quarta-feira, 17 de junho de 2026

Escolas deveriam ensinar como converter as tristezas em material humorístico, João Pereira Coutinho FSP

 Todos temos nossos momentos de megalomania. Eu não sou exceção: se mandasse no mundo, todos os alunos, dos seis aos 18 anos, teriam de frequentar uma aula extra na escola. Além de matemática, ciências ou da língua materna, haveria "stand-up comedy" como disciplina obrigatória.

As vantagens são tão óbvias que chega a ser constrangedor citá-las. Entre as mais imediatas: confiança pessoal para falar em público, destreza verbal para se comunicar com os outros —e, sobretudo, treino contínuo para transformar as tristezas da vida em material humorístico.

Nada escaparia: a família, os amigos, os amores. As frustrações, os medos, as falsas esperanças. Quando não conseguimos nos livrar dos esqueletos que temos no armário, disse George Bernard Shaw, o melhor é ensiná-los a dançar. Ou a rir, acrescento eu.

Palco vazio diante de cortinas vermelhas fechadas e um microfone iluminado à espera de alguém
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 16 de junho de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Em uma ou duas gerações, aposto que teríamos adultos menos neuróticos, menos fanáticos, menos propensos a cancelar os outros. A estupidez é irmã gêmea da falsa seriedade.

Foi nisso que pensei quando assistia, grato e maravilhado, ao filme "Isso Ainda Está de Pé?", dirigido por Bradley Cooper. Como foi que o filme me escapou quando passou nos cinemas?

No centro da história estão Alex e Tess —notáveis Will Arnett e Laura Dern—, separados depois de 26 anos de vida em comum. As razões da separação são um mistério —para nós e para o próprio Alex. Uma noite, não exatamente sóbrio, Alex resolve entrar em um clube de comédia em Nova York. Não para assistir. Para subir ao palco. Essa é a primeira piada.

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A segunda é que ele não tem piadas para contar, o que também não deixa de ser uma ilusão: a vida dele é a melhor piada que existe.

O público ri da estranheza. Depois, das histórias que ele conta —o casamento, os filhos, os pais. Alex ri também, como se as ouvisse pela primeira vez, agora sob um ângulo cômico.

A experiência é viciante. Ele volta uma noite, depois outra, e mais outra ainda. É um péssimo humorista, dizem os profissionais, embora elogiem sua ingenuidade.

A ex-mulher, por puro acaso, assiste a um dos números. E também ela se ouve como personagem principal. Dizer que gosta seria um exagero, mas não é que gosta mesmo?

A infelicidade em que Alex vive não desaparece. De certa forma, transforma-se em clareza e perdão. E, com essa nova perspectiva, a pergunta fundamental: ele é infeliz com o casamento ou infeliz no casamento? Uma diferença sutil, que geralmente escapa aos amantes desencontrados.

Não escapa a Alex: a capacidade irônica que ele teve de sair de si mesmo, de se olhar como objeto de riso e estudo, permitiu-lhe chegar às coisas realmente sérias.

Como lembrava o escritor Martin Amis, só podemos saber o que é sério quando conhecemos também o que é engraçado. O humor não é uma fuga à seriedade, mas um caminho até ela.

Pessoas sem humor não são, por definição, mais sérias. São literais, condenadas a viver na superfície das coisas —onde tudo parece urgente e nada é verdadeiramente importante.

Regresso ao início: todos temos nossos momentos de megalomania. Se eu mandasse no mundo, haveria "stand-up comedy" no currículo das escolas. Quando tornamos as nossas dores visíveis e ridículas, elas ficam finalmente ao nosso alcance.

P.S.: É uma triste ironia saber que, nos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o historiador Gordon S. Wood não estará entre os vivos para festejar. Morto recentemente, aos 92 anos, vítima de um acidente de trânsito, Gordon Wood foi um dos grandes intérpretes do nascimento da república americana.

