sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Extrema direita agradece a autodestruição do Supremo - Alvaro Costa e Silva, FSP

 Nos projetos de destruição da democracia por dentro, a luta contra o Judiciário é essencial. Em vez de fechar os tribunais, usando a força, com "um cabo e um soldado", o autocrata atual age para enfraquecer, aparelhar ou neutralizar a independência das cortes.

Exemplos não faltam de que a Suprema Corte é o alvo número 1: Hungria, Venezuela, Israel, Polônia, Turquia. A relação entre Executivo e Judiciário gera embates nos Estados Unidos, na Argentina, na Itália, na Colômbia, países que estão na rota do tsunami de extrema direita.

Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele —modelo para as candidaturas de Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado— substituiu ministros para mudar a Constituição e se reeleger. Derrotado nas eleições de 2022, após passar todo o mandato atacando e desacreditando o Supremo, Jair Bolsonaro tentou um golpe que só não deu certo porque Exército e Aeronáutica pularam fora e, sobretudo, porque não teve o apoio dos EUA, sob Joe Biden.

Herdeiro do golpismo de Jair, o filho 01 tem hoje um ministro que lhe facilita a campanha presidencial e meio trabalho realizado diante de uma corte que resolveu se autodestruir, com conchavos, interesses não republicanos, traições, cinismo e corrupção.

Pelo menos cinco ministros se deixaram vorcarizar. Puxando a fila está Alexandre de Moraes, que combateu o presidente golpista, mas se rendeu ao empresário picareta. Suas explicações não convencem. Idem para André Mendonça, que "esqueceu" de avisar ao país que Flávio Bolsonaro é investigado por ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. Tragado pelo buraco Master, Dias Toffoli finge-se de morto.

Mensagens do celular de Vorcaro tratam de pagamentos (que seriam de R$ 500 mil mensais) destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. Outras revelam sua intimidade com Rodrigo Fux, filho do ministro do STF. Rodrigo, a exemplo de Flávio Bolsonaro, chama o banqueiro de "irmão".

Os amigos do rei formavam uma espécie de irmandade, que se dedicava a mamatas e surubas.

Ruy Castro - Eu e o comunismo - FSP

 Rio de Janeiro


Meus leitores bolsonaristas –a quem agradeço pela fidelidade com que não perdem o que escrevo neste espaço-- costumam me honrar com a pecha de comunista. Não que me envaideça dessa classificação, porque, para eles, se uma tartaruga morder o dedão do pé de Jair Bolsonaro no quintal de sua luxuosa prisão domiciliar, será uma tartaruga comunista. Como deve haver tartarugas de todas as cores políticas, não posso falar por ela, mas, no meu caso, lamento decepcioná-los. Não sou nem nunca fui comunista. Sou Flamengo, o que me satisfaz com sobras em matéria de fé ideológica, partidária e religiosa.

Não só isso como, cercado de intelectuais, artistas e colegas teoricamente de esquerda, há muito não sei de nenhum comunista entre eles. Ser comunista, hoje, equivale a torcer em futebol pelo Andarahy, no Rio, ou pelo Ypiranga, em São Paulo, com todo o respeito por esses times outrora grandes, hoje extintos. Aliás, quero crer que suas torcidas ainda sejam maiores do que os nostálgicos pelo velho e também extinto Partidão.

Bons tempos para ser comunista deviam ser de 1945 a 1947, quando o PCB (Partido Comunista do Brasil) estava na legalidade, disputava eleições e tinha como filiados Jorge Amado, Graciliano Ramos, Astrojildo Pereira, Oscar Niemeyer, Villa-Lobos, Guerra Peixe, Carlos Scliar, Portinari, Di Cavalcanti e o Barão de Itararé. Ou durante a ditadura, com João Saldanha, Ferreira Gullar, Dias Gomes, Enio Silveira, Nelson Pereira dos Santos, Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Carlinhos Lyra e Nora Ney. Os últimos comunistas que conheci foram Jararaca, coautor de "Mamãe Eu Quero", Ziraldo e Bussunda, e já faz tempo.

