sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Suzana Herculano-Houzel - Para fazer da IA uma ferramenta, FSP

 Los Angeles foi assolada por tanta criminalidade que a cidade instalou um sistema de justiça por inteligência artificial (IA), uma corte chamada Mercy (Misericórdia), para coletar e avaliar todos os dados acessíveis pela internet —mídia social, vídeos e mensagens em telefones, câmeras de segurança, relatório legista e outros documentos policiais— para julgar e sentenciar criminosos em apenas 90 minutos.

O sistema parece promissor aos olhos do detetive que mediou a criação da corte de IA, até... ele ser preso, acusado de ter matado sua esposa. A corte então lhe dá os tais 90 minutos para provar sua inocência, e o que se segue é o filme "Justiça Artificial" (Mercy, no original), do diretor Timur Bekmambetov.

A imagem mostra um letreiro iluminado com as palavras 'AI DATA CENTER' em letras grandes e brancas. Ao fundo, há uma estrutura com luzes azuis, sugerindo um ambiente tecnológico, possivelmente um centro de dados. A iluminação e o design moderno destacam a temática de inteligência artificial.
Uma corte formada por inteligência artificial que analisa em 90 minutos vídeos, mídias sociais, documentos e imagens de câmeras de segurança para julgar crimes é a história por trás do filme "Justiça Artificial", de Timur Bekmambetov - Josep Lago/AFP

O que começa como uma reedição do "Minority Report", do Spielberg, vira um exercício interessante sobre as limitações da inteligência artificial e como seu valor depende do uso que se faz dela.

Poucos dias atrás este era o tópico da reunião semanal do grupo de Estudos Sobre Evolução na Universidade Vanderbilt, e dias antes, do seminário do meu próprio departamento: o que constitui bom uso de IA por cientistas? O palestrante, um colega antes entusiasta do uso de IA para fazer descobertas científicas, testou o AutoDiscovery, ferramenta do Allen Institute for AI (Ai2) que varre a literatura como se isso fosse suficiente para gerar novos avanços. Sua conclusão: os algoritmos sabem deduzir (aplicar uma regra geral) e induzir (testar casos para achar uma regra), mas não sabem abduzir, que é gerar novas hipóteses testáveis.

Achar que basta olhar para todos os dados para "revelar a verdade do mundo" é uma falácia manjada, da qual o finado Douglas Adams bem fez troça em seu "Guia do Mochileiro das Galáxias". No livro, a humanidade reúne seus recursos para construir um supercomputador que por fim revelará a resposta final sobre "a vida, o universo e tudo mais". A resposta é 42, e a humanidade precisa construir outro supercomputador para destrinchar qual exatamente é a pergunta para a qual a resposta é 42. O supercomputador é o planeta Terra.

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Como Douglas Adams bem disse, entender o mundo começa com fazer boas perguntas e continua ao empregar ferramentas para achar respostas. Mas, como explico aos alunos do grupo de evolução, usar uma ferramenta é muito mais do que interagir com um objeto, por exemplo fazendo uma pergunta para obter uma resposta. Usar uma ferramenta significa interagir com um objeto para alcançar (ou "desbloquear", como nos videogames) uma segunda ação. Bater um martelo na parede não é usá-lo como ferramenta; bater o martelo em um prego para enterrar o prego na parede é.

Usar a IA como ferramenta para fazer revelações sobre o mundo, portanto, requer mais do que consultá-la como um oráculo ou colega omnisciente, editor de texto ou fashionista. Só usa IA como ferramenta quem tem hipóteses em mente ("a parede vai segurar o prego, que vai segurar o quadro"), testáveis por meio da oportunidade daquela segunda ação que a ferramenta oferece.

E quem tem hipóteses testáveis sobre o mundo é quem tem valores na reta, seja um quadro bonito, um enigma que importa para a gente ou a execução iminente por uma corte de IA. Perguntas sobre o mundo dos humanos envolvem valores humanos, que a IA da corte Misericórdia não tem como entender – mas, quando ela vira uma ferramenta a serviço do detetive, a história é outra. O filme, disponível na Amazon Prime, vale a pena.


A materialização do absurdo -Helio Schwartsman, FSP

 O surrealismo às vezes se impõe, mas o Brasil faturará o troféu André Breton de Materialização do Absurdo se se confirmar um cenário em que a crise no STF leve à eleição de Flávio Bolsonaro.

Ora, a causa principal do esfacelamento reputacional da corte constitucional é o envolvimento de vários ministros com o ex-banqueiro fraudador Daniel Vorcaro. Dos dois principais candidatos à Presidência da República, há apenas um comprovada, direta e profundamente enrolado nas tramas do Banco Master. Seu nome é Flávio Bolsonaro. Ofende a lógica que ele seja eleitoralmente beneficiado pelo escândalo no qual está metido. Mas um dos problemas da democracia é que ela não necessariamente se curva à lógica.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, durante evento no 7 de Setembro - Miguel Schincariol/AFP

Sempre fico receoso em atribuir movimentações em pesquisas de intenção de voto a um único fato determinado, mas, a crer na maior parte dos analistas, a sangria pública do Supremo está direta ou indiretamente favorecendo o Bolsonaro menor. Na mais genérica das explicações, a crise despertaria um sentimento antissistema que se consubstancia em votos na oposição.

