quinta-feira, 18 de junho de 2026

Quem avisa os portugueses que eles vão coorganizar a Copa de 2030?, Rodrigo Tavares, FSP

 Lembram-se de quando, em 2013 e 2014, milhões de brasileiros foram às ruas exigir "hospitais padrão Fifa"? Lembram-se de que, mais de uma década antes do pontapé inicial, o Qatar já era obrigado a se defender de acusações de corrupção e violação dos direitos humanos? Lembram-se de que a África do Sul apresentou a Copa como um projeto nacional de desenvolvimento?

Um mundial é sempre mais do que um mês de futebol. É um processo longo de debate público, investimentos estatais e privados, disputas de poder e organização logística.

Menos em Portugal. A quatro anos do início do evento, os portugueses esqueceram-se de que têm uma Copa para coorganizar, juntamente com Marrocos e Espanha. Salvo raras notícias em jornais esportivos e reuniões burocráticas na Fifa, o país comporta-se como se não lhe tivesse sido atribuída a coorganização do maior evento midiático do planeta.

Pessoas em pé na arquibancada de um estádio, algumas usando roupas esportivas, observam o campo. Na frente, banner grande com a palavra "PORTUGAL" em letras brancas sobre fundo vermelho e verde.
Torcedores de Portugal no centro de treinamento da seleção portuguesa na Flórida durante Copa do Mundo deste ano - Patricia de Melo Moreira - 13.jun.26/AFP

Os otimistas dirão que não há razão para dramatismo. Portugal organizou a Eurocopa de 2004, ganhou experiência, construiu estádios, recebeu milhares de torcedores estrangeiros e projetou uma imagem de competência. Em 2030, acrescentarão, o país receberá apenas seis jogos, distribuídos por três estádios já existentes (Luz, Alvalade e Dragão). Não haverá, portanto, necessidade de grandes obras, grandes sacrifícios orçamentários ou grandes debates nacionais.

O problema é que Portugal, hoje, não está preparado para essa pressão. O velho aeroporto de Lisboa é uma infraestrutura moribunda, mantida de pé por remendos e negação política. O novo, a ser inaugurado só em 2037, está sendo planejado desde 1954.

Os hospitais enfrentam rupturas cíclicas, urgências encerradas e falta de profissionais. Os transportes metropolitanos continuam insuficientes para a escala das áreas urbanas que servem. A ligação ferroviária entre Lisboa e Porto (Alfa Pendular e Intercidades) oferece um serviço irregular, caro, com atrasos recorrentes e material circulante herdado dos anos 1990. A habitação e a hotelaria, sobretudo em Lisboa e no Porto, já funcionam sob uma pressão turística e imobiliária que o mundial tenderá a agravar.

O mais inquietante, porém, é que quase nada disso está sendo discutido. Não há verdadeiro debate público sobre a Copa de 2030 em Portugal. Não há uma conversa nacional sobre custos, prioridades, riscos, responsabilidades ou legado. Não há escrutínio sobre o que caberá ao Estado, às prefeituras, à Federação Portuguesa de Futebol, aos clubes e à iniciativa privada.

Não se fala de responsabilidades, porque as responsabilidades, quando nomeadas cedo demais, perdem a delicada utilidade de poderem ser repartidas depois. Não há discussão séria sobre transportes, saúde, segurança, hospedagem, preços, mobilidade urbana ou impacto turístico. O país se candidatou, celebrou timidamente a escolha em 2024 e depois mergulhou num silêncio profundo.

Na Espanha, o governo criou por decreto uma Comissão Interministerial para coordenar a organização da Copa de 2030, presidida pela ministra da Educação, Formação Profissional e Esportes, com representantes de 15 ministérios. A estrutura foi posteriormente desdobrada em grupos de trabalho para articular a ação pública em torno do evento.

Marrocos, por outro lado, criou a Fundação Marrocos 2030, um órgão específico para coordenar a preparação da Copa entre governo, autoridades locais, setor privado e federação. E vinculou o evento a uma agenda de investimentos em ferrovias, aeroportos, rodovias, hotéis e requalificação urbana.

A última notícia publicada pelo Público, o maior diário português, sobre a organização do evento em Portugal data de dezembro de 2024. O título dizia quase tudo: "É oficial: Portugal vai receber Mundial 2030 —mas não sabe que retorno financeiro terá." Segundo o jornal, o governo admitia desconhecer quanto teria de investir e qual seria o retorno, embora acreditasse que o saldo final seria positivo.

As últimas palavras públicas relevantes de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, sobre a Copa remetem também a dezembro de 2024, quando o país foi confirmado como coanfitrião e ele classificou a escolha como um "momento muito positivo".

