quinta-feira, 21 de maio de 2026

Viciado — Como as empresas criam produtos que geram hábito- FS Blog

 O Modelo Hook — Viciado: Como Criar Produtos que Geram Hábitos

O Modelo do Gancho. Fonte: Hooked: Como Criar Produtos que Geram Hábitos

Como as empresas criam produtos que geram hábito? É simples: elas os fabricam.

Em 2008, Nir Eyal fazia parte de uma equipe de MBAs de Stanford que estava fundando uma empresa apoiada por "alguns dos investidores mais brilhantes do Vale do Silício". Eles queriam construir uma plataforma para inserir anúncios em jogos sociais online. Eyal se perguntava como a manipulação mental funcionava — como os produtos alteram nossas ações e criam compulsões. Como se manipula o comportamento do usuário? Há implicações morais envolvidas? Essas forças poderiam ser usadas para o bem (incentivos comportamentais)? Então, ele buscou um guia. Como não encontrou nada que o satisfizesse, documentou suas experiências, leituras e observações de centenas de empresas "para descobrir padrões em designs de experiência do usuário e funcionalidades". Ele queria saber o que havia em comum entre os "vencedores" e determinar o que faltava nos "perdedores".

O resultado desse esforço é o seu livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products (Viciado: Como Construir Produtos que Criam Hábitos) e a criação do Hook Model: um processo de quatro fases que as empresas utilizam para formar hábitos.

Por meio de ciclos de engajamento consecutivos, os produtos de sucesso atingem seu objetivo final de engajamento espontâneo do usuário, fazendo com que ele retorne repetidamente, sem depender de publicidade cara ou mensagens agressivas.

Isso parece o sonho de qualquer growth hacker.

Vamos dar uma olhada.

1. Gatilho

Um gatilho é o atuador do comportamento — a vela de ignição no motor. Os gatilhos são de dois tipos: externos e internos. Produtos que criam hábitos começam alertando os usuários com gatilhos externos, como um e-mail, um link de site ou o ícone do aplicativo no celular.

Por exemplo, imagine que Barbra, uma jovem da Pensilvânia, veja uma foto em seu feed de notícias do Facebook, tirada por um familiar em uma área rural do estado. É uma foto linda e, como ela está planejando uma viagem para lá com seu irmão Johnny, o apelo à ação do gatilho externo a intriga e ela clica. Ao percorrer sucessivos gatilhos, os usuários começam a formar associações com gatilhos internos, que se conectam a comportamentos e emoções preexistentes.

Quando os usuários começam a antecipar automaticamente seu próximo comportamento, o novo hábito se torna parte de sua rotina diária. Com o tempo, Barbra associa o Facebook à sua necessidade de conexão social.

2. Ação

Após o gatilho, vem a ação: o comportamento realizado na expectativa de uma recompensa. O simples ato de clicar na imagem interessante em seu feed de notícias leva Barbra a um site chamado Pinterest, uma plataforma de compartilhamento de fotos no estilo de um mural.

Esta fase do processo de fidelização, conforme descrita no capítulo três, utiliza a arte e a ciência do design de usabilidade para revelar como os produtos impulsionam ações específicas do usuário. As empresas exploram dois mecanismos básicos do comportamento humano para aumentar a probabilidade de uma ação ocorrer: a facilidade de execução da ação e a motivação psicológica para realizá-la.

Assim que Barbra completa a simples ação de clicar na foto, ela fica deslumbrada com o que vê em seguida.

3. Recompensa Variável

O que distingue o Modelo de Gancho de um ciclo de feedback simples é a capacidade do gancho de criar um desejo. Ciclos de feedback estão por toda parte, mas os previsíveis não criam desejo. A resposta previsível da luz da geladeira acender quando você abre a porta não te motiva a abri-la repetidamente. No entanto, adicione alguma variabilidade à equação — digamos que uma guloseima diferente apareça magicamente na sua geladeira toda vez que você a abre — e pronto, a curiosidade surge.

Recompensas variáveis ​​são uma das ferramentas mais poderosas que as empresas implementam para fidelizar usuários; o capítulo quatro as explica em detalhes. Pesquisas mostram que os níveis do neurotransmissor dopamina aumentam quando o cérebro espera uma recompensa. Introduzir variabilidade multiplica o efeito, criando um estado de foco que suprime as áreas do cérebro associadas ao julgamento e à razão, enquanto ativa as partes associadas ao desejo e à vontade. Embora exemplos clássicos incluam máquinas caça-níqueis e loterias, recompensas variáveis ​​são comuns em muitos outros produtos que criam hábitos.

