domingo, 1 de janeiro de 2017

O mesmo Haddad até o fim, OESP


Haddad persistiu, até o último minuto de seu governo, em sua atitude de aproveitar todas as oportunidades para exercitar sua vocação para o marketing e a demagogia
O Estado de S.Paulo
01 Janeiro 2017 | 05h00
O prefeito Fernando Haddad persistiu, até o último minuto de seu governo, em sua atitude de aproveitar todas as oportunidades – as que se apresentaram e as que ele criou de caso pensado – para exercitar sua vocação para o marketing e a demagogia. Raro ponto, infelizmente negativo, em que sua competência deve ser reconhecida. É o que aconteceu com o decreto por meio do qual pretende viabilizar e facilitar a transferência da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) da Vila Leopoldina, na zona oeste, para Perus, na zona norte.
Como mostra reportagem do Estado, esse decreto estabelece as diretrizes para que se faça aquela mudança, na qual está interessado um grupo formado pelas empresas Votorantim, SDI Desenvolvimento Imobiliário e o Instituto de Urbanismo e de Estudos para a Metrópole (Urbem). Ele pretende assumir os serviços hoje prestados pela Ceagesp, uma empresa controlada pela União, a maior do gênero na América Latina, que tem 13 unidades em São Paulo. A da capital representa 80% do total de seus negócios.
A mudança de local da Ceagesp é vista como necessária pela maioria dos especialistas na questão, principalmente tendo em vista as grandes transformações pelas quais passou a Vila Leopoldina nas últimas décadas. O problema está na forma, no momento e nas razões alegadas por Haddad para isso. Alega ele que a mudança é necessária para permitir o desenvolvimento das margens do Rio Tietê, dentro do chamado Arco do Futuro, um de seus principais projetos. Ela permitiria a verticalização da área, que seria de uso misto, com comércio e moradias.
Segundo Haddad, a área, que se tornaria um novo bairro, é uma das “âncoras” do desenvolvimento da cidade, ao lado do Complexo do Anhembi, do Autódromo de Interlagos e dos Estádios do Pacaembu e do Canindé, que também passariam por transformações. O principal critério que deve nortear a mudança da Ceagesp é tornar mais fáceis as operações das quais dependem o abastecimento da capital, e não favorecer os projetos que Haddad não conseguiu implementar como queria. Nesse contexto, o seu decreto não passa de jogada demagógica para dar a impressão de que está completando uma tarefa que mal tirou do papel.
Isso é reforçado pelo fato de que a mudança da Ceagesp não depende da Prefeitura, um ponto essencial da questão que Haddad espertamente deixou na sombra. Tanto a Ceagesp como o terreno que ela ocupa são de propriedade da União. O máximo que a Prefeitura pode fazer é criar condições para aquela mudança, não promovê-la, já que evidentemente ela não pode dispor de um negócio que não lhe pertence, seja para mudá-lo de lugar, seja para repassá-lo a grupos privados.
Tanto Haddad sabe disso, é claro, que tentou se entender a respeito com o governo federal, sem sucesso. Não por acaso, a Ceagesp já esclareceu, em nota, que o projeto de transferência para Perus “é uma iniciativa privada da qual (a Ceagesp) não faz parte” e que o novo complexo seria concorrente. E concluiu: “Não nos cabe manifestar sobre um assunto do qual conhecemos pouco e sequer somos partícipes”.
Mesmo que tudo tivesse sido acertado com a União, haveria outros aspectos da questão que não recomendariam a execução da transferência neste momento. Especialistas ouvidos pela reportagem, embora concordem com a saída da Ceagesp da Vila Leopoldina, discordam da forma como a Prefeitura propõe que ela seja feita. Para o arquiteto e urbanista Lúcio Gomes Machado, “é muito estranho esse decreto às vésperas do fim da gestão. Não se vende um terreno sem projeto, a cidade não pode deixar para o mercado imobiliário a tarefa de planejar o que vai ser feito ali”. E segundo seu colega Valter Caldana é “melhor aguardar um reaquecimento do mercado imobiliário” para pôr à venda ativo tão valioso.
Nada disso ocorreu a Haddad? Ou, o que é mais provável, ocorreu e ele se deixou levar, mais uma vez, pela demagogia?

