sábado, 26 de agosto de 2023

Revisão do crescimento brasileiro no século 20, Samuel Pessôa, FSP

 


Acaba de ser publicado, no terceiro fascículo de 2023 da Revista Brasileira de Economia, o artigo "Reestimativa do crescimento do PIB brasileiro de 1900 até 1980", de Edmar Bacha, Guilherme Tombolo e Flávio Versiani.

Me parece o artigo de história econômica brasileira mais importante das últimas décadas. Ele altera profundamente a maneira como entendemos a experiência de crescimento do Brasil nos séculos 20 e 21.

No período em que as contas nacionais eram construídas pela FGV (Fundação Getulio Vargas), de 1947 até 1980, uma parte da economia —parcela expressiva dos serviços— não foi incluída. Eram os serviços governamentais e financeiros e os aluguéis. Os três representavam algo como 30% do PIB no período.

Vista da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, em Foz do Iguaçu (PR), em 1978 - Folhapress

A taxa de crescimento do PIB não incluído nas contas nacionais era menor do que a taxa de crescimento dos componentes do PIB incluídos nas contas: agropecuária, indústria, comércio e transportes. Assim, houve superestimativa do crescimento da economia no período. Também encontraram problemas semelhantes para o período anterior de 1900 até 1946.

Muito provavelmente os pesquisadores da FGV nos distantes anos 1940 estavam preocupados com um indicador de atividade de mais fácil mensuração e que acompanhasse melhor o ciclo econômico. A metodologia foi sendo mecanicamente reproduzida e somente alterada quando as contas nacionais passaram para o IBGE, em 1985, compreendendo toda a década de 1980 em diante.

Dado que o crescimento entre 1900 e 1980 foi superestimado e que o nível da economia em 1980 foi corretamente observado, a consequência é que o nível da economia em 1900 está subestimado. O Brasil era menos pobre em 1900 do que se imagina.

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Reconstruindo a série para trás a partir de 1980 com as novas taxas corrigidas pelos autores, obtém-se que a economia em 1900 era 80% maior do que se imaginava.

Essa diferença faz sentido? Penso que sim. Se supusermos que esse fator de correção se aplica aos dados históricos de Maddison —base de dados que documenta a evolução do produto per capita para diversos países desde o século 19—, o PIB per capita brasileiro, em vez de ser 11% do PIB per capita americano em 1900, passa a ser 20%.

Segundo os dados de Maddison, o produto per capita da Índia em 1900 —e sempre em comparação com a economia americana— era de 12%, o da Bolívia, de 18%, o do México, de 23%, e o da América Latina após a exclusão do Brasil, de 26%.

Muito estranho o Brasil ser levemente mais pobre do que a Índia, 39% mais pobre do que a Bolívia e 52% mais pobre do que o México.

A correção proposta pelos autores do artigo elimina toda as esquisitices. O número brasileiro fica entre o PIB per capita da Bolívia e do México e 67% maior do que o da Índia.

Duas são as maiores consequências da reavaliação dos autores do crescimento brasileiro nas primeiras oito décadas do século 20. Primeira, o crescimento do Brasil entre 1930 e 1980, nas cinco décadas em que vigorou o nacional-desenvolvimentismo, foi menor do que se imaginava. Segunda, o crescimento brasileiro no século 19 deve ter sido melhor do que se pensava.

Com relação ao primeiro ponto, com dados atualmente utilizados, nosso desempenho é muito bom. Segundo a base de dados de Maddison, somente o Japão e a Romênia apresentaram crescimento do PIB per capita superior ao brasileiro nas cinco décadas desenvolvimentistas.

Com os dados corrigidos a partir da revisão de Bacha, Tombolo e Versiani, o PIB per capita cresceu, entre 1930 e 1980, ao ritmo de 2,7% ao ano, em vez de 3,7%. Tivemos a 17ª maior taxa de crescimento do produto per capita entre os 56 países em que há dados na série de Maddison para o período. Um bom desempenho, mas longe de ser espetacular.

