quinta-feira, 18 de junho de 2026

Drauzio Varella -De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, FSP

 Sei que as aparências enganam, mas Joana não tinha cara de bandida.

No Brasil, a faixa etária que mais cresce é a dos que estão acima dos 65 anos. Em números arredondados: em 2010 eram 20 milhões, contingente que aumentou para 22 milhões, no Censo de 2022.

Vemos o perfil de uma moça ajoelhada diante de uma cadeira. Nela vemos uma outra mulher sentada. O corte do quadro não permite ver o rosto da mulher sentada. A moça ajoelhada está amarrando uma corda no tornozelo da outra mulher. Sua expressão é triste, lágrimas molham seu rosto. A cor azul acizentada do quadro todo transmite tristeza e clausura.
Ilustração de Libero para coluna de Drauzio Varella de 18 de junho de 2026 - Libero /Folhapress

Os demógrafos definem o índice de envelhecimento dividindo o número de habitantes com mais de 65 anos pelo de crianças entre zero e 14 anos. Em 2010, o índice era de 30%, ou seja, 30 pessoas com mais de 65 anos para cada cem crianças. Em 2022, esse índice subiu para 55%.

Graças à redução da fecundidade e dos nascimentos, a pirâmide etária no Brasil começou a mudar de formato a partir dos anos 1990. A base foi se alargando com o passar dos anos, como aconteceu nos países mais ricos. A diferença é que neles as mudanças ocorreram em mais de 60 anos; aqui, em metade desse tempo.

O envelhecimento dos brasileiros é visível nas ruas e no ambiente familiar. Em meados do século 19, Machado de Assis descreveu "um velho gaiteiro de 50 anos", num de seus contos. Hoje, quando perdemos um parente de 70 anos, dizemos que morreu moço.

O envelhecimento interfere com a organização da sociedade. A Previdência Social terá condições de pagar aposentadorias mensais até os 90 anos, enquanto o número dos que chegam ao mercado de trabalho não para de diminuir? As empresas continuarão a considerar velhos e demitir funcionários de 50 ou 60 anos?

Na área da saúde, as consequências poderão ser trágicas. Os brasileiros envelhecem mal: quando chegam aos 60 anos, mais da metade sofre de hipertensão arterial; o número de pessoas com diabetes deve andar perto dos 20 milhões; os índices de obesidade, com seu cortejo de complicações, aumentam a cada pesquisa do Vigitel —o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico.

Nessa faixa etária é cobrada a conta do fumo, do abuso de álcool e de drogas ilícitas, do sedentarismo e do consumo de alimentos ultraprocessados.

Hoje, cerca de 80% dos atendimentos no SUS são de problemas crônicos que requerem controle pelo resto da vida. Doenças cardiovasculares e câncer são as principais causas de óbito. Criado no fim dos anos 1980, o sistema único não foi pensado para lidar com essa realidade.

Estamos preparados para enfrentar problemas dessa magnitude? Claro que não. Se o Japão, a Suécia e a Finlândia não estão, nós, neste país continental com tantas diferenças regionais, baixo nível educacional e distribuição de renda imoral, é que estaríamos?

De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, tragédia que cai nos ombros dos familiares, sem que o SUS esteja preparado para ajudá-los. Uma pessoa incapaz de se vestir, tomar banho, comer sozinha ou entender o que se passa ao redor exige cuidados dia e noite, geralmente a cargo de uma mulher da família, obrigada a interromper a carreira e a vida pessoal por anos consecutivos.

Joana foi a última paciente que atendi naquele dia, na Penitenciária Feminina de São Paulo. Veio, quando as demais já tinham voltado para as celas, acompanhada pela chefe de disciplina, procedimento de rotina no caso das prisioneiras recolhidas na ala do seguro, por correr risco de morte nas mãos das companheiras.

Ela vivia com a mãe, para lá de Guaianases, no extremo da zona leste. Como tantas outras, saía para o trabalho às 5h e só retornava às 20h.

O avanço do quadro demencial fazia com que a mãe se perdesse ao ir para a rua, situação que acrescentou mais uma tarefa à rotina da filha: procurá-la pela vizinhança.

Quase sempre a encontrava na casa de uma vizinha que a havia recolhido, mas, às vezes, eram horas perambulando por ruelas escuras ou sentada num banco da delegacia, aguardando a vez para prestar queixa.