Mas não nos preocupemos. Portugal sabe improvisar bem. É uma tecnologia antiga, aperfeiçoada nas repartições, nos gabinetes e nas antecâmaras do poder. Adia-se sem parecer ocioso, hesita-se sem parecer medroso, espera-se que o acaso faça metade do serviço e, depois, assina-se o resultado com ar de estadista. O atraso, quando bem apresentado, também pode parecer uma forma superior de governo.

Onde descartar o papel em que a figurinha da Copa vem colada?, Fernanda Mena, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Você sabe onde jogar aquele papelzinho em que as figurinhas da Copa vêm coladas?

Em meio à febre do álbum da Copa do Mundo de 2026, o papel que sobra depois que a figurinha é destacada e colada não deve ir nem para o lixo comum nem para aquele dos itens recicláveis que vão para a coleta seletiva tradicional.

Conhecido na indústria como liner, esse tipo de papel é a base do autoadesivo. Trata-se de um papel revestido por uma fina camada de silicone que impede a cola da figurinha de aderir permanentemente à superfície, permitindo que ela seja destacada e colada no álbum.

O problema é que essa mesma característica dificulta a sua reciclagem. Se descartado no lixo comum, o liner acaba em aterros sanitários. Se enviado para a coleta seletiva, costuma ser rejeitado pelas cooperativas e centrais de triagem, já que a maior parte das recicladoras de papel não possui tecnologia para processá-lo.

Homem e mulher sentados lado a lado em mesa coberta por muitos papéis dobrados. Ambos sorriem para a câmera em ambiente interno com quadro na parede ao fundo.
Sérgio Talocchi e Patrícia Meirelles começaram na Copa de 2022 a campanha de coleta e destinação correta dos papeizinhos em que as figurinhas vêm coladas - Divulgação

"Existem fábricas pequenas que estão testando formas de reciclar o liner. Mas, hoje, é a Polpel que pode receber liners em volume", afirma Fábio Suetugui, conselheiro da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap).

A empresa citada é a Polpel, recicladora de Guarulhos (SP) que afirma operar a única tecnologia da América do Sul capaz de transformar liners em celulose. O processo é mantido em sigilo industrial, mas permite que o material seja reaproveitado na fabricação de novos papéis, como embalagens, papel-cartão e papel-toalha.

Até 10 de agosto, a empresa está recebendo liners de figurinhas da Copa enviados por pessoas físicas, escolas, condomínios e outros grupos organizados. Toda a renda obtida com a comercialização da celulose resultante da reciclagem dos liners das figurinhas da Copa será revertida para o GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer).

A iniciativa nasceu durante a Copa de 2022, a partir de uma inquietação doméstica.

A designer gráfica e gestora ambiental Patrícia Meirelles de Azeredo Coutinho acompanhava os três filhos na coleção das figurinhas quando começou a se incomodar com a quantidade de liners descartados. Seu marido, Sérgio Talocchi, gerente sênior de sustentabilidade da Natura, sabia que a empresa já enviava para a Polpel os liners gerados pelos rótulos de seus produtos.

A ideia inicial era simples: recolher o material no condomínio e encaminhá-lo junto aos resíduos enviados pela Natura. Patrícia comentou a proposta em grupos de WhatsApp da escola dos filhos e foi surpreendida pela reação.

"Achei que meu celular tinha sido clonado. De repente havia centenas de mensagens de pessoas querendo participar da iniciativa", lembra.

O que seria uma ação pontual se transformou em uma campanha nacional. Escolas, empresas e famílias passaram a organizar pontos de coleta. Com apoio financeiro da Panini, editora do álbum, foi possível contratar uma empresa para recolher e encaminhar o material coletado.

Ao final da campanha, cerca de 230 quilos de liners —aproximadamente 1 milhão de unidades— foram reciclados e transformados novamente em celulose.

Neste ano, porém, a mobilização ocorre sem o apoio financeiro da editora. Procurada pela Folha, a Panini não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.

A campanha depende principalmente da participação voluntária. Algumas escolas, como Oswald de Andrade, Piaget e Elvira Brandão, criaram pontos de coleta abertos à comunidade em suas unidades. O perfil do Movimento Sobre Nós no Instagram divulga novos locais de recebimento à medida que eles surgem.

Quem não encontrar um ponto próximo pode reunir os liners e enviá-los diretamente para a Polpel até 10 de agosto. O endereço é rua Padre Marcos, 761, CEP 07250-071, em Guarulhos.

Para Patrícia, o valor da iniciativa vai além da reciclagem. "As crianças criaram gincanas, projetos e ações de conscientização. É uma oportunidade de educação ambiental que nasce de algo presente no cotidiano delas."

