terça-feira, 10 de março de 2026

A (muito alta) conta de enterrar redes aéreas, Joisa Dutra - FSP

 Em reunião recente, a diretoria da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) voltou a discutir um tema sensível: a possibilidade de caducidade da concessão da Enel em São Paulo. A maior concessão de distribuição de eletricidade do país corre o risco de se tornar o primeiro caso de extinção contratual em um segmento que atrai bilhões de reais em investimentos por ano. O modelo regulatório por trás dessas concessões é considerado um dos mais bem-sucedidos do mundo em infraestrutura, segundo avaliações do Banco Mundial e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Não é a primeira vez que o tema ganha destaque. Mas ele insiste em retornar ao centro da agenda do setor —talvez porque poucos problemas sejam tão visíveis quanto apagões e interrupções no fornecimento de eletricidade na maior metrópole da América Latina.

Fiação elétrica perto da copa de árvores na praça Nina Rodrigues, no centro de São Paulo
Fiação elétrica perto da copa de árvores na praça Nina Rodrigues, no centro de São Paulo - Pedro Affonso - 3.fev.25/Folhapress

A discussão rapidamente se transforma em um jogo de empurra entre diferentes esferas de poder. A concessão é federal, mas os impactos recaem sobre governos estaduais e municipais, que respondem diretamente à pressão da população. Nem sempre da melhor forma. Nesse ambiente, ganham força propostas aparentemente simples —mas não raro equivocadas. Uma das mais recorrentes é o enterramento das redes elétricas.

A lógica parece intuitiva. Se ventos fortes e tempestades derrubam árvores e cabos, por que não colocar a rede debaixo da terra? A proposta ganha ainda mais apelo diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos, que têm deixado milhões de pessoas e empresas sem luz por horas a fio.

Mas vale lembrar a máxima frequentemente atribuída ao jornalista H. L. Mencken: para todo problema complexo existe uma solução simples —e geralmente errada.

Não somos os únicos a considerar essa alternativa. A costa leste dos Estados Unidos também tem enfrentado eventos climáticos extremos. Um episódio recente ajuda a ilustrar o ponto. Uma forte tempestade de neve no estado de Massachusetts deixou cerca de 300 mil casas e empresas sem eletricidade por muitas horas. A reação foi semelhante à observada em São Paulo após grandes temporais: por que não enterrar toda a rede?

A resposta, no entanto, está longe de ser trivial.

Converter redes aéreas em subterrâneas exige intervenções profundas no espaço urbano. As obras são complexas, disruptivas para o funcionamento das cidades e caras. E, como sempre ocorre em infraestrutura, a conta precisa ser paga por alguém: consumidores, contribuintes ou ambos.

Uma análise abrangente conduzida pela New York State Department of Public Service avaliou exatamente essa questão. Por determinação do legislativo estadual, o estudo examinou a viabilidade e os custos de enterrar redes de eletricidade, telecomunicações e internet em todo o estado de Nova York.

Os resultados são eloquentes.

Para as sete grandes concessionárias analisadas, que atendem a cerca de 90% da população, os custos da conversão superariam amplamente os benefícios. A perda líquida de bem-estar social foi estimada em US$ 261 bilhões (a valores de 2023). Nenhuma das áreas de concessão avaliadas apresentaria ganho econômico líquido com a conversão integral das redes.

O impacto tarifário também seria expressivo. No curto prazo, as contas de energia poderiam aumentar de menos de 2% até quase 50%, dependendo da concessionária. No longo prazo, algumas projeções indicam que poderiam dobrar.

Se essa é a conta em um estado como Nova York, com renda per capita várias vezes maior que a de São Paulo, vale perguntar: quem pagaria essa conta por aqui?

Esses dados significam que o enterramento de redes deve ser descartado? Não necessariamente. O próprio estudo aponta situações em que a solução pode fazer sentido: áreas urbanas de alta densidade, onde os riscos de interrupção são grandes e quando várias utilities podem compartilhar a infraestrutura.

Mas duas condições são essenciais.

A primeira é gradualismo. Conversões dessa natureza precisam ocorrer ao longo do tempo, integradas ao planejamento urbano e às obras de infraestrutura das cidades.

A segunda é governança clara para a alocação de custos. Os beneficiários precisam contribuir. Usuários de diferentes serviços —energia, telecomunicações e internet— podem compartilhar a infraestrutura. O poder público local também tem papel importante, sobretudo nas obras civis, que custam caro.

Curiosamente, essas conclusões se alinham a análises realizadas anos atrás pelo FGV CERI sobre a rede de São Paulo, antes mesmo da atual concessão.

A lição é clara: não existe bala de prata para resolver problemas complexos em infraestrutura.

Fortalecer a resiliência das redes elétricas exige um conjunto de medidas —melhor gestão da vegetação urbana, modernização das redes, planejamento urbano mais integrado e investimentos bem priorizados.

Enterrar cabos pode ser parte da solução. Mas acreditar que resolve todos os problemas pode sair caro demais.

