sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A materialização do absurdo -Helio Schwartsman, FSP

 O surrealismo às vezes se impõe, mas o Brasil faturará o troféu André Breton de Materialização do Absurdo se se confirmar um cenário em que a crise no STF leve à eleição de Flávio Bolsonaro.

Ora, a causa principal do esfacelamento reputacional da corte constitucional é o envolvimento de vários ministros com o ex-banqueiro fraudador Daniel Vorcaro. Dos dois principais candidatos à Presidência da República, há apenas um comprovada, direta e profundamente enrolado nas tramas do Banco Master. Seu nome é Flávio Bolsonaro. Ofende a lógica que ele seja eleitoralmente beneficiado pelo escândalo no qual está metido. Mas um dos problemas da democracia é que ela não necessariamente se curva à lógica.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, durante evento no 7 de Setembro - Miguel Schincariol/AFP

Sempre fico receoso em atribuir movimentações em pesquisas de intenção de voto a um único fato determinado, mas, a crer na maior parte dos analistas, a sangria pública do Supremo está direta ou indiretamente favorecendo o Bolsonaro menor. Na mais genérica das explicações, a crise despertaria um sentimento antissistema que se consubstancia em votos na oposição.

Lula passou o recibo de sua preocupação ao anunciar, a 17 dias do primeiro turno, um reajuste de 15% para o Bolsa Família. Se a medida serve para evitar a perda de mais votos, ela também complica bastante a gestão da economia agora e mais ainda num eventual próximo governo. Pode até afastar o microcosmo dos eleitores independentes fiscalmente responsáveis que poderão ser decisivos num provável segundo turno.

O absurdo da situação salta aos olhos. Para tentar evitar que Flávio Bolsonaro continue a se beneficiar das consequências de um escândalo de corrupção em que ele próprio está envolvido, Lula abraça um populismo caricatural, próximo do adotado por Jair Bolsonaro em 2022, que prejudica seu governo.

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Como sempre digo aqui, a democracia é indispensável por permitir que nos livremos de governantes sem banhos de sangue. Mas, no que diz respeito à responsabilização de políticos por seus feitos e à seleção de bons líderes, ela é bem fraquinha.

Ponto de ônibus, o lugar onde o tempo não passa - Mauro Caliari, FSP

 Nos últimos anos, os ônibus vêm perdendo passageiros para o transporte individual. A perda reflete a qualidade da experiência de ser passageiro numa rede mal gerida. Além de todos os problemas conhecidos de falta de confiabilidade da rede e má qualidade dos ônibus, há um aspecto que não tem sido muito falado: o desconforto de quem espera pelo transporte num ponto de ônibus. É daqueles assuntos que parecem pequenos para quem anda de carro, mas que fazem uma diferença tremenda no cotidiano de milhões de pessoas.

Paulistanos passam em média 24 minutos por dia nos pontos de ônibus. O tempo real importa menos que a percepção. Quando estamos tentando não perder o ônibus, não sofrer um assalto e não atrapalhar os passantes, cada minuto parece durar três vezes mais.

Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo
Ponto de ônibus na avenida Líder, na zona leste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 16.ago.22/Folhapress

Aqui pertinho da minha casa, tem um ponto que está sempre cheio de dia e escuro de noite. Não há lugar para sentar. Quando faz sol, o pessoal se abriga na sombra de uma loja. Quando chove, vamos todos para baixo de uma pequena marquise. A plaquinha com os itinerários das linhas sumiu faz tempo e ninguém repôs. A calçada é estreita e o carrinho de pipoca disputa espaço com a multidão. Há uns dois meses, colocaram um enorme painel de publicidade na calçada estreita e o que era ruim, piorou. O totem diminuiu a área de passagem e tapou a visão da rua.

