terça-feira, 22 de agosto de 2023

Manuela Cantuária - Do body positive à barriga negativa, FSP

 Sejamos francas. O que pesa é o lucro, não a consciência, quando a indústria da moda e da beleza adere ao movimento pela positividade corporal, também conhecido como body positive. Isso faz com que uma ideia poderosa e libertadora –a de que mulheres não precisam se adequar a padrões estéticos– seja pasteurizada e reduzida a mais uma entre tantas outras tendências de mercado.

E ainda que, nos últimos anos, a beleza de mulheres gordas, com cicatrizes, estrias, celulites, rugas, deficiências e outras características físicas discriminadas tenha ganhado mais espaço na mídia, o contrafluxo que domina as passarelas dá a impressão de que essa pauta está avançando a passos de "moonwalk".

É o caso da estética "heroin chic", requentada dos anos 1990 e baseada no culto à magreza excessiva. O nome, absurdo e autoexplicativo, associa o ideal de beleza feminina aos efeitos do abuso de heroína. Nesse surto coletivo, a única coisa que parece fazer sentido é que, de fato, é impossível resistir ao ímpeto de convidar uma mulher esquelética para jantar —por solidariedade, não atração por física.

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Ilustração de Silvis para coluna de Manuela Cantuária de 21.ago.2023 - Silvis/Folhapress

Três décadas atrás, a tendência tinha como ícone a top model Kate Moss, que ostentava uma silhueta magérrima (e uma saúde debilitada pelo excesso de drogas e álcool). Atualmente, uma das representantes da estética é Lila Moss, filha de Kate, fazendo com que a sensação de que nada mudou de lá para cá seja ainda mais perturbadora.

Esse grito da moda, além de não trazer nada de novo, é um grito de desespero. Desespero de um mercado que sabe muito bem que, mais lucrativo do que convencer as mulheres a se aceitarem como são, é fragilizá-las. Uma mulher frágil, insegura, desnutrida, bombardeada por ideais inatingíveis de beleza, consome muito mais. Haja Ozempic, chip da beleza, procedimentos cirúrgicos e tantos outros investimentos para caber em uma calça de cintura baixa que torna até o ato de se sentar desconfortável, já que deixa nosso rego à mostra.

Tendências literalmente doentias como essa só vão perder a força quando mulheres de carne e osso entenderem que nada pode ser mais cafona do que glamurizar o mito da fragilidade feminina.

Joel Pinheiro da Fonseca - Paladinos da ciência como Natalia Pasternak podem ir longe demais, FSP

 Natalia Pasternak —lembrada com carinho pelo grande público por defender políticas baseadas no método científico contra a pseudociência durante a pandemia da Covid— foi de heroína inconteste a figura polêmica. E qual o motivo dessa mudança? Defender o método científico contra a pseudociência, agora em novo contexto.

Saímos da pandemia e voltamos para um mundo no qual práticas pseudocientíficas gozam de respaldo social e mobilizam recursos. Por que não combatê-las todas agora também? É o que Pasternak faz no seu novo livro "Que bobagem! Pseudociência e Outros Absurdos que Não Merecem Ser Levados a Sério". E acaba tendo alvos muito diferentes do negacionismo da extrema direita.

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A microbiologista Natalia Pasternak, durante sessão da CPI da Covid, em 2021 - Pedro Ladeira - 11.jun.21/Folhapress

A partir do momento que uma prática se oferece como tendo efeitos concretos sobre a saúde humana, é possível testá-la para ver se a realidade condiz com a promessa, seja qual for sua origem cultural, sua estética ou a "epistemologia alternativa" que ela arroga para si. Cloroquina, florais, homeopatia, alopatia; estão todos no mesmo barco e devem ser testados.

De maneira geral, considero essa atitude cientificista positiva, ao incitar as pessoas a questionarem mais, a se acostumarem a cobrar evidências, rejeitar superstições e a nutrir uma atitude irreverente perante todo tipo de afirmação ou autoridade espiritual. Ocorre que, se levada longe demais, ela acaba gerando má vontade. E perde de vista que nem toda pseudociência ou "medicina alternativa" é igual. Há aquelas que prejudicam a saúde da população e aquelas que são inócuas, ou até positivas por seus impactos no bem-estar psicológico.

A cloroquina, durante a pandemia, convidava ao comportamento de risco (pois a pessoa se acreditava imune aos piores sintomas da Covid). Além disso, a crença nela predispunha a pessoa a ser contra a vacinação, única resposta efetiva conhecida à Covid. Era uma crença, portanto, nociva à saúde pública numa questão que tirava milhares de vidas diariamente. Já a crença em florais, cristais ou homeopatia, por exemplo, desde que não se proponha a tomar o lugar de tratamentos médicos convencionais, especialmente no que diz respeito a doenças graves, é basicamente inócua.

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Enquanto ficarem em seu quadrado, como fontes de apoio paralelas ao tratamento médico convencional, sem substituí-lo, práticas de medicina alternativa não precisam ser vistas como inimigas, por mais que sejam pseudocientíficas.