Pão de Açúcar pede recuperação extrajudicial e cita dívidas de R$ 4,5 bilhões, FSP

 

São Paulo

A incerteza sobre a "continuidade operacional" do GPA (Grupo Pão de Açúcar), uma das maiores e mais tradicionais empresas do varejo brasileiro, que havia sido mencionada pela administração do grupo no último balanço, foi conhecida com mais detalhes nesta terça (10), quando a empresa anunciou acordo com os seus maiores credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial, que engloba dívidas de R$ 4,5 bilhões.

Diferentemente do plano de recuperação judicial, pelo qual passa a Americanas, por exemplo, em que todas as dívidas do grupo (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça, na recuperação extrajudicial a empresa escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao judiciário.

No caso do GPA, os maiores credores são os bancos. O acordo foi assinado com instituições que concentram 46% dos créditos sujeitos ao plano (R$ 2,1 bilhões). "Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas", afirmou, em comunicado.

Loja do Pão de Açúcar na avenida Brigadeiro Luís Antônio, zona sul de São Paulo - Bruno Santos - 30.set.21/Folhapress

As ações da empresa estão em forte queda no pregão da B3 desta terça e chegaram a entrar em leilão logo no início das negociações, quando o tombo era de mais de 8%. Às 10h30, caíam em torno de 4%, cotadas a R$ 2,62.

A empresa faz questão de destacar que o pagamento dos fornecedores segue normalmente. No último dia 3, o GPA enviou uma carta a fornecedores para tentar conter temores de ruptura no abastecimento das lojas. No documento, o CEO Alexandre Santoro afirmou que as negociações em curso envolviam apenas credores financeiros —principalmente bancos e detentores de dívida— e não afetariam os parceiros comerciais da rede.

A carta veio no dia seguinte ao rebaixamento da nota do grupo de "A" para "CCC" pela agência de classificação de risco Fitch. A nota indica risco substancial de calote e capacidade muito fraca de pagamento. Foi o segundo corte consecutivo desde novembro, quando o grupo já tinha perdido o grau "AA". A agência apontou o aumento do risco de refinanciamento das dívidas, a piora da liquidez e a expectativa de fluxo de caixa livre negativo nos próximos anos caso o endividamento não fosse reduzido.

Segundo a companhia, o plano já produz efeitos imediatos e prevê a suspensão temporária das obrigações financeiras junto aos credores incluídos no processo. Com isso, a empresa tem 90 dias para ampliar a adesão ao acordo e negociar uma solução definitiva para sua estrutura de capital.

O período funciona como uma trégua nas cobranças enquanto a varejista tenta reorganizar o perfil de seu endividamento e buscar um equilíbrio financeiro. O que está sendo muito difícil, conforme apontam ex-executivos da empresa e fontes próximas ao atual comando, ouvidas pela Folha.

O Casino, que comandou o Pão de Açúcar entre 2012 e 2023, fez uma "limpa" nos ativos do grupo, na tentativa de aliviar o seu próprio endividamento na França. Entre 2012, quando passou às mãos do grupo Casino, e 2023, quando os franceses deixaram o controle, a rede encolheu 64% em receita bruta.

Entre 2024 e o início de 2025, o Casino foi abrindo mão da sua participação, mas continuou como principal acionista. Essa posição, porém, mudou em maio do ano passado, quando a família Coelho Diniz, dedicada ao varejo no interior de Minas Gerais, se tornou o acionista mais relevante do grupo, somando 24,6% de participação.

A varejista ressaltou estar em dia com pagamentos a fornecedores e parceiros comerciais —grupos que foram excluídos do plano justamente para evitar impactos na operação do negócio. A companhia disse ainda que a recuperação extrajudicial foi desenhada para preservar a operação das lojas. Segundo a empresa, as unidades seguem funcionando normalmente e o abastecimento não será afetado.

No fato relevante, a empresa afirmou que o objetivo da reestruturação é fortalecer o balanço e melhorar a sustentabilidade financeira no longo prazo. A decisão foi autorizada de forma unânime pelo conselho de administração da companhia e faz parte de negociações que vinham sendo conduzidas nas últimas semanas com instituições financeiras e detentores de títulos da empresa.

O GPA informou que divulgará detalhes adicionais sobre o processo e os documentos da reestruturação em seu site de relações com investidores nas próximas semanas.

BALANÇO INDICAVA ROMBO

A divulgação do balanço de 2025, em que a administração mencionava "incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia", já expôs a dimensão do problema. O GPA possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento já em 2026 e terminou o último trimestre com capital de giro líquido negativo em aproximadamente R$ 1,2 bilhão. O endividamento total do grupo girava em torno de R$ 4 bilhões.

Além disso, a companhia revelou em suas contas a existência de cerca de R$ 16 bilhões em disputas tributárias classificadas como "perdas possíveis" —valores que não estão provisionados no balanço, mas que representam um risco potencial.

O excesso de discrição da família Coelho Diniz piora o cenário. Desde que se tornaram os principais acionistas do grupo, em maio do ano passado, no lugar do Casino, os Coelho Diniz não deram entrevistas. A família mineira controla uma rede de supermercados de mesmo nome, no leste de Minas Gerais. Faturam cerca de R$ 2 bilhões ao ano e passaram a dar as cartas em uma empresa que fatura mais de R$ 20 bilhões.

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