quarta-feira, 17 de junho de 2026

Antonio Claudio Mariz de Oliveira - CPI, uma inutilidade, FSP

 Chama a atenção no nosso ordenamento jurídico a existência de institutos que uma vez aplicados à realidade se afastam por completo do seu escopo. Esse distanciamento entre o legal e o real desvirtua por completo o seu desiderato originário.

Um exemplo são as comissões parlamentares de inquérito, com previsão constitucional (artº 58, parº 3º). O seu objetivo seria a "apuração de fato determinado e por prazo certo". Para isso possuem "poderes de investigação próprios das autoridades judiciais". As leis 1539/52 e 10179/03 regem a sua atuação.

Sessão plenária da Câmara dos Deputados durante votação do projeto de lei que regulamento o uso de terras raras no Brasil 06.mai.2026 - Pedro Ladeira/Folhapress

O regimento da Câmara, em seu artigo 35,I, por sua vez, define que o fato precisa ser de interesse para a vida pública, ordem constitucional e social, devendo estar explicitado no pedido de instalação da CPI.

As comissões possuem, pois, um objetivo bem definido: investigar fatos predeterminados que possuam relevância para a vida jurídica, social e econômica do país.

No entanto, o desrespeito a suas finalidades e limites é notório e chocante. As apurações se desviam e alcançam fatos inicialmente não previstos. Ademais, os seus integrantes se arvoram em magistrados e ultrapassam as barreiras de suas atuações.

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Não são incomuns os casos em que fatos estranhos passam a ser investigados. Fatos, diga-se, sempre de repercussão pública e midiática.

Os parlamentares só demonstram a sua tendência, por vezes uma fúria investigativa, quando os palcos lhes são abertos para que se transformem em atores de um espetáculo midiático. É indisfarçável o desejo de obterem protagonismo que compromete a seriedade e o escopo da própria investigação.

Assumem atitudes arrogantes, agressivas, voltadas para a sua performance diante das câmeras. Cometem o delito de abuso de autoridade frequentemente. Prendem quando não poderiam, mandam tirar advogados da sala e por vezes lhes dão voz de prisão, interrompem depoimentos, pois desejam que digam o que querem ouvir.

Quando integram uma CPI já possuem cristalizadas suas opiniões sobre a responsabilidade do investigado antes mesmo do término das investigações. Assim, as perguntas e requerimentos que fazem, muitos aos berros, fazem parte do show que protagonismo exibicionista e inócuo.

O anseio por promoção e protagonismo por parte de deputados e senadores; as injunções políticas e partidárias; as disputas individuais; a exposição mediática mesmo que à custa de declarações sobre as

investigações em curso; as constantes ofensas e agressões fizeram com que as apurações perdessem a sua razão de ser. Por esses e outros fatores que as deturpam e as desviam de seus rumos originários, se impõe uma indagação

Por que as comissões parlamentares de inquérito ainda existem?

Como acentuou de forma clara e enfática a excelente advogada criminal Maria Jamile José, o regime constitucional reserva ao juiz o papel de julgar e o das CPIs o de investigar e nada mais. Quem julga é o juiz. Ademais quaisquer medidas restritivas da liberdade e de outros direitos só podem ser decretadas por ele. No entanto, assiste-se, habitualmente, à adoção de medidas de força por parte dessas comissões.

Essas e outras razões levam a seguinte indagação: por que as comissões parlamentares de inquérito ainda existem no nosso ordenamento?

Elas em nada contribuem para o aprimoramento de nossas instituições e nem sequer constituem um instrumento eficaz para a apuração de ilícitos da responsabilidade de cidadãos e agentes públicos.

Que as polícias investiguem, o Ministério Público acuse, a advocacia defenda e a magistratura aplique ou não as sanções cabíveis. Ao Legislativo cumpre fazer leis.


Escolas deveriam ensinar como converter as tristezas em material humorístico, João Pereira Coutinho FSP

 Todos temos nossos momentos de megalomania. Eu não sou exceção: se mandasse no mundo, todos os alunos, dos seis aos 18 anos, teriam de frequentar uma aula extra na escola. Além de matemática, ciências ou da língua materna, haveria "stand-up comedy" como disciplina obrigatória.

