terça-feira, 12 de setembro de 2023

ESTADÃO / ECONOMIA Ambev é questionada pela Receita por operações bilionárias envolvendo Imposto de Renda

 Brasília - A Receita Federal está questionando a fabricante de bebidas Ambev por operações ligadas ao pagamento de Imposto de Renda sobre lucros no exterior. O alvo principal dos questionamentos é a prática de restituição bilionária de impostos que a cervejeira pagou lá fora. O Fisco já autuou a empresa em R$ 12,6 bilhões por conta disso, valor que está em litígio judicial.

A origem da disputa é a compensação do Imposto de Renda devido aqui no Brasil com o Imposto de Renda anual pago pelas empresas da multinacional brasileira no exterior. Para a Ambev, ela pode usar o IR pago lá fora para abater do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) pagos mensalmente no Brasil.

Já a Receita Federal considera a prática irregular, como se o governo brasileiro estivesse pagando pelo imposto que a Ambev recolheu em outro País.

Ambev argumenta que Carf já deu sentença favorável ao desconto no pagamento do IRPJ e CSLL
Ambev argumenta que Carf já deu sentença favorável ao desconto no pagamento do IRPJ e CSLL Foto: Marcos Arcoverde/Estadão

Em nota ao Estadão, a Ambev informou que não comenta casos em andamento. “Vale pontuar que cumprimos integralmente a legislação brasileira sobre lucros no exterior e já houve o reconhecimento no próprio Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) em caso semelhante a favor dos contribuintes”, disse a empresa.

No dia 28 de julho, fiscais da Receita se encontraram em São Paulo com cinco representantes da Ambev, entre eles os diretores da área tributária Eduardo Paoli e Roberta Bordini Prado Landi. Segundo relatos de pessoas ligadas à investigação, a conversa foi tensa.

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A reunião oficialmente faz parte do “Confia”, programa piloto de “Conformidade Cooperativa Fiscal” da Receita Federal. O programa está sendo testado com oito grandes empresas que pagam muitos impostos e têm disputas com o Fisco, entre elas a Ambev.

A Ambev questiona autuações no Carf, tribunal administrativo onde os contribuintes recorrem de multas aplicadas pelos fiscais da Receita.

Em 2020, a empresa perdeu no Carf um julgamento sobre uma dessas autuações, no valor atualizado de R$ 2,6 bilhões. No início de 2023, a decisão foi confirmada por unanimidade pelo próprio tribunal.

Pela decisão do Carf, o IR pago no exterior não é passível de restituição no Brasil. O imposto a pagar será inscrito na Dívida Ativa da União para cobrança, nos próximos dias, pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

O próprio demonstrativo contábil da Ambev, publicado em março de 2023 com dados do ano de 2022, aponta que desde 2014 a companhia vem sendo autuada pelo Fisco. As autuações se referem a operações de 2007 em diante.

A Ambev informou aos fiscais, segundo o Estadão apurou, que não pretende aderir à chamada “Lei do Carf”. Aprovada pelo Congresso, a lei pretende promover um encontro de contas entre as empresas e o Fisco. A Receita queria regularizar os débitos da Ambev agora, mas os representantes da Ambev informaram que vão seguir com o questionamento das autuações na Justiça. Um processo desse tipo pode demorar mais de 10 anos.

Nos documentos oficiais, a Ambev repete que a cobrança é ilegítima e cita que, em novembro de 2019, foi proferida decisão favorável pelo Carf, cancelando a autuação com relação a um dos casos, que abarca o ano-calendário de 2010. Por reputar que as cobranças são ilegítimas, a companhia está questionando essas autuações nos tribunais administrativos e judiciais.

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A julgar pelo balanço financeiro, a empresa demonstra convicção de que deve ganhar a disputa jurídica. É uma prática habitual das empresas registrar nas demonstrações contábeis que são apresentadas ao mercado o risco de perder disputas jurídicas. São estimativas do risco de ter de desembolsar valores extras para pagamento de impostos em disputa com o Fisco.

No caso da Ambev, apesar de divulgar contingências possíveis de R$ 85 bilhões para a data-base de 31 de dezembro de 2022, a empresa considera apenas R$ 300 milhões como uma perda provável de ocorrer, constituindo, dessa forma, sua respectiva provisão.

