quinta-feira, 21 de maio de 2026

Brasil endurece regras contra big techs e redes sociais, Fast Company Brasil


O Brasil endurece as regras contra as plataformas digitais. Nesta quarta-feira (20 de maio), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou dois decretos que ampliam as responsabilidades das big techs com relação à moderação de conteúdo, bem como criam um órgão regulador de redes digitais no país.

Com a nova regulamentação, que não precisará passar pelo Legislativo, as plataformas digitais poderão ser punidas civilmente se não removerem conteúdos criminosos e de ódio, mesmo sem ordem judicial prévia. As empresas também poderão responder a crimes caso apresentem falhas no combate a golpes digitais.

A responsabilização automática vale para crimes graves, como terrorismo, racismo, incentivo ao suicídio, ataques à democracia e violência contra crianças e mulheres. Para crimes em geral, as empresas serão responsabilizadas se receberem uma denúncia direta do usuário e não removerem o conteúdo de circulação.

Já conteúdos classificados como crítica, paródia, sátir ou informativo têm salvaguardas.

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) fará a fiscalização das plataformas. O órgão deixa de atuar apenas em proteção de dados pessoais e assume a função de órgão regulador das redes digitais no país. 

ALINHAMENTO COM O STF

Uma das medidas pavimenta a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de declarar a inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Em junho do ano passado, o Supremo decidiu que as redes sociais deveriam ser responsabilizadas por conteúdos danosos publicados por seus usuários.

A atualização do Marco Civil da Internet vem também com outras exigências para as plataformas digitais. Elas são obrigadas a criar canais de denúncia, informar os usuários sobre medidas adotadas e permitir contestação das decisões, em um modelo que o governo compara a um “devido processo legal”.

As plataformas serão obrigadas a combater anúncios fraudulentos, como golpes financeiros, promoções enganosas e vendas de produtos não legalizados. Levantamento feito pela agência Reuters no ano passado indica que a Meta faturou cerca de US$ 16 bilhões em 2024 com anúncios desse tipo. 

VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

O segundo decreto trata sobre a proteção das mulheres online. As plataformas deverão disponibilizar meios eficazes de denúncia de pornografia de vingança e pornografia deep fake.

Os conteúdos deverão ser removidos em até duas horas após as denúncias. Os serviços digitais devem reduzir o alcance e a visibilidade de postagens coordenadas de ataque a mulheres devido ao exercício profissional de suas funções.

Leia mais: Quanto custa um deepfake? Veja valores e riscos dessa tecnologia

As empresas digitais são proibidas de disponibilizar ferramentas de inteligência artificial que tiram a roupa das mulheres ou criam “nudes” falsos. A Fast Company Brasil denunciou em abril a existência de canais do Telegram que fazem deep fakes pornográficos e recebem pagamento pelo próprio sistema do Telegram. 

As medidas entram em vigor assim que os decretos forem publicados no Diário Oficial da União, nesta quinta-feira (21 de maio).


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Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil. saiba mais

terça-feira, 19 de maio de 2026

Para certas trevas, é ainda Dostoiévski quem tem a lanterna, João Pereira Coutinho - FSP

 O problema do nosso mundo é não ler mais Dostoiévski. Pensei nisso quando soube, pela imprensa internacional, que o FBI investiga uma sucessão de "mortes suspeitas" a pedido do Congresso. Falo de cientistas de renome, pesquisadores das áreas nuclear ou aeroespecial, que desapareceram sem deixar rastro ou foram simplesmente assassinados.

No meio da lista, aparece o nome de Nuno Loureiro, 47 anos, português. Um físico brilhante do MIT e amigo de um amigo meu. Em dezembro passado, Portugal ficou em choque com a história: na porta de casa, Nuno Loureiro foi morto a tiros. Por quem?

Aqui, a tragédia ganha contornos ainda mais assustadores: por um ex-colega, Cláudio Valente, praticamente da mesma idade e com uma trajetória de vida que era a sombra de Loureiro.

