quarta-feira, 22 de abril de 2026

Lula perdeu a aposta, Elio Gaspari - FSP

 O nível de endividamento das famílias cresceu e esse pode ser um dos fatores que erodem a popularidade de Lula. Vá lá que seja. Segundo os alquimistas do Planalto, uma das causas desse endividamento seriam as apostas eletrônicas. Vá lá que sejam, mas quem abriu a porteira para esse mercado, de apostas, foi o governo. O ministro Fernando Haddad não fez isso para estimular a opção pelo risco.

Foi pura e simples ganância arrecadatória. Em 2024 a ekipekômika esperava arrecadar até R$ 3,4 bilhões com a venda de licenças para a tavolagem. Havia 113 propostas na fila, metade delas eram de fancaria.

O presidente Lula, durante evento do PT em São Bernardo do Campo (SP) - Tuane Fernandes - 19.mar.26/Reuters

A iniciativa era o sonho do burocrata e do ministro arrecadador. Do nada, arrumariam R$ 3,4 bilhões com as outorgas. Rodando-se as maquininhas, as empresas pagariam 12% sobre suas receitas brutas, os ganhadores seriam mordidos em 15% acima de um prêmio no valor de um salário mínimo.

Foram desprezados argumentos contrários vindos de setores categorizados da administração pública. A área da segurança alertou para a infiltração do crime organizado nesse novo mercado. Os profissionais da saúde advertiram para uma epidemia de distúrbios provocados pelo vício do jogo. Em 2024, os brasileiros perderam R$ 23,9 bilhões em sites de apostas.

Diante desses números tristes, em setembro de 2024, Lula resolveu opinar, no modo profeta. "O Brasil sempre foi contra cassino, qualquer tipo de jogo de azar. Hoje, através de um celular, o jogo está dentro da casa da família, da sala", disse Lula.

"Estamos percebendo no Brasil o endividamento das pessoas mais pobres tentando ganhar dinheiro, fazendo apostas. É um problema que vamos ter que regular, se não daqui a pouco vamos ter cassino funcionando dentro da cozinha de cada casa."

E daí? Nada. Passaram-se dois anos e o problema continuou do mesmo tamanho, até que os alquimistas do Planalto assustaram-se com o endividamento das famílias. Isso acontece porque a economia está andando de lado, mas precisava-se de um bode. Escalaram as apostas. Ele tem chifre, patas e barbicha porque o governo lhes deu.

Acordado para o efeito eleitoral do endividamento, Lula removeu o modo profeta de 2024 e repetiu os mesmos argumentos, colocando uma cereja no bolo, a criação de um programa Desenrola 2.0. O primeiro, concebido no início do governo, deu certo.

O perigo mora num Desenrola que replique o Refis. Este foi um programa criado para aliviar os penares das vítimas da carga tributária. Sobretudo devedores do andar de cima. Bem desenhado oferecia, prazos, descontos e perdões. Virou um narcótico e até agora já teve umas 20 edições.

Falta ao governo de Lula coragem do general Eurico Dutra. Em abril de 1946 o Brasil tinha lindos cassinos em Petrópolis, na Urca e em Copacabana. Fechou-os todos. Hoje pode-se começar desligando-se as geringonças eletrônicas.

A história ensina que os imperadores passam, mas o papado permanece, João Pereira Coutinho, FSP

 Tempos interessantes. Os Estados Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.

Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente bizarrice trumpista.

Quatro mísseis com a bandeira estadunidense voam na direção do Papa Leão XI
Ilustração da coluna João Pereira Coutinho de 21 de abril de 2026 - Angelo Abu

Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.

Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.

Há quem prefira o conflito de Filipe 4º da França contra Bonifácio 8º. Dinheiro, tudo é dinheiro —e Filipe precisava taxar o clero para financiar suas guerras. Bonifácio se opôs. Dessa vez, o confronto terminou mal para o papa.

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E que dizer de Henrique 8º e da recusa de Clemente 7º em anular o casamento do rei com Catarina de Aragão? É um dos conflitos mais conhecidos da história, que levou à ruptura com Roma e ao nascimento da Igreja Anglicana.

Em todos esses confrontos, a questão foi repetidamente a mesma: quem manda? Antes da modernidade política —ou seja, até a Revolução Francesa— o poder temporal disputou com frequência o espaço com o poder espiritual. E vice-versa.

Donald Trump é o nome mais recente dessa linhagem anacrônica. Como é possível que o papa Leão 14 não abençoe sua guerra no Oriente Médio? Mais: como é possível que se oponha a ela?

Pior ainda: por que não demonstra temor ou deferência diante do imperador de Washington?

Curiosamente, ao formular essas perguntas e considerar a personalidade de Trump, é Napoleão Bonaparte e seu conflito com Pio 7° o exemplo histórico mais próximo que encontro.

Tudo começou bem entre os dois: em 1801, Napoleão e o papa assinaram uma concordata que devolvia parte das terras e dos direitos que a Igreja havia perdido com a Revolução Francesa. Em troca, Roma reconhecia a república.

Mas a concordata já nasceu torta, porque os dois lados enxergavam coisas diferentes no documento. Para Napoleão, ela selava a supremacia do Estado sobre a Igreja. Para o papa, era o primeiro passo para restaurar a aliança entre o trono e o altar na França pós-revolucionária.

No fundo, a pergunta "quem manda?" continuava pairando sobre os dois poderes —e rapidamente envenenou a cabeça de Napoleão. Tudo começou com um drama doméstico: o irmão de Bonaparte, Jérôme, queria obter de Roma a anulação do seu casamento com uma americana protestante.