Projetos inacabados provocam perdas de R$ 2 bi para a Petrobrás, OESP

Obras paralisadas pela empresa, como a do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, continuam a gerar prejuízos bilionários com o desgaste dos materiais
Fernanda Nunes ,
O Estado de S.Paulo
01 Janeiro 2017 | 05h00
RIO - A Petrobrás inicia o ano de 2017 com o caixa menos comprometido com dívidas do que ingressou em 2016. No mercado financeiro, as ações estão em escalada ascendente. Mas, no seu encalço, ainda existem R$ 6,25 bilhões (valor contábil) de obras inacabadas, que já não condizem com a nova Petrobrás.
Sem destino definido, esses projetos geraram perdas de R$ 2,05 bilhões por desgaste, por causa do passar do tempo, como informou a empresa na última demonstração financeira, relativa ao período de janeiro a setembro deste ano. Mudanças nas condições de mercado, como no câmbio e na cotação do petróleo, corroeram parte do dinheiro investido e alguns deles se tornaram definitivamente inviáveis. 
Foto: Wilton Junior
Deterioração
Refinaria Abreu e Lima, em Recife, é uma das obras investigadas na Operação Lava Jato
“Parar grandes obras como a do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) gera prejuízos fantásticos. Qualquer retomada tem alto custo. E a paralisação acontece justamente num momento em que o País precisa de refino (para reduzir a importação de combustíveis)”, avalia o vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobrás (Aepet), Fernando Siqueira.
Na lista de perdas por causa da mudança de rumo da empresa estão empreendimentos suspensos, como o Comperj, no qual já foram investidos US$ 13 bilhões, sem a segurança sequer de que virá a funcionar um dia, e outros definitivamente abandonados. Hoje, a meta da diretoria da Petrobrás é sanar o caixa e deixar a liderança do ranking das petroleiras mais endividadas do mundo.
Para isso, mira na venda de ativos e prioriza a exploração e a produção de petróleo e gás natural em áreas de grande produtividade e rentabilidade, como o pré-sal, que deve ser processada em suas próprias refinarias no Brasil ou exportada como matéria-prima bruta. A ideia é fazer isso sozinha ou ao lado de grandes petroleiras, suas parceiras estratégicas, como a francesa Total.
Ficou no passado o projeto de usar o pré-sal como âncora de um plano de governo de industrialização, que previa a transformação do petróleo de alta rentabilidade em insumo para fabricação de produtos de alto valor agregado, em unidades que seriam construídas pela estatal isoladamente, com sócios ou por terceiros. 
Durante a gestão petista da petroleira, em que plantas chegaram a ser construídas, investidores privados demonstraram interesse em estar ao lado dela. Mas, chegada a crise, o plano foi abandonado, investidores desapareceram e grandes projetos ficaram no meio do caminho.
Petrobrás
Obras paralisadas continuam gerando prejuízo
Baixas contábeis. Muitos desses investimentos interrompidos geraram baixas contábeis em sucessivos resultados financeiros da petroleira e ainda geram custos mensais de manutenção à companhia.
Fazem parte da lista de desistência: quase a totalidade do Comperj, no Rio de Janeiro; a segunda fase da Refinaria Abreu e Lima (Refinaria do Nordeste - Rnest), em Pernambuco, onde já foram investidos US$ 17 bilhões; a Petroquímica Suape, em Pernambuco; a Unidade de Fertilizante Nitrogenado III, situada no município de Três Lagoas (MS); a usina de Quixadá, produtora de biodiesel na Bahia; e um conjunto de comboios da Transpetro, subsidiária de logística da estatal, para navegação em hidrovias.
De alguns deles, a Petrobrás definitivamente desistiu. É o caso da Petroquímica Suape, cuja venda para o grupo mexicano Alpek foi fechada na semana passada, da unidade de fertilizantes, da usina de Quixadá, que também estão à venda, ao lado de áreas produtoras de óleo e gás, dentro do plano de desinvestimento.
A construção dos comboios da Transpetro pelo estaleiro Tietê foi suspensa. Enquanto outros projetos, para irem adiante, ainda dependem da atração de sócios, por enquanto desconhecidos, como o Comperj e a segunda fase da Rnest. 
Há obras definitivamente canceladas, ainda que na fase inicial, como as refinarias premium, projetadas para os Estados do Ceará e do Maranhão. Os terrenos onde seriam construídos os projetos estão abandonados, enquanto os respectivos governos estaduais tentam atrair sócios para substituir a Petrobrás.
