segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Faça uma coisa de cada vez e seja múltiplo, Galileu

Não dá pra ser multitarefa. Muita gente já descobriu isso. Conheça pessoas que conseguiram se concentrar em uma atividade por vez, diminuíram a angústia e ganharam tempo pra curtir a vida

Priscilla Santos, Daniela Arrais e Érika Kokay

Editora Globo
RELÓGIO DE PONTO: O analista de sistemas Fabiano Morais cansou de se distrair na frente do computador. Criou um gestor de projetos online e hoje passa mais tempo com a família
Crédito: Anderson Schneider
Você começa a escrever um e-mail de trabalho, mas é interrompido pelo toque do celular. Atende à ligação e, quando desliga, vê avisos de mensagens na telinha. Abre uma delas mas, antes mesmo de responder, algum colega chama você para terminar aquela conversa que começaram de manhã... E assim você vai, pulando de uma tarefa para outra. Ao final do dia, o desconforto de ter começado muitas coisas, concluído algumas e produzido bem menos do que gostaria. Vem a angústia de que sobrou muita coisa para o dia seguinte — e pouco tempo para aproveitar a vida.

Esse comportamento, comum no multitasking, estilo dos que desempenham várias tarefas ao mesmo tempo, começa aos poucos a ceder espaço a um estilo oposto: o monotasking. Ou seja: concentrar em uma coisa de cada vez com a intenção de fazer tudo bem feito, de preferência passando algum tempo longe das distrações da internet. “É uma contra-tendência, uma antítese ao excesso de informação e estímulos que vivemos”, diz Linda Stone. Para essa ex-executiva da Apple e Microsoft e uma das maiores estudiosas de atenção humana hoje, estamos deixando a era da Atenção Parcial Contínua (CPA, em inglês), em que prestamos um pouco de atenção a várias coisas o tempo inteiro, para entrar na era do unifoco, em que de fato nos concentraremos nos que estamos fazendo no momento. “Tudo que é escasso se torna valioso. A nova escassez é ter tempo para pensar e se concentrar”, afirma Henry Manson, chefe de pesquisa da agência de tendências de consumo Trendwatching, uma das maiores do mundo. “Vivemos uma aceleração do tempo: tudo tem que ser rápido, imediato. Mas não se pode ter inovação sem períodos de reflexão e preguiça”, diz a filósofa Olgária Matos, professora da USP.

O analista de sistemas Fabiano Morais, 40 anos, de Brasília, é um representante dessa tendência. Fabiano é obrigado a passar horas e horas à frente do computador por conta de seu trabalho — ele desenvolve sistemas para a web. E entende bem o significado da palavra dispersão: “É aquela fissura de saber se alguém te mencionou no Twitter ou fez um post novo no Facebook”. Como empreendia seus próprios projetos e trabalhava de casa, o empresário não sabia mais o que era horário de expediente, final de semana ou feriados. Mas reagiu a essa falta de limites, e criou espaço para folgas e diversão. “Quis comandar o ritmo da minha vida”, diz. Um exemplo: Fabiano passou a fechar o e-mail e sites tentadores enquanto executa uma tarefa. Virou adepto da yoga e de meditação para aumentar seu foco no presente.

Quando percebeu que os resultados eram positivos, acabou criando um projeto próprio em torno do tema: o Moov, um serviço na web que permite compartilhar listas de tarefas, contatos e histórico de relacionamento entre uma equipe. Fabiano coordena ainda 15 pessoas em uma empresa de tecnologia da informação e aplica em grupo os benefícios do que aprendeu. “As noites e finais de semana, agora, se transformaram em tempo livre ao lado da família.”
 FIM DAS DISTRAÇÕES

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MULTIPROJETOS: O empreendedor João Paulo Cavalcanti é sócio de cinco empresas. Mas se concentra em uma por vez - e só responde aos e-mails que realmente farão diferença
Computadores, smartphones, tablets e aplicativos trouxeram a ideia de que a tecnologia poderia facilitar nossa vida e nos tornar mais eficientes. Assim, as empresas adotaram o pensamento de que, quanto mais coisas um profissional fizesse ao mesmo tempo, melhores seriam seus resultados. Nas entrevistas de emprego, o lance era ser multitasker. “Isso vem de companhias que tentam obter o máximo de produtividade das pessoas nas horas de trabalho. Se você conseguisse fazer 2, 3 coisas ao mesmo tempo, isso não significaria um melhor uso de seu tempo?”, diz o escritor americano Leo Babauta, autor do livro Focus: A Simplicity Manifesto in the Age of Distraction (Foco: Um Manifesto de Simplicidade na Era da Distração, sem versão brasileira). “E isso não passa de um mito.”