Tendo que trabalhar para o sustento das duas, Joana comprou uma corda comprida. Antes de sair de casa, amarrava uma extremidade no pé da mesa e a outra na perna da mãe, que podia se movimentar até o quintalzinho, mas sem sair para a rua. Depois de preparar o jantar e o almoço do dia seguinte, Joana levava a mãe para andar a pé pelo quarteirão ou à igreja, nas noites de culto.

Um dia, um vizinho deu parte na delegacia. Joana foi presa por maus-tratos. Na cadeia, mulheres que maltratam mãe, pai ou criança não são aceitas no convívio com as demais, razão pela qual estava confinada na ala do seguro. Como lamentou resignada: "Vim parar na cadeia da cadeia".

Aprobio 15 anos: um pilar para o avanço do biodiesel e da transição energética no Brasil, Francisco Turra- OESP

 Nesta semana, celebram-se os 15 anos de atuação da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), uma entidade que se consolidou como uma das agentes protagonistas no desenvolvimento do setor de biodiesel no País. Ao longo desse período, a trajetória da Aprobio se entrelaça com o próprio crescimento da produção de biodiesel no Brasil, que se tornou uma das mais relevantes do mundo.

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Em todo esse período, o setor registrou uma expansão consistente, impulsionada por políticas públicas, avanços tecnológicos e crescente demanda por soluções energéticas mais limpas. Esse desenvolvimento está ancorado com o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), lançado em 2004.

Ele estabeleceu as bases para a inserção do biodiesel na matriz energética nacional para promover uma produção sustentável, garantir segurança de abastecimento e estimular o desenvolvimento regional, com a inclusão da agricultura familiar, operacionalizada por meio do Selo Biocombustível Social, que incentiva a aquisição de matérias-primas de pequenos produtores.

Aprobio se consolidou como uma das agentes protagonistas no desenvolvimento do setor de biodiesel no País
Aprobio se consolidou como uma das agentes protagonistas no desenvolvimento do setor de biodiesel no País Foto: Wilton Junior/WILTON JUNIOR/Estadão

Desde sua criação em 2011, a Aprobio tem desempenhado papel central na articulação entre produtores, governo e sociedade, contribuindo para o amadurecimento regulatório e para a expansão sustentável da cadeia produtiva e do agronegócio. Esse trabalho foi fundamental para posicionar o Brasil entre os líderes globais na produção de biodiesel, ao lado de países como Estados Unidos e Indonésia.

Em 2017, o Brasil avançou com a criação do RenovaBio (Política Nacional de Biocombustíveis do Brasil) como um marco na integração dos biocombustíveis à agenda climática e de transição energética. Ele estabeleceu metas compulsórias de descarbonização para distribuidoras de combustíveis, certificação da produção e Créditos de Descarbonização (CBIOs).

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O programa de mistura obrigatória ao diesel evoluiu gradualmente até atingir a mistura de 15% (B15) no ano passado. Sancionada em 2024, a importante Lei do Combustível do Futuro representa um avanço importante na consolidação da política energética brasileira. A legislação estabelece um cronograma de aumento gradual da mistura obrigatória do biodiesel ao diesel, com a perspectiva de atingir até 20% (B20) até 2030. O maior programa de testes do mundo, conduzido pelo Ministério de Minas e Energia pavimenta o caminho para que o País chegue em B25, criando um horizonte claro de crescimento para o setor.

Hoje, o Brasil se destaca pela qualidade do seu combustível e pela diversificação de matérias-primas, incluindo soja, gorduras animais, óleo de cozinha usado e outras fontes renováveis. Esse modelo contribui para a segurança energética e alimentar, a geração de emprego e renda e o desenvolvimento regional, especialmente em áreas do interior do país.

A atuação da Aprobio foi essencial para consolidar esse ambiente de crescimento, sempre pautada pelo diálogo técnico e pela busca de soluções que equilibrem competitividade, sustentabilidade e inclusão econômica.

No contexto atual de enfrentamento das mudanças climáticas e das crises geradas por enfrentamentos globais que impactam a oferta de petróleo, o biodiesel assume papel estratégico, especialmente na descarbonização do transporte pesado — um dos segmentos mais desafiadores para a transição energética. Caminhões, máquinas agrícolas, navios, geradores e equipamentos industriais ainda dependem fortemente do diesel, e o biodiesel surge como uma solução imediata, escalável e eficiente.