Mais de 20 anos atrás, os dois estudaram no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, uma das grandes escolas de engenharia de Portugal.

Homem aparece refletido de costas em um espelho de moldura rebuscada, sobreposto a um emaranhado de escadas.
Angelo Abu/Folhapress

Na pós-graduação, emigraram. Nuno Loureiro fez seu doutorado e iniciou uma carreira de prestígio nos Estados Unidos. Cláudio Valente desistiu dos estudos e desapareceu do radar.

Duas décadas depois, reapareceu: primeiro, para cometer um massacre na Universidade Brown, onde estudara sem concluir o doutorado. Matou dois alunos e feriu nove. Dois dias depois, assassinou o ex-colega.

Quando eu soube da história, minha imaginação literária pensou em Dostoiévski. Não apenas porque o assassino é o típico homem do subsolo que, cultivando o próprio ressentimento, acusa o mundo dos seus próprios fracassos. A questão é mais literal: com 24 anos apenas, Dostoiévski escreveu uma novela que parece a anatomia antecipada desse crime.

O título é "O Duplo", e ela narra a história de Iákov Goliádkin, funcionário público de São Petersburgo, a quem o médico recomenda uma vida mais alegre. "O senhor precisa de uma mudança radical e, em certo sentido, de transformar o seu caráter", diz-lhe o doutor Ivánovich.

Mas a alegria não existe para Goliádkin, um desajustado social que procura desesperadamente reconhecimento.

Uma noite, depois de mais uma humilhação pública, Goliádkin é confrontado por um estranho personagem: um homem igual a ele, que carrega o mesmo sobrenome. Um Goliádkin júnior, como escreve Dostoiévski, que tem as qualidades que faltam a Goliádkin sênior.

Palavras em russo: Dostoiévski
Theo Lamar/Folhapress

É alegre. É audacioso. É um sucesso profissional na mesma repartição estatal de Goliádkin sênior. "Com que rapidez, pensando bem, pode um homem chegar assim e 'ganhar' toda a gente!", observa, com inveja e temor, o pobre Goliádkin original.

A inveja cresce. O sentimento de inferioridade também. Goliádkin sênior tenta desesperadamente "esclarecer o assunto" junto aos superiores.

Mas o duplo, o júnior, já tramou contra ele —e Goliádkin sênior sente o mundo se fechar, de forma injusta e absurda, prenunciando o seu fim.

Há várias interpretações sobre essa novela de juventude. Seria o novo Goliádkin uma mera projeção da mente doente do velho Goliádkin?

Seria um personagem real, ainda que investido de semelhanças físicas e onomásticas pelo próprio Goliádkin –uma espécie de versão melhorada dele mesmo, mistura de desejo e autopunição?

Todas as interpretações são possíveis, porque todas convergem para o mesmo ponto: quando atribuímos a um duplo, real ou imaginário, a razão do nosso naufrágio, as portas do inferno estão abertas.

Na obra de Dostoiévski, o inferno do ressentido toma várias formas: às vezes chama-se duplo; outras, subsolo; outras ainda, crime, ideologia ou parricídio. Em todos os casos, começa no mesmo lugar: na recusa em admitir que o inimigo mortal mora dentro de casa.

Mas Dostoiévski não faz apenas o diagnóstico; ele sugere que a salvação começa quando o homem já não precisa de um inimigo para explicar a própria ruína.

O assassino Cláudio Valente foi vencido pelo inimigo que carregava dentro de si. Depois de cometer os crimes, refugiou-se num armazém abandonado. Gravou vídeos nos quais teria dito: "Não vou pedir desculpas, porque durante a minha vida ninguém me pediu desculpas", uma frase que é puro Dostoiévski.

E, quando a polícia finalmente o cercou, cometeu suicídio.

Semanas atrás, o FBI divulgou uma avaliação comportamental do homicida. Conclusões? "À medida que os fracassos superavam os sucessos", concluíram as autoridades, "sua paranoia se intensificou, culminando em um estado de profunda perturbação mental e numa determinação em morrer".

