sábado, 18 de setembro de 2021

Crise econômica deve elevar déficit habitacional para 6,1 milhões de moradias no país, diz estudo, FSP

 

RIO DE JANEIRO

A crise econômica na pandemia, que inclui alta da inflação, restrição na área de energia, desemprego e instabilidade política, vai afetar também a oferta de moradias. O déficit habitacional deve crescer no país e atingir 6,102 milhões de moradias em 2021. A projeção é de um estudo da empresa de investimentos e gestão TCP Partners.

O déficit habitacional é um conceito que abrange três divisões: domicílios precários (improvisados e rústicos), coabitação (moradias formadas por cômodos de uma residência) e habitações com altos custos de aluguel em relação à renda dos moradores.

Em 2019, período pré-pandemia, o déficit brasileiro era de 5,877 milhões de unidades, conforme levantamento divulgado em março pela Fundação João Pinheiro.

Foi a partir desse resultado que a TCP Partners buscou estimar os efeitos da crise sanitária. Conforme a previsão da empresa, o déficit deve atingir mais 225 mil moradias em um intervalo de dois anos. Com isso, chegaria ao número de 6,102 milhões em 2021.

Ricardo Jacomassi, sócio e economista-chefe da TCP Partners, afirma que o avanço tende a ser puxado por três questões verificadas ao longo da pandemia. São elas: aumento do desempregoperda de renda de parte da população e alta dos custos de aluguel.

Vista aérea de casas do programa Minha Casa Minha Vida no distrito de Padre Nóbrega, na periferia de Marília, região centro-oeste do estado São Paulo - Alf Ribeiro - 29.abr.19/Folhapress

No caso do aluguel, Jacomassi destaca a disparada do IGP-M (Índice Geral de Preços Mercado). O indicador de inflação, referência para o reajuste de contratos de locação, acumulou avanço de 31,12% em 12 meses até agosto.

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Já a taxa de desemprego foi de 14,1% no trimestre encerrado em junho, dado mais recente disponível. Havia 14,4 milhões de trabalhadores desocupados no país à época.

“Projetamos a alta do déficit habitacional aplicando os efeitos da crise da Covid-19. Houve impactos nefastos na economia. Primeiro, tivemos alta do desemprego, depois queda da renda e aumento do aluguel”, frisa o economista.

A análise sobre o déficit habitacional faz parte de estudo da TCP Partners sobre as perspectivas para a indústria e o varejo de materiais de construção.

Conforme Jacomassi, há espaço para os setores crescerem no país. No entanto, as dificuldades associadas à pandemia, como o provável avanço do déficit habitacional, criam um “cenário desafiador”.

Esse horizonte de desafios, diz o economista, pode ser uma ameaça para os negócios até o primeiro semestre de 2023.

É que, além do desemprego, da inflação e da queda da renda de parte da população, um novo ciclo de aumento de juros começa a ser registrado no país.

Em uma tentativa de frear a pressão inflacionária, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) subiu a taxa básica de juros, a Selic, para 5,25% ao ano. O mercado financeiro espera novos avanços nas próximas reuniões do colegiado. A Selic serve como referência para linhas de crédito oferecidas no país, inclusive as de financiamentos imobiliários.

Juros mais altos encarecem empréstimos, o que joga contra a demanda do setor de construção como um todo, conclui Jacomassi.

“Com aumento nos juros e eventual redução no crescimento do PIB [Produto Interno Bruto], é provável que as empresas sintam efeitos."


A pandemia nunca existiu para eles, Alvaro Costa e Silva, FSP

 


A CPI da Covid tem oferecido ao público personagens e performances dignas do melhor teatro do absurdo. A maioria dos depoentes age como se vivesse em outro país e época: "Pandemia? Que pandemia? Preciso perguntar ao meu advogado. Invoco o direito de não me incriminar".

O terror que levou o Brasil a quase 600 mil mortes não existiu para o general Eduardo Pazuello, o coronel Elcio Franco, o PM Luiz Paulo Dominghetti, o empresário Carlos Wizard, a imunologista Nise Yamaguchi, o ex-chanceler Ernesto Araújo, o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, o deputado federal Osmar Terra, o reverendo Amilton de Paula e o resto da turma. Só o motoboy Ivanildo da Silva, que andou com dinheiro em espécie para cima e para baixo, sabia mais ou menos o que estava acontecendo.

O ex-ministro Eduardo Pazuello em ato político com Bolsonaro - Reuters

A talentosa trupe de facilitadores, influenciadores, delirantes, falsários, corruptos e picaretas em geral —todos de alguma maneira ligados à família Bolsonaro— garante a qualidade do espetáculo. Na função do ponto —o profissional da ribalta responsável por soprar as falas que devem ser repetidas pelos atores—, o senador Marcos Rogério vive seu grande momento. No núcleo cômico, o destaque é o senador Luis Carlos Heinze, piadista nato.

"Para quem o senhor trabalha?" "Eu prefiro o silêncio". O diálogo desta quarta-feira (15) entre o lobista Marconny Albernaz (este caprichou no nome artístico) e os membros da comissão poderia ter sido escrito por Ionesco. Canastrão incorrigível, Albernaz se atrapalhou e deu a deixa para a convocação de Ana Cristina Valle, ex-mulher de Bolsonaro.

Um grupo de juristas enviou à cúpula da CPI parecer que lista sete delitos --entre os quais crimes de responsabilidade, contra a humanidade e a saúde pública, prevaricação, incitação e charlatanismo-- cometidos pelo presidente durante a gestão da pandemia. Sete: a famosa conta de quem acredita que a mentira é a única coisa que importa na vida.

Hélio Schwartsman O que mais Bolsonaro precisa fazer?, FSP

 É assustador que 22% dos brasileiros ainda considerem o governo de Jair Bolsonaro ótimo ou bom —só dois pontos percentuais a menos do que o medido em julho. É uma resiliência impressionante. Afinal, um resumo de poucas linhas da gestão inclui quase 600 mil mortos na pandemia, inflação batendo nos dois dígitos, desemprego em alta, provável apagão elétrico, aumento na destruição ambiental e retrocessos em direitos humanos. O pseudoargumento do "pelo menos não tem corrupção" não vale, como mostraram as "rachadinhas" e a CPI da Covid.

Nem mesmo a pantomima golpista que o presidente ensaiou no 7 de Setembro parece ter afetado sua popularidade. Pergunto-me o que ele precisaria fazer para colocar seus apoiadores abaixo dos 10% —a estatura de nanico que a história lhe reserva. Estuprar criancinhas ao vivo no horário nobre da TV? Declarar que é ateu, gay e costuma vender maconha na porta das escolas?

É claro que, se escarafuncharmos com cuidado os dados do Datafolha, encontraremos notícias menos lúgubres. Já vão surgindo fissuras no apoio a Bolsonaro em grupos demográficos importantes, como o dos mais pobres e o dos evangélicos. Mais, olhando para as perspectivas econômicas, parece difícil encontrar algo em que o presidente possa se escorar para recuperar a popularidade.

Embora as dificuldades impostas pela epidemia tendam a arrefecer, um espetáculo do crescimento em 2022 é altamente improvável. Programas populistas capazes de alavancar o voto estão severamente limitados por uma situação fiscal difícil. Bolsonaro pode até tentar uma mandrakaria para burlar as regras, mas o mercado provavelmente perceberia o truque e jogaria dólar e juros nas alturas, o que significa mais inflação e menos votos.

A boa notícia é que, hoje, me parecem pequenas as chances de Bolsonaro ser reeleito. A má é que ainda resta um ano até o pleito, tempo suficiente para muita coisa ruim acontecer.