Enquanto milhões de figurinhas são coladas nos álbuns da Copa, o pequeno papel que sobra deixa de ser um resíduo sem destino e passa a integrar uma cadeia de reciclagem que começou com uma pergunta simples: onde jogar o papel em que a figurinha vem colada?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

BC corta Selic em 0,25 ponto pela 3ª vez, para 14,25% ao ano, e mantém indefinição sobre futuro, FSP

 Nathalia Garcia

Brasília

O Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu nesta quarta-feira (17) a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual pela terceira vez seguida, de 14,5% para 14,25% ao ano, apesar do cenário mais desafiador para a inflação.

A decisão do colegiado do Banco Central foi tomada de forma unânime pelo presidente Gabriel Galípolo e por mais seis diretores do colegiado, que está com dois desfalques. Das oito reuniões do ano, quatro já foram realizadas com quórum reduzido.

No comunicado, o comitê manteve a indefinição sobre os próximos passos ao afirmar que a magnitude total do ciclo de queda de juros "será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta."

O comitê iniciou o processo de flexibilização de juros em março, quando a Selic estava em 15% ao ano. Desde então, foram dois cortes na mesma dose, de 0,25 ponto percentual. Em abril, o Copom indicou que pretendia continuar o ciclo de "calibração" da taxa básica, mas evitou se comprometer antecipadamente com o ritmo e a extensão dos ajustes.

Para esta quarta, a expectativa majoritária do mercado financeiro era de outra redução de 0,25 ponto na Selic, a 14,25% ao ano. Das 34 instituições consultadas pela agência Bloomberg, somente três apostavam na manutenção de juros no patamar de 14,5% ao ano.

A diferença entre os juros dos Estados Unidos e do Brasil está em 10,5 pontos percentuais. Mais cedo, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) decidiu manter os juros na faixa entre 3,5% e 3,75% na primeira reunião liderada por Kevin Warsh, mesmo com a pressão do presidente Donald Trump por uma drástica redução da taxa.

Nos últimos dias, com o acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para reabrir o estreito de Hormuz, o preço do petróleo chegou a ficar abaixo de US$ 80. Apesar da perspectiva mais favorável, o cenário ainda é de instabilidade. Segundo Trump, os bombardeios no Oriente Médio podem ser retomados.

O comitê ressaltou que o ambiente externo permanece incerto diante da indefinição sobre os termos do acordo para cessar o conflito no Oriente Médio e das consequências dos efeitos já materializados.

Além das tensões no campo geopolítico, o Copom chamou a atenção para a piora nas expectativas de inflação, que se afastaram mais da meta, em uma semana marcada por forte estresse nos juros futuros.

No cenário de referência do Copom, a estimativa de inflação para este ano subiu de 4,6% para 5,2%. Para 2027, a projeção subiu de 3,5% para 3,7%.

Devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia, o comitê tinha na mira nesta quarta a inflação esperada para o último trimestre de 2027. No entanto, o colegiado do BC disse no comunicado ter optado por uma trajetória alternativa, com uma condução dos juros mais suave, buscando garantir a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028.

Esse período já passaria a ser o alvo oficial do Copom nas decisões tomadas a partir do próximo encontro, previsto para 4 e 5 de agosto. O comitê sugeriu então que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar à inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 —sem dizer quanto exatamente.

O Copom ponderou que a avaliação projetada em seus modelos está sujeita a incertezas acima das usuais. "Essas incertezas se somam ao cenário de choques de oferta, o que fundamenta a graduação, ao menos parcial, de seus efeitos sobre a dinâmica futura de preços", acrescentou.

A meta central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No atual modelo, de avaliação contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora deste intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).

Na semana passada, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acelerou a 4,72% no acumulado de 12 meses até maio e ultrapassou o teto da meta de inflação perseguida pelo BC, o que não ocorria desde outubro do ano passado.

Conforme os dados do último boletim Focus, as projeções para o IPCA se afastaram em relação à meta, inclusive para prazos mais longos. Para este ano, a estimativa atingiu 5,3%. A projeção de inflação para 2027 chegou a 4,10% e, para 2028, subiu a 3,68%.

O Copom disse que a manutenção dos juros altos por um longo período ajudou a esfriar a economia. No entanto, mencionou que o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre deste ano e sinais de resiliência do mercado de trabalho.

Nas últimas semanas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou uma série de medidas fiscais e parafiscais, com potencial para impulsionar o consumo das famílias.

O "pacote de bondades" inclui o novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas, além de aumento em linhas de crédito para pessoas físicas (caminhoneiros, taxistas, motoristas de aplicativos) e empresas de diferentes setores, como habitação e agronegócio.

Segundo economistas, a forte expansão fiscal explica em grande medida a reaceleração da demanda e vai na contramão do trabalho do BC para controlar a inflação.

Em relação à questão fiscal, o comitê se limitou a dizer que segue acompanhando os impactos sobre a política de juros e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza

"Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026", disse.

Para o colegiado do BC, o cenário doméstico continua marcado por projeções de inflação elevadas, expectativas distantes da meta e pressões no mercado de trabalho.