E mais: "Cláudio Valente procurou superar sua vergonha e inveja recorrendo à violência para punir comunidades que via como responsáveis por sua queda".

Sim, teorias da conspiração têm lá o seu charme. Mas, para explicar certas trevas, ainda é Dostoiévski quem segura a lanterna.

Calor extremo já custa bilhões e deve testar sistema elétrico em 2026, Eixos

 


Editada por Nayara Machado
nayara.machado@eixos.com.br
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A mais recente previsão de cientistas de meteorologistas aponta que o fenômeno que aquece as águas do Oceano Pacífico Equatorial estará de volta no segundo semestre do ano, trazendo com ele a intensificação de eventos climáticos como ondas de calor, secas e inundações.
 
Para este ano, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), calcula a probabilidade de 60% de desenvolvimento do El Niño, para o trimestre maio-junho-julho, e mais de 90% a partir da próxima primavera, em setembro. (G1)
 
E se, na média global, os três primeiros meses de 2026 foram os quartos mais quentes já registrados, com a expectativa de um El Niño forte – e potencialmente “super” – em setembro, prepare-se para o calor
 
Uma análise do Carbon Brief prevê que 2026 provavelmente será o segundo ano mais quente já registrado, e possibilidade de 2027 ser recordista.
 
Some ao fenômeno o aquecimento de longo prazo causado pelas atividades humanas, as temperaturas podem subir acima de 2,5°C no fim de 2026 e as consequências dos extremos climáticos são motivo de alerta para diversos setores da economia.
 
Só em 2025, empresas no mundo todo reportaram que eventos climáticos causaram quase US$ 3 bilhões em perdas reais, principalmente devido ao aumento de custos diretos e paralisações operacionais, sendo chuvas intensas o principal fator isolado dessas perdas (US$ 1,5 bilhão), segundo o CDP.
 
A plataforma de divulgação ambiental alerta em seu novo relatório que eventos climáticos extremos estão provocando impactos financeiros materiais em toda a economia global. 
 
Cerca de 62% das cidades, estados e regiões que reportaram dados na plataforma afirmaram já estar sendo significativamente impactados por eventos climáticos extremos. 
 
“Estes eventos estão sendo reconhecidos por governos subnacionais como um risco financeiro e econômico, com quase um quarto (23%) dos participantes destacando especificamente atividades financeiras e de seguros como altamente expostas à intensificação dos riscos climáticos”, diz o CDP.

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Pressão energética

Das perdas financeiras globais à Copa do Mundo de futebol masculino, o clima extremo também está impactando os sistemas energéticos e, no Brasil, a possibilidade de formação de um El Niño em 2026 é um ponto de atenção para o setor elétrico.
 
Estudo da Nottus, empresa de inteligência de dados e meteorologia, aponta que o fenômeno pode elevar o risco de extremos climáticos e pressionar o sistema elétrico nos próximos meses. 
 
De um lado, o aumento do calor significa maior consumo de energia para refrigeração. Do outro, secas prolongadas reduzem a capacidade de geração hidroelétrica, e prejudicam a produção de bioenergia — assim como chuvas intensas.
 
“O principal ponto não é discutir se teremos um El Niño forte ou muito forte, mas entender que eventos climáticos hoje acontecem em um contexto de aquecimento global, o que potencializa extremos meteorológicos e traz consequências em diversos setores como infraestrutura, consumo e energia”, comenta Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus.
 
A análise indica que as regiões Centro-Oeste e Sudeste podem registrar temperaturas acima da média no segundo semestre, com maior frequência de ondas de calor e aumento da demanda por refrigeração e consumo de energia elétrica. 
 
No Norte e Nordeste, a tendência de redução das chuvas pressiona recursos hídricos e afeta a geração hidrelétrica.
 
A consultoria traz exemplos do impacto do último episódio de El Niño, entre 2023 e 2024, sobre o setor elétrico brasileiro.
 