Quando Barbra acessa o Pinterest, ela não só encontra a imagem que procurava, como também se depara com uma infinidade de outros objetos brilhantes. As imagens estão relacionadas aos seus interesses gerais — principalmente coisas para ver em sua próxima viagem à zona rural da Pensilvânia —, mas há outras coisas que também lhe chamam a atenção. A excitante justaposição do relevante e do irrelevante, do tentador e do simples, do belo e do comum, faz com que o sistema de dopamina do seu cérebro fique agitado com a promessa de recompensa. Agora, ela passa mais tempo no Pinterest, em busca da próxima maravilha a ser descoberta. Quando se dá conta, já se passaram 45 minutos navegando pela página.

4. Investimento

A última fase do Modelo de Gancho é aquela em que o usuário realiza um pequeno esforço. A fase de investimento aumenta as chances de o usuário repetir o ciclo de gancho no futuro. O investimento ocorre quando o usuário aplica algo ao produto ou serviço, como tempo, dados, esforço, capital social ou dinheiro.

No entanto, a fase de investimento não se resume a usuários abrindo suas carteiras e seguindo com suas vidas. Em vez disso, o investimento implica uma ação que aprimora o serviço para a próxima interação. Convidar amigos, declarar preferências, acumular ativos virtuais e aprender a usar novos recursos são exemplos de investimentos que os usuários fazem para melhorar sua experiência. Esses compromissos podem ser aproveitados para tornar o gatilho mais envolvente, a ação mais fácil e a recompensa mais interessante a cada ciclo de engajamento.

Enquanto Barbra se diverte navegando infinitamente pela infinidade de opções do Pinterest, ela desenvolve o desejo de guardar as coisas que lhe encantam. Ao colecionar itens, ela estará fornecendo ao site dados sobre suas preferências. Em breve, ela começará a seguir, fixar, repinar e fazer outros investimentos, o que fortalecerá seu vínculo com o site e a preparará para futuras interações.

O livro "Hooked: How to Build Habit-Forming Products" explora os gatilhos externos e internos, por que algumas pessoas acabam perdendo o interesse por certas experiências, o impacto da variabilidade na retenção e como os investimentos incentivam os usuários a alternar entre diferentes estímulos.

O paradoxo eleitoral da juventude brasileira em 2026, Le Monde Diplomatique

 Há um paradoxo no coração do eleitorado brasileiro. Às vésperas das eleições de outubro, a geração que mais sofre com o bloqueio das perspectivas de futuro é, simultaneamente, a que mais parece se deslocar em direção ao campo político que defende as políticas responsáveis por esse mesmo retrocesso. Poderá a esquerda reverter esse processo?

Entre 2002 e 2026, o Brasil viveu uma transformação estrutural em sua composição eleitoral (Gráfico 1). A queda da participação jovem e o crescimento do eleitorado idoso não são flutuações conjunturais: cada nova geração de eleitores jovens é numericamente menor que a anterior, e cada nova geração de idosos, maior. No médio prazo, essa inversão é irreversível.

Para além da mudança demográfica, há também um evidente afastamento da juventude em relação às eleições. O registro eleitoral de adolescentes de 16 e 17 anos caiu de 42,9% em maio de 2022 para 27,6% em 2026. Isso significa que, neste ano, mais de 70% dos brasileiros nessa faixa etária chegarão às eleições sem título de eleitor. A trajetória de queda, porém, não é nova: a participação já vinha diminuindo desde 2014 (33,7%) e atingiu menos de 14% em fevereiro de 2022, o pior patamar da série histórica. A reversão momentânea naquele ano ocorreu em condições bastante específicas: a possibilidade de emissão do título totalmente online durante a pandemia – eliminando a exigência de biometria presencial – e uma ampla mobilização de artistas e influenciadores nas redes sociais. Sem essas condições excepcionais, o engajamento voltou a cair. Os dados de 2026 indicam, novamente, um dos piores níveis de participação juvenil desde 2014.

