quarta-feira, 22 de abril de 2026

Geração solar de casas e pequenos comércios faz rede de energia atingir limite em três estados, FSP

 

Brasília

A instalação de placas solares em residências, pequenos comércios e fazendas por todo o país —muitas vezes sem a permissão de órgãos reguladores— tem testado os limites das redes de distribuição de energia. Em alguns estados, essa saturação já inviabiliza a conexão de novos usuários de painéis solares à rede elétrica.

Conforme informações obtidas pela Folha, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já identificou casos de rejeições de ligações em redes de Mato Grosso, com reflexos no Acre e em Rondônia, que passam por situação de esgotamento. A reportagem apurou com pessoas do setor que Mato Grosso do Sul caminha para o mesmo problema.

O motivo de barrar essas novas ligações ou ampliações é simples: as redes não foram projetadas para suportar todo esse volume de carga ao mesmo tempo e, agora, precisarão se adequar à nova realidade.

Placas solares em Rondônia - Divulgação/Sedam

Em comunicado à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o ONS sinalizou que, enquanto as condições das redes atuais não mudarem, ou seja, enquanto não tiverem mais capacidade de receber e distribuir energia, novas conexões de geração solar ficarão inviabilizadas, seja para novos usuários, seja para ampliações.

Os casos analisados envolvem diversos portes de consumidores que produzem a própria energia e que são conhecidos no setor elétrico como MMGD (micro e minigeração distribuída). Nesse perfil, estão desde residências com painéis solares no telhado, que são a maioria, até pequenos comércios e propriedades rurais que produzem energia fotovoltaica.

Em comum está o fato de todos estarem conectados à rede de distribuição geral de energia, que recebe a produção de diferentes fontes, incluindo a solar.

As limitações da rede elétrica ocorrem porque a infraestrutura atual não foi projetada para suportar o crescimento desse grupo de consumidores. Como muitos passaram a produzir mais do que precisam em determinados momentos do dia, o excedente é enviado para a rede elétrica e convertido em créditos que podem ser usados por eles posteriormente.

Ocorre que, quando vários produtores fazem isso ao mesmo tempo, a rede local acaba recebendo mais energia do que foi projetada para suportar. Por isso, novos pedidos de conexões passaram a ser negados em algumas regiões, até que a estrutura seja ampliada.

Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 60 GW (gigawatts) de potência em operação no setor de energia solar, segundo dados da Aneel. O número considera a soma dos pequenos e médios geradores (42,05 GW) e das grandes usinas solares, responsáveis por 17,95 GW.

Atualmente, a energia solar já é responsável por mais de 23% de participação na matriz elétrica nacional, sendo a segunda maior fonte, atrás apenas das usinas hídricas, que detêm 43,3% do volume total.

Em regiões com estresse nas redes, pequenos consumidores residenciais têm conseguido fazer suas conexões, mas, dependendo do tamanho da produção, estão sendo barrados.

A informação foi confirmada à Folha pelo operador. "O ONS avalia que a situação em Mato Grosso, com repercussões operativas para Acre e Rondônia, reflete uma restrição estrutural do sistema. Houve forte crescimento da geração na região, especialmente da micro e minigeração distribuída, e a operação precisa respeitar limites técnicos para preservar a segurança do Sistema Interligado Nacional", declarou.

"No caso de Mato Grosso, esse limite é necessário para evitar risco de instabilidade e desligamentos de grande porte em contingências severas na rede de transmissão."

O operador informou à Câmara Setorial Temática da Energia Elétrica em Mato Grosso que, "enquanto persistirem as condições técnicas, novas conexões de centrais geradoras não serão viáveis na região".

Mato Grosso já soma mais de 2,8 GW instalados e pode ultrapassar 3,5 GW até 2030, volume que supera a demanda máxima prevista para o estado. Esse tipo de situação tem provocado mudanças no perfil de consumo, com redução da carga durante a manhã e excedente que chega a ultrapassar 900 MW (megawatts) por volta das 12h, segundo o operador.