A ciência já provou o que Babauta diz: nosso cérebro não é multi-task. Quando tentamos fazer várias coisas ao mesmo tempo só nos tornamos mais lentos e aumentamos a chance de erros. Mesmo com a capacidade de armazenar 50 mil vezes mais dados do que todo o texto que há na gigantesca e famosa Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, a mente humana é programada para processar uma informação por vez. “Somente depois de concluir uma tarefa é que passamos para a seguinte”, afirma o pesquisador do Centro de Neurociências Cognitivas e Integrativas da Universidade de Vanderbilt, nos EUA, René Marois. Isso provavelmente ocorre porque as mesmas partes do cérebro são usadas em conjunto no processamento de diferentes dados — elas não aguentariam a sobrecarga de trabalho.

Quando achamos que estamos no modo multitarefa, na verdade, estamos apenas trocando de uma atividade para outra — e perdendo tempo com isso. “Quando você para de escrever um documento para checar um e-mail, leva alguns minutos para voltar a se concentrar no e-mail depois”, afirma Marois. Em um levantamento recente feito pela empresa americana de pesquisa Harmoni.e com cerca de 1.500 trabalhadores nos EUA e Reino Unido, um terço dos entrevistados confessou ser interrompido pelo menos a cada 15 minutos. Depois de cada distração, levam até mais de 20 minutos para recuperar o foco.
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 POUCO A POUCO

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SEMPRE FUI ASSIM: Incompreendida por ser monotasker, a administradora Patrícia Martins não desiste. Se algo não está em sua lista de afazeres desde cedo, é porque não era importante
Uma estratégia que vem sendo usada por quem decidiu se concentrar mais é dividir o trabalho em vários períodos de tempo, sempre curtos. Depois de cada um deles, breves intervalos de descanso. Esta é a lógica do método Pomodoro, criado pelo italiano Francesco Cirillo, ainda nos anos 80. Enquanto estava na faculdade, cansado de passar horas estudando e não aprender nada, pois sempre se distraía, Cirillo olhou para um timer de cozinha em formato de tomate (em italiano, pomodoro) e decidiu usá-lo como cronômetro. O reloginho marcava um ciclo de 30 minutos, que ele dividiu em 25 de concentração e 5 de descanso para levantar, tomar água, folhear uma revista, olhar pela janela.

Esses 5 minutinhos finais são vistos como o maior trunfo do método pelo engenheiro de software Marcelo Eden, 26 anos, de Recife. “Você recupera o foco. Durante o intervalo, às vezes, até aparece a resposta para algo que eu estava quebrando a cabeça.” O desenvolvedor de web Guilherme Reis, 21 anos, de Goiânia, também adepto do tomatinho, acredita que ele seja ótimo para quando você está sem motivação, justamente por estipular folgas entre a produção. “Quando estou no gás, posso ficar horas trabalhando em algo. Do contrário, é bom ter logo um tempinho livre como recompensa.”
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 GERENCIAR ATENÇÃO

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CANSEI DE CAFÉ COM COCA-COLA: As jornadas noturnas em agências de publicidade nunca fizeram a cabeça do diretor de marketing digital João Vargas. Agora, ele trabalha das 10h às 18h. Acabou a procrastinação
Crédito: Stefano Martini
Listar o que é importante — e desempenhar cada item com atenção até o fim — é um mandamento comum nos métodos de gestão de tempo. Mas essas listas ficam mais eficientes e contribuem para um trabalho de maior qualidade quando consideram o que nos motiva — e não apenas uma série de obrigações chatas que só nos desestimulam. “Isso acontece quando nos restringimos a controlar nosso tempo enquanto, na verdade, deveríamos gerenciar nossa atenção”, diz Linda Stone. Sob essa ótica, o que deve ser feito e, principalmente, o que não deve ser feito, se baseia em nossas emoções e intenções. Esse gerenciamento emocional do tempo também aparece na proposta de um método criado por Leo Babauta, o Zen To Done. Ele se resume a algo bem simples: priorizar o que é relevante, focar no presente, e desempenhar até o fim. Ao definir essas prioridades, Babauta recomenda que entrem tarefas ligadas a objetivos maiores na vida, àquilo que você quer fazer, não somente ao que deveria ou precisa.

