domingo, 20 de setembro de 2026

Hélio Schwartsman - Pugilato judicial no STF- FSP

 A providencial intervenção do presidente do STF, Edson Fachin, serviu para conter as cenas de pugilato judicial entre ministros da corte. É um primeiro passo necessário, mas fica ainda muito aquém de uma estratégia de saída para a crise em que as mais altas autoridades da Justiça do país se enredaram. Serão necessárias também medidas de curto e de longo prazo, sobre cuja viabilidade sou pouco otimista.

O mais difícil é o curtíssimo prazo, que é a semana que vem. Não vejo como o STF possa recobrar a imagem de integridade necessária para desempenhar suas funções mantendo em seus quadros ministros sobre os quais pesam a suspeita de terem, mediante paga, defendido os interesses de um banqueiro metido em fraude grossa. Não sei se os juízes chegaram a cometer crimes e não seria fácil prová-lo. Mas isso só piora a situação do tribunal, já que uma investigação demandaria meses de trabalho policial e poderia terminar inconclusiva. E ainda tenho sérias dúvidas de que as apurações serão autorizadas pelo plenário.

Homem idoso com cabelo branco e óculos, vestindo terno azul, camisa branca, gravata azul e capa preta, está em ambiente interno com fundo escuro e reflexo em vidro.
O presidente do STF, ministro Edson Fachin - Adriano Machado - 9.set.26/Reuters

O corporativismo é uma força poderosa. Mas o STF cometerá uma espécie de suicídio reputacional se nem sequer fingir que mandou investigar a si mesmo.

Num curto prazo um pouco mais estendido, isto é, daqui até outubro, será preciso tentar isolar o STF do espectro das interferências eleitorais. Deixar de fazê-lo traz o risco de contaminar não só o Judiciário mas a própria democracia. O caminho é levantar todos os sigilos de todas as investigações com potencial impacto eleitoral que estão sob supervisão da corte. Não é impossível, mas é difícil. Há muita gente muito poderosa interessada em ficar sob as sombras.

O longo prazo é a parte fácil. Supondo que o STF e o Brasil sobrevivam, precisaremos pensar em reformas que ajudem a despolitizar a corte. Criar regras que impeçam presidentes de indicar cupinchas é um bom começo. Eu também revisaria a competência originária do STF para casos criminais de políticos, além de reduzir o tempo máximo de permanência de ministros na corte.

Podemos não querer morrer vítimas do lixo?, FSP

 Jéssica Moreira

Jéssica Moreira é escritora e jornalista. Coautora do Blog Morte Sem Tabu e Cofundadora do Nós, mulheres da periferia

Conheci a palavra lixo muito antes de aprender a ler. O cheiro de chorume subia tão alto em dias de chuva que era impossível respirar. Era o odor do lixão que existiu por 28 anos em Perus, meu bairro, na região noroeste da capital paulista.

Durante todo esse tempo, toneladas e toneladas de lixo de toda a cidade vinham morar debaixo de nossos narizes. "Perus, o grande lixão da cidade mais rica do Brasil." Com muita luta, meus vizinhos fecharam o aterro. É algo histórico, já narrado por esta Folha.

Eu tinha 10 anos quando o movimento visitou minha escola e deixou um panfleto que dizia "Lixão + 1 não". Já sabendo ler, peguei a palavra lixão na mão e fui até a sala da diretora para pedir que fizéssemos alguma coisa. O que responder a uma criança que tem raiva e vontade de mudar o local onde mora?

Pessoas seguram uma faixa que diz incinerador de lixo em perus, não
Moradores de Perus, em São Paulo, organizam o movimento 'Incinerador de lixo em Perus, não' - Jéssica Moreira

Entendi bem cedo que era preciso juntar muita gente para ler essa palavra em voz alta e lutar contra ela. De tempos em tempos, o leviatã "lixológico" levanta a guarda e, infelizmente, ataca novamente no bairro.

Há pouco mais de um ano, nós, moradores, descobrimos que a Prefeitura de São Paulo havia aprovado a construção das chamadas unidades de recuperação energética em quatro locais da cidade, sendo uma delas em Perus, junto à concessionária Loga. Em outras palavras, um incinerador de lixo.

O nome assusta, deve ser por isso que mudaram. Lembra algo como queimar gente viva. Queimar futuro. Queimar sonhos. Queimar. Apelidaram o projeto de ecoparque. Mas de parque não tem nada, muito menos de eco(lógico). É só a palavra bonita que inventaram para trazer toneladas de lixo para sujar Perus mais uma vez.

A atual gestão desconsiderou o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, criado em 2014, a partir da participação popular de mais de 800 pessoas, em 58 encontros, cuja diretriz principal sempre foi dizer "não à incineração de resíduos sólidos".

Alvo de protesto de moradores de Perus em maio, a prefeitura disse que os equipamentos previstos seguem parâmetros rigorosos e não oferecem riscos à saúde da população "quando operados em conformidade com as normas ambientais vigentes".

Essas "máquinas" queimam principalmente papel e plástico, disputando o material de maior valor para as cooperativas de reciclagem e acabando com o trabalho de catadoras e catadores de toda a cidade.

Desde 2024, o Instituto Pólis, o Observatório do Clima, a Aliança Resíduo Zero Brasil e outros coletivos vêm denunciando o projeto dos incineradores na cidade, incluídos na prorrogação por mais 20 anos das concessões de serviços de limpeza sem a devida licitação.