Além disso, não há mais aqueles países que ditavam o comunismo, como a URSS de Stálin, a China de Mao, a Cuba de Fidel. A Rússia hoje é uma pândega, Putin conversa até com Bolsonaro. A China comercia com Taiwan. E Cuba não comercia com ninguém, porque os EUA não deixam.

E como posso ser comunista se sou fã de John Wayne, do marinheiro Popeye e de Doris Day?

Marcelo Mussarelli Corghi - Em defesa da moradia possível, FSP

 Marcelo Mussarelli Corghi

Engenheiro civil pós-graduado em gestão financeira, não possui vínculos com incorporadoras, imobiliárias ou entidades representativas do mercado imobiliário

O artigo "Em defesa da moradia digna" (11/9), publicado nesta Folha em resposta a "Em defesa dos studios" (31/8), do blog Caos Planejado, começa contestando uma tese e termina discutindo outra. O texto original argumentava que unidades menores podem ampliar a oferta de moradia em regiões valorizadas. A resposta dos urbanistas não refuta esse ponto: afirma que o verdadeiro problema seria a qualidade dos espaços. Pode ser. Mas então estamos falando de outro problema.

Os autores citam cozinhas pequenas, poucas janelas, ventilação deficiente e isolamento acústico ruim. São críticas a projetos ruins, não aos studios como tipologia. Um apartamento de 25 metros quadrados pode ter boa iluminação e ventilação; um de 70 m² pode ser péssimo nesses aspectos. Se o problema é ventilação, discutamos ventilação. Defeitos de projeto não demonstram que apartamentos pequenos sejam, por definição, indignos. Há ainda uma contradição. Os autores afirmam que os studios se tornaram "a única alternativa disponível no mercado para grande parte da população" porque os imóveis encareceram mais que a renda. Em seguida, criticam o mercado por reduzir a área para fazer a moradia caber no orçamento.

Vista geral de sala de jantar, cozinha e sala de estar de apartamento decorado, com móveis e paredes de tijolinho brancos e parede ao fundo na cor azul petróleo
Apartamento de 37 m² na Vila Mariana, em São Paulo - Nicole Fialdini/Divulgação

Mas não seria justamente essa uma das funções do studio?

Se alguém não consegue pagar por 60 m² em determinada região, talvez consiga pagar por 30 m². Podemos preferir apartamentos maiores —eu também prefiro —, mas preferências não eliminam restrições orçamentárias. Quanto custaria a mesma unidade, no mesmo terreno, se a legislação obrigasse que tivesse o dobro da área? Certamente não custaria menos.

Também é arriscado aproximar recorde de produção imobiliária e crescimento das favelas como se um explicasse o outro. Famílias de renda muito baixa podem continuar fora do mercado formal mesmo durante um boom de construção. A pergunta relevante é: como estaria a situação sem essas unidades?

O mesmo cuidado vale para imóveis vagos. Um domicílio classificado como vago pelo Censo não é necessariamente abandonado por um especulador. Pode estar à venda, para alugar, em reforma ou entre dois ocupantes. A estatística, sozinha, não informa sua causa.

Dignidade não deveria significar que arquitetos, incorporadores ou funcionários públicos decidam quantos metros quadrados uma pessoa adulta deve desejar. Cabe ao poder público garantir segurança, salubridade e habitabilidade. Depois disso, pessoas diferentes podem fazer escolhas diferentes.

O studio não resolverá o déficit habitacional, e projetos ruins merecem críticas. Mas combater uma crise de moradia restringindo uma das formas mais baratas de produzir unidades bem localizadas parece uma solução peculiar.

Antes de sacramentar que as pessoas moram em casas pequenas demais, talvez devêssemos perguntar por que ficou tão caro construir casas maiores —e por que nossas cidades tornam tão difícil construir mais delas.