Restringir-se a check lists e prazos só aumenta a sensação de sufoco e angústia tão comuns em nosso tempo. “Nem sempre dá para aplicar tudo isso na prática, mas ter como meta já ajuda bastante”, diz Augusto Campos, 37 anos, de Florianópolis, que trabalha com planejamento e gestão estratégica em uma grande empresa. “Às vezes preciso dizer não para algumas interrupções e solicitações”, afirma Augusto, que melhorou seus resultados e diminuiu os prazos, além de evitar que tarefas do trabalho invadissem seu tempo livre. Linda Stone diz ser mais eficiente quando segue o que chama de “jornada emocional”: “Quais são as tarefas que realmente quero fazer e por que as prefiro? É assim que escolho com o que vou me comprometer naquele momento”.

Para participar ativamente das 5 empresas em que é sócio, o empreendedor João Paulo Cavalcanti, 28 anos, de São Paulo, divide seu dia em momentos de imersão em cada projeto. “Conseguir entrar nos diferentes ritmos de cada atividade e dedicar-se a elas amplifica a capacidade de realizar. Ser monotasker é a única maneira de ser múltiplo”, afirma João, que tem uma start-up de internet, é vice-presidente de uma agência de tendências e participa de mais outras 3 empresas na área de pesquisa e tecnologia. João dedica entre uma e duas horas a cada atividade (projeto, reunião ou tarefa). Mas isso não significa que ele se preocupe com extensas listas de afazeres. Apenas coloca seu foco de maneira integral naquilo que acha mais importante. “Muitas pessoas reclamam que eu não respondo a e-mails ou mensagens. Mas eu respondo àquilo que é crucial, que fará diferença de fato”, afirma. João usa um aplicativo de gerenciamento de tarefas, o Things, no iPhone, para ajudá-lo a listar as prioridades.

E também um software, o Mindmeister, em que faz um mapa mental de suas ideias e, assim, consegue definir o que realmente vale sua atenção. Para ele, isso é suficiente. Mas reconhece: “Uma boa secretária é um salto quântico na vida de um monotasker”.
 PRESSÃO MULTITASK
Em seus estudos sobre foco, Linda Stone dividiu as últimas décadas no que ela chama de Eras de Atenção, que mudam a cada 20 anos. Em 1965 teve início a era do multitask simples. “No intuito de se fazer o máximo possível, inventamos as tecnologias e processos”, diz. Com o surgimento da web, levamos essa ânsia de sermos múltiplos ao limite. “A motivação passou de ‘eficiência’ para ‘não perder nada’, o que nos empurrou para atender a todas as ligações, responder a todos os e-mails”, diz Linda. “A superabundância de ferramentas e gadgets provocou uma sobrecarga digital”, afirma David Lavenda, diretor de marketing da empresa de pesquisa Harmoni.e. Em seu recente levantamento, 85% dos entrevistados afirmaram acessar o e-mail profissional nos finais de semana e quase metade segue conectada quando já está na cama.

O empreendedor Guilherme Komel, 37 anos, que presta serviços na área de internet no Vale do Silício, na Califórnia, o centro mundial de tecnologia, acredita que ser bom de negócios é entregar resultados. “Se a sua tarefa é responder a e-mails 24 horas por dia, 7 dias por semana, não ficar com seu Blackberry sempre ligado parece ruim”, diz Komel, que já viveu tempos em que acordava de madrugada para checar mensagens no celular. “Até que um dia senti que esses aparelhos eram controles remotos de gente”, diz. Hoje, Komel escolhe um lugar quieto para trabalhar, longe das distrações do MSN ou, como ele mesmo diz, de conversa fiada. “Sou monotasker porque prefiro bons resultados e rapidamente.”