Campos produtores de petróleo e gás foram suspensos à espera da melhora nas cotações do petróleo e do real frente ao dólar, o que pode torná-los economicamente viáveis novamente. Não chegam a ser abandonos, mas postergações, projetos que podem ser retomados em algum momento com a mudança de cenário da indústria petroleira. Procurada pela reportagem, a Petrobrás não se pronunciou sobre o assunto
Escoamento de gás. A Petrobrás corre contra o tempo para concluir a unidade de processamento de gás natural (UPGN) do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e poder receber o gás natural que será produzido a partir de 2021 na super área de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos. Sem a unidade, a Petrobrás e seus sócios em Libra não terão para onde escoar o gás. 
Apesar de o Comperj ter sido suspenso, é certo que a UPGN sairá do papel para que o gás do pré-sal seja transformado em insumo petroquímico. A outra opção seria queimar o combustível nas plataformas, o que traria grande prejuízo ambiental, financeiro e geraria multa por parte da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Na UPGN do Comperj, o gás será transformado em insumo para ser processado em outras unidades petroquímicas de segunda e terceira gerações até que, por fim, virem resina para serem usadas em outras indústrias, como têxtil e automobilística. O esperado era que também esses segmentos industriais consumidores fossem atraídos para próximo do Comperj. Mas, assim como o projeto da Petrobrás sucumbiu à crise da empresa e da economia, o governo do Rio se viu frustrado no seu plano de industrialização do interior fluminense. 
Hoje, o dilema da Petrobrás é construir a UPGN e garantir destino para o gás do pré-sal. A empreiteira Queiroz Galvão chegou a iniciar a obra, mas, investigada pela Lava Jato e impossibilitada de acrescentar aditivos ao contrato para ampliar o valor, abandonou o projeto. Nova licitação está sendo desenhada e deve ser lançada no mercado em março, segundo fonte da Petrobrás que participa diretamente do processo, mas não quis se identificar.
Concluída essa fase, a Petrobrás vai encarar ainda o desafio de escoar o insumo que será produzido na UPGN para empresas que compõem a cadeia petroquímica e que, pelo projeto inicial, se instalariam dentro do Comperj. Algumas soluções estão sendo analisadas. Entre elas, a venda do produto para a unidade da Braskem instalada em Duque de Caxias (RJ), o que exigiria a ampliação. A limitação, porém, está na controladora da Braskem, a Odebrecht, investigada pela Operação Lava Jato.
“A Rota 3 (dutos e UPGN) gera insumos petroquímicos para unidades de geração petroquímica que não serão construídas. Por que não reprojetar a Rota 3 e torná-la mais barata? O Moro (Roberto, diretor de Desenvolvimento e Tecnologia da Petrobrás) diz que não há mais tempo”, diz o vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobrás, Fernando Siqueira. 

Livres ou marionetes?, Leandro Karnal ,Oesp

Janus era o deus com dupla face no mundo antigo. Contemplava direções opostas. Ele batiza o monte Janículo em Roma, onde está enterrada Anita Garibaldi (a heroína de dois mundos no monte do deus de duas faces). Janus também orienta o nome do mês de janeiro que está alvorecendo. É o deus de começo e fim, de passado e futuro, dos momentos de transição como o que estamos agora. 
Janeiro é bifronte. Estão frescas as memórias de Ano Novo. Desejamos um ser novo daqui para a frente. Perderemos peso, aprenderemos línguas, guardaremos dinheiro, visitaremos mais os amigos. Então, chega a festa de Reis, 6 de janeiro, limite do ímpeto transformador. O rio da transformação desacelera e chega ao calmo fluxo da planície cotidiana de 2017. Como diz meu querido Hamlet no seu monólogo, a consciência nos torna covardes e o ânimo mais resoluto se afoga na sombra do pensar. Decidimos pela ação e o cotidiano a dilui. O soluto da vontade se entrega ao solvente dos dias intermináveis e do cotidiano desgastante. 
O ano será bom ou ruim? Entramos no campo cediço do acaso. A Fortuna romana era a deusa do acaso. Os gregos a chamavam Tique. Nossas vidas serão regidas pelo aleatório. Às vezes parece que sim. O Romeu de Shakespeare brada ao espaço ser um joguete do destino. A grande Bárbara Heliodora prefere traduzir “I am fortune’s fool” por “eu sou palhaço dos fados”. 
