sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Lula nomeia homem branco para o STF em pleno dia de Zumbi, Gustavo Alonso ,FSP

 A única inovação política do século 21 foi a catalisação das pautas identitárias na política brasileira. Muitos queriam que Lula escolhesse uma mulher ou um negro para a cadeira vaga do STF. E, no entanto, neste dia 20 de dezembro, feriado de Zumbi dos Palmares, Lula nomeou Jorge Messias como novo membro do STF.

Dois homens de terno apertam as mãos em frente a estantes cheias de livros em uma biblioteca. Ambos sorriem e estão em ambiente interno com móveis de madeira.
Presidente Lula (PT) e o advogado-geral da União, Jorge Messias - Ricardo Stuckert - 20.nov.25/Divulgação PR

Todos sabemos que a política impera na escolha. Presidentes escolhem nomes de sua confiança. O que espanta é que Lula não reconheça como membros de sua confiança pessoas de matriz ideológica identitária, especialmente mulheres e negros, apesar de toda devoção dos identitários ao petismo.

Para entender o desprezo de Lula, é preciso compreender as matrizes da ascensão do identitarismo. Até poucos anos atrás, o identitarismo não era a força política dominante no país.

Foi nas jornadas de junho de 2013 que tudo começou a mudar. Naquele ano pipocaram uma série de manifestações que não estavam no script nem do PT nem do PSDB, os partidos que vinham polarizando a redemocratização do país. Longe de lideranças tradicionais, a sociedade civil se organizou através das redes digitais para, sem pedir licença ao governo nem oposição, colocar suas pautas na ordem do dia. Tarifa zero no transporte, saúde e educação com "padrões Fifa de qualidade". Sem esquecer da crítica à corrupção disseminada em todas as siglas partidárias. Em poucos anos o establishment político, à direita e à esquerda, cuidou de anular essas demandas, "com Supremo, com tudo".

Mas, junto dessas demandas estruturais facilmente anuladas, outras pautas começaram a tomar o centro do debate. Elas de fato já existiam desde o fim dos anos 1960, mas tornaram-se centrais na definição de quem era de esquerda ou direita depois de 2013.

Direitos das mulheres, dos homossexuais, dos negros e de diversas minorias e maiorias excluídas se tornaram o chão do debate na internet, nossa nova arena pública. A ponto de o significado de ser de esquerda no Brasil ter mudado radicalmente. Até os anos 1990, a pauta da reforma agrária era central para definir quem era de esquerda ou direita. A opinião sobre um possível calote da dívida externa também demarcava trincheiras. Nos dias atuais você será mais facilmente identificado às esquerdas se adotar o discurso das minorias, fizer sua mea culpa pública identitária ou cancelar qualquer um que cheire a direita ou liberal.

Questões econômicas, quando aparecem no debate, estão em segundo plano. Na nova arena pública das redes sociais, o cancelamento identitário se tornou a forma primária e agressiva de fazer política.

Seja qual for seu veredito sobre as pautas identitárias, elas não encontraram expressão no meio político tradicional. Este fato grita toda vez que Lula precisa escolher um ministro do STF. O procurador geral (Paulo Gonet) e os dois ministros do STF (Flávio Dino e Cristiano Zanin) anteriormente indicados por Lula se disseram católicos e contra o aborto em suas sabatinas no Senado. Quando Lula indicará uma mulher? Quando indicará novamente um negro retinto? E um ministro gay? Uma ministra que se diga adepta do candomblé, será possível?

Se os identitários de esquerda abdicaram da luta partidária, a direita deita e rola. O PMB (Partido da Mulher Brasileira) existe desde 2015, nas mãos da direita. Também nas direitas, as pautas deixaram de ser econômicas e estruturais para serem culturais. Definimos um bolsonarista mais por ser "a favor da família tradicional", do porte de armas e contra o aborto, do que por sua opinião sobre a taxa de juros.

Jair Bolsonaro foi a expressão identitária da direita autoritária. Inexpressivo deputado por longos trinta anos, foi alçado a salvador da pátria em pouco tempo, ao tomar o elevador das pautas identitárias pela via da extrema direita mais tosca.

Quando teremos uma nova Frente Negra Brasileira, como houve no período varguista? Criaremos vários partidos LGBTs? E um partido que represente o feminismo mais radical e outros mais brandos? Seria interessante ver estas forças políticas se confrontando com a institucionalidade. Qual o projeto dos identitários para a pauta econômica do país? Aí poderíamos ter diversos partidos da causa gay, abraçando a pauta de diversas formas. Outros tantos que representem a mulher, pessoas com deficiência, os indígenas, etc. Quanto maior a institucionalização, mais representatividade democrática. Até para fiscalizar um partido da esquerda tradicional como o PT.

O PT é um partido de velhos. Surgido em outra época, diante de outras questões. Mesmo o PSOL, que abraça enfaticamente as pautas identitárias, não nasceu em função delas.

Aos poucos PT e PSOL foram incorporando as bandeiras identitárias. Mas na hora H, fica claro que Lula não é um deles. Seus vacilos diante das minorias só são tolerados por que os próprios identitários não forjaram partidos institucionais como pontas de lanças de seus movimentos. E ficam reféns da complacência de um senhor de 80 anos mais preocupado com a suposta governabilidade do que com as minorias.

Quando a política institucional entrará de fato no século 21? Até quando Zumbi será desrespeitado?

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Aécio assume presidência do PSDB e diz que avenida se abre para o centro em 2026, FSP

 O deputado federal Aécio Neves (MG) assumirá a presidência nacional do PSDB no próximo dia 27 de novembro e diz que sua missão será reerguer o partido, que sofreu uma debandada de quadros nos últimos anos.

A imagem mostra Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, falando em um vídeo. Ele está vestido com uma camisa branca e um paletó escuro. Ao fundo, há textos de notícias e informações sobre sua gestão, incluindo uma referência à mortalidade infantil e expectativa de vida em Minas Gerais. O logotipo do PSDB está no canto superior esquerdo. Abaixo de Aécio, há uma legenda com a frase 'das grandes discussões nacionais'.
O deputado Aécio Neves, que deverá assumir a presidência do PSDB, em propaganda do partido - Reprodução

"Assumo com muita disposição de fazer o PSDB grande de novo", diz Aécio, que já presidiu o partido na década passada. A meta, segundo ele, é eleger cerca de 30 deputados federais em 2026 e assim "entrar no debate político".

A aposta do tucano, um dos últimos quadros de expressão nacional que permaneceram na legenda, é na diminuição da polarização entre lulistas e bolsonaristas.

"Não vai deixar de existir esquerda e direita, bolsonarismo e lulopetismo, mas minha percepção é que essa polarização não se manterá no tamanho que é hoje", afirma.

Isso ocorreria em razão do declínio político de Jair Bolsonaro, que foi condenado à prisão, e do próprio Lula, mesmo que se reeleja no ano que vem.

"Essa avenida do centro se amplia já a partir de 2026, com a vitória ou não do Lula. Mesmo ganhando, ele não será um protagonista, um agente condutor do processo futuro", afirma.

Aécio, que será confirmado no cargo após eleição do diretório nacional do partido, diz que o PSDB precisa resgatar suas principais bandeiras e se atualizar em outras, como segurança, política ambiental e relações externas.

"Somos oposição ao PT, mas oposição que tem um projeto para o país, e queremos superar esse momento em que as pessoas votam ‘não’ ao Lula ou ao Bolsonaro em vez de ‘sim’ a um projeto responsável, ousado, com gestão qualificado", afirma.