Além de desconfortável, a espera no ponto de ônibus pode ser também amedrontadora. O ponto de ônibus vazio na madrugada é comumente citado como um dos piores lugares na cidade para uma mulher. Para chegar cedo ao trabalho, é preciso acordar de madrugada e ficar num lugar mal-iluminado e desprotegido. Existe até um serviço chamado Abrigo Amigo, que oferece, em 200 pontos, uma videochamada com atendentes remotos nos painéis, para tentar suavizar essa espera durante a noite.

São Paulo tem em torno de 20 mil pontos de ônibus. Desde 2013, a construção e manutenção são de responsabilidade de uma concessionária, que, em troca, explora as receitas dos painéis de publicidade. Na época, a vencedora foi a empresa Ótima, comprada depois pela Eletromídia, do grupo Globo. Como em qualquer concessão, a Prefeitura faz a outorga e deveria fiscalizar de perto a prestação do serviço.

Dos 20 mil pontos existentes, 6,5 mil têm abrigos, o restante é apenas um poste na calçada. Os abrigos, batizados de ‘hightech’, ‘caos’ e ‘brutalista’, têm problemas primários. Basta sentar num deles por cinco minutos para constatar que o arquiteto responsável pelos designs não era assíduo frequentador de ônibus. O banco é pequeno e estreito. As paredes são de vidro, que, mesmo com um reforço no teto que veio depois, viram uma pequena estufa. Alguns não têm iluminação.

As placas com mensagens publicitárias rendem mais um desconforto. Como elas se destinam muito mais a quem passa de carro na rua, a tendência da concessionária é instalá-las perpendicularmente à calçada, diminuindo a área de passagem e a visibilidade de quem espera o ônibus.

Se queremos aumentar o peso do transporte público, vai ser preciso mudar a experiência como um todo: a frequência, os intervalos e a capilaridade das linhas, a qualidade dos ônibus. Não é à toa que São Paulo tem mais de 80 mil reclamações e inacreditáveis 300 mil multas anuais aplicadas às empresas de ônibus (e hoje saiu a notícia do envolvimento de gestores da área de transporte com o crime organizado que vai merecer mais tempo para ser entendida).

A mudança, porém, tem que começar antes do embarque. Se o ponto de ônibus é a porta de entrada para o transporte público, então, o sistema paulistano está tratando mal os convidados e, provavelmente, afastando novos usuários em vez de acolhê-los.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

PCC definia financiamento de campanhas políticas de São Paulo, aponta Justiça. FSP

 Tulio Kruse

São Paulo

A decisão judicial que autorizou a prisão temporária de Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, aponta que integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) tinham poder de decisão sobre aportes financeiros em campanhas políticas.

Nesta quinta-feira (17), uma operação da Polícia Civil e Ministério Público cumpre mandados de prisão de 13 pessoas contra suspeitos de envolvimento com a facção criminosa. Segundo a Justiça, as investigações apontaram que 12 das 22 de ônibus de São Paulo são controladas pelo PCC.

Homem de meia-idade com camisa branca e gravata preta sentado em escritório com parede de madeira. Ele levanta o dedo indicador direito enquanto fala. Ao fundo, quadro grande com pintura de paisagem urbana.
Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal de SP, foi um dos alvos da operação que investiga a infiltração do PCC em empresas de transporte - Allison Sales/Folhapress

Leite é alvo de mandado de prisão temporária determinada pela Justiça. Ele não foi encontrado em seus endereços.

Em conversa com a Folha por telefone, o ex-vereador afirmou que está fora de São Paulo e que não está foragido. "Vou me entregar em 24 horas. Estou me organizando com meus advogados", disse. Leite negou todas as acusações, como a de que seria o proprietário da empresa de ônibus Transwolf.

"Nego veementemente, não conheço ninguém do PCC nessa vida. A minha relação com o setor (de transportes) foi institucional, a pedido do então prefeito Bruno Covas, inclusive na negociação de uma greve em 2019. Não há nenhuma hipótese de eu ser dono [da Transwolf]. Nunca tive um carro. A Transwolf tem 600 cooperados, como eu sou dono de um grupo de 600 cooperados?", disse.