Não é fácil desligar-se quando a expectativa, das pessoas e das empresas, é que se faça tudo ao mesmo tempo e se aceitem tranquilamente as interrupções. “Competência e desempenho são questionados, como se o fato de preferirmos desempenhar uma tarefa de cada vez nos tornasse menos capazes”, diz a administradora Patrícia Martins, 29 anos, do Rio de Janeiro, que trabalha em uma petrolífera. Patrícia é focada por natureza. Até 3 meses atrás, sequer tinha conta no Facebook. “As pessoas me olhavam como se eu fosse um ET quando eu dizia isso.”

No trabalho, Patrícia faz listas diárias de afazeres e mantém uma regra de ouro: jamais iniciar tarefas que não estão listadas. Se não estão lá é porque não são importantes naquele momento. “Foi a maneira que encontrei de me adaptar às exigências de uma vida corrida. Sinto um alívio enorme quando termino uma tarefa”, diz. Santana Dardot, 35 anos, diretor de negócios e planejamento de uma agência de comunicação online, em Belo Horizonte, também sente que, ao fazer uma coisa de cada vez, tira uma preocupação da mente. “A ansiedade baixa e o trabalho flui mais leve e com mais foco”, afirma. A sensação de missão cumprida finalmente chega logo, algo cada vez mais raro em nossos dias.
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 PROCRASTINAÇÃO

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JOGUEI TUDO PRO ALTO: Sem tempo para as filhas, a analista de marketing Alessandra Garrido parou de trabalhar por um ano. Depois voltou à labuta, mas com horário flexível
Crédito: Ricardo Corrêa
Quando estamos sem foco, de fato, tendemos a adiar cada vez mais o que quer que seja. “A procrastinação faz parte desse tédio”, afirma Olgária Matos. “Tanto faz adiar uma coisa ou não. Não tem sentido fazer agora ou depois. O tempo é preenchido com coisas vazias”, diz. A sensação de nada no fim do dia, então, não é descabida, mas uma consequência esperada: de fato, grande parte do que se fez não era significativo.

O diretor de marketing digital João Vargas, 26 anos, do Rio de Janeiro, nunca viu graça nas famosas jornadas noturnas das agências de publicidade. Trabalhando 5 anos em uma, cansou de passar noites regadas a café e Coca-Cola fazendo o que poderia ter sido feito ao longo do dia. “Às vezes eu trabalhava das 7h à meia-noite e parecia que nada tinha sido feito.”

Quando se tornou sócio de uma empresa de marketing online, João decidiu mudar as coisas. Começou a selecionar suas tarefas por ordem de importância e a executá-las com concentração máxima. Para organizar o dia a dia, ele usa um software criado por sua própria companhia, que monitora não somente as atividades dele, como de todos os funcionários. “Posso saber, em tempo real, o que cada um está fazendo e acompanhar sua lista de produtividade”, afirma. O resultado é que os funcionários podem jogar pôquer e videogame na empresa. “Justamente porque eles conseguem se planejar”, diz João. Depois da mudança, ele passou a chegar no trabalho às 10h e sair às 18h todos os dias. Ganhar tempo para curtir a vida, de fato, é uma das melhores consequências de aprender a colocar a atenção em uma coisa por vez.
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 SÓ O QUE IMPORTA
Quando era sócia de uma agência de design gráfico, a analista de marketing Alessandra Garrido, 38 anos, de São Paulo, corria de uma reunião para outra. Ao chegar em casa, a vida seguia agitada: o marido trabalha no ramo de bares e restaurantes, o que fazia com que o casal tivesse que sair bastante à noite. Quase não sobrava tempo para as duas filhas, hoje com 4 e 6 anos. “Minha vida era uma loucura”, diz. Para fazer uma atividade física, precisava se levantar às 5h da matina. “Eu não ia às aulas de natação das meninas, não buscava na escola, não almoçava junto para ensinar a cortar o bife.”

