terça-feira, 21 de abril de 2026

Cadê o ‘Posto Ipiranga’? Fabio Giambiagi, OESP

 

Flávio Bolsonaro sugere toda semana que o anúncio do seu “Posto Ipiranga” é iminente — mas, até agora, nada. Imagino meus amigos economistas dos grandes bancos dando uma de Oscar Wilde diante de um convite (“não poderei aceitar, devido a compromissos que assumirei posteriormente”), escafedendo-se quando o “01” faz uma visita formal. O fato sugere que os economistas independentes, que têm apreço pela sua reputação, não querem sequer tirar uma selfie com o candidato.

Bolsonaro filho se apresenta como sendo mais educado do que o pai (um mérito modesto), com a mensagem subliminar de que é mais inteligente do que ele (um fato). Roberto Campos Neto declarou em entrevista que, “com Bolsonaro, eu sabia que tinha que explicar tudo em três minutos, porque depois ele não prestava atenção”. Com o filho, Galípolo poderá dispor de mais tempo. Não muito, porém, se nos guiarmos pelo desempenho constrangedor do candidato em recente encontro de CEOs.

O filho quer se diferenciar do pai, mas, como ele, parece não confiar na urna eletrônica e sugere que a eleição só vale se vencer. Reconhecerá a derrota, se perder?
O filho quer se diferenciar do pai, mas, como ele, parece não confiar na urna eletrônica e sugere que a eleição só vale se vencer. Reconhecerá a derrota, se perder? Foto: Pedro Kirilos/Estadão

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O objetivo da campanha é criar a impressão de que “Flávio” é alguém com autonomia. Nesse ponto, a mensagem é difícil de vender. O slogan “o Bolsonaro que tomou vacina” não esconde as limitações do candidato. Não deve ter passado despercebido que o “filho” subiu nas pesquisas ficando mudo, prova de que na eleição o silêncio valerá ouro — o que se aplica também a outros candidatos.

O filho quer se diferenciar do pai, mas, como ele, parece não confiar na urna eletrônica e sugere que a eleição só vale se vencer. Reconhecerá a derrota, se perder?

Por mais que o senador procure passar a ideia de ser alguém com pensamento próprio, para que o eleitor possa aferir se isso procede ou não, é preciso que o candidato responda a perguntas como: se os votos são herdados e se Bolsonaro for indultado e reconquistar os direitos políticos, quem mandará no País? O filho ou o pai? Teremos um Alberto Fernández brasileiro, teleguiado por terceiros? A ex-presidente Cristina Kirchner lá, Jair Bolsonaro aqui?

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O “júnior” escreveu que adotará um “tesouraço”, o que demonstra que não sabe do que está falando, por ignorar as restrições fiscais que enfrentará. A rigor, o que fica claro para qualquer pessoa que não se deixe arrastar pela polarização em que vivemos é que Flávio Bolsonaro simplesmente não tem a menor ideia do que propor para o Brasil.

Por enquanto, e já tendo sido noticiado 15 vezes que “ele tem conversado com o ex-ministro Sachsida”, continuamos esperando o anúncio do seu Posto Ipiranga. Pobre Brasil.

Ter ideias pode ser perigoso, Jorge J. Okubaro,. OESP

 O desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas eleitorais talvez seja surpreendente até para ele. Numa das mais recentes, o pré-candidato presidencial da ultradireita aparece numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora em situação considerada de empate técnico. Como uma figura que, até há pouco, só era conhecida por ser filho de quem é (do ex-presidente Jair Bolsonaro) e de quem herdou o sobrenome, mas não por ideias ou atuação parlamentar, conseguiu chegar tão alto e tão depressa? 

Algumas explicações podem ser encontradas na edição de sexta-feira passada do Estadão. O desconhecimento público é uma delas. Como pouca gente sabe quem Flávio Bolsonaro é, mas boa parte do eleitorado não quer renovar o mandato de Lula, o semidesconhecido tem boa aceitação. Outro fator é ter o sobrenome que encanta fatia expressiva do eleitorado. E o terceiro motivo é que nem as candidaturas estão formalizadas nem a campanha começou, de modo que pouco se sabe o que cada candidato pretende fazer se eleito. Com a campanha, será possível ao eleitor escolher a melhor proposta. 

Isso será bom para Flávio Bolsonaro? No artigo Cadê o ‘Posto Ipiranga’?, publicado na mesma edição do Estadão (17/4, B7), o economista Fabio Giambiagi parece sugerir que não. “O ‘júnior’ escreveu que adotará um ‘tesouraço’, o que demonstra que não sabe o que está falando, por ignorar as restrições fiscais que enfrentará”, escreveu Giambiagi. “A rigor, o que fica claro para qualquer pessoa que não se deixe arrastar pela polarização em que vivemos é que Flávio Bolsonaro simplesmente não tem a menor ideia do que propor para o Brasil.”

Pelo que se conhece (ou não se conhece) de Flávio Bolsonaro, o artigo está certo. Talvez, porém, pior do que não ter ideia sobre o que propor seja quando, ocasionalmente, Flávio Bolsonaro tenta mostrar que tem ideias e propostas.