Há ainda um elemento social em jogo. Quando um artigo de Pasternak no jornal O Globo ("Religião não é medicina!") contra a inclusão de práticas religiosas afro no rol de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) do SUS é ilustrado por uma foto de um terreiro afrobrasileiro, isso apenas nos remete ao preconceito secular a que essas religiões sempre estiveram sujeitas. Para piorar, como apontado pela autora feminista Joice Berth em sua conta de Instagram, publicar esse texto no momento em que o Brasil investiga o assassinato de uma mãe de santo e líder quilombola é particularmente insensível. Isso acaba manchando o projeto de expandir o alcance da ciência.

O ser humano vive imerso na irracionalidade, e é com muito esforço e disciplina mental que coloca algumas áreas de sua vida sob algum tipo de critério racional. Se fôssemos puramente racionais, não levantaríamos da cama de manhã. Afetos, sentido de propósito, visão de mundo, crenças fundamentais, intuições morais; tudo isso foge ao domínio da razão, e ainda mais do método científico. Se estamos condenados a largas doses de irracionalidade, concentremos nossos esforços para combater as suas formas mais nocivas, e deixar o resto em paz.

Julgamentos sobre mães revelam a ideologia de onde partem, Vera Iaconelli, FSP

 A expressão "mãe só tem uma" foi usada desde os tempos do Império para diferenciar a mãe branca —genitora e parente— da cuidadora negra. As mães de leite e amas-secas eram escravas (as futuras babás) que se ocupavam da molecada que depois seriam seus donos ou patrões. A máxima servia para negar um fato considerado constrangedor: sempre houve muitas "mães", nem sempre da mesma etnia.

Mas "mãe só tem uma" também é uma forma atual de fingir que a categoria mãe é homogênea e reúne a nata do cuidado com a prole. Mãe seria não só a mulher que teve filhos mas uma espécie de pokémon evoluído da mulher. Ao tornar-se mãe, a mulher passaria de Pikachu a Raichu, apagando automaticamente a parte de sua biografia na qual sexuada rimava com balada.

A longa história de como chegamos à idealização da figura da mãe vai da fogueira em que se queimavam as bruxas ao burnout onde se queimam as profissionais e donas de casa. Para resumir, trata-se de ter empurrado a tarefa de cuidar —da casa, da família e da sociedade— para as mulheres, na tentativa de desonerar os homens, as empresas e o Estado em troca do selo de bela, recatada e do lar. O convencimento era feito pela ameaça física, de carregar a vexatória letra escarlate, da morte social que levava aos suicídios nas figuras de Anna Karenina e de Madame Bovary. Agora, o olhar vigilante das mídias funciona para enaltecer as mães ou para cancelá-las de vez.

Reza a lenda, desde fins do século 19, que as mulheres são instintivamente provedoras de cuidados e que homens são provedores financeiros. Mas não há como negar que a maioria absoluta das mulheres sempre acumulou as duas funções. Da divisão sexual do trabalho sobrou para a mulher a função "flex", enquanto o homem sequer cumpre sua parte no sustento de grande parte dos lares.

(Em tempo: está para ser votada a lei que regulariza a licença-paternidade)

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As obrigações femininas se multiplicaram na mesma medida em que as expectativas se tornaram surreais.

Pensemos o julgamento midiático do caso da atriz Larissa Manoela, cujos pais a teriam impedido de ter acesso à própria fortuna, alegando que era para protegê-la de exploradores. A lei brasileira é bem clara sobre o que é de quem nas situações de trabalho infantil, e o argumento de proteção da filha contra a ganância de estranhos se torna risível quando se sabe que a "filhinha" está com 22 anos. A psicanálise não perdoa a coincidência da data na qual essa bomba foi solta. Está aí um presente do Dias do Pais que não deixa dúvidas do destinatário.

Tão ruim quanto ter um pai/mãe invejoso/a, egoísta e ganancioso/a é ter um pai/mãe omisso/a diante de arbitrariedades cometidas contra o filho/a. No entanto, de lá para cá, só se ouve falar da mãe da atriz, como se o pai fosse uma flor de formosura.

Larissa Manoela com a mãe, a pedagoga Silvana Taques, e com o pai, o representante comercial Gilberto Elias, em foto publicada por ela nas redes sociais - @larissamanoela no Instagram

Em um mundo onde "mãe é tudo", a interpretação oscila entre ser tudo de bom —idealizada— e tudo de mau —execrada. Se ela é tudo, é o pai que está fora da conta.

A pergunta que insiste, e que revela o viés ideológico, é como uma mãe seria capaz de invejar, odiar, competir ou lesar um filho. A resposta é que existem tanto tipos de mães (e de pais) quanto existem tipos de mulheres (e homens) e que nesse grupo estão neuróticos, psicóticos, perversos, psicopatas, chatos, inconvenientes, gente boa, gente esquisita, enfim, tudo que pudermos colocar no balaio da humanidade.

Em cada filho se projeta uma miríade de expectativas, fantasias, ressentimentos, medos que só serão revelados no dia a dia da relação, em ato. Nem sempre o que se revela é simpático e, por vezes, é claramente criminoso. Para esses últimos, existe a lei. Para os demais, a eterna reflexão sobre o que os levou a serem pais/mães.