quarta-feira, 17 de junho de 2026

Melancólico, 'Toy Story 5' vê as dificuldades de ser criança e brincar hoje, FSP

 Ser um brinquedo não é brincadeira. Isso, "Toy Story" soube mostrar bem ao longo de quatro filmes bem diferentes entre si. Este ainda é um aspecto da continuação que chega aos cinemas nesta semana. Porém, neste mais melancólico "Toy Story 5", o drama maior não é o de um grupo de bonecos abandonados num sótão, senão o pesadelo de ser uma criança ingênua num mundo de coleguinhas apáticos.

A raiz do mal para os pequenos são as telas de celulares, mas não só. Em mais de uma cena, vemos pais vidrados em seus próprios computadores, indiferentes à vida familiar, ou confiando que um aparelhinho bastará para que os filhos façam amigos. É nisso que acreditam, algo receosos, os pais de Bonnie, a garotinha tímida que herdou Woody, Buzz Lightyear e companhia no final de "Toy Story 3".

Menina de camiseta listrada e shorts azuis segura dois bonecos, um em cada mão, enquanto está na calçada. Três crianças observam-na de uma escadaria, segurando brinquedos coloridos. Ambiente externo com grama e caminho de concreto.
Cena do filme 'Toy Story 5' - Disney/Divulgação

Agora, é Lilypad, uma tablet com cara de sapo, quem se junta à turma, com suas mil e uma funcionalidades, para desespero dos antigos brinquedos de pano e plástico.

Como logo percebe a vaqueira Jessie —que se tornou a xerife do pedaço após Woody deixar aquela casa em "Toy Story 4"— a tablet, com seus jogos viciantes e redes sociais ilusórias, roubam o tempo das crianças, fazendo com que Bonnie envelheça mais rápido.

É um baque tanto para os brinquedos, que deixam de mergulhar na imaginação pela menina —em trechos animados num belo estilo aquarelado, em contraste com a belíssima fotografia realista—, como para a própria Bonnie, que se rende à moda só para ficar bem na fita com outras mocinhas para quem pelúcias são "coisa de bebê".

É curioso o quanto a Pixar demorou para tocar neste assunto, já que tudo começou em 1995, quando os videogames já alarmavam pais e pediatras. Mesmo no soturno "Toy Story 4", a infância ainda era um estágio idealizado da vida.

PUBLICIDADE

Três décadas depois, não deu mais para ignorar a hiperconexão, e o veterano Andrew Stanton, principal diretor e roteirista do filme, sabe abordá-la com a mesma sensibilidade com que desenhou o mundo apocalíptico de "Wall-E". Na animação de 2008, a Terra virou um lixão e a humanidade, uma multidão de obesos dependentes da tecnologia e do fast food.

O tom aqui é menos alarmista graças ao elo que se firma entre Jessie e outros três "irmãos" mais antigos de Lilypad —um papel higiênico educativo, uma câmera digital e um GPS hipopótamo. Menos avançados que a tablet anfíbia, eles carregam algo de inocente e provam que a tecnologia não é má por natureza.

A vaqueira ruiva os conhece quando, numa confusão, vai parar no rancho da sua primeira dona, Emily, aquela que vemos num flashback de partir o coração em "Toy Story 2".

De repente —como no "Dia D", de Spielberg—, estamos num filme de retorno ao lar, no qual se desenrolam algumas cenas tocantes. Não pela nostalgia, da qual o roteiro habilmente se esquiva, mas pela forma como a protagonista é forçada a acertar contas com rancores do passado e, mais difícil, com a rejeição do presente.

O tempo passou, mas não devorou tudo. Nessa casa, agora mora Blaze, uma menina que ainda não perdeu sua vontade de brincar, seja no seu quarto, com cavalinhos de borracha, seja no campo, cuidando de sua égua ou de seu porquinho. É a amiga ideal para Bonnie, e Jessie fará de tudo, então, para que as duas se encontrem e, consequentemente, ela volte para seus amigos.

Esse fio principal é ladeado por outros dois —um mais centrado no reencontro e na amizade de Woody, agora calvo e barrigudo, e Buzz, conforme o astronauta ensaia uma forma de resgatar sua xerife e pedi-la em casamento; outro, na jornada de um exército de Buzzes, que despertam numa ilha deserta após um acidente e rumam em direção a uma estrela.

Tudo é bem costurado na montagem paralela habilidosa, ainda que as partes com Woody e Buzz sejam as menos inspiradas e pareçam mais um alívio cômico secundário. A história dos Buzzes também não é a mais original, mas se sustenta pelo tom misterioso e por amarrar a sequência final da aventura.

Nisso, vale notar como "Toy Story 5" se diferencia dos antecessores pelo ritmo mais vagaroso, refutando a agitação do mundo virtual e, infelizmente, o senso de coletivo que definiu os primeiros filmes. O humor segue inventivo, mas também soa menos rigoroso com a natureza material daqueles brinquedos, como se eles já fossem mais carne e osso do que plástico. Talvez seja um efeito da própria densidade dessa trama, ao tratar dos rumos da infância e da memória.

