sexta-feira, 17 de setembro de 2021

MICHAEL KEPP - Um ultimato radical?, FSP

 

Michael Kepp

Jornalista norte-americano radicado há 38 anos no Brasil, é autor de ‘Tropeços nos Trópicos - Crônicas de um Gringo Brasileiro” (ed. Record) e ‘Um Pé em Cada País’ (Tomo Editorial, 2015)

Recentemente, eu, um americano que em abril passou 12 dias em um hospital do Rio de Janeiro com um caso grave de Covid-19, postei na minha página do Facebook uma mensagem que dizia: “Neste ponto da pandemia, decidi distanciar-me física e emocionalmente de qualquer pessoa que conheço que se recusa a ser vacinada contra a Covid. Isso inclui parentes e amigos de longa data, sem exceções. Proposta radical? Não, eu não acho”. E também enviei essa mensagem para todos os meus “amigos de Facebook”.

Dias depois, um amigo de infância, que votou duas vezes em Donald Trump, me enviou um e-mail perguntando qual era a lógica por trás do meu ultimato. E eu lhe respondi com o seguinte e-mail:
“Eu não vou mais me associar ou manter contato com aqueles que se recusam a ser vacinados. Por quê? Essas pessoas estão agindo de forma imoral em negar o bem comum e o direito coletivo de sobreviver num mundo no qual a Covid já matou mais de 4 milhões de pessoas. A vacinação contra a doença, embora não seja 100% eficaz, provou ser segura e é a única maneira de reduzir significativamente a transmissão, algo que já é consenso entre os cientistas. Máscaras e distanciamento social, por si sós, não farão isso, especialmente agora que a variante Delta está ganhando força.”


E acrescentei: “Além disso, se você se recusa a ser vacinado e precisar ser hospitalizado, estará ocupando desnecessariamente um leito que poderia ser usado por uma pessoa ainda não imunizada que desejava a vacina, ou mesmo por alguém que já foi vacinado e precisa de hospitalização, embora sejam casos pouco comuns”.

Tentei explicar para ele que estamos lidando com uma questão moral, não de liberdade, como muitos do movimento antivacina argumentam. Alguns americanos chegam a dizer que até recomendações de saúde pública sobre uso de máscaras amordaçam a liberdade individual. Embora meu ultimato não se estenda a esses extremistas, eu, que me recuso a seguir a “lei de Gérson”, argumentei que ninguém tem a liberdade de se negar a tomar vacina e, assim, colocar em risco a vida dos outros.

Eu também perguntei a esse amigo se ele havia se vacinado. Em vez de responder, ele me enviou várias notícias falsas de sites de extrema direita dizendo, sem apresentar nenhuma prova, que as vacinas não são nada seguras e já mataram milhares, senão dezenas de milhares de pessoas. Fake news. E acrescentou que, embora tenha ficado surpreso que alguém tão informado quanto eu não soubesse dos perigos das vacinas, não queria me perder como amigo.

Decidi então pagar o preço do meu princípio postado no Facebook e interromper a comunicação. Princípios são difíceis de seguir porque não admitem exceções. Mas eles nos dão uma moeda preciosa: respeito próprio. Algumas pessoas, porém, gastam com demasiada facilidade esse capital moral, como bem notou, com seu humor corrosivo, Groucho Marx: “Estes são meus princípios. Se você não gosta deles... Bem, eu tenho outros”.

Hélio Schwartsman - O Brasil vai sucumbir à variante delta do vírus?, FSP

 O Sars-CoV-2 já mostrou que é bom em frustrar previsões. O vírus, que, em setembro de 2020, ainda aparecia em artigos científicos como apresentando notável “estabilidade genômica”, acabou se revelando um mutante competente, que já rendeu meio alfabeto grego de variantes de interesse/preocupação. Quatro delas, alfa, beta, gama e delta, foram relacionadas a novas ondas epidêmicas em países em que se tornaram dominantes.

Repiques e quedas inesperados, aliás, foram uma constante ao longo do último ano e meio. Países que chegaram a sentir o gostinho de vitória sobre a Covid-19, como EUA e Israel, tiveram de retroceder. Outros, que já haviam se acostumado a colecionar derrotas, caso do Brasil, podem estar na iminência de um triunfo. É preciso aqui frisar o “podem”. Se há algo que o vírus já deveria ter nos ensinado é a humildade preditiva.