As vantagens são tão óbvias que chega a ser constrangedor citá-las. Entre as mais imediatas: confiança pessoal para falar em público, destreza verbal para se comunicar com os outros —e, sobretudo, treino contínuo para transformar as tristezas da vida em material humorístico.

Nada escaparia: a família, os amigos, os amores. As frustrações, os medos, as falsas esperanças. Quando não conseguimos nos livrar dos esqueletos que temos no armário, disse George Bernard Shaw, o melhor é ensiná-los a dançar. Ou a rir, acrescento eu.

Palco vazio diante de cortinas vermelhas fechadas e um microfone iluminado à espera de alguém
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 16 de junho de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Em uma ou duas gerações, aposto que teríamos adultos menos neuróticos, menos fanáticos, menos propensos a cancelar os outros. A estupidez é irmã gêmea da falsa seriedade.

Foi nisso que pensei quando assistia, grato e maravilhado, ao filme "Isso Ainda Está de Pé?", dirigido por Bradley Cooper. Como foi que o filme me escapou quando passou nos cinemas?

No centro da história estão Alex e Tess —notáveis Will Arnett e Laura Dern—, separados depois de 26 anos de vida em comum. As razões da separação são um mistério —para nós e para o próprio Alex. Uma noite, não exatamente sóbrio, Alex resolve entrar em um clube de comédia em Nova York. Não para assistir. Para subir ao palco. Essa é a primeira piada.

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A segunda é que ele não tem piadas para contar, o que também não deixa de ser uma ilusão: a vida dele é a melhor piada que existe.

O público ri da estranheza. Depois, das histórias que ele conta —o casamento, os filhos, os pais. Alex ri também, como se as ouvisse pela primeira vez, agora sob um ângulo cômico.

A experiência é viciante. Ele volta uma noite, depois outra, e mais outra ainda. É um péssimo humorista, dizem os profissionais, embora elogiem sua ingenuidade.

A ex-mulher, por puro acaso, assiste a um dos números. E também ela se ouve como personagem principal. Dizer que gosta seria um exagero, mas não é que gosta mesmo?

A infelicidade em que Alex vive não desaparece. De certa forma, transforma-se em clareza e perdão. E, com essa nova perspectiva, a pergunta fundamental: ele é infeliz com o casamento ou infeliz no casamento? Uma diferença sutil, que geralmente escapa aos amantes desencontrados.

Não escapa a Alex: a capacidade irônica que ele teve de sair de si mesmo, de se olhar como objeto de riso e estudo, permitiu-lhe chegar às coisas realmente sérias.

Como lembrava o escritor Martin Amis, só podemos saber o que é sério quando conhecemos também o que é engraçado. O humor não é uma fuga à seriedade, mas um caminho até ela.

Pessoas sem humor não são, por definição, mais sérias. São literais, condenadas a viver na superfície das coisas —onde tudo parece urgente e nada é verdadeiramente importante.

Regresso ao início: todos temos nossos momentos de megalomania. Se eu mandasse no mundo, haveria "stand-up comedy" no currículo das escolas. Quando tornamos as nossas dores visíveis e ridículas, elas ficam finalmente ao nosso alcance.

P.S.: É uma triste ironia saber que, nos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o historiador Gordon S. Wood não estará entre os vivos para festejar. Morto recentemente, aos 92 anos, vítima de um acidente de trânsito, Gordon Wood foi um dos grandes intérpretes do nascimento da república americana.

Suas obras centrais, como "The Radicalism of the American Revolution", vencedor do Pulitzer, são uma refutação brilhante da ideia de que 1776 foi uma mera rebelião de ingleses contra ingleses por causa de impostos —o célebre bordão "no taxation without representation".

Na verdade, a independência foi o desfecho de um longo processo de emancipação das colônias, alimentado pelo crescimento demográfico, pelo enriquecimento comercial e pelo aprofundamento de ideias liberais que, ironicamente, os colonos aprenderam com os próprios ingleses da metrópole.

A independência não foi perfeita? Claro que não —a manutenção da escravidão é sua principal mancha. Mas também aqui Wood lembrou o óbvio: a nova gramática liberal inaugurou uma linguagem de emancipação que, nos séculos seguintes, seria mobilizada contra os seus próprios limites.