Foi então que Alessandra resolveu mudar radicalmente. Vendeu sua parte na empresa e tirou um ano sabático, em que se dedicou a alguns cursos livres e à companhia das filhas. Passados 12 meses, ela voltou à labuta. Abriu outra empresa, agora de pesquisa de mercado. A grande diferença é que desta vez não tem sede nem telefone fixo. Cada sócio tem um celular e faz seu horário de acordo com suas prioridades. Com a flexibilidade, ela consegue passar mais tempo com as meninas e investir mais atenção na hora em que está trabalhando, já que não fica pensando no que poderia ou deveria estar fazendo. “Primeiro dei uma freada e, depois, outra velocidade à minha vida. Acaba sendo um carro que consegue andar rápido ou devagar, mas não mais no automático.”

Histórias assim expressam uma mudança de perspectiva. Antes, algumas dessas pessoas olhavam para uma vida superagitada e pensavam no quanto poderiam ganhar com isso. Agora, pensam no que perdem ao viver dessa maneira. “Consideramos mais profundamente o que tem valor para nós e daí surgem novos comportamentos”, diz Linda. Por exemplo, o monotasking. Para a professora de semiótica da USP e pesquisadora do Observatório de Tendências do Ipsos, Clotilde Perez, essa busca pelo foco surge no cruzamento de duas tendências maiores. Uma é nossa necessidade atual de bem-estar. A outra é a de se aproveitar o que as tecnologias têm de melhor, mas sem abrir mão de curtir seu próprio canto. “A sensação de querer dominar o mundo ficou para trás. Estamos menos ambiciosos”, afirma. O que as pessoas buscam, nessa perspectiva, é viver em uma espécie de microcosmos conectado. “Querem criar ovelhas na Irlanda, mas acessando internet no iPad”, diz Clotilde.

Quando o Fabiano, a Alessandra ou o João decidiram se concentrar em uma coisa de cada vez, além de produzir mais e melhor, parte da intenção era ter mais tempo para viver tudo o que se passa em seu próprio universo. O que, nesse mundo superestimulante, é um desafio e tanto, mas que pode ser alcançado passo a passo. Uma coisa por vez. O carioca João Vargas diz que está quase lá. “Não falta muito, ainda vou conseguir. E o meu cachorro, o Shoyu, vai adorar!” 

‘São bons empregos, estúpido’, OESP

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S. Paulo
18 de novembro de 2019 | 05h00
O título deste artigo é tradução literal do nome escolhido pelo consagrado economista Daron Acemoglu, do MIT, para um de seus últimos e mais instigantes textos: It’s Good Jobs, Stupid, no original em inglês. Sua preocupação central é entender o crescimento da desigualdade nos países desenvolvidos e sugerir medidas para combatê-la. Claro, o problema da desigualdade também é de grande importância para países emergentes como o Brasil.
Para Acemoglu, a redução das desigualdades (e da pobreza) depende da criação de bons empregos, ou seja, trabalhos formais bem remunerados e de alta produtividade. No desenvolvimento de suas ideias, aborda um ponto polêmico. Para ele, a instituição do salário mínimo e a atuação dos sindicatos exerceram papel importante na Europa e nos EUA do pós-guerra, ao forçar as empresas a procurarem tecnologias mais produtivas. Com isso, cresceu a produtividade, acelerou-se o desenvolvimento econômico e surgiram bons empregos. Não é o que vem acontecendo nas últimas três ou quatro décadas, tanto nas economias desenvolvidas como nas emergentes. Para alguns autores, como Lawrence Summers, a desigualdade, além de ser um problema social, tem inibido o próprio crescimento econômico.
A resposta usual para esse problema é que o mercado é amplamente eficiente, mas injusto. Isso significa que a mão invisível aloca os recursos onde estes são mais produtivos, cria novas tecnologias e acende as chamas do empreendedorismo, mas não lida bem com as questões da desigualdade e da pobreza. Se é assim, segue o raciocínio, deve-se deixar o mercado fazer sua parte e usar a tributação para transferir renda dos mais ricos para os mais pobres. Acemoglu e este modesto colunista não concordam com essa visão, por duas razões.
A primeira é que a redistribuição por mecanismos tributários tem sido ineficaz em grande parte do mundo. Nenhuma nação logrou alcançar a prosperidade por esse caminho. Em vez disso, o desenvolvimento compartilhado geralmente resulta da capacidade das sociedades de criar “mercados inclusivos”, que forneçam condições equitativas para as pessoas ascenderem econômica e socialmente. E isso depende de bons empregos.
A segunda é que os mercados, especialmente na era de crescimento da automação e da globalização, têm se mostrado ineficientes para a criação de bons empregos. A tecnologia caminha no sentido de usar a inteligência artificial para substituir o uso de mão de obra, destruindo postos de trabalho. A globalização tem aumentado a oferta de mão de obra barata, reduzindo o poder de barganha dos empregados com seus empregadores. A concentração econômica em empresas gigantescas, no lugar do mundo competitivo dos manuais dos economistas neoclássicos, agrava ainda mais esse problema.
No entanto, não é verdadeiro que o crescimento da desigualdade é consequência inevitável da automação e da globalização. O avanço da tecnologia da informação e da inteligência artificial pode ser usado para a criação, não para a destruição, de bons empregos. Por exemplo, o ensino a distância pode concorrer para a melhor qualificação da mão de obra a custos menores. Retreinamento e requalificação de pessoas que perderam seus empregos em virtude das novas tecnologias também são fundamentais.
É neste ponto que a atuação das políticas públicas ganha importância para corrigir as falhas de mercado que têm inibido a criação de bons empregos. Mais do que nunca é necessário melhorar a qualidade de ensino, adequando a formação escolar para desenvolver habilidades nos estudantes compatíveis com o mundo de alta tecnologia e de constante mutação na demanda de mão de obra. Da mesma forma, cabe ao governo dar apoio a pesquisas e inovações que usem a tecnologia para criar bons empregos.
Se deixarmos este tema fora da agenda governamental, aí, sim, agiremos como estúpidos.
*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA
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Mudança em regra pode colocar freio à expansão de energias renováveis, OESP