Suas obras centrais, como "The Radicalism of the American Revolution", vencedor do Pulitzer, são uma refutação brilhante da ideia de que 1776 foi uma mera rebelião de ingleses contra ingleses por causa de impostos —o célebre bordão "no taxation without representation".

Na verdade, a independência foi o desfecho de um longo processo de emancipação das colônias, alimentado pelo crescimento demográfico, pelo enriquecimento comercial e pelo aprofundamento de ideias liberais que, ironicamente, os colonos aprenderam com os próprios ingleses da metrópole.

A independência não foi perfeita? Claro que não —a manutenção da escravidão é sua principal mancha. Mas também aqui Wood lembrou o óbvio: a nova gramática liberal inaugurou uma linguagem de emancipação que, nos séculos seguintes, seria mobilizada contra os seus próprios limites.


Bets e dízimo a igrejas moem pobres com fantasia de salvação mágica, FSP (definitivo)

 

Waldemar Magaldi Filho
Waldemar Magaldi Filho

Analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado"

No grande teatro da miséria humana, a esperança é a moeda de troca mais valiosa. O desespero, por sua vez, funciona como o ingresso VIP para um espetáculo de ilusões.

Nesse palco, atualmente no nosso país, operam duas máquinas implacáveis de moer pobre. Elas vestem fantasias distintas para encenar a mesma tragicomédia. De um lado, temos o dízimo cobrado sob a ameaça do fogo eterno e a promessa de um paraíso financeiro. Do outro lado, brilham os sites de apostas, as famosas bets, que acenam com a riqueza instantânea a um clique de distância.

A imagem apresenta uma ilustração estilizada de uma pessoa sentada em uma rocha, com um fundo noturno. A figura tem cabelo vermelho e veste uma roupa laranja, enquanto observa o céu. O céu é predominantemente azul escuro, com nuvens em diferentes tons de azul e uma lua crescente amarela visível. A rocha em que a pessoa está sentada é de cor escura, e a cena transmite uma sensação de contemplação e tranquilidade.
É urgente acabar com a farra da isenção fiscal para templos e impor limites draconianos às casas de apostas, escreve autor - Catarina Pignato

Ambos os sistemas são exploradores da fé e da agonia. Eles operam sob a batuta do arquétipo do Trickster: malandro, embusteiro, vigarista e enganador. Esse trapaceiro mítico e zombeteiro nos seduz com promessas cintilantes para esvaziar os nossos bolsos e as nossas almas no apagar das luzes. É fascinante observar como os mecanismos de transferência de renda dos mais vulneráveis para os mais espertos são idênticos.

Vendem-se promessas sem qualquer garantia. Pode ser o milagre divino inquestionável ou o sorteio cego do algoritmo. O apelo emocional é sempre covarde e fisga o indivíduo pela jugular do sonho. Quem lucra de verdade são lideranças que vivem do suor alheio. Elas desfilam em jatinhos e carros de luxo e transformam o altar e a internet em palcos lucrativos. Podem ser pastores com suas roupas, relógios e carros de luxo e cintilantes ou influenciadores digitais ostentando desde a camisa do seu time do coração até jatinhos e iates caríssimos.

Quando a promessa falha, a isenção de responsabilidade é imediata e cínica. Para a igreja, a desculpa é a vontade de Deus ou a falta de fé do irmão. Para a plataforma de apostas, a justificativa é a falta de sorte naquela noite. Os números dessa falsa alquimia são estarrecedores e pintam um retrato sombrio do nosso Brasil.

Em 2025, o mercado legal de apostas online atraiu mais de 25 milhões de brasileiros e teve uma receita bruta absurda de R$ 37 bilhões. Do outro lado do balcão da fé, as cifras também assustam. Investigações apontaram que apenas a Igreja Universal do Reino de Deus movimentou cerca de R$ 42 bilhões em doações bancárias em um período de quatro anos e meio.