É muito provável que Bolsonaro filho saiba o que é praseodímio. Trata-se do elemento químico de símbolo Pr e número atômico 59, que pertencente à série dos lantanídeos. É um dos 17 elementos químicos que formam o grupo que vem sendo chamado de terras raras. Afinal, foi sobre terras raras que Flávio Bolsonaro falou durante discurso que pronunciou no fim de março, em evento no Estado norte-americano do Texas que reuniu ultraconservadores numa conferência que se autoexplica no nome: Conservative Political Action Conference, ou CPAC.

“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”, disse Flávio Bolsonaro. Foi didático na justificativa: “Sem esses componentes, a inovação tecnológica americana torna-se impossível e a produção do sistema militar avançado que mantém a superioridade americana cai nas mãos dos adversários. Quando os Estados Unidos ficam vulneráveis, todo o mundo livre fica vulnerável”. Seria um discurso normal, se feito por um político norte-americano conservador e militarista. Mas sendo um cidadão brasileiro detentor de mandato popular quem disse isso, a fala deixa claro seu desprezo pelos interesses nacionais e sua sabujice diante de alguém como o presidente Donald Trump, que a História haverá de colocar no devido lugar.

Terras raras, de fato, importam, tanto para os Estados Unidos quanto para a China e para o Brasil. A exploração e o refino de metais raros e críticos são processos complexos e caros, mas altamente compensatórios pelo emprego desses materiais. Ímãs permanentes e de grande poder, motores elétricos miniaturizados, inteligência artificial, geradores de energia eólica, acumuladores de energia, infraestrutura de datacenters são exemplos disso. Mas praticamente só um país tem e explora terras raras: a China, par desgosto de Flávio Bolsonaro, responde por 90% do refino de terras raras no mundo.

E o Brasil com isso? Pois o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Essa reserva é estimada em 25 milhões de toneladas (a da China é de 45 milhões de toneladas). Com essas dimensões, dá para entender o interesse de Flávio Bolsonaro em entregar tudo para os Estados Unidos e para Trump. Só não dá para concordar.

Na sexta-feira passada, ao assinar em Barcelona, com o primeiro-ministro Pedro Sánchez, um acordo com a Espanha para estudo sobre minerais críticos e terras raras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que seu governo estabelecerá parcerias “com quem quiser construir, nos ajudar, levar tecnologia e compartilhar conosco”, reforçando que a transformação desses minerais em produtos de alto valor agregado seja feita no Brasil.

Seu governo já age nessa direção. Em janeiro, o Ministério de Minas e Energia selecionou o consórcio liderado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) para realizar estudos que apoiarão o governo na formulação de diretrizes, metas e instrumentos que orientem a elaboração da Estratégia Nacional de Terras Raras.

Foto do autor
Opinião por Jorge J. Okubaro

Jornalista, é autor, entre outros, do livro 'O Súdito (Banzai, Massateru!)' (Editora Terceiro Nome)

Brecha permite que moradia popular vire apartamento comum e até hotel em SP, fsp

 

São Paulo

O funcionamento de hotéis em dois empreendimentos construídos com incentivo para a habitação popular expôs uma brecha legal ainda não discutida no âmbito das denúncias de desvio de finalidade desse tipo de moradia na cidade de São Paulo. Trata-se da mudança de uso legalizada, por meio de alvará de reforma ou de projeto modificativo.

Em resumo: construtoras levantam empreendimentos com benefícios públicos prometendo que os imóveis serão para as classes mais baixas para ajudar a reduzir o déficit habitacional. Com o prédio pronto, entram com um pedido de mudança de finalidade, pagam taxas e legalizam o negócio no ramo de hospedagens.

À reportagem, a prefeitura apontou que a rede de hotéis Cozzy, alvo de protestos na semana passada, ainda não obteve o aval para a mudança. A gestão Ricardo Nunes (MDB) reconheceu, porém, a possibilidade da alteração, destacando a cobrança da outorga onerosa que deverá ser calculada com base no que se deixou de pagar por causa dos incentivos municipais (o que chega a valores milionários), além de outras taxas. Em caso de infração, é prevista também a cobrança de multa.

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam, porém, que o desconto ou a isenção de outorga é apenas um dos cerca de 16 benefícios municipais disponíveis para esse tipo de empreendimento. Somente em outorga, a prefeitura teria aberto mão de R$ 1 bilhão em uma década, de acordo com estimativa do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e da Fundação Tide Setubal, calculada até 2024.

Pessoa de costas, vestindo jaqueta jeans e calça azul, entra na porta de vidro de um prédio comercial com placa 'Cozzy' ao lado. Carro cinza estacionado à esquerda e plantas decorativas próximas à entrada.
Hotel da rede Cozzy na rua Cubatão, distrito Vila Mariana; empreendimento foi construído com incentivo para Habitação de Mercado Popular - Eduardo Knapp/Folhapress

Os demais incentivos incluem até mesmo o aval a prédios mais altos ou com maior área construída do que o permitido para as demais em partes da cidade. "A depender da unidade, nem poderia ter sido construída se não fosse HIS [Habitação de Interesse Social]", destaca a pesquisadora Bianca Tavolari, que coordenou o estudo do Cebrap.