Lula passou o recibo de sua preocupação ao anunciar, a 17 dias do primeiro turno, um reajuste de 15% para o Bolsa Família. Se a medida serve para evitar a perda de mais votos, ela também complica bastante a gestão da economia agora e mais ainda num eventual próximo governo. Pode até afastar o microcosmo dos eleitores independentes fiscalmente responsáveis que poderão ser decisivos num provável segundo turno.

O absurdo da situação salta aos olhos. Para tentar evitar que Flávio Bolsonaro continue a se beneficiar das consequências de um escândalo de corrupção em que ele próprio está envolvido, Lula abraça um populismo caricatural, próximo do adotado por Jair Bolsonaro em 2022, que prejudica seu governo.

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Como sempre digo aqui, a democracia é indispensável por permitir que nos livremos de governantes sem banhos de sangue. Mas, no que diz respeito à responsabilização de políticos por seus feitos e à seleção de bons líderes, ela é bem fraquinha.

Ponto de ônibus, o lugar onde o tempo não passa - Mauro Caliari, FSP

 Nos últimos anos, os ônibus vêm perdendo passageiros para o transporte individual. A perda reflete a qualidade da experiência de ser passageiro numa rede mal gerida. Além de todos os problemas conhecidos de falta de confiabilidade da rede e má qualidade dos ônibus, há um aspecto que não tem sido muito falado: o desconforto de quem espera pelo transporte num ponto de ônibus. É daqueles assuntos que parecem pequenos para quem anda de carro, mas que fazem uma diferença tremenda no cotidiano de milhões de pessoas.

Paulistanos passam em média 24 minutos por dia nos pontos de ônibus. O tempo real importa menos que a percepção. Quando estamos tentando não perder o ônibus, não sofrer um assalto e não atrapalhar os passantes, cada minuto parece durar três vezes mais.

Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo
Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress

Aqui pertinho da minha casa, tem um ponto que está sempre cheio de dia e escuro de noite. Não há lugar para sentar. Quando faz sol, o pessoal se abriga na sombra de uma loja. Quando chove, vamos todos para baixo de uma pequena marquise. A plaquinha com os itinerários das linhas sumiu faz tempo e ninguém repôs. A calçada é estreita e o carrinho de pipoca disputa espaço com a multidão. Há uns dois meses, colocaram um enorme painel de publicidade na calçada estreita e o que era ruim, piorou. O totem diminuiu a área de passagem e tapou a visão da rua.

Além de desconfortável, a espera no ponto de ônibus pode ser também amedrontadora. O ponto de ônibus vazio na madrugada é comumente citado como um dos piores lugares na cidade para uma mulher. Para chegar cedo ao trabalho, é preciso acordar de madrugada e ficar num lugar mal-iluminado e desprotegido. Existe até um serviço chamado Abrigo Amigo, que oferece, em 200 pontos, uma videochamada com atendentes remotos nos painéis, para tentar suavizar essa espera durante a noite.

São Paulo tem em torno de 20 mil pontos de ônibus. Desde 2013, a construção e manutenção são de responsabilidade de uma concessionária, que, em troca, explora as receitas dos painéis de publicidade. Na época, a vencedora foi a empresa Ótima, comprada depois pela Eletromídia, do grupo Globo. Como em qualquer concessão, a Prefeitura faz a outorga e deveria fiscalizar de perto a prestação do serviço.

Dos 20 mil pontos existentes, 6,5 mil têm abrigos, o restante é apenas um poste na calçada. Os abrigos, batizados de ‘hightech’, ‘caos’ e ‘brutalista’, têm problemas primários. Basta sentar num deles por cinco minutos para constatar que o arquiteto responsável pelos designs não era assíduo frequentador de ônibus. O banco é pequeno e estreito. As paredes são de vidro, que, mesmo com um reforço no teto que veio depois, viram uma pequena estufa. Alguns não têm iluminação.

As placas com mensagens publicitárias rendem mais um desconforto. Como elas se destinam muito mais a quem passa de carro na rua, a tendência da concessionária é instalá-las perpendicularmente à calçada, diminuindo a área de passagem e a visibilidade de quem espera o ônibus.

Se queremos aumentar o peso do transporte público, vai ser preciso mudar a experiência como um todo: a frequência, os intervalos e a capilaridade das linhas, a qualidade dos ônibus. Não é à toa que São Paulo tem mais de 80 mil reclamações e inacreditáveis 300 mil multas anuais aplicadas às empresas de ônibus (e hoje saiu a notícia do envolvimento de gestores da área de transporte com o crime organizado que vai merecer mais tempo para ser entendida).

A mudança, porém, tem que começar antes do embarque. Se o ponto de ônibus é a porta de entrada para o transporte público, então, o sistema paulistano está tratando mal os convidados e, provavelmente, afastando novos usuários em vez de acolhê-los.