A análise do aparelho celular do investigado José Daniel Satilite, proprietário da empresa Translider, foi um dos pontos centrais da investigação.

"Os diálogos tratariam de questões relacionadas à 'Sintonia dos Gravatas' [setor que reúne advogados ligados ao PCC], pagamento de honorários, estratégias jurídicas em favor de integrantes presos, medidas judiciais de interesse da facção e articulações com agentes políticos", diz o documento.

Nesse contexto são mencionados Danilo Morgado, que foi candidato à Prefeitura de Praia Grande pelo PL em 2024 e hoje concorre a candidato a deputado estadual, e José Ronaldo Alves de Sales, que já foi presidente do PDT no mesmo município e até o ano passado era funcionário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

A decisão não detalha em quais campanhas eleitorais teriam ocorrido as tratativas de financiamento.

Sales teria tratado de "campanhas eleitorais, empresas de transporte, venda de ônibus e possíveis facilidades junto ao Detran" em conversas com Satilite. Mensagens encontradas no mesmo celular também fazem "referências a acordos para que empresas passassem a ser administradas por integrantes da organização criminosa após a obtenção de licitações".

Uma das interlocutoras de Satilite nessas conversas seria esposa de um integrante da cúpula do PCC, segundo a investigação.

A investigação aponta, ainda, diálogos envolvendo suposta fraude em contratos e licitações em Leme, na região metropolitana de Piracicaba.

A Folha não conseguiu contato com os citados na decisão ou identificou suas defesas até a publicação.

Há referências a pagamentos de vantagens indevidas para a obtenção de uma contratação emergencial de empresa ligada ao grupo investigado.

"Segundo a Autoridade Policial, as conversas revelariam ajuste prévio para direcionamento de certame e tentativa de operacionalizar o pagamento de propina fora do contrato administrativo", escreve o desembargador.

As ações desta quinta-feira são desdobramento da Operação Decúrio, que em agosto de 2024 prendeu um sócio da empresa de ônibus UPBus e cumpriu mandados de prisão contra outras 19 pessoas em 14 municípios de São Paulo.

À época, a polícia investigava tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes, como infiltração de membros da facção em cargos públicos.

Em fases anteriores, a mesma investigação já resultou em cinco denúncias oferecidas pelo Ministério Público e duas condenações, afirma o desembargador Sérgio Ribas na decisão que autorizou a operação.

Transporte sob suspeita

A operação mira suspeitas de que empresas de ônibus que prestam serviço de transporte coletivo em municípios paulistas passaram a ser administradas por integrantes da facção após a obtenção de licitações. Há também suspeita de corrupção de funcionários públicos.

O nome de Milton Leite havia aparecido em um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar que apontava supostas conexões com PMs presos por trabalharem na escolta particular de dirigentes da empresa. A decisão do desembargador cita esses depoimentos para embasar o pedido de prisão do ex-vereador.

Em fevereiro, Leite foi chamado de "chefe" pelo sargento da PM Nereu Aparecido Alves em uma mensagem enviada a Cícero de Oliveira, diretor da Transwolff.

Em nota, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirma que a intervenção determinada pela gestão na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. "Desde o início das investigações, a prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada."

"A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários."

Em nota, a Transwolff afirma que Milton Leite nunca teve qualquer participação societária nem "nunca participou da gestão ou 'deu ordens' na empresa".

"O empresário Luiz Carlos Efigenio Pacheco nunca havia sido denunciado em nenhuma outra situação em sua vida até as indevidas imputações da Operação Fim de Linha, que estão sendo combatidas na Justiça, com a defesa alegando sua total inocência", diz.

A viação afirma ainda que a intervenção da prefeitura "se apoia exclusivamente em questões financeiras, comuns a todas as empresas do setor e plenamente sanáveis, não havendo qualquer fundamento criminal, diferentemente do que havia sido inicialmente aventado na intervenção".