Não é por acaso que o Censo de 2022 revelou que o Brasil possui mais de 579 mil estabelecimentos religiosos. Esse número supera com folga a soma de todas as escolas e hospitais do país. Sob a lente da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, percebemos a gravidade do fenômeno. Tanto o templo quanto o aplicativo funcionam como telas em branco para a projeção da nossa Sombra e do nosso anseio inato por salvação.

O indivíduo esmagado pela desigualdade e pela falta de perspectiva projeta no líder religioso ou na roleta virtual a figura do salvador mágico. Ele abdica da sua autonomia e do seu poder de agência.

Somos confrontados com a figura do Puer Aeternus. Essa criança eterna dentro de nós que recusa o trabalho árduo da realidade e implora por um resgate fantástico. As bets e a teologia da prosperidade alimentam essa fantasia infantil. Elas oferecem uma alquimia corrompida que promete transformar o chumbo do sofrimento diário no ouro da riqueza instantânea.

O resultado físico e simbólico dessa exploração é percebido pela quantidade de sintomas mentais e, consequentemente, físicos. Os corpos adoecem pela ansiedade crônica da aposta perdida. Os estômagos são corroídos pela culpa religiosa asfixiante. As mentes se fragmentam pelo endividamento, e as famílias se rompem em silêncio. Afinal, quem não aposta é excluído da roda de amigos modernos e quem não devolve o dízimo é expulso do rebanho sagrado. A exploração é normalizada sob o disfarce perverso de ajuda ou entretenimento.

Chegamos então ao ápice da hipocrisia estrutural. O mesmo fiel que condena a aposta como um jogo de azar pecaminoso senta-se na primeira fileira do culto da prosperidade. Ele espera que os seus R$ 50 se multipliquem magicamente por obra do Espírito Santo. Um deposita na conta do pastor pela promessa de cura e riqueza. O outro deposita no site sediado em um paraíso fiscal pela promessa de retorno financeiro imediato.

Ambos saem mais pobres e sangrados por uma indústria do vício. Essa máquina usa algoritmos e bônus de boas-vindas ou se blinda com isenções fiscais e absoluta falta de transparência. A igreja na sua defesa ainda oferece o amparo social de uma cesta básica e o calor de uma oração compartilhada. A plataforma de apostas te deixa apenas com o brilho frio da tela do celular na madrugada.

A diferença real é que uma usa Deus como fiador inquestionável da ilusão e a outra usa o acaso matemático. A saída para esse labirinto não é escolher qual explorador tem a melhor lábia ou a melhor interface. O buraco é muito mais profundo. O problema central não é a dicotomia entre igreja e aposta. A verdadeira engrenagem é um país profundamente desigual e carente de educação financeira e de letramento teológico.

É preciso dizer que Malaquias 3:10 nunca foi um recibo de depósito bancário com garantia de salvação e prosperidade, apesar da ameaça de que reter os recursos de dízimos e oferendas equivale a roubar a Deus. Precisamos de reflexão crítica e de uma regulação séria. É urgente acabar com a farra da isenção fiscal para templos que operam como corporações financeiras. Também é fundamental impor limites draconianos às casas de apostas que lucram com o vício.

A pergunta que deveria ecoar na nossa autoconsciência não é a quem devemos entregar o nosso dinheiro suado. A verdadeira questão é: por que tantos brasileiros ainda precisam acreditar, desesperadamente, em milagres financeiros comprados a prestação?

Enquanto não tivermos educação universal e de qualidade que incentive o pensamento crítico, o autoconhecimento e a autonomia e enquanto não houver salários dignos e uma distribuição de renda menos criminosa, os mercadores de ilusão continuarão prosperando. Enquanto escolas e hospitais perderem de goleada para templos e cassinos virtuais, sempre haverá um espertalhão vendendo um pedaço do céu para quem já vive no inferno da sobrevivência diária.