terça-feira, 5 de maio de 2026

Custos, riscos e crises de um sistema sem preços, Joisa Dutra, FSP

 "Não há crise no mercado de energia." A afirmação recente do presidente da Câmara de Comercialização de Energia (CCEE), Alexandre Ramos, ao classificar os problemas na comercialização de energia no Brasil como conjunturais, parece, à primeira vista, desconectada do cenário global. Para Fatih Birol, à frente da Agência Internacional de Energia, o atual contexto geopolítico configura "a maior crise energética da história".

As duas leituras tratam, no entanto, de crises diferentes.

Linhas de transmissão de energia elétrica em Ronda, na Espanha - Jon Nazca - 28.abr.25/Reuters

A crise global reflete choques de oferta e tensões geopolíticas. No Brasil, os sinais de estresse emergem de dentro do próprio sistema elétrico —na forma de inadimplência, judicialização e fragilidade contratual na comercialização de energia.

E isso aponta para um problema mais profundo.

Em mercados de eletricidade, crises não começam na falta de energia. Começam na falha de coordenação. E coordenação, nesse contexto, é feita por preços.

Quando o preço não coordena, o contrato deixa de disciplinar —e o mercado recorre à renegociação e à judicialização.

Desde 2019, com o episódio da Vega Energia, ao menos 13 comercializadoras enfrentaram dificuldades que resultaram em descumprimento de contratos ou pedidos de recuperação judicial. Os casos mais recentes envolvem valores bilionários. Crescem a inadimplência e a judicialização.

Não por acaso, representantes do mercado livre têm sinalizado preocupação. A Associação Brasileira de Comercializadores de Energia reforçou recentemente que a segurança do mercado depende do "respeito pleno aos contratos celebrados" —um sinal de que o problema já não é pontual, mas sistêmico, sendo descrito como a maior crise do setor em duas décadas.

Para entender o que está em jogo, é preciso dar um passo atrás.

O sistema elétrico, como qualquer organização complexa, pode ser coordenado de forma centralizada ou descentralizada.

No Brasil, a coordenação é centralizada, com preços derivados de modelos que buscam minimizar custos a partir de parâmetros técnicos e econômicos. Esse modelo funcionou bem em um sistema concentrado, basicamente formado por grandes usinas hidrelétricas e termelétricas a combustíveis fósseis.

Mas o sistema mudou com o avanço das fontes renováveis e a ampliação do mercado livre, que responde por cerca de 40% da energia consumida no país. Hoje há milhares de agentes, múltiplas tecnologias e decisões de investimento descentralizadas. O mercado livre cresce e passa a concentrar parcela relevante da expansão.

Surge, então, um paradoxo: temos contratos de mercado negociados no ambiente livre, mas ainda não temos preços de mercado para coordenar o sistema.

Essa desconexão cria arbitragem e enfraquece a capacidade de coordenar decisões e gerenciar riscos.

Em outros países, a crescente complexidade dos sistemas elétricos levou à adoção de mercados com preços formados por lances, capazes de sinalizar escassez, risco e valor da flexibilidade. No Brasil, essa transição ficou pela metade. E é nessa lacuna que emerge a crise atual.

O resultado é um sistema em que a complexidade cresce, mas os preços deixam de cumprir sua função essencial de coordenação e passam a gerar ruído.

Esse ruído se manifesta de forma clara: volatilidade desconectada da operação, aumento de riscos —como o curtailment (redução involuntária da potência do gerador elétrico para manter a estabilidade da rede)— e fragilidade no cumprimento de contratos.

O efeito aparece em cadeia. Perdas e restrições operacionais elevam a volatilidade. A volatilidade desorganiza os contratos. Sem mecanismos robustos de governança e gestão de risco, o sistema acumula vulnerabilidades que, em momentos de estresse, materializam-se em padrões e ampliam crises ao invés de contribuir para sua solução.