O afastamento da política eleitoral, contudo, é apenas a face mais visível de um estranhamento profundo dos jovens com a democracia. Pesquisa da Fundação Friedrich Ebert Stiftung realizada em catorze países mostra que 57% dos jovens brasileiros não confiam em partidos políticos. E embora dois terços afirmem acreditar na democracia (66%), 58% dizem preferir um líder forte a instituições e partidos.Ou seja: estamos diante de uma juventude que, além de não participar das eleições, tende a enxergar os mecanismos da democracia representativa com crescente desconfiança e ceticismo. 

Isso deveria servir de alerta máximo para a esquerda. Durante décadas, o campo progressista brasileiro operou com uma premissa implícita de que o eleitorado jovem era um reservatório natural à esquerda. Até 2022, os dados ainda sustentavam, em parte, essa leitura. A pesquisa de boca de urna do Datafolha mostrava que, no segundo turno, Lula obteve 61% dos votos na faixa de 16 a 24 anos – a maior vantagem entre todos os grupos etários e uma vantagem indispensável para a margem final de vitória de apenas 2,14 milhões de votos.

Quatro anos depois, porém, esse quadro parece ter se estreitado. Pesquisas eleitorais de abril de 2026 – AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha e Nexus/BTG – apontam para uma disputa muito mais competitiva entre jovens de 16 a 24 anos. Na Atlas/Bloomberg, por exemplo, o cenário de 1º turno com Lula registra, nessa faixa, 28,5% para Lula, 36,6% para Flávio Bolsonaro e 22,4% para Renan Santos; em outro cenário, Lula cai a 17,4%, Flávio aparece com 37,7% e Renan com 21,3%. Na média aproximada dos levantamentos usados neste texto, Lula fica perto de 36% e Flávio perto de 35% no 1º turno entre jovens. Em vez de tratar esses números como previsão, eles devem ser lidos como sinal de erosão: a vantagem que Lula tinha nessa faixa em 2022 deixou de ser um dado seguro.

Em boa medida, essa mudança se relaciona ao deslocamento de parte da juventude para a direita. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg LatAm Pulse Brasil, de novembro de 2025, mostra que 52% da Geração Z se identifica com a direita ou centro-direita, contra 31% com a esquerda ou centro-esquerda, 5% com o centro e 12% sem ideologia declarada. É a coorte com maior identificação à direita entre as gerações medidas. A pesquisa Juventudes: uma tarefa pendente, da Fundação Friedrich Ebert Stiftung e YouGov (2025), aponta na mesma direção geral, embora com outra faixa etária e outra escala: 38% dos jovens brasileiros de 16 a 35 anos se identificam com a direita, incluindo 17% com a extrema-direita, enquanto 18% se identificam com a esquerda.

A aproximação entre a juventude e a direita ainda é um fenômeno que carece de melhor reflexão, mas é possível cogitar algumas hipóteses. Entre elas, destacam-se a precarização crescente do trabalho juvenil, a fragmentação das formas tradicionais de sociabilidade e a centralidade cada vez maior das religiões fundamentalistas como espaços de pertencimento e construção identitária. Em um contexto marcado pela insegurança econômica, pela perda de perspectiva em relação ao trabalho formal e pela forte influência das redes sociais, parte significativa da juventude tem encontrado na direita – especialmente na extrema direita — uma linguagem política capaz de canalizar sentimentos de revolta contra aquilo que percebem como “o sistema”, frequentemente associado à esquerda e ao PT.

Em 2022, no entanto, o voto da juventude funcionou como uma importante base de apoio para Lula. A vantagem entre os eleitores de 16 a 24 anos compensou os déficits nas faixas mais velhas – particularmente entre 45 e 59 anos (47% Lula) e 60+ (44% Lula) – garantindo a margem final de vitória. Mas o que aconteceria caso esse apoio da juventude se alterasse?

Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Para medir o peso do voto jovem em 2022, simulamos o resultado eleitoral a partir do perfil de voto por faixa etária. Em seguida, substituímos apenas o comportamento dos eleitores de 16 a 24 anos pelos padrões apontados nas pesquisas de 2026. Foram analisados cinco cenários possíveis: em quatro deles, Lula perderia a eleição sem o padrão de voto jovem observado em 2022 (de 50,5% a 51,2% para a oposição); apenas no cenário mais otimista ele ainda venceria, embora por margem mínima (50,2%). Quando se considera também uma pequena perda de apoio entre eleitores acima de 25 anos, a desvantagem cresce ainda mais (51,9%). Tudo isso para dizer que a margem de 2022 foi estreita o suficiente para depender do voto da juventude – e que mudanças no comportamento político desse segmento podem ter impacto decisivo nas disputas eleitorais futuras.

