quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Rio está perigoso?, FSP

De que realidade falamos? Da de quem vive perto dos cartões-postais ou na parte bruta da cidade?

Em véspera de longos feriados ou de férias escolares, recebo mensagem de amigos e de conhecidos ávidos por dias de sol, samba e cerveja, pelas bandas de cá. “Está muito perigoso?”, querem saber. Difícil responder.
Vista da  Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro
Vista da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro - Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
Quem olha de fora pode ter a sensação de que a situação é pior do que a realidade, porque o noticiário privilegia o caos. Mas de que realidade falamos? Da de quem vive perto dos cartões-postais e goza de relativa segurança ou de quem apenas sobrevive na parte feia, pobre e bruta da cidade?
Há de se admitir que o morador do Rio, refém de um cotidiano violento e sem solução, se acovarda e desiste de apontar o dedo para a criminalidade porque apenas pensa no problema quando ele atravessa o túnel e faz vítimas na parte mais bonita da cidade, onde a paisagem anestesia os sentimentos de indignação.
Quero dizer que venham, que encham a cidade, ocupem os hotéis, as ruas e os restaurantes, movimentem a economia, diminuam o desemprego. Mas ao analisar os números da segurança pública num ano sob intervenção federal (que deve acabar em 31 de dezembro), qualquer pessoa diria, melhor escolher outro lugar.
Os tiroteios cresceram 56%. Os roubos de rua se mantiveram no patamar escandaloso do ano passado. Houve uma leve queda na quantidade de homicídios, mas tão pouco que não dá para comemorar.
Por outro lado, está quente feito o inferno, as ruas estão festivas, é quando o Rio é mais Rio. As praias definham em poluição, mas há poucos lugares no mundo tão bonitos. O chope é quase sempre ruim, mas os bolinhos salvam o programa. Há ótimos restaurantes e, pasme, o serviço melhorou bastante. Alguns taxistas ainda prejudicam a imagem da categoria, mas os aplicativos ajudam o turista a não bancar o otário.
Venham, tem muito problema, mas o Rio continua lindo.
Feliz 2019 e obrigada pela companhia.
Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.

Saída inglória, Opinião FSP

A três meses da data-limite para o Reino Unido deixar a União Europeia, incertezas sobre o que virá depois se avolumam

Passada a zero hora do dia 1º, uma outra contagem regressiva começará para os britânicos, com pouco ou nenhum motivo para festejo quando esta chegar ao fim. Faltarão menos de três meses para a data-limite em que o Reino Unido deixará de fazer parte da União Europeia, e as incertezas sobre o que virá depois disso se avolumam.
Não são pequenas as chances de que, em 29 de março de 2019 —o dia do “brexit”, como é chamada a saída do bloco—, o país não tenha aprovado um plano com os termos da retirada, condição básica para reger a relação futura com os demais integrantes da UE.
A primeira-ministra britânica, Theresa May, assumiu o cargo justamente para cumprir essa tarefa.  Era julho de 2016, menos de um mês após um plebiscito selar a separação britânica, com o surpreendente voto de 52% dos eleitores.
Manifestante anti-Brexit próximo ao Parlamento em Londres
Manifestante anti-Brexit próximo ao Parlamento em Londres - Tim Ireland/AP
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Ao longo desses quase dois anos e meio, a governante decerto esforçou-se diante de tal incumbência. Inevitável reconhecer, porém, que ela está muito próxima de um fracasso, isto é, de haver um “brexit” sem nenhum acordo firmado com os negociadores europeus.
Estes, diga-se, tentaram ao máximo contribuir com May. Chegou-se até a um acerto entre as partes, anunciado em novembro. Entretanto a governante não se provou capaz, ao menos por ora, de convencer os próprios correligionários do Partido Conservador de que se tratava da melhor proposta para os interesses do país. 
Ciente de que não dispunha do apoio necessário de sua base para aprovar o texto no Parlamento, May se viu obrigada a adiar uma votação que ocorreria no último dia 11. A sessão deve ter lugar na segunda quinzena de janeiro, mas  o quadro mantém-se desanimador.
Em verdade, a mandatária tem falhado no intuito de se equilibrar entre o anseio por um desligamento completo da UE —posição comum a uma expressiva parcela dos conservadores— e a busca por suavizar as desvantagens que os britânicos enfrentarão na seara comercial uma vez fora do bloco.
Se não houver mesmo um entendimento com o Legislativo até o dia do divórcio, entraria em vigor uma união aduaneira entre o Reino Unido e os outros países-membros, de caráter provisório.
Seria uma maneira, em teoria, de May ter mais tempo para articulações internas. Isso, claro, se a primeira-ministra ainda reunir capital político para continuar em sua inglória empreitada.

Quando Calero disse não, por Ruy Castro, FSP

A simples negativa de um homem causou tumulto em um organismo viciado

A cinco dias de Michel Temer pegar o boné e se preparar para a temporada rimbaldiana que o espera fora do mandato, imagino que, ao fazer um balanço de seu governo, ele se lembre dos sete dias de novembro de 2016, em que, para sua surpresa, um seu subordinado fugiu ao script a que estava destinado. Foi quando o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, negou um pedido de seu colega, o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, para interferir junto ao Iphan pela liberação ilegal das obras de um edifício em região tombada de Salvador, no qual ele, Geddel, comprara apartamento.
O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero; o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima fala com o presidente Michel Temer
O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero; o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima fala com o presidente Michel Temer - EVARISTO SA/AFP

Geddel não entendeu a recusa de Calero. Membro do núcleo palaciano, seu pedido nem era para ser discutido. Era assinar, e bola pra frente. Mas Calero parecia inflexível ---o Iphan era adstrito ao Ministério da Cultura e suas normas tinham de ser observadas. Geddel foi se queixar a Temer. Este fez tsk, tsk e também não entendeu a recusa --era o tipo de negócio normal no poder, um colega ajudando o outro.
Temer mandou chamar Calero. Disse-lhe que a política "tinha dessas coisas" e sua negativa criava-lhe "problemas no governo", porque Geddel estava "muito irritado".

Calero ficou firme. Outros ministros propuseram-lhe uma "solução jurídica" interna, que, naturalmente, daria ganho de causa a Geddel e deixaria "todo mundo bem". Calero, sentindo que não tinha instância maior a recorrer, pediu demissão de seu cargo, deu entrevista à Folhacontando tudo e entregou à Polícia Federal gravações de suas conversas com eles. A coisa azedou. Geddel, de calças na mão, também teve de "renunciar", para não queimar Temer.

O que me fascina nessa história é como a simples atitude de um homem honesto pode causar um tumulto num organismo viciado.

E fascina duplamente por ter partido de alguém que eu já admirava e de quem era amigo antes desse episódio.
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.