora. Por isso, um rito cuidadoso de aprovação garante mais segurança para a saúde dos pacientes", afirma em nota a diretora-executiva da FenaSaúde, Vera Valente.

Joel Pinheiro da Fonseca - Por que Lula insiste em bajular tiranetes?, FSP

 "Of course." ("É claro.") Foi a resposta seca —alguns interpretaram como incrédula— da jornalista ao ouvir o presidente Lula, na Índia, afirmar sem meias palavras que descumpriria a decisão do Tribunal Penal Internacional que pede a prisão de Vladimir Putin.

O que é claro é que a aplicação dessa decisão, caso Putin viesse ao Brasil, não seria nada trivial. Um chefe de Estado —e ainda de uma potência militar— chega para uma reunião e sai algemado? Não é o tipo de coisa que se faz assim com leveza. Mas é também, como o próprio Lula foi obrigado a reconhecer no dia seguinte, uma decisão que cabe à Justiça.

Putin, por sua vez, sabe dos riscos que corre se começar a viajar por aí —e um mandado de prisão expedido por um tribunal é o menor deles. Não deve sair de casa tão facilmente. Ou seja, muito barulho por nada.

A questão é mais profunda: o que ganhamos com esse tipo de manifestação de Lula? Essa bagunça, esse vai e volta, nos beneficia de que maneira? Criamos um clima mais amistoso com Putin e grupos que o apoiam. Ao mesmo tempo, criamos mais um ruído desnecessário, aí sim, com todo mundo que vê na democracia e nos direitos humanos como valores centrais.

O presidente Lula (PT) com martelo em mãos que simboliza presidência temporária em encerramento da cúpula em Nova Déli, na Índia
O presidente Lula com martelo em mãos que simboliza presidência temporária do G20, na Índia, no domingo (10) - Ricardo Stuckert/Divulgação Presidência da República

E talvez essa seja a pergunta que caiba fazer agora: na sua busca pela política externa "não alinhada", Lula está disposto a se desalinhar dos direitos humanos?

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"Temos de ter cuidado para que o discurso de direitos humanos, por mais válido que seja, não transforme-se em uma arma política para aqueles que se incomodam com o fortalecimento e o crescimento econômico do mundo em desenvolvimento." Essa fala não veio do ministro da Economia ou da Agricultura, preocupados em fazer negócios. Veio do nosso ministro da Cidadania e Direitos Humanos, em entrevista para o UOL.

A condenação de Putin, cabe ressaltar, não é mera perseguição internacional de capangas dos EUA (que aliás não aceita o TPI); ela decorre do fato de que o governo russo cometeu crime de guerra ao deportar crianças ucranianas para a Rússia em territórios ocupados.

Com sua vitória em 2022, Lula foi aclamado, celebrado pelas nações desenvolvidas do mundo democrático, que receberam sua eleição como uma lufada de esperança. Mas parece ansiar mesmo é pela amizade de qualquer tiranete subdesenvolvido que reproduza discurso da Guerra Fria.

Não aprendemos nada com o vexame que foi nossa relação amistosa com o Irã em 2009 e 10? Defendemos o programa nuclear iraniano, recebemos o então presidente Ahmadinejad de braços abertos, passamos vergonha ao relativizar sua negação do Holocausto e a homofobia de seu governo, e não ganhamos nada.

A democracia liberal está longe de ser perfeita. Mas é também, de longe, a organização social e política que mais nos aproxima de uma sociedade mais justa, estável, solidária e próspera, especialmente os mais vulneráveis. E está sob ataque: tanto interno, com movimentos que buscam corroer suas bases, quanto externo, na forma de regimes autocráticos que se afirmam com cada vez mais desenvoltura —a guerra expansionista da Rússia é o maior exemplo disso.

Buscar comércio e diplomacia com todos é um fim nobre. Distanciar-se dos EUA quando ele promove invasões e regimes brutais, idem. Mas tornar esse distanciamento um cacoete automático, que resvala para a defesa de ditadores toda vez que o presidente fala de improviso, é preocupante. Se forem só palavras ao vento, geram um ruído desnecessário com nossos reais aliados de quem podemos obter reais vantagens. Se indicarem um direcionamento real futuro, são prelúdio de um fracasso ético e econômico.