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A arquiteta e urbanista Daniela Fajer relata ter sido procurada por empresas do setor para calcular o custo da alteração de uso de apartamentos populares para unidades sem restrição de renda. Isso aconteceu depois que o Ministério Público começou uma caçada às construtoras que não davam a destinação social às moradias construídas para esse fim, em janeiro de 2025. Ela atribui o movimento às crescentes denúncias de "desvirtuamentos", com ao menos 934 empreendimentos sob suspeita.

Em nota, a gestão municipal diz ter intensificado a fiscalização, assim como pontuou decretos e mudanças na legislação para evitar "desvirtuamentos". Também destacou os 24 empreendimentos com multas aplicadas por desvios em habitação popular, que totalizam R$ 7,7 milhões. Ao todo, 159.026 unidades estão ou passaram por processo de análise após denúncias.

De acordo com a legislação municipal, unidades HMP (Habitação de Mercado Popular) podem funcionar exclusivamente como moradia fixa de famílias com renda mensal total de até dez salários mínimos (R$ 16.210 ou R$ 2.431,50 per capita). No Cozzy, segundo a própria rede, as unidades são ofertadas apenas como diárias ou para mensalistas, com serviços típicos de hotelaria e sem a presença de moradores fixos.

Por email, a rede Cozzy Hotéis afirmou à reportagem operar de forma regular e que teria feito uma mudança de uso na prefeitura, a fim de funcionar 100% como hotel. Posteriormente, disse que também disponibiliza "aluguel mensal para HMP" —porém a legislação paulistana considera a curta temporada como hospedagem. As declarações foram feitas pelo empresário Jesse Botaro Junior, responsável pelo empreendimento.

Vista aérea mostra prédio retangular com piscina azul e área de lazer com espreguiçadeiras no terraço. Ruas e casas cercam o edifício em bairro urbano.
Terreno de empreendimento na rua Cubatão, no distrito Vila Mariana; prédio foi construído com incentivo para habitação popular, mas hoje funciona apenas com serviços de hospedagem - Eduardo Knapp/Folhapress

Professora de Direito Urbanístico da FGV, Tavolari aponta que essas alterações ocorrem no âmbito administrativo. Portanto, restam praticamente desconhecidas da população em geral e até de grande parte dos especialistas até esta semana.

Podem impactar também outros "desenhos de cidade" incentivados pela Lei de Zoneamento. É o caso dos microapartamentos não residenciais construídos com incentivos para uso misto, em que parte das unidades é ofertada como residência permanente, até mesmo em anúncios.

No âmbito administrativo, a Subsecretaria da Receita Municipal passou até mesmo a permitir que "estúdios" não residenciais tenham o IPTU reduzido para o de uma unidade residencial se o morador comprovar permanência por ao menos 90 dias e anuência do síndico. A reportagem encontrou o caso do morador de um empreendimento nas proximidades do Parque do Ibirapuera, no distrito Vila Mariana, que buscou o desconto em 2024.

Como pesquisadora, Daniela Fajer chegou a levantar os dados de todos os alvarás de novas edificações emitidos entre 2017 e 2021, dos quais 32% tinham uso misto. Esses dados também foram utilizados para a estimativa de que somente esse incentivo poderia resultar em um desconto de até 20% da outorga onerosa.

Ela considera que há distorções na legislação, com "desvios" irregulares e outros dentro da lei. "Se formou um grande mercado a partir disso", destaca.

Nesse campo, um dos primeiros foi o decreto de 2016 que classificou os serviços de hospedagem, o que permitiu que resultasse em uso misto quando construído em prédios com apartamentos.

Já a alta de Habitação de Interesse Social começou especialmente desde 2018, quando foi revogado o convênio que envolvia a prefeitura no processo. Dessa forma, na prática, passaram a ser comercializados como qualquer outra unidade, com venda em estande e sem envolver filas habitacionais. Outras portarias e decretos incrementaram a flexibilização ao longo dos anos.

A mudança de uso pode abranger tanto o empreendimento como um todo quanto uma única unidade. A depender da mudança, são necessárias intervenções no condomínio, novo aval do Corpo de Bombeiros e outras autorizações.

Professor da Mackenzie, o urbanista Antonio Claudio Fonseca considera "muito difícil regular por lei a atividade humana" em uma metrópole, exigindo mudanças na lei com frequência. "Não é a fachada ativa que faz a cidade, é a cidade que faz a fachada ativa", avalia.

O desvirtuamento dos apartamentos HMP e HIS (Habitação de Interesse Social) foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público no ano passado. Também é alvo de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara Municipal.

Essas unidades são a maioria dos lançamentos do setor, chegando a cerca de 75%, segundo dados compilados pelo Secovi-SP Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo). Com diversos incentivos municipais, são construídas pelo próprio mercado imobiliário, sem envolvimento direto da prefeitura na venda