Em síntese, o que os dados mostram é que a geração Z (16 a 24 anos), embora numericamente menos relevante do que já foi – representando 12% do eleitorado em 2026, contra 21% em 2002 – tornou-se politicamente mais imprevisível e progressivamente mais alinhada à extrema direita. E é justamente essa combinação – menor peso numérico, mas maior impacto ideológico na margem – que ajuda a definir o paradoxo eleitoral de 2026.

O que as pesquisas eleitorais por ora revelam, no fundo, não diz respeito a quem vai ganhar ou perder em outubro. Elas apontam para uma crise mais profunda de representação política na juventude, na qual o campo que historicamente se apresentou como alternativa crítica ao sistema parece não conseguir se consolidar, para parte significativa dessa geração, como uma alternativa plausível, atraente e capaz de oferecer perspectivas de futuro. Será a esquerda capaz de reverter esse cenário?

 

Felipe Amorim de Oliveira é cientista político, doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo IE-Unicamp e pesquisador Cátedra Celso Furtado da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Rafael Rodrigues da Costa é sociólogo e professor da FESPSP.

 

Este texto é baseado em análise de dados oficiais do TSE e do IBGE, com estimativas de preferência de voto derivadas de pesquisas dos institutos AtlasIntel, Datafolha e Nexus (abril/2026).

Brasil endurece regras contra big techs e redes sociais, Fast Company Brasil


O Brasil endurece as regras contra as plataformas digitais. Nesta quarta-feira (20 de maio), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou dois decretos que ampliam as responsabilidades das big techs com relação à moderação de conteúdo, bem como criam um órgão regulador de redes digitais no país.

Com a nova regulamentação, que não precisará passar pelo Legislativo, as plataformas digitais poderão ser punidas civilmente se não removerem conteúdos criminosos e de ódio, mesmo sem ordem judicial prévia. As empresas também poderão responder a crimes caso apresentem falhas no combate a golpes digitais.

A responsabilização automática vale para crimes graves, como terrorismo, racismo, incentivo ao suicídio, ataques à democracia e violência contra crianças e mulheres. Para crimes em geral, as empresas serão responsabilizadas se receberem uma denúncia direta do usuário e não removerem o conteúdo de circulação.

Já conteúdos classificados como crítica, paródia, sátir ou informativo têm salvaguardas.

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) fará a fiscalização das plataformas. O órgão deixa de atuar apenas em proteção de dados pessoais e assume a função de órgão regulador das redes digitais no país. 

ALINHAMENTO COM O STF

Uma das medidas pavimenta a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de declarar a inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Em junho do ano passado, o Supremo decidiu que as redes sociais deveriam ser responsabilizadas por conteúdos danosos publicados por seus usuários.

A atualização do Marco Civil da Internet vem também com outras exigências para as plataformas digitais. Elas são obrigadas a criar canais de denúncia, informar os usuários sobre medidas adotadas e permitir contestação das decisões, em um modelo que o governo compara a um “devido processo legal”.

As plataformas serão obrigadas a combater anúncios fraudulentos, como golpes financeiros, promoções enganosas e vendas de produtos não legalizados. Levantamento feito pela agência Reuters no ano passado indica que a Meta faturou cerca de US$ 16 bilhões em 2024 com anúncios desse tipo. 

VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

O segundo decreto trata sobre a proteção das mulheres online. As plataformas deverão disponibilizar meios eficazes de denúncia de pornografia de vingança e pornografia deep fake.

Os conteúdos deverão ser removidos em até duas horas após as denúncias. Os serviços digitais devem reduzir o alcance e a visibilidade de postagens coordenadas de ataque a mulheres devido ao exercício profissional de suas funções.

Leia mais: Quanto custa um deepfake? Veja valores e riscos dessa tecnologia

As empresas digitais são proibidas de disponibilizar ferramentas de inteligência artificial que tiram a roupa das mulheres ou criam “nudes” falsos. A Fast Company Brasil denunciou em abril a existência de canais do Telegram que fazem deep fakes pornográficos e recebem pagamento pelo próprio sistema do Telegram. 

As medidas entram em vigor assim que os decretos forem publicados no Diário Oficial da União, nesta quinta-feira (21 de maio).


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil. saiba mais