A Aneel também orientou as distribuidoras a fazer um pente-fino nas instalações de geração distribuída já conectadas, para identificar casos que podem estar produzindo mais energia do que a autorizada pelo órgão de fiscalização.

Há casos de um pequeno gerador da CPFL Energia, por exemplo, que tinha autorização para injetar até 75 kW (quilowatts) na rede, um volume de energia que costuma ser gerado por comércios ou fazendas, ou seja, é uma produção superior à média de uma casa simples. Acontece que esse consumidor passou a registrar, de uma hora para outra, volumes frequentes superiores a 140 kW, praticamente o dobro do que tinha autorização.

"Essa discrepância comprova a existência no local de uma central geradora com potência instalada superior ao montante autorizado pela distribuidora", diz a Aneel.

Para a Aneel e o ONS, as análises mostram que consumidores de todos os perfis têm ampliado a quantidade de painéis e equipamentos após a aprovação do projeto inicial, sem comunicar formalmente a distribuidora. A intenção inicial pode até ser a de garantir mais produção para consumo próprio, mas o fato de estarem plugados na rede acaba gerando instabilidade generalizada.

Além do risco operacional, a Aneel avalia que essas situações podem levar a "subsídios cruzados indesejados", quando consumidores acabam se beneficiando de vantagens regulatórias destinadas a sistemas menores, enquanto operam com capacidade maior.

Na prática, a agência se refere ao fato de que consumidores que tenham painéis com capacidade superior à autorizada podem se beneficiar de descontos em conta de luz de forma indevida, transferindo parte dos custos da rede para os demais consumidores. Isso acontece porque a rede tem custos fixos, que não desaparecem. Por isso, parte dessa conta acaba sendo redistribuída, fazendo com que os demais consumidores paguem pela infraestrutura que continua a ser utilizada.

Alterações das normas do setor devem ser anunciadas em breve a respeito do assunto, mexendo com as regras de conexão e operação da geração distribuída.

À Folha a Aneel declarou que "tem trabalhado em várias frentes", como mudanças regulatórias e medidas para "evitar conexões clandestinas ou desautorizadas nas redes".

"A Aneel está estudando e colocando em discussão com a sociedade medidas de modernização das tarifas de energia com a possibilidade de inclusão de sinais horários e locacionais de forma a alocar aos consumidores e usuários do sistema, de forma mais precisa, o custo que causam ao sistema", afirmou a agência.

Bárbara Rubim, vice-presidente de geração distribuída da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), disse que, de fato, há diversos pontos de atenção sobre as redes que precisam ser sanados, mas que o governo também precisa adotar medidas para estimular o armazenamento de energia.

"Não falo só do armazenamento centralizado por meio do leilão, que é muito esperado para o segundo semestre, mas também do armazenamento distribuído para ajudar a solucionar uma sobrecarga das redes de distribuição de pequenos usuários", afirmou Rubim.

Segundo a especialista, as distribuidoras têm feito fiscalização por drone e usado inteligência artificial para entender o que seria a geração esperada do sistema versus o que está sendo efetivamente entregue.

"Há inúmeros relatos de consumidores que têm sido autuados pelas distribuidoras em um contexto de uma expansão irregular. A Absolar, obviamente, é favorável ao cumprimento das normas, mas isso é minoria num universo de mais de 7 milhões de consumidores gerando a própria energia", comentou Rubim.

"É um pouco frustrante para o setor perceber que a agência, as distribuidoras e os órgãos setoriais parecem mais vocais para trazer à luz uma eventual irregularidade pontual do setor do que para cumprir as suas próprias obrigações legais", criticou ela, mencionando as lacunas regulatórias que há anos afetam o segmento.