Toda grande crise tem múltiplas causas. Mas aqui o diagnóstico converge: o problema não é episódico —é sistêmico. E isso muda a natureza da resposta.

O desafio não é trivial e tampouco binário. Não é o caso de abandonar o modelo atual, mas de reconhecer seus limites para organizar um sistema em tamanha transformação. De um lado, é necessário aprimorar os modelos existentes, reduzindo discricionariedades, ampliando transparência e incorporando melhor a complexidade do sistema. De outro, é preciso avançar na construção de mecanismos de mercado capazes de produzir preços que bem coordenem decisões de produção, consumo e investimento.


EUA lançam ofensiva contra JBS, subsidiária da Marfrig e mais 2 empresas por suposto cartel, OESP

 O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira, 4, uma ampla investida contra as quatro maiores processadoras de carne que operam no país: JBS, National Beef (subsidiária da Marfrig, controladora que com a BRF formou o conglomerado MBRF), Tyson Foods e Cargill.

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Procuradas pelo Estadão, a JBS e a MBRF afirmaram que não iriam comentar a iniciativa da Casa Branca. A Cargill e a Tyson Foods, multinacionais com sede nos EUA, não responderam.

Durante entrevista coletiva, o conselheiro sênior de Comércio e Manufatura — e arquiteto da guerra tarifária de Donald Trump —, Peter Navarro, afirmou que a prioridade econômica da Casa Branca é o combate à inflação, especialmente na carne bovina. Navarro afirmou que o nível de concentração de 85% convida a um conluio e criticou a influência estrangeira na cadeia de suprimentos.

O conselheiro sênior relatou que, após a imposição de tarifas contra o Brasil, o lobby da carne teria ameaçado a Casa Branca, desviando produtos que deveriam abastecer os mercados americanos para a China nesta temporada. Como medida imediata para baixar custos, Navarro informou que o governo está agindo para liberar milhões de acres de terras de pastagem que haviam sido retidos pelo governo Biden.

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O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, o diretor de Comércio e Manufatura, Peter Navarro, e membros da indústria da carne bovina realizam uma coletiva de imprensa no Departamento de Justiça nesta segunda-feira, 4
O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, o diretor de Comércio e Manufatura, Peter Navarro, e membros da indústria da carne bovina realizam uma coletiva de imprensa no Departamento de Justiça nesta segunda-feira, 4 Foto: Kevin Dietsch/AFP

O procurador-geral em exercício, Todd Blanche, afirmou que o Departamento de Justiça (DOJ) está tornando efetiva a ordem executiva do presidente Donald Trump para interromper a formação de cartéis na cadeia de suprimentos de alimentos.

Blanche afirmou que o órgão revisou cerca de 3 milhões de documentos e entrevistou centenas de pecuaristas e produtores, resultando em um acordo que será anunciado no fim desta semana e que deve afetar diretamente os preços de proteínas como frangocarne suína e peru nesta temporada.

A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que a concentração de mercado no setor de abate de bovinos saltou de 25% em 1977 para os atuais 85%. Segundo Rollins, as “Big Four” detêm hoje 70 empresas subsidiárias, o que reduz as opções dos pecuaristas para vender seus animais e enfraquece o poder de negociação no campo.

A secretária ressaltou que metade dessas gigantes, incluindo a JBS e a National Beef, são de propriedade brasileira, classificando essa dependência externa como uma ameaça não apenas aos produtores, mas à própria segurança nacional dos EUA.

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Rollins também associou a propriedade estrangeira a históricos de corrupção internacional e citou incidentes recentes de trabalho escravo e cartéis como prejudiciais aos consumidores americanos nesta temporada.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças, EBC

 Conhecidos pelo potencial para impulsionar a transição energética, terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos vêm ganhando cada vez mais protagonismo global. Embora frequentemente tratados como sinônimos, os três conceitos cumprem papéis diferentes na geopolítica e na economia global.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), órgão do governo federal responsável por avaliar o potencial mineral do país, Elementos Terras Raras (ETR) são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica: 15 lantanídeos (como lantânio, cério, neodímio e disprósio), escândio e ítrio.