Seja como for, a temível variante delta já é a prevalente nas amostras submetidas a análise genômica no Brasil e, até aqui, não vimos nada parecido com a catástrofe que muitos bons cientistas prognosticaram. Não dá para assegurar que as coisas permanecerão assim, especialmente porque existe uma relação de
“feedback” negativo entre a intensidade da epidemia e sua percepção pela população: quanto pior a situação nos hospitais, mais as pessoas se cuidam e a transmissão arrefece; quanto mais seguras se sentem, mais elas relaxam e o contágio aumenta.

Já podemos, contudo, buscar explicações para o que vimos até agora. E a melhor hipótese é o avanço da vacinação. Embora a proporção de brasileiros adultos com imunização completa ainda seja baixa, 45%, a dos que já receberam ao menos uma dose chega a 82%. Nossa hesitação vacinal é baixa. Pelos estudos, a imunização parcial não é um escudo muito eficaz contra a delta. No caso do Brasil, porém, com uma população já castigada por uma variante 2.0, a gama, ela parece estar evitando o pior.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Brincando de cubo na 3ª Via, Elio Gaspari, FSP

fracasso das manifestações de domingo contra Bolsonaro ensina que brincando de cubo não se elege presidente. Se elegesse, Geraldo Alckmin estaria no Planalto. Em 2018 ele tinha cinco minutos e meio no horário gratuito de televisão, contra poucos segundos de Bolsonaro. Tinha também os blindados do PSDB contra o estilingue do PSL.

Em 1989, Ulysses Guimarães já havia sido humilhado por Fernando Collor. Tinha biografia, tempo de televisão, apoio de partidos e não chegou ao segundo turno.

O pessoal que brinca de cubo soma fatores como notoriedade, grana de todas as caixas, tempo de TV e apoios partidários. De vez em quando, tentam alavancar uma celebridade da telinha. Contudo, Collor elegeu-se porque apresentou-se como o “Caçador de Marajás”, e Bolsonaro com uma mistura de antipetismo com “nova política” (ninguém sabia o que era isso, mas foi-se em frente).

Brincar de cubo, como jogar gamão, é um hábito do andar de cima. Na essência, a brincadeira considera irrelevante a vontade popular. Assim, tanto no caso de Collor como no de Bolsonaro, deu no que deu: ambos aninharam-se no centrão.

O que há de surpreendente nesse delírio é que ele persiste no país que em 1984 elegeu Tancredo Neves, quando quase todo o andar de cima achava que, pelas leis da física, a Presidência estava entre o ministro Mário Andreazza e o ex-governador paulista Paulo Maluf.

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Tancredo Neves encarnava uma ideia civilizadora para enterrar uma ditadura falida. Era um político experimentado, tolerante, sábio mesmo.

Uma parte das pessoas dispostas a votar em Bolsonaro fazem isso porque têm horror a Lula e ao PT. Na outra ponta há gente que vota em Lula porque não quer mais ouvir falar em Bolsonaro.

O peronismo, assim como o antiperonismo arruínam a política argentina há mais de meio século. No Brasil, o bolsonarismo é uma espécie de doença infantil do antipetismo. Pelo visto, felizmente, saiu dos trilhos em pouco tempo. Na Argentina essa radicalização levou à mais sangrenta e imbecil das ditaduras latino-americanas.

Bolsonaro tornou-se um fenômeno inédito na política da República brasileira. Nela já apareceram conservadores, até reacionários, mas nunca surgiu um governante com os dois pés no atraso.

Ganha um fim de de semana em Budapeste quem for capaz de citar uma iniciativa relevante de seu governo que tenha dado certo. As duas ditaduras do século 20 tinham compromissos com o progresso. Basta lembrar a Consolidação da Leis do Trabalho de Getúlio Vargas e o Funrural do governo de Emílio Médici.

O Brasil só ficou com os dois pés no atraso na década de 40 do século 19, mas ainda assim saiu do atoleiro em 1850, quando dissociou-se do contrabando e passou a reprimir o tráfico de escravizados.

Naquele tempo, brincou-se de cubo até a hora em que a Marinha inglesa bloqueou a navegação negreira.

Brincando de cubo não se vai conseguir uma alternativa ao dilema Lula-Bolsonaro. Se essa alternativa aparecer, terá que vir montada em ideias e, sobretudo, num clima de tolerância generalizada. A ideia do “esse não” funciona um ano antes da eleição, mas, como diria o general Pazuello, na hora H do Dia D, eleição presidencial não é à la carte. O freguês tem que escolher o que está sobre o bufê.