Quem é quem no jogo solar

Microgeração

- Casas que geram até 75 kW

- Usam painéis solares no telhado

- Produzem energia para uso próprio

- Se sobra energia, vai para a rede e vira crédito na conta de luz

Minigeração

- Empresas, fazendas e comércios que geram de 75 kW até 5 MW

- Usam painéis solares no telhado ou em terrenos

- Produzem energia para uso próprio

- Se sobra energia, vai para a rede e vira crédito na conta de luz

Usinas solares

- Unidades que produzem acima de 5 MW

- Hidrelétricas, eólicas e grandes usinas solares que instalam painéis

- Vendem a energia, que vai direto para o sistema elétrico

- Tem o fornecimento controlado pelo ONS

Onde está o problema

- Muita energia gerada ao mesmo tempo, em horários de baixo consumo

- Resultado é a rede de distribuição sobrecarregada, com risco de instabilidade

- Mato Grosso, Acre e Rondônia registram áreas de esgotamento em suas redes

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Lula perdeu a aposta, Elio Gaspari - FSP

 O nível de endividamento das famílias cresceu e esse pode ser um dos fatores que erodem a popularidade de Lula. Vá lá que seja. Segundo os alquimistas do Planalto, uma das causas desse endividamento seriam as apostas eletrônicas. Vá lá que sejam, mas quem abriu a porteira para esse mercado, de apostas, foi o governo. O ministro Fernando Haddad não fez isso para estimular a opção pelo risco.

Foi pura e simples ganância arrecadatória. Em 2024 a ekipekômika esperava arrecadar até R$ 3,4 bilhões com a venda de licenças para a tavolagem. Havia 113 propostas na fila, metade delas eram de fancaria.

O presidente Lula, durante evento do PT em São Bernardo do Campo (SP) - Tuane Fernandes - 19.mar.26/Reuters

A iniciativa era o sonho do burocrata e do ministro arrecadador. Do nada, arrumariam R$ 3,4 bilhões com as outorgas. Rodando-se as maquininhas, as empresas pagariam 12% sobre suas receitas brutas, os ganhadores seriam mordidos em 15% acima de um prêmio no valor de um salário mínimo.

Foram desprezados argumentos contrários vindos de setores categorizados da administração pública. A área da segurança alertou para a infiltração do crime organizado nesse novo mercado. Os profissionais da saúde advertiram para uma epidemia de distúrbios provocados pelo vício do jogo. Em 2024, os brasileiros perderam R$ 23,9 bilhões em sites de apostas.

Diante desses números tristes, em setembro de 2024, Lula resolveu opinar, no modo profeta. "O Brasil sempre foi contra cassino, qualquer tipo de jogo de azar. Hoje, através de um celular, o jogo está dentro da casa da família, da sala", disse Lula.

"Estamos percebendo no Brasil o endividamento das pessoas mais pobres tentando ganhar dinheiro, fazendo apostas. É um problema que vamos ter que regular, se não daqui a pouco vamos ter cassino funcionando dentro da cozinha de cada casa."

E daí? Nada. Passaram-se dois anos e o problema continuou do mesmo tamanho, até que os alquimistas do Planalto assustaram-se com o endividamento das famílias. Isso acontece porque a economia está andando de lado, mas precisava-se de um bode. Escalaram as apostas. Ele tem chifre, patas e barbicha porque o governo lhes deu.

Acordado para o efeito eleitoral do endividamento, Lula removeu o modo profeta de 2024 e repetiu os mesmos argumentos, colocando uma cereja no bolo, a criação de um programa Desenrola 2.0. O primeiro, concebido no início do governo, deu certo.

O perigo mora num Desenrola que replique o Refis. Este foi um programa criado para aliviar os penares das vítimas da carga tributária. Sobretudo devedores do andar de cima. Bem desenhado oferecia, prazos, descontos e perdões. Virou um narcótico e até agora já teve umas 20 edições.

Falta ao governo de Lula coragem do general Eurico Dutra. Em abril de 1946 o Brasil tinha lindos cassinos em Petrópolis, na Urca e em Copacabana. Fechou-os todos. Hoje pode-se começar desligando-se as geringonças eletrônicas.

A história ensina que os imperadores passam, mas o papado permanece, João Pereira Coutinho, FSP

 Tempos interessantes. Os Estados Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.

Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente bizarrice trumpista.

Quatro mísseis com a bandeira estadunidense voam na direção do Papa Leão XI
Ilustração da coluna João Pereira Coutinho de 21 de abril de 2026 - Angelo Abu

Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.

Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.

Há quem prefira o conflito de Filipe 4º da França contra Bonifácio 8º. Dinheiro, tudo é dinheiro —e Filipe precisava taxar o clero para financiar suas guerras. Bonifácio se opôs. Dessa vez, o confronto terminou mal para o papa.

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E que dizer de Henrique 8º e da recusa de Clemente 7º em anular o casamento do rei com Catarina de Aragão? É um dos conflitos mais conhecidos da história, que levou à ruptura com Roma e ao nascimento da Igreja Anglicana.

Em todos esses confrontos, a questão foi repetidamente a mesma: quem manda? Antes da modernidade política —ou seja, até a Revolução Francesa— o poder temporal disputou com frequência o espaço com o poder espiritual. E vice-versa.

Donald Trump é o nome mais recente dessa linhagem anacrônica. Como é possível que o papa Leão 14 não abençoe sua guerra no Oriente Médio? Mais: como é possível que se oponha a ela?

Pior ainda: por que não demonstra temor ou deferência diante do imperador de Washington?

Curiosamente, ao formular essas perguntas e considerar a personalidade de Trump, é Napoleão Bonaparte e seu conflito com Pio 7° o exemplo histórico mais próximo que encontro.

Tudo começou bem entre os dois: em 1801, Napoleão e o papa assinaram uma concordata que devolvia parte das terras e dos direitos que a Igreja havia perdido com a Revolução Francesa. Em troca, Roma reconhecia a república.

Mas a concordata já nasceu torta, porque os dois lados enxergavam coisas diferentes no documento. Para Napoleão, ela selava a supremacia do Estado sobre a Igreja. Para o papa, era o primeiro passo para restaurar a aliança entre o trono e o altar na França pós-revolucionária.

No fundo, a pergunta "quem manda?" continuava pairando sobre os dois poderes —e rapidamente envenenou a cabeça de Napoleão. Tudo começou com um drama doméstico: o irmão de Bonaparte, Jérôme, queria obter de Roma a anulação do seu casamento com uma americana protestante.

Sem isso, a política de alianças e matrimônios que Napoleão arquitetava para os seus familiares na Europa ficaria comprometida. O papa recusou.

Mas foi a guerra, ontem como hoje, que acabou sendo a gota d’água. Napoleão exigiu que os Estados Pontifícios fechassem seus portos aos ingleses, contribuindo assim para o sucesso do chamado "bloqueio continental". Pio 7º não aceitou ser parte do conflito.

O que aconteceu em seguida foi descrito de forma definitiva pelo historiador Ambrogio Caiani no livro "To Kidnap a Pope, sequestrar um papa, em português. As tropas napoleônicas invadiram o Palácio do Quirinal em 1809 e sequestraram o papa.

Depois de anos de cativeiro, Pio 7º acabou cedendo ao poder do imperador com uma segunda concordata, em 1813, no exílio de Fontainebleau.

É possível que, em seus momentos mais delirantes, Donald Trump sonhe com uma missão semelhante. Se funcionou com Nicolás Maduro na Venezuela, por que não com Leão 14?

Eu desaconselharia. Até porque a história do conflito entre Napoleão e o papa não acabou bem para o imperador. Um ano depois da segunda concordata, Napoleão foi derrotado em Paris e, em 1815, definitivamente esmagado em Waterloo.

O papa, por sua vez, voltou a Roma. Foi recebido como um herói, um mártir e uma referência moral para toda a Europa.

Mais uma vez, confirmava-se a velha máxima: imperadores passam, mas o papado permanece.

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições. Elas seriam valiosas para tentar esfriar os impulsos do chefe.

A história é pródiga em napoleões que, embriagados pelo poder, acreditam mesmo governar este mundo e o outro.