Receita também questiona operações de Juros sobre Capital Próprio
Receita também questiona operações de Juros sobre Capital Próprio Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ou seja, a Ambev provisiona menos de 0,4% dos valores totais classificados como possíveis e prováveis, confiando que terá êxito nas suas estratégias de defesa em âmbito judicial e administrativa em mais de 99% do montante cobrado pelas autoridades fiscais.

De acordo com estudo do economista e diretor do Sindicato dos Economistas (Sindecon) de São Paulo, André Paiva Ramos, as demonstrações financeiras da Ambev de 2022 apresentaram um aumento das contingências tributárias. Segundo ele, essas contingências têm crescido desde 2018. Passaram de R$ 63 bilhões para R$ 85 bilhões, uma alta de 34%. Do total do aumento, R$ 2 bilhões estão relacionados ao ICMS (tributo cobrado pelos Estados) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Outros R$ 20 bilhões estão relacionados ao IRPJ e CSLL.

Procurada, a Receita Federal, em Brasília e em São Paulo, não respondeu aos pedidos de informações da reportagem.

Juros sobre Capital Próprio

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Os fiscais da Receita estão investigando outro ponto importante do balanço contábil da Ambev. Seu questionamento é sobre o uso de operações chamadas Juros Sobre Capital Próprio (JCP). Trata-se de um mecanismo de pagamento de dividendos, adotado como forma de remunerar os acionistas da empresa pagando menos Imposto de Renda.

O JCP é permitido no Brasil, portanto, não há ilegalidade no uso do instrumento pelas empresas. Mas os fiscais da Receita questionam se há uso abusivo e irregular do mecanismo de JCP pela Ambev. A empresa já foi autuada pelo Fisco e o caso está sendo analisado pelo Carf.

Em proposta enviada na semana passada ao Congresso, o governo acaba com a possibilidade de as empresas fazerem uso do JCP. No anúncio do projeto de orçamento de 2024, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, informou que os abusos que a equipe econômica visa a coibir com a proposta para acabar com o JCP não estão ligados a instituições financeiras, mas de empresas da economia real. Ele não citou o nome de empresas.

Evangélico, sim, terrivelmente, não, juliano Spyer, FSP

 Na semana em que Michelle Bolsonaro fez uma pregação emocionada em uma igreja evangélica, envolta na bandeira do Brasil, e denunciou uma suposta perseguição à sua família, nos aproximamos da possibilidade de ter outro evangélico no Supremo Tribunal Federal. Quem ele é?


Questionei interlocutores evangélicos sobre o que sabiam a respeito de Jorge Messias, atual ministro da Advocacia-Geral da União e um dos nomes cotados para substituir a ministra Rosa Weber. "Não conheço", "nunca ouvi falar" e "não sabia que ele era evangélico" foram as respostas mais comuns, inclusive de pessoas que acompanham de perto o debate político nacional.

A possível indicação do "ministro evangélico de Lula", conforme tem sido apresentada pela imprensa, surpreendeu até mesmo estudiosos das religiões no Brasil. "Hoje de manhã eu estava indo para a universidade e dando um Google no nome dele," relatou o antropólogo Rodrigo Toniol sobre a possível entrada de um ator novo e poderoso no campo evangélico e nacional.

Jorge Messias tornou-se mais conhecido como evangélico ao representar o presidente Lula na Marcha para Jesus, em São Paulo, realizada em junho. Embora o ambiente desse evento costume ser festivo, a fala breve de Messias foi recebida pela multidão com um silêncio pesado que rapidamente se transformou em vaias.

No dia 15, Jorge Messias será homenageado em jantar organizado pelo MST e por outros grupos progressistas. O evento está sendo noticiado como uma campanha de apoio à sua candidatura ao STF. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito anunciou o encontro apresentando o ministro como "um servo de Cristo, que deseja ver a justiça correndo como um rio perene, como nos relatou o profeta Isaías".

Mas Jorge Messias também tem se aproximado de lideranças evangélicas no Congresso. "Ele participou do evento e culto de transmissão da Presidência da Frente Parlamentar Evangélica (a "bancada evangélica") e foi muito bem recebido lá", relatou um evangélico que atua no Judiciário. "Eles têm afinidade na agenda de costumes."

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Setores progressistas pressionam Lula para indicar uma mulher negra para essa vaga no Judiciário. No entanto, se for confirmado para o STF e mantiver a confiança do presidente Lula, Jorge Messias se tornará um dos evangélicos mais influentes do país —e identificado com os valores da esquerda.