"A cidade decidiu em 2014, num processo participativo, que não queria incineração, e agora recebe quatro incineradores contratados sem licitação e sem consulta. Enquanto em Pinheiros a prefeitura celebra a revitalização de um antigo incinerador, ela exporta a poluição para os bairros pobres da periferia. Os equipamentos vão para os bairros que menos participaram dessa decisão e que mais vão conviver com as emissões", diz Victor Argentino, do Instituto Pólis.

"Existe uma escolha de território aí, com clara reprodução dos mecanismos de racismo ambiental na produção da cidade, e ela precisa ser explicada à população", acrescenta.

Em julho deste ano, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo pediu à Justiça a anulação das cláusulas que autorizam a construção dos quatro incineradores de lixo na capital paulista, um "investimento" de R$ 7,48 bilhões.

Um incinerador é um dos modos mais eficazes de dizimar o futuro de uma população. O professor Jeffer Castelo Branco, diretor da Associação de Combate a Poluentes (ACPO), explicou algo que me entristeceu profundamente.

"As substâncias que são emitidas por essas máquinas, que muitas vezes não estão sob qualquer controle, são poluentes que interferem no sistema hormonal, sendo o sistema hormonal da mulher o mais atingido, por ser mais complexo, por ser apto a gerar vida. [Os poluentes tóxicos] podem causar problemas no desenvolvimento fetal e no desenvolvimento infantil, que vão causar problemas na vida adulta. Implantar um incinerador é expor a população ao risco."

Por isso, em 2025, criamos o movimento "Incinerador de lixo em Perus, não". Apoiamos também a campanha "Não queime nosso futuro!", que alerta sobre os perigos da incineração de lixo.

Como podem ver, é um monstro com muitos tentáculos e sobrevive dos restos de sujeira que vive no subterrâneo de quem tem poder e dinheiro. Ele muda de roupagem, se atualiza, usa tecnologias para disfarçar a cara feia do passado. Mas quem nasceu respirando lixo e viu gente sua morrer pelo monstro invisível que habita o ar sobre todas as cabeças não se convence com lorota.

A palavra Perus, do tupi, significa águas entre as pedras. Mas as águas estão paradas, e o lixo quer de novo tomar conta de tudo. Você consegue imaginar o que é ter um lixo sobrevoando sua cabeça, como um drone intacto, com potencial de matar dezenas, milhares, ao longo dos anos? Eu queria muito escrever sobre memória, inventar uma ficção bonita e gostosa de ler, agradecer por mais um dia com gratidão, mas abri a janela e a nuvem do futuro apareceu cinza e ácida.

Neste domingo, 20 de setembro, o movimento contra a incineração estará na Marcha pelo Clima 2026, na cidade de São Paulo , a partir das 14h, com saída da praça Lasar Segall, na rua Domingos de Morais, próximo à estação Vila Mariana do metrô (zona sul).

Se você também não quer que a poluição do ar chegue até a sua família, junte-se a nós.

Educação tem nome próprio- Muniz Sodré ,FSP

 Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

Três homens sentados em mesa durante reunião. Homem à esquerda usa óculos e terno escuro, ao centro homem mais velho com cabelo ralo, à direita homem de terno claro. Ambiente interno com quadro na parede ao fundo.
O educador Paulo Freire em 1963 - Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

É o Patrono da Educação do Brasil. Mas resta saber de que "Brasil" se trata. Não certamente o mesmo daqueles que o prenderam durante a ditadura militar, tentando desqualificar o seu método de alfabetização e seus conhecimentos sobre educação. Para eles, Paulo Freire não passaria de "um criptocomunista encapuzado sob a forma de alfabetizador". Cripto, encapuçado, quer dizer, "comunista oculto? Nunca foi, era cristão, católico de formação. Nem é também o mesmo país das figuras recentes da extrema direita que o elegeram como alvo de "guerra cultural". O ex-presidente hoje enjaulado prometia "entrar com um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire de lá". Ainda que sem saber por quê, claro.

Não só: o parque jurássico da pedagogia sempre talhou carapuças injuriosas a Freire. O porquê pedagógico exigiria a redação de um tratado. Para começar, seria preciso deixar claro que Paulo Freire não foi mero "alfabetizador". Ele é mesmo uma exceção histórica, por destoar do liberalismo puro, valorizando a tomada de consciência das condições sociais em que se dá o processo educacional. Alguém que enfatiza a autonomia da consciência do educando e as práticas escolares afinadas com a compreensão dos conteúdos do saber.

Pressupondo uma simbiose da consciência do mundo e da consciência de si, Freire propõe um "método de conscientização" como centro de sua teoria pedagógica. Portanto, um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária. Inovador nesse panorama é o fato de que, desde a década de 1990 no Brasil, os movimentos sociais ditos "rurais" ou "do campo" põem a educação entre as suas demandas principais. Presentes, a inspiração teórica de Freire e o fundo utópico que lastreia o direcionamento político de um projeto popular, ideologicamente apoiado na educação.

Voltada para as classes exteriores ao poder econômico-político, a educação freireana induz os movimentos sociais a se constituírem como sujeitos pedagógicos coletivos. Uma pedagogia shakespeareana do sonho construtivo: "I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams" (Hamlet, ato 2, cena 2). "Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito, se não tivesse maus sonhos". Falando da liberdade sonhada dentro de um espaço limitado, Shakespeare dialoga com Paulo Freire: a consciência se educa para ser livre, ainda que estreitos o seu entorno e a mente dos brucutus.