Outra consequência é que o crescimento da produtividade no período foi bem menor. O processo de industrialização e urbanização entregou menos do que se imaginava, e o crescimento da produtividade acompanhou o que ocorria no resto do mundo.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Alvaro Costa e Silva - Purgatório do caos e das bikes, FSP

 O Rio ainda é a cidade brasileira mais conhecida no mundo, segundo recente levantamento da Embratur. Só que a porta de entrada de estrangeiros no país é São Paulo –796,2 mil visitantes de janeiro a abril deste ano, contra 473,3 mil no Rio. A explicação está no Galeão, que opera só com 20% de sua capacidade.

Mesmo assim, a cidade já recebeu e irá receber mais de 200 eventos culturais neste ano. Até as ruas do centro histórico, abandonadas desde antes da pandemia, voltaram a ter gente passeando nos fins de semana e frequentando as rodas de samba nos bares. Outro dia, o prefeito Eduardo Paes deu uma canja na rua do Ouvidor. Desafinou, mas acertou as letras; dançou como boneco de posto; foi aplaudido.

A programação geral inclui feiras, congressos, competições esportivas, shows e festivais. Para este sábado (26), a prefeitura prevê que uma apresentação do DJ Alok para celebrar o centenário do Copacabana Palace poderá atrair um milhão de pessoas –se a chuva e o Cacique Cobra Coral deixarem. Haverá bloqueios com revistas e detectores de metais nas vias de acesso à praia, 20 torres de vigilância, 43 carros da PM espalhados pelo bairro, fiscais de xixi e um esquema especial de trânsito.

O compositor Beto Sem Braço costumava dizer que não se faz festa porque a vida é boa, mas pela razão inversa. O carioca sabe que na segunda tudo voltará ao normal e ele terá de enfrentar um transporte público indecente e um trânsito enlouquecido, além da insegurança nossa de cada dia.

Apesar de tantos problemas, o grande debate atual envolve as bikes elétricas, que chegaram para substituir a moda das patinetes também elétricas e cuja velocidade pode atingir 50 km/h. Elas devem ou não circular nas ciclovias? A Câmara é contra, Paes é a favor. Se ao menos os ciclistas motorizados deixassem de transitar nas calçadas, tirando fino dos pedestres, já seria um avanço civilizatório.

Ruy Castro O novo Brasil, FSP

 Ibrahim Sued, que era pobre e ficou rico com sua coluna social, dizia que sua dinastia começava com ele. Isso de fato aconteceu, mas, quando Ibrahim morreu, em 1995, sua dinastia morreu com ele. Por sorte, o Brasil tinha dinastias mais sólidas, com aqueles nomes compostos que todos sabiam pertencer aos capitães da indústria, das finanças ou do society, como os Monteiro de Carvalho, os Peixoto de Castro, os Mello Alves, os Guilherme da Silveira, os Orleans e Bragança. Mas elas também sumiram.


Os colunistas de hoje estão mais atentos aos líderes das possíveis novas dinastias, todos já com admiradores na casa dos milhões. Vide o sr. Iran Luva de Pedreiro, youtuber e influenciador internacional, na flor dos seus 21 anos; o sr. Antonio Cara de Sapato, ex-BBB e ex-lutador de MMA; e o sr. Gil do Vigor, também ex-BBB, criador da dança do tchaki-tchaki e autor do livro "Tem que Vigorar! Como me Aceitei, Venci na Vida e Realizei Meus Sonhos". Dizem que o sr. Vigor tem aspirações à Presidência.

Políticos há vários notáveis. O sr. Yuri do Paredão, no noticiário há dias ao ser convidado a desligar-se do PL por ter feito um "L" pelo presidente Lula. O sr. Emerson Boca Aberta, cujo filho, sr. Boca Aberta Jr., é também político. Há pouco, o sr. Boca Aberta se destacou por sua querela física com o deputado sr. Arthur Mamãe Falei, pelas ruas de Londrina. E, claro, o sr. André Fufuca, dito Fufuquinha, filho do sr. Fufuca Dantas, atual prefeito de Alto Alegre do Pindaré (MA). O sr. Fufuca é um forte ministeriável de Lula.

Promissora dinastia é a da sra. Dani do Waguinho, ex-ministra do Turismo e casada com o sr. Waguinho, prefeito de Belford Roxo (RJ), que tem como secretária da Cidadania sua irmã Fabiana do Waguinho. E não se pode esquecer, claro, o governador do Paraná, sr. Ratinho Jr., filho do sr. Ratinho, estimado animador de auditório.

É o novo Brasil!