quinta-feira, 18 de junho de 2026

Por que evangélicos não adoram santos?, FSP

 Tradicionalmente, o mês de junho é marcado por quermesses e festas que celebram santos como Antônio, João e Pedro. Em geral, evangélicos não frequentam essas festas e também não celebram ou creem em santos.

O culto a esses personagens teve seu início no século 2, em tempos de perseguição romana, com o testemunho dos mártires –servos de Deus que pagaram com a vida a fidelidade ao Senhor Jesus.

Estátua de santo com hábito marrom segurando criança vestida de branco dentro de igreja. Fundo mostra altar, pintura religiosa e bancos de madeira.
Para os evangélicos, os santos são reconhecidos como exemplos de fé, mas não são alvos de orações ou devoções

Segundo Marcos de Almeida, coordenador Acadêmico de Curso na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, os mártires passaram a ser vistos como aqueles que produziram em seus próprios corpos os sofrimentos e a morte de Cristo.

A história registra ainda que eles tinham seus restos mortais guardados e os dias de sua morte celebrados.

"Em uma escalada crescente, esse memorial se tornou ato de invocação intercessória, impulsionado pela ênfase na transcendência e divindade de Jesus Cristo. Sutilmente, isso fez certo distanciamento entre o fiel e Deus Altíssimo", explica Almeida, que também é doutorando em Teologia Canônica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

A Festa de São João tem origem nos festivais pagãos de solstício de verão da Europa pré-cristã. Ressignificada pelo catolicismo medieval com o nome de João Batista, a festa chegou ao Brasil no século 16 pelos jesuítas. Assim, ganha elementos africanos (o forró), europeus (a quadrilha francesa) e rurais brasileiros.

Porém, a Reforma Protestante, no século 16, adotou a Sola Scriptura, segundo a qual somente a Bíblia é a palavra de Deus. Como não há na Palavra exemplos de cristãos orando aos santos falecidos ou celebrando festas em sua honra, os crentes, que agora têm acesso livre à Bíblia, passam a rejeitar essas práticas.

"Para os evangélicos, os santos são reconhecidos como exemplos de fé e testemunhas da história cristã, mas não são alvos de orações ou devoções", explica Roney de Carvalho, professor de Teologia e História no Centro Universitário Cidade Verde.

Ele lembra o que Paulo disse em uma de suas cartas a Timóteo: "Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus" (1 Timóteo 2:5).

Falando em Bíblia, o Antigo Testamento também traz a ordem explícita dada a Moisés em Êxodo 20:3-5: "Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás".

Marcos de Almeida lembra a oração do Pai-Nosso no Evangelho de Mateus 6:9. "A direção do ato é diretamente para o Pai, sem qualquer intermediário", destaca.

Ok, entendi que os crentes não rezam Ave Maria e não dançam quadrilha, mas por que alguns fazem festa caipira em julho, vestidos de xadrez, comendo milho e bebendo crentão (versão não alcoólica do quentão)?

Segundo Roney de Carvalho, ao longo da história, muitas práticas culturais do catolicismo popular foram ressignificadas pelas igrejas evangélicas. "Até porque o ser humano necessita de símbolos, ritos, celebrações e pertencimento comunitário", diz.

O uso de objetos devocionais como óleo, lenços, rosas e água ungida, usado por alguns grupos pentecostais, também entraria nesta lista de ressignificação.

"Esse fenômeno mostra que, embora os fiéis evangélicos rejeitem a devoção aos santos, muitas comunidades preservam elementos culturais ligados à convivência, à celebração e à identidade brasileira. Trata-se menos de uma continuidade da devoção religiosa e mais de uma adaptação cultural", afirma Carvalho.

Almeida diz que quando uma igreja evangélica assume a festa caipira, algo mais profundo é revelado. Trata-se de mais do que um simples empréstimo da cultura católica. "Tal prática mostra que a brasilidade está nos corredores do movimento evangélico brasileiro, num processo de inculturação. A igreja deixa de ser um ambiente de resistência à cultura popular brasileira para tornar-se parte dela", diz.

Carvalho, porém, observa que a festa junina não é o único evento com roupagem gospel e faz paralelos entre Marcha para Jesus e procissões, romarias com congressos e retiros evangélicos ou novenas com campanhas de oração.

Idolatria

Engana-se quem acha que a idolatria criticada pelos crentes se restringe a imagens e santos. A Bíblia relaciona esse ato com confiança, dependência e devoção excessivas. Jesus, inclusive, afirmou: "Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mamom)", diz Mateus 6:24. Logo, você pode não adorar outros deuses, mas ter um trono em seu coração ocupado pelo trabalho, sua igreja, casa, ministério, pastor ou político favorito.