"A eventual entrada dele no STF vai marcar a ascensão de um ‘evangélico do Lula’", avalia outro interlocutor. "E é uma prova flagrante da presença dos evangélicos na sociedade brasileira. Porque não teremos apenas um evangélico ministro do Supremo, teremos dois!"

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Procuradores recorrem de anulação de provas da Odebrecht e criticam decisão de Toffoli, OESP

 BRASÍLIA – A Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR) apresenta nesta segunda-feira, 11, recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) argumentando que a decisão do ministro Dias Toffoli  responsável por anular todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht – , “extrapolou” os limites legais. A entidade pretende atacar aspectos técnicos da decisão por temer que outros processos sejam afetados pelo despacho assinado por Toffoli.

Para a entidade, o processo julgado de maneira isolada pelo ministro não poderia, por exemplo, avançar em questões disciplinares. Só as instâncias de correição do Judiciário e do Ministério Público poderiam averiguar se houve desvio na conduta dos integrantes da Lava Jato.

Na semana passada, em despacho recheado de críticas à atuação de procuradores e da Vara da Justiça Federal comandada na época pelo juiz Sérgio Moro, hoje senador, Toffoli anulou as principais provas sobre pagamentos de propina pela Odebrecht para políticos do PT e de vários partidos. E ainda pediu que fossem instaurados processos contra os investigadores da Lava Jato.

A reclamação que motivou a decisão do ministro foi feita pelos advogados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A advogada Valeska Zanin Martins – mulher de Cristiano Zanin, hoje ministro do Supremo e ex-advogado de Lula no caso – sustentou que, antes de assinar o acordo de leniência com a Odebrecht, o Ministério Público Federal (MPF) começou uma negociação informal com autoridades dos Estados Unidos em busca de pistas para fechar o cerco a executivos da construtora.

Segundo o presidente da entidade, Ubiratan Cazetta, o processo em que Dias Toffoli tomou a decisão não contou com manifestação da empreiteira, principal envolvida no caso. “Nem mesmo as partes estão lá (na reclamação)”, argumentou Ubiratan Cazetta, presidente da ANPR. “Nem mesmo as empresas participaram. A Odebrecht não participou disso para discutir questões.”

Política

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Toffoli anulou o acordo de leniência da Odebrecht e disse que prisão de Lula foi um dos 'maiores erros judiciários da história do País'
Toffoli anulou o acordo de leniência da Odebrecht e disse que prisão de Lula foi um dos 'maiores erros judiciários da história do País' Foto: Carlos Moura/SCO/STF

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A ideia principal da contestação da ANPR, Cazetta aponta, é que tudo que foi julgado por Toffoli que ultrapassa o objeto na reclamação impetrada por Lula tem que ser lido como algo que não é uma decisão judicial “no seu sentido clássico”. Ele diz que não pretende discutir os efeitos processuais em relação a Lula.

“Isso já foi objeto de várias discussões”, disse. “A discussão é: ali há comentários feitos por um julgador, que tem um ônus argumentativo, mas que não é a decisão. Queremos reafirmar que a responsabilidade por averiguar a conduta disciplinar de membros do Judiciário e do Ministério Público é do próprio Judiciário e do Ministério, não pode ser feita por terceiros.”

Ele ainda relembra que, no caso do MPF, a matéria já é objeto de análise da corregedoria, e o material foi entregue ao Supremo. “Não há o que voltar a reapreciar”, disse.

Na última quarta-feira, 6, Toffoli assinou despacho que disse que a prisão de Lula foi um dos “maiores erros judiciários da história do País” e uma “armação fruto de um projeto de poder de determinados agentes públicos”.

A decisão anulou todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht e dos sistemas Drousys e My Web Day B, feito em dezembro de 2016. A empresa também se comprometeu a desembolsar R$ 6,8 bilhões para ressarcir os cofres públicos.

O despacho de Toffoli abre caminho para a derrubada de investigações e ações civis, penais e eleitorais, no Brasil e no exterior, apoiadas em provas obtidas a partir do acordo.

Um dos pontos centrais da decisão de Toffoli é que, mesmo após sucessivas ordens do STF para a 13.ª Vara Federal Criminal de Curitiba e o Ministério Público Federal compartilharem toda a documentação relacionada ao acordo de leniência da Odebrecht com Lula, documentos teriam sido omitidos.

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A decisão endossa o discurso de Ricardo Lewandowski de que houve um “ostensivo” descumprimento de determinações “claras e diretas” do STF.

A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) também manifestou o desejo de ajuizar o agravo à decisão de Toffoli.