Amanda Pupo e Anne Warth, de Brasília, O Estado de S. Paulo
18 de novembro de 2019 | 05h00

Desde que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) regulamentou a geração própria de energia, o modelo vem crescendo no Brasil. Para o setor solar, esse movimento pode ser estrangulado, se a agência aprovar as novas regras. Especialistas, no entanto, argumentam que o subsídio dado onera os mais pobres e aumenta os custos das distribuidoras.
Para incentivar a geração própria, a agência criou em 2012 um sistema de compensação: quando a energia gerada for superior à consumida, o usuário fica com uma espécie de crédito a ser utilizado para diminuir a fatura em meses seguintes. Para que esse sistema funcione, eles precisam estar conectados à rede de distribuição.
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O setor de energia renovável não concorda com a agência reguladora Foto: FELIPE RAU/ESTADAO
O valor pago por esses consumidores às distribuidoras é a diferença entre o que foi gerado e o que foi consumido. Os que geram mais do que consomem apenas pagam uma taxa mensal de cerca de R$ 50. Para a Aneel, esses produtores precisam começar a pagar pelo custo de uso da rede, assim como pelos encargos setoriais, como todos os outros consumidores no País.
O setor, no entanto, não concorda com a agência reguladora. Presidente da Faro Energy, Pedro Mateus diz que a empresa já investiu R$ 250 milhões no Brasil em energia solar e projetava injetar mais R$ 300 milhões em dois anos. Agora, o investimento entrou em compasso de espera, já que a proposta da Aneel, na avaliação dele, torna o modelo “inviável”.
Boletim publicado pela Consultoria Legislativa do Senado ressalta as distorções do modelo atual e afirma que ele se sustenta em um subsídio que onera a população mais pobre. “O conceito moderno de sustentabilidade incorpora o aspecto social”, diz o documento, assinado pelo consultor Rutelly Marques da Silva. “A preservação ambiental não deve ser um mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para aqueles de maior renda.”
O presidente da consultoria PSR, Luiz Barroso, avalia que os custos das distribuidoras devem ser cobrados dos donos dos painéis – já que eles dependem dos serviços dessas empresas. “Se esses usuários colocassem baterias e quisessem de desconectar da rede, eles não utilizariam a rede e, portanto, não haveria esta discussão”, disse. Hoje, no entanto, o custo das baterias não compensa esse investimento.