De qualquer forma, é saudável que "Toy Story" reconheça, enfim, a criança como uma sensível esponja, que absorve tudo aquilo ao que é exposta. O desafio é entender como sonhar com caubóis e astronautas pode conviver com "six seven", "brainrots" e afins. Contra as expectativas, este quinto capítulo não tem a vulgaridade de um "Velozes e Furiosos 5" e outras sequências que o valha. Pode ser uma mina de ouro para a Disney-Pixar, mas, sem dúvida, ainda é um filme com algo a dizer.

Onde estão os namorados?, Joanna Moura , FSP

 Dia 12 foi Dia dos Namorados, a data do calendário reservada aos amantes. Confesso que depois de 11 anos morando fora do Brasil, a data havia caído em desuso no meu relacionamento.

Lá na Inglaterra, o equivalente ao dia 12 de junho brasileiro é o Valentine’s Day, ou Dia de São Valentim, que acontece todo dia 14 de fevereiro, quando o frio ainda é intenso demais pra qualquer comemoração que envolva sair de casa ou —deus me livre— se despir. Passei, portanto, os últimos 11 anos comemorando o dia deste santo do amor em casa, encasacada e, via de regra, invejando pela internet a nudez alheia durante o Carnaval brasileiro.

Duas mãos seguram celulares com telas iluminadas em primeiro plano, com o logo colorido do Instagram desfocado ao fundo.
Adolescentes posam para uma foto enquanto seguram smartphones em frente a um logotipo do Facebook - Dado Ruvic - 11.set.25/Reuters

Este ano, pela primeira vez, cá estava eu novamente, vivendo o dia 12 de junho in loco. Depois de tanto tempo longe, sinto, no entanto, que me tornei uma observadora mais imparcial, capaz de ter um olhar menos envolvido e mais antropológico da data. E nessa nova posição, neste primeiro Dia dos Namorados depois do meu hiato de mais de uma década, observei um fenômeno interessante —porém não tão surpreendente— emergir das redes sociais.

Eu sou do tempo em que se comemorava Dia dos Namorados na privacidade dos jantares à luz de velas, das cobertas dos motéis, dos cartões que acompanham buquês de rosas vermelhas. Mas o que vi neste 12 de junho foi brotarem do chão virtual do Instagram declarações tão apaixonadas quanto públicas.

Carrosséis de fotos mostravam casais de mãos dadas, com cabelos ao vento e peles bronzeadas em viagens litorâneas, e também de casacos pesados em invernos estrangeiros. Nas legendas, elogios sinceros e agradecimentos pelo companheirismo. Assinado: namoradas, esposas, companheiras.

Depois de um, dois, três posts de autoria de mulheres, fui buscar o contraponto, algum indício de reciprocidade destes amores tão bonitos. Clico nos nomes mencionados, os objetos do amor dessas enamoradas, e qual não é a minha surpresa quando não encontro nada. Feeds inteiros sem um mero indício de que aqueles homens estavam em qualquer tipo de relacionamento amoroso.

Um olhar mais cínico diria que, se o Instagram se tornou uma das principais arenas de conquista desse mundo moderno, a assimetria da performance pública do amor só poderia ser indício de infidelidade por parte destes homens tão discretamente comprometidos. Mas prefiro redirecionar o olhar de volta para a mulher e a necessidade de declarar este amor romântico na praça pública da internet, mesmo que essa declaração não encontre eco do outro lado.

Parto para a análise dos comentários e lá encontro os únicos vestígios desses parceiros: agradecimentos curtos e discretos, perdidos em meio a inúmeros comentários entusiasmados e congratulatórios de —pasmem— outras mulheres.

"Lindooooooos!"

"Amo esse casal!!!!"

"Parabéns pelo amor de vocês!"

Legendas direcionadas aos parceiros. A conversa, porém, acontece entre mulheres.

A dissonância não me parece apenas mera coincidência. Ela significa algo mais profundo e arcaico: o peso que os relacionamentos românticos ainda exercem na maneira como nos definimos e como somos vistas. Em 2026, ainda vemos um relacionamento amoroso exitoso como um símbolo de status para as mulheres. Como uma conquista, uma realização, algo que deve e merece ser compartilhado.

Ao passo que, aos homens, o status advém não de quem os ama, mas do que são capazes de fazer: do trabalho que exercem, das viagens que realizam, dos hobbies que mantêm. Não que os homens amem menos ou queiram necessariamente esconder suas parceiras (se a carapuça serviu por aí, não me responsabilizo), mas raramente parecem utilizá-las como cartão de visitas social. Basta rolar o feed deles para ver.

Não estou aqui para desencorajar as últimas românticas, mas talvez valha a pena se perguntar por que e para quem estão indo as declarações apaixonadas. E se é isso que realmente buscamos.