"Se o crente desmorona quando perde algo, emprego, carro, coisas, pessoas e entra em colapso existencial, tais coisas também se configuram como ídolos", diz Marcos de Almeida.

Da mesma forma, o professor cita "a idolatria da unção" como algo a ser combatido nas igrejas —quando um líder busca reconhecimento como sendo especial e beirando o divino, desejando ser visto como canal exclusivo de Deus.

"A fé cristã, longe de ser elemento imunizador contra a idolatria, é um confronto permanente com ela", conclui o teólogo.


Ilusão de liberdade na economia do vício, Conrado Hubner Mendes- FSP

 

Quando beneficiário de Bolsa Família, endividado, aposta em bets na ansiedade de saldar sua dívida, ele é livre? E quando aluno não consegue acompanhar a aula porque o magnetismo da tela o chama ao infinito? Ou quando o jovem jura que o vape refrescante é só hábito recreativo, mas entra em pânico quando o dispositivo descarrega? Esforços de regulação são sempre paternalistas e restritivos de liberdade? Ou o contrário?

A soberania do indivíduo é uma peça de ficção bem-sucedida na sociedade contemporânea. Sob o manto da "liberdade de escolha", mercados operam uma mutação radical: a estrutura cognitiva e emocional do sujeito é capturada para a venda de bens. A palavra liberdade, aqui, oferece verniz ideológico para exploração de vulnerabilidades biológicas e sociais. Um crime perfeito.

Aplicativos de aposta em celular - Pedro Affonso - 6.ago.24/Folhapress

Essa arquitetura da servidão abrange ao menos cinco engrenagens. A cada campo econômico corresponde uma ilusão de autonomia da vontade.

Na economia do medo e do ódio, o pânico moral se tornou vetor de monetização. As plataformas digitais descobriram que o engajamento máximo deriva do conflito, e estruturam algoritmos que premiam o extremismo. O cidadão acredita exercer liberdade de expressão quando é combustível involuntário de um modelo de negócios que converte o ódio em tráfego e o medo em receita.

Na economia da atenção, a dispersão do foco inviabiliza a reflexão densa e lenta. O brasileiro figura entre os povos que mais consomem horas em redes sociais. A distração gera uma democracia com déficit de atenção. Atrofia-se a capacidade de fiscalização e argumentação democrática. Os espasmos de engajamento superficial se confundem com acesso à informação.

A economia da exaustão do 6x1 criou mecanismos inéditos de autoexploração. O empreendedorismo de subsistência é vendido como autonomia. O sujeito exausto celebra a ausência de chefe e a flexibilidade de horários, sem perceber no que se transformou. O esgotamento é o preço voluntário da busca de sucesso.

Na economia da inteligência terceirizada, a "promptificação" do raciocínio transfere o esforço analítico e textual para a plataforma. Ao delegar a linguagem e o pensamento crítico, o indivíduo abre mão da própria ferramenta de emancipação, confundindo a velocidade do algoritmo com a profundidade do próprio pensamento.

Na economia do vício, temos a ilusão da satisfação. A engenharia da dependência química e financeira opera sob o álibi da responsabilidade individual. Dados do Banco Central revelam que as apostas online movimentam dezenas de bilhões de reais no sistema financeiro, catalisadas pela instantaneidade do Pix. Capturam renda e comprometem orçamento doméstico de famílias pobres.

Há exemplo importante hoje no STF. Ação judicial da CNI contesta a competência normativa da Anvisa para proibir aditivos de aroma e sabor em cigarros. O argumento da indústria invoca "livre iniciativa" e "direito de escolha" do consumidor para mascarar e blindar o design do vício e da iniciação de jovens. Ignora que o desejo foi desenhado no nível neuroquímico para neutralizar sua capacidade de recusa.

Importante é parecermos livres. Mesmo que nosso impulso decisório seja moldado por vício químico, ódio, distração e exaustão.

Paulo Leminski provocou: "Distraídos, venceremos". Era brincadeira. Viciados, distraídos, exaustos e embrutecidos, seremos vencidos.

Drauzio Varella -De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, FSP

 Sei que as aparências enganam, mas Joana não tinha cara de bandida.

No Brasil, a faixa etária que mais cresce é a dos que estão acima dos 65 anos. Em números arredondados: em 2010 eram 20 milhões, contingente que aumentou para 22 milhões, no Censo de 2022.