Sou historiador. Gosto de exemplos concretos. Jean-Baptiste Lully era o italiano que Luís XIV adotou como o grande compositor da Corte francesa de Versalhes. Brilhou musicando bailados para o rei-Sol. Ele estava no auge da fama e do dinheiro. Por poder do monarca, controlava toda a produção musical francesa. Em 8 de janeiro, ele regia um Te Deum, um hino de ação de graças pela saúde do Rei que se recuperava de uma doença. Batendo com um grande bastão no chão para marcar o compasso, Lully se distraiu e alvejou o próprio pé. A pequena ferida infeccionou numa era pré-antibiótico. Ele determinou que o pé não poderia ser amputado. Morreu dois meses depois, em 22 de março de 1687. Foi vítima de si mesmo e do acaso. 
Lully não foi a primeira morte estranha, fruto de um acaso cruel. O autor teatral Ésquilo era aclamado como o maior de toda Grécia Clássica. Suas peças, como Prometeu Acorrentado e Os Persas, são encenadas até hoje. Era um talento reconhecido e premiado. Ésquilo ostentava luzidia careca. Escrevia ao ar livre para se inspirar. Uma águia segurava nas garras uma tartaruga e, seguindo velha tradição, jogava o réptil numa pedra para espatifar o casco. Viu a brilhante cabeça do tragediógrafo e arremeteu o petardo, confundindo-o com uma rocha. Ésquilo morreu de uma “tartarugada” na cabeça. O leitor pode supor como essa história me assusta.
Dos gregos à corte de Luís XIV e dali a um avião que conduzia o time de Chapecó: por todo o lado, a tragédia parece combinar o acaso com a incompetência. Jovens que teriam uma vida toda de glórias pela frente encontram seu fim no cruzamento entre a imperícia e a ganância. Como pensar algo original sobre este absurdo? 
Janus olha para frente e para trás. O acaso nos ronda e desafia a racionalidade. Como será 2017? Como eu chegarei ao final deste ano? Maquiavel falava do cruzamento entre virtù e fortuna. A primeira seria a soma das suas habilidades pessoais, seus dons e talentos, que podem ser melhorados. Fortuna seria o acaso, aquilo que não se controla. O príncipe de sucesso seria o que combinasse as duas coisas: saberia usar a fortuna e suas habilidades. Por um lado, todos os fatalistas amam a fortuna. Quem usa maktub, a expressão árabe para “estava escrito” (próxima da latina fatum), pensa imediatamente no quanto somos marionetes de forças super/supranaturais. Por outro lado, todos os adeptos do empreendedorismo falam do poder das escolhas feitas. Sou esculpido por mim ou pela sorte? Sou um cruzamento destas forças? Qual o grau de autonomia que terei ao longo de 2017?
É sempre muito alentador imaginar que exista algo superior a mim que me determine. Esse é o conforto dos fados. O que fez com que Edgar Alan Poe, um dos maiores poetas norte-americanos, fosse brilhante e dependente do álcool? O que fez de Ernst Hemingway um escritor intenso e atormentado que iria até o suicídio? Como a Guerra Civil da Espanha interrompeu a carreira de um artista total como Federico García Lorca? Por que um duelo cortou a carreira precoce de um dos grandes inovadores da matemática: Évariste Galois? Era um gênio. Morreu com 21 anos incompletos. São as formas pelas quais as cartas saem do baralho da vida, dirão alguns. Tratam-se de escolhas racionais e autônomas, garantem outros. 
Jean-Paul Sartre enfatizava muito que nossa experiência antecede nossa essência, que somos e fazemos as coisas a partir da nossa liberdade, que eu sou fruto da liberdade inelutável e angustiante do existir. Há, aqui, uma crença forte da autonomia do humano e da sua vontade.
Meu orgulho impede que eu me entregue ao fatalismo absoluto. Meu senso de equilíbrio sabe que não sou um deus criando mundos. De fato, creio que somos uma linha curva entre o acaso e a força de vontade, entre a fortuna e a virtù. Seu 2017 será essa curva graciosa e ousada. Você tomará decisões racionais e interessantes. O mundo fará sua oposição usual. O que resultará disso? Difícil saber. A resposta é parte da aventura da nossa biografia. John Lennon escreveu para seu filho que a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Chegamos a 2017. Feliz Ano Novo! Um bom domingo a todos vocês!