Sem isso, a política de alianças e matrimônios que Napoleão arquitetava para os seus familiares na Europa ficaria comprometida. O papa recusou.

Mas foi a guerra, ontem como hoje, que acabou sendo a gota d’água. Napoleão exigiu que os Estados Pontifícios fechassem seus portos aos ingleses, contribuindo assim para o sucesso do chamado "bloqueio continental". Pio 7º não aceitou ser parte do conflito.

O que aconteceu em seguida foi descrito de forma definitiva pelo historiador Ambrogio Caiani no livro "To Kidnap a Pope, sequestrar um papa, em português. As tropas napoleônicas invadiram o Palácio do Quirinal em 1809 e sequestraram o papa.

Depois de anos de cativeiro, Pio 7º acabou cedendo ao poder do imperador com uma segunda concordata, em 1813, no exílio de Fontainebleau.

É possível que, em seus momentos mais delirantes, Donald Trump sonhe com uma missão semelhante. Se funcionou com Nicolás Maduro na Venezuela, por que não com Leão 14?

Eu desaconselharia. Até porque a história do conflito entre Napoleão e o papa não acabou bem para o imperador. Um ano depois da segunda concordata, Napoleão foi derrotado em Paris e, em 1815, definitivamente esmagado em Waterloo.

O papa, por sua vez, voltou a Roma. Foi recebido como um herói, um mártir e uma referência moral para toda a Europa.

Mais uma vez, confirmava-se a velha máxima: imperadores passam, mas o papado permanece.

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições. Elas seriam valiosas para tentar esfriar os impulsos do chefe.

A história é pródiga em napoleões que, embriagados pelo poder, acreditam mesmo governar este mundo e o outro.


terça-feira, 21 de abril de 2026

A eleição e o Brasil 'queridinho' dos donos do dinheiro grosso, VTF FSP

 O Brasil seria agora o "queridinho" dos donos do dinheiro grosso do mundo, lê-se por aí, entre outras expressões constrangedoras de cafonas e exageradas. A medida principal desse amor é a valorização do real em relação ao dólar, desde o início do ano a maior entre 35 moedas mais relevantes. O tutu está entrando, pela finança e pelo comércio externo.

Convém prestar atenção a variações grandes da taxa de câmbio, que têm efeito político, pois batem em preços e juros. Bom lembrar também que muita vez essas variações têm pouco a ver com decisões tomadas aqui dentro. Desde o início de 2025, o real se valorizou basicamente porque os donos do dinheiro do mundo decidiram reorganizar suas aplicações.

Cédula de dólar entre notas de R$ 50 - Amanda Perobelli -30.jan.26/Reuters

A entrada de dólares tem achatado temores com o grande problema fiscal (déficit persistente, dívida que cresce sem limite). Ignora a eleição apertada entre candidatos muito diferentes a presidente. O dinheiro grande vai se importar apenas quando souber do novo ministro da Fazenda, no final do ano? Difícil antecipar razões, rapinas e desrazões do capital.

Entre outros motivos da onda de valorização de agora está a avaliação de que o Brasil viria a se estrepar menos com a guerra. O país: 1) Exporta petróleo; 2) Tem matriz energética diversificada e com muitos renováveis; 3) Exporta várias commodities, entre elas comida; 4) Tem juros muito mais altos do que os do resto do mundo relevante; 5) Terá mais receita fiscal, engordada pelos impostos do petróleo; 6) Está longe de zonas de conflito; 7) Por comparação, tem política menos conturbada (pois é) e governo mais estável.

A explicação parece razoável, depois de sabermos que o real se valorizou, assim como ocorreu em 2025: meio análise de obra feita. As previsões para taxa de câmbio, quase sempre muito furadas, eram de dólar mais caro.

Desde o início de 2025, parece que quase 50% da valorização do real se deveu à onda global de mudanças de fluxo de dinheiro causada pelo descrédito dos EUA, obra de Donald Trump. O restante seria devido em um terço à diferença de juros entre o Brasil e o resto do mundo relevante, em particular os EUA; no mais, à exportação de commodities.

"Parece". Há meios um pouco diferentes de se fazer essa conta, que de resto é uma decomposição de motivos baseada em dados disponíveis, não uma explicação cravada.

O preço do dólar está perto de R$ 5,06, na média de abril até esta terça (21). Com um empurrãozinho extra, em termos reais voltaríamos ao patamar de fevereiro de 2020, mês anterior ao do início dos fechamentos da Covid. Entre as três dúzias de moedas mais relevantes, o real levou o maior tombo no início da epidemia e quase sempre caído ficou, desde então.

Entre fins de 2024 e janeiro de 2025, houve o pico mundial recente do valor do dólar: era o cúmulo dos delírios otimistas com a política econômica de Trump. Desde meados de 2024, o descrédito da política fiscal de Lula ajudava a derrubar o real (uns dois terços da queda de 2024 se deveram ao problema de gastos e dívida públicos). O efeito combinado dessas duas pressões provocou um pânico no mercado brasileiro no final de 2024 e o Selicaço do Banco Central.

Ao longo de 2025, pegamos a onda de valorização das moedas dos emergentes, que muito contribuiu para derrubar a inflação; em 2026, estamos no alto dessa onda, que deve atenuar a carestia causada pela guerra (combustíveis, fertilizantes etc.). Deve salvar uns votos para Lula 4.