sábado, 22 de novembro de 2025

Moraes dá fôlego à oposição no ocaso de Bolsonaro, Igor Gielow FSP

 Igor Gielow

São Paulo

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro (PL) neste sábado (22) parece ter selado o destino carcerário do ex-presidente. Ela constitui uma medida extrema, com ares de "Minority Report - A Nova Lei", filme de Steven Spielberg de 2002.

Nele, uma unidade policial era abastecida por videntes com imagens de crimes que ainda iriam acontecer e entrava em ação para impedi-los. Na sexta (21), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ofereceu a Alexandre de Moraes uma visão de futuro ao convocar vigílias em favor do pai.

Homem de camisa branca está em evento ao ar livre, atrás de bandeira do Brasil com rosto estilizado em preto e branco. Pessoa ao fundo usa chapéu amarelo e levanta o braço.
O senador Flávio Bolsonaro em manifestação pela anistia do pai em Brasília - Evaristo Sá - 7.out.2022/AFP

Na sua decisão, ele citou um risco de fuga por violação na tornozeleira eletrônica, que ocorreria em meio à vigília, uma conjectura.

Talvez Moraes também estivesse preocupado com o risco de confronto entre apoiadores e os policiais que fossem executar a ordem de prisão de Bolsonaro —em 2018, Lula (PT) estava no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo cercado de fiéis, e só foi preso quando saiu voluntariamente do prédio.

Há também a possibilidade de a convocação ter acionado um gatilho cognitivo associado aos acampamentos em frente a quartéis quando o então presidente foi derrotado pelo petista em 2022, desaguando no 8 de Janeiro.

Como direito de manifestação ainda é livre segundo o artigo 5º da Constituição, Moraes sacou uma exceção à regra, o risco à ordem pública, para prender o ex-presidente na sede brasiliense da Polícia Federal. Como definir tal perigo sem a aglomeração acontecer é algo insondável.

Na PF, ele aguardará seu destino conhecido, a Papuda. Nada impedirá novas convocações de manifestações. Há precedente, até: Lula passou 580 dias preso com uma vigília à porta da PF de Curitiba, sem intercorrências.

Aqui não se trata de discutir se Moraes exagerou, lembrando a debacle causada por uma falha do sistema do filme de Spielberg, mas avaliar o impacto político da decisão. Nesse sentido, ele fez exatamente o que o senador Flávio queria.

bolsonarismo está respirando por aparelhos, ainda que sempre irá se fiar nos números de pesquisas eleitorais do ex-presidente, de resto inelegível até 2030 mesmo que não estivesse condenado a 27 anos pela trama golpista.

Os atores do pós-Bolsonaro se movimentam livremente, uma turma encabeçada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), esperando a hora certa de alçar voo —ou não, deixando a missão de enfrentar Lula com algum colega, em especial se o presidente estiver em boa forma.

Com o desastre da ação do incendiário deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) contra o Brasil na terra de Trump, coube a Flávio assumir o manto de presidenciável presumido da família, ao menos neste momento

A toxicidade de seu sobrenome o inviabiliza pelo cenário atual, mas sua voz é suficiente para bagunçar ainda mais o coreto da dividida oposição. Moraes lhe deu, mordendo a isca da vigília, oxigênio retórico para continuar relevante no jogo.

Claro, isso teve um preço, que foi ver o pai adiantar sua estadia sob a custódia do Estado de forma ostensiva. É padrão Bolsonaro pagar por ações de seus filhos, como já ocorreu na decretação da prisão domicilar. Mas a ficha da vitimização foi usada pelo ex-presidente ao longo de todo o processo que o viu condenado, e não será diferente na execução da pena.

Mas a partir do momento em que Bolsonaro sair de vez de cena, esse crédito final fornecido por Moraes irá se exaurir, e a contagem regressiva para o enterro político do ex-presidente estará aberta entre os seus herdeiros, que verão a ausência física como boa notícia.

Bolsonaro conduziu seu infortúnio, Dora Kramer, FSP

 Preso Jair Bolsonaro (PL) estava em casa, preso continuará na Polícia Federal até que o ministro Alexandre de Moraes decida lhe dar, ou não, o benefício da domiciliar ao fim do processo. Mais uma vez o ex-presidente e sua turma dada a reiteradas afrontas à Justiça lhe causam dissabores.

A ordem preventiva aconteceu devido à convocação de manifestantes para vigília feita pelo filho Flávio (PL-RJ) e à violação da tornozeleira eletrônica, o que por si justificaria a medida cautelar.

As fugas de correligionários certamente pesaram na decisão, tomada a pedido da PF com a concordância da Procuradoria-Geral da República. Portanto não há o que se falar sobre a observância do devido processo legal.

Talvez não houvesse risco objetivo de Bolsonaro escapar da estreita vigilância que o cerca, mas havia sinais contundentes da necessidade de se dar um aviso de contenção a outros condenados no processo por tentativa de golpe de Estado.

Ao ser implacável com o líder, a Justiça indica que será intransigente com os liderados. Afinal, quatro deles já desafiaram o tribunal: dois deputados foragidos —Carla Zambelli (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ)—, um senador posto em tornozeleira eletrônica depois de sair do país sem autorização —Marcos do Val (Podemos-ES)— e um deputado ora longe do alcance do STF, onde é réu —Eduardo Bolsonaro (PL-SP), nos Estados Unidos desde março.

Se assistissem inertes ao que se poderia interpretar como atos preparatórios para descumprimento da sentença prestes a ser executada, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal estariam incorrendo em grave omissão.

O contexto desfavorece a concessão de benefícios no campo judicial, e, na seara política, o cenário tampouco o favorece. As escolhas pelo confronto desprovido de estratégia e a ignorância no trato da dinâmica institucional levam Bolsonaro e bolsonaristas a pagarem o preço decorrente da própria estupidez; incompatíveis que são com a vigência do Estado democrático de Direito.