Apesar do nome, não são necessariamente raros na natureza, mas costumam estar dispersos, o que dificulta a exploração econômica. São essenciais para tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, carros elétricos, baterias, eletrônicos e sistemas de defesa.

Minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico dos países e que tenham importância pela sua aplicação em produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética.

Minerais críticos são aqueles cujo suprimento pode envolver diferentes riscos de abastecimento: concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica, limitações tecnológicas, interrupção no fornecimento e dificuldade de substituição.

Por isso, a definição de quais minerais são estratégicos ou críticos depende de cada país. A lista também pode mudar conforme o tempo, de acordo com avanços tecnológicos, descobertas geológicas, mudanças geopolíticas e evolução da demanda. Porém, alguns exemplos mais comuns atualmente são: lítio, cobalto, grafita, níquel e nióbio.

Terras raras podem ser consideradas minerais críticos ou estratégicos, dependendo do contexto. Ou seja, toda terra rara pode ser estratégica, mas nem todo mineral estratégico é terra rara.

Situação no Brasil

Segundo o SGB, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas. Isso representa cerca de 23% das reservas globais, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

A maior parte das terras raras no Brasil está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Esses estados têm os principais tipos de depósitos com potencial econômico.

Entre os minerais que costumam ser considerados críticos ou estratégicos na maior parte dos países, o Brasil se destaca por ter as maiores reservas de nióbio do mundo (94%), com 16 milhões de toneladas. Também é o segundo no ranking global de reservas de grafita (26%), com 74 milhões de toneladas, e o terceiro quando se trata de reservas de níquel (12%), com 16 milhões de toneladas.

O país tem uma lista de minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento interno. Ela foi publicada na Resolução nº 2, de 18 de junho de 2021, do Ministério de Minas e Energia. Esses minerais são divididos em três grupos:

Precisam ser importados: enxofre, minério de fosfato, minério de potássio e minério de molibdênio.

Usados em produtos e processos de alta tecnologia: minério de cobalto, minério de cobre, minério de estanho, minério de grafita, minérios do grupo da platina, minério de lítio, minério de nióbio, minério de níquel, minério de silício, minério de tálio, minério de terras raras, minério de titânio, minério de tungstênio, minério de urânio e minério de vanádio.

Minerais com vantagem comparativa e geração de superávit na balança comercial: minério de alumínio, minério de cobre, minério de ferro, minério de grafita, minério de ouro, minério de manganês, minério de nióbio e minério de urânio.

Disputa global

Esses recursos se tornaram centrais na disputa geopolítica global. Hoje, a China lidera amplamente o refino e a produção de terras raras, o que gera preocupação em outras potências, como Estados Unidos e União Europeia, que buscam diversificar fornecedores.

Nesse cenário, o Brasil aparece como um ator relevante. Especialistas apontam que o desafio brasileiro não está apenas na extração. A cadeia produtiva desses minerais envolve etapas complexas, como beneficiamento e refino, que ainda são pouco desenvolvidas no país.

Sem isso, o Brasil tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, analisa o professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, que é especialista na interseção entre política, economia e mineração.

“O Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo. Servindo para o mundo como um país primário-exportador. A gente exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional”, diz Jardim.

Além da dimensão econômica, há também questões ambientais e sociais. A exploração desses recursos gera impactos significativos nos lugares onde ocorre.

“Não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios em que ocorre: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana. O que temos hoje é um modelo completamente insustentável de mineração”, avalia o geógrafo.

“É possível fazer um modelo um pouco menos degradante. Mas, ainda assim, continuariam sendo feitos grandes buracos para extrair esses minérios. Continuariam a desmontar montanhas e a afetar cursos de água. Precisamos pensar com muita calma se realmente vale a pena, já que perdemos muitos recursos naturais e os efeitos socioambientais são significativos”, complementa.

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