Naquele período, enquanto o país registrava recordes de demanda de energia associados às ondas de calor intensas e prolongadas, Centro-Oeste e Sudeste ardiam com incêndios florestais e estresse hídrico em lavouras de cana e grãos, com prejuízos para a produção de biocombustíveis. 

Ondas de calor dificultam planejamento

Ao mesmo tempo em que o planejamento é uma ferramenta para preparar o sistema energético para lidar com os desafios climáticos, a elevação das temperaturas e a maior frequência de ondas de calor estão tornando as projeções mais complexas.
 
Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgado no final de 2025 alerta que as variações nas condições climáticas tendem a gerar picos de consumo cada vez mais intensos e menos previsíveis. Consequentemente, fica mais difícil garantir que o sistema consiga atender às oscilações bruscas de demanda por eletricidade.
 
O ar-condicionado é um exemplo. Segundo a EPE, as aquisições cresceram 18% entre 2005 e 2019 e a climatização pode representar entre 13,7% e 17,9% do consumo residencial em 2036.

COBRIMOS POR AQUI

CURTAS

Leilão das térmicas na Justiça. A ofensiva judicial contra os resultados do leilão de reserva de capacidade (LRCAP) ganhou força com uma ação civil pública da Fiesp pedindo para que os resultados da contratação de março sejam anulados. judicialização se soma a uma série de outros questionamentos, que levaram a Aneel a adiar a homologação dos resultados.

  • A Fiesp questiona a definição da demanda contratada, a metodologia da formação dos preços-teto, a baixa competitividade e os impactos econômicos dos contratos.  
Terras raras. O presidente Lula voltou a dizer nesta segunda-feira (18) que o Brasil não vai abrir mão de sua soberania para exploração de minerais críticos e terras raras existentes no país. Durante evento realizado em Campinas (SP), Lula destacou que outros países poderão se associar ao Brasil para explorar esses recursos, dentro do território brasileiro.
 
Corredor verde. A norueguesa Odfjell anunciou nesta segunda (18/5) o início da operação do primeiro corredor verde para navios-tanque entre o Brasil e a Europa movido a biocombustível. A iniciativa usará uma mistura de 24% de biodiesel e 76% de VLSFO (óleo combustível de baixa viscosidade) produzida pela Petrobras.
 
E por falar em biobunker… A Petrobras vai investir R$ 3,3 bilhões na segunda área contratada no Porto de Santos e ampliar a capacidade de tancagem na região, anunciou a presidente da estatal, Magda Chambriard, durante evento na Replan, nesta segunda (18/5), com a presença do presidente Lula (PT).
  • O valor vai ser destinado à ampliação do terminal aquaviário, um novo píer e maior área de tancagem. Com isso, a estatal será capaz de vender bunker com 24% de biodiesel em São Paulo.
Etanol competitivo. Os preços médios do etanol hidratado caíram em 19 estados e no Distrito Federal (DF), subiram em dois e ficaram estáveis em quatro na semana passada, segundo dados da ANP, compilados pelo AE-Taxas. Nos postos pesquisados pela ANP em todo o país, o preço médio do etanol recuou 1,35%, para R$ 4,38 o litro.
 
Infraestrutura resiliente. Nos últimos cinco anos, governos, investidores e bancos investiram cerca de US$ 100 bilhões em iniciativas para lidar com os efeitos das mudanças climáticas na Ásia, sendo que a maior parte desse capital foi destinada a projetos de água e infraestrutura, mostra levantamento. (Bloomberg)
 
Alívio no petróleo? Os EUA aceitaram suspender, em uma nova proposta, as sanções petrolíferas contra o Irã, segundo uma fonte próxima à equipe de negociações ouvida pela agência de notícias Tasnim, em mensagem enviada nesta segunda (18/5) via Telegram.
  • A suspensão das sanções significa uma flexibilização temporária das medidas restritivas sobre a commodity iraniana e pode aliviar os preços do petróleo.