Ao reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa em comparação ao diesel fóssil, o biodiesel permite avanços concretos sem a necessidade de mudanças profundas na infraestrutura existente. Essa característica o torna um aliado indispensável na transição energética, capaz de gerar resultados no curto e médio prazo.

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Além disso, o biodiesel contribui para melhorar a qualidade do ar nas cidades, reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e fortalecer a matriz energética brasileira, que já é reconhecida como uma das mais limpas do mundo.

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Outro aspecto que merece destaque é o compromisso do setor com práticas sustentáveis e com a economia circular. A utilização de resíduos, como óleos usados e gorduras animais, como matérias-primas, agrega valor e reduz desperdícios, alinhando a produção de biodiesel aos princípios da bioeconomia.


Marcos Augusto Gonçalves - Gilmar Mendes expõe racha e atitude suspeita sobre Master, FSP

 A recente refrega entre Gilmar Mendes e André Mendonça, em torno da prisão do pai de Daniel Vorcaro, expôs mais uma vez os antagonismos no interior do Supremo Tribunal Federal, além das conhecidas atitudes suspeitas de juízes diante do caso Master. O decano da instituição não ficou bem na fotografia.

Já está mais do que claro que pelo menos dois magistrados têm envolvimento com o banqueiro mafioso. Alexandre de Moraes deve explicações sobre o contrato de cerca de R$ 130 milhões que o escritório de advocacia de sua família firmou com o banco.

Já Dias Toffoli, depois de tentar uma frustrada operação abafa, deixou a relatoria e declarou-se impedido de participar de votações. Seus laços pessoais e familiares com Vorcaro tornaram-se evidentes nas negociações com o famigerado Tayayá Aqua Resort.

Homem de meia-idade com óculos e terno azul sentado em cadeira de couro marrom claro. Ao fundo, bandeiras desfocadas nas cores verde, amarelo e azul.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - Adriano Machado - 10.dez.25/Reuters

Deveriam ambos, Moraes e Toffoli, ser objeto de um inquérito promovido pela própria corte, que, aliás, mantém há sete anos um procedimento desse tipo, sobre fake news e ofensas ao tribunal, usado como instrumento de intimidação em defesa de interesses de magistrados.

Tal situação certamente não ajuda a Operação Compliance Zero, que apura o esquema de fraudes, sob os cuidados de Mendonça. Até prova em contrário, contudo, o relator vem cumprindo o seu papel.

O decano Gilmar Mendes, notório talento em matéria de acomodações institucionais e acordões está insatisfeito com o andar da carruagem. Por que será?

Ao se posicionar pela prisão domiciliar do pai de Vorcaro, Mendes argumentou que a relatoria de Mendonça candidata-se a uma nova Lava Jato. Ou seja, estaria dando margem a abusos que poderiam levar a uma futura anulação das decisões. O raciocínio pareceu suspeito a alguns.

A título de posar de paladino de garantias constitucionais e da democracia, Mendes sinalizaria sua inclinação a retomar o modo "abafa o caso" antes acionado por Toffoli e afrouxar o cerco em torno de Vorcaro. A consequência previsível seria ajudar a salvar a pele de gente graúda e de seus companheiros de toga, em prejuízo da Justiça e dos interesses da sociedade.

O principal problema para Mendes —além de ele não controlar o relator— foi o vazamento de conversas íntimas entre Vorcaro e a noiva e influenciadora Martha Graeff, retiradas de um celular do dono do banco. De fato, a publicidade foi indevida, mas daí apontar o dedo para Mendonça, que pediu investigação, acusando-o de repetir a Lava Jato, vai uma distância.

Gilmar Mendes, não esqueçamos, foi protagonista de um episódio bastante rumoroso na operação de Sergio Moro, ao impedir, em canetada monocrática e abusiva, a presidente da República de exercer o direito de nomear ministros —no caso Lula. E o fez com base num áudio vazado ilegalmente. É frágil sua coreografia de escudo contra o lavajatismo.

Presenciamos uma nova onda de revelações que deixam o país de queixo caído. Como disse Mendonça, o que se configura é uma gigantesca fraude orquestrada por uma máfia com tentáculos nas finanças e nas instituições, que suborna, intimida e manda "moer" desafetos.

O caso de Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e presidente do PP, fala por si. Hugo Motta também apareceu no bolso de Vorcaro. Quem mais vem aí?