Vemos o perfil de uma moça ajoelhada diante de uma cadeira. Nela vemos uma outra mulher sentada. O corte do quadro não permite ver o rosto da mulher sentada. A moça ajoelhada está amarrando uma corda no tornozelo da outra mulher. Sua expressão é triste, lágrimas molham seu rosto. A cor azul acizentada do quadro todo transmite tristeza e clausura.
Ilustração de Libero para coluna de Drauzio Varella de 18 de junho de 2026 - Libero /Folhapress

Os demógrafos definem o índice de envelhecimento dividindo o número de habitantes com mais de 65 anos pelo de crianças entre zero e 14 anos. Em 2010, o índice era de 30%, ou seja, 30 pessoas com mais de 65 anos para cada cem crianças. Em 2022, esse índice subiu para 55%.

Graças à redução da fecundidade e dos nascimentos, a pirâmide etária no Brasil começou a mudar de formato a partir dos anos 1990. A base foi se alargando com o passar dos anos, como aconteceu nos países mais ricos. A diferença é que neles as mudanças ocorreram em mais de 60 anos; aqui, em metade desse tempo.

O envelhecimento dos brasileiros é visível nas ruas e no ambiente familiar. Em meados do século 19, Machado de Assis descreveu "um velho gaiteiro de 50 anos", num de seus contos. Hoje, quando perdemos um parente de 70 anos, dizemos que morreu moço.

O envelhecimento interfere com a organização da sociedade. A Previdência Social terá condições de pagar aposentadorias mensais até os 90 anos, enquanto o número dos que chegam ao mercado de trabalho não para de diminuir? As empresas continuarão a considerar velhos e demitir funcionários de 50 ou 60 anos?

Na área da saúde, as consequências poderão ser trágicas. Os brasileiros envelhecem mal: quando chegam aos 60 anos, mais da metade sofre de hipertensão arterial; o número de pessoas com diabetes deve andar perto dos 20 milhões; os índices de obesidade, com seu cortejo de complicações, aumentam a cada pesquisa do Vigitel —o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico.

Nessa faixa etária é cobrada a conta do fumo, do abuso de álcool e de drogas ilícitas, do sedentarismo e do consumo de alimentos ultraprocessados.

Hoje, cerca de 80% dos atendimentos no SUS são de problemas crônicos que requerem controle pelo resto da vida. Doenças cardiovasculares e câncer são as principais causas de óbito. Criado no fim dos anos 1980, o sistema único não foi pensado para lidar com essa realidade.

Estamos preparados para enfrentar problemas dessa magnitude? Claro que não. Se o Japão, a Suécia e a Finlândia não estão, nós, neste país continental com tantas diferenças regionais, baixo nível educacional e distribuição de renda imoral, é que estaríamos?

De todos os desafios do envelhecimento, nenhum se compara ao das demências, tragédia que cai nos ombros dos familiares, sem que o SUS esteja preparado para ajudá-los. Uma pessoa incapaz de se vestir, tomar banho, comer sozinha ou entender o que se passa ao redor exige cuidados dia e noite, geralmente a cargo de uma mulher da família, obrigada a interromper a carreira e a vida pessoal por anos consecutivos.

Joana foi a última paciente que atendi naquele dia, na Penitenciária Feminina de São Paulo. Veio, quando as demais já tinham voltado para as celas, acompanhada pela chefe de disciplina, procedimento de rotina no caso das prisioneiras recolhidas na ala do seguro, por correr risco de morte nas mãos das companheiras.

Ela vivia com a mãe, para lá de Guaianases, no extremo da zona leste. Como tantas outras, saía para o trabalho às 5h e só retornava às 20h.

O avanço do quadro demencial fazia com que a mãe se perdesse ao ir para a rua, situação que acrescentou mais uma tarefa à rotina da filha: procurá-la pela vizinhança.

Quase sempre a encontrava na casa de uma vizinha que a havia recolhido, mas, às vezes, eram horas perambulando por ruelas escuras ou sentada num banco da delegacia, aguardando a vez para prestar queixa.

Tendo que trabalhar para o sustento das duas, Joana comprou uma corda comprida. Antes de sair de casa, amarrava uma extremidade no pé da mesa e a outra na perna da mãe, que podia se movimentar até o quintalzinho, mas sem sair para a rua. Depois de preparar o jantar e o almoço do dia seguinte, Joana levava a mãe para andar a pé pelo quarteirão ou à igreja, nas noites de culto.

Um dia, um vizinho deu parte na delegacia. Joana foi presa por maus-tratos. Na cadeia, mulheres que maltratam mãe, pai ou criança não são aceitas no convívio com as demais, razão pela qual estava confinada na ala do seguro. Como lamentou resignada: "Vim parar na cadeia da cadeia".