terça-feira, 21 de abril de 2026

A política de indignação moral não elegerá Lula - Wilson Gomes, FSP

 Lula e a deputada Erika Hilton não têm o mesmo eleitorado. Parece óbvio, não é? Mas tudo indica que a comunicação política do governo não opera com essa distinção com a clareza necessária. Lula jamais seria eleito se fosse o candidato presidencial do PSOL, partido que hoje protagoniza a agenda moral progressista. Ele, que vem de outra cepa de esquerda, deveria ser o primeiro a saber disso. Os sinais que ele vem emitindo, contudo, sugerem que o presidente está confuso.

Ilustração em estilo “desenho-colagem” sobre fundo de papel envelhecido mostrando céu tempestuoso e chuva. Emergem do solo quatro elementos simbólicos que representam as tensões da política atual: um punho vermelho com o dedo indicador levantado, mostrando o L de Lula, evocando o PT. Ao centro, um triângulo de advertência amarelo com ponto de exclamação, símbolo de perigo ou alerta ao risco eleitoral. Ao lado direito, um sapato de salto muito alto preto brilhante, dele, emerge um arco-íris de cores vivas, associado a Érika Hilton e suas pautas identitárias de gênero.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 22 de abril de 2026 - Ariel Severino

Estamos no final da terceira década do século 21, mas a maior parte da esquerda continua achando que passar da ênfase na opção preferencial pelos pobres —que a distinguia no início do século— para a ênfase na denúncia das opressões morais e nas políticas de reparação foi simplesmente uma progressão necessária. Lula faz parte desse grupo.

Lula, que não se move com desenvoltura nesse registro, aceitou que a política contemporânea existe para resolver as opressões estruturais e simbólicas. O país continua com déficits estruturais severos: saneamento precário, desempenho educacional alarmante, serviços públicos de baixa qualidade e desigualdades persistentes. Mas temos as melhores leis do universo contra o racismo, a transfobia e, se tudo der certo, a misoginia. Se isso basta para os que votarão em outubro não sei, mas tudo indica que não.

Nos últimos meses, contudo, a esquerda tem apostado tudo em pautas simbólicas e morais. Mesmo uma pauta de corrupção econômica, como a do Master, que não deveria envolver o governo, acabou no seu colo porque os petistas correram para transformá-la em uma disputa moral, lendo as denúncias do jornalismo como um ataque neolavajatista ao Supremo Tribunal Federal. Bem, se era uma guerra moral e a esquerda escolheu o lado errado, não deveria se surpreender se o governo aparece como o principal perdedor na percepção pública.

O caso das iniciativas legislativas em torno da misoginia ilustra o ponto. O governo não apenas aderiu a diagnósticos controversos —que a misoginia causa feminicídio, que o feminicídio aumentou—, como também reforçou a ideia de que conflitos sociais e morais devem ser enfrentados por meio de tipificação penal e agravamento de punições. A percepção é de que temos um governo mais atento à regulação do discurso do que à resolução de problemas concretos.

É nesse contexto que a comparação com Erika Hilton se torna instrutiva. Ela está com a vida e a reeleição ganhas, Lula não. O discurso e a performance política dela se dirigem a um conjunto de "vítimas da opressão moral" e aos guerreiros da justiça da elite progressista que consideram que política é luta por desagravos e reparações para um conjunto fixo e seleto de vítimas.

A deputada fala para um público específico: segmentos altamente escolarizados, brancos, bem de vida, concentrados nas grandes metrópoles, inseridos em circuitos culturais e profissionais onde a agenda de reconhecimento moral tem centralidade.

Trata-se de um eleitorado muito vocal, com alta capacidade de influência simbólica —especialmente nas redes sociais, na imprensa e em instituições culturais—, mas numericamente limitado como toda elite. Para ela, é suficiente: bastam 300 mil votos para uma renovação do mandato. Para Lula, não.

Não é questão de nicho, mas de escala. Para vencer uma eleição presidencial, precisa de uma coalizão muito mais ampla, que inclua segmentos populares hoje conservadores em termos morais. A política como performance moral —a exibição de virtudes e a denúncia de opressões morais —mobiliza, engaja e fideliza eleitores, mas funciona de maneira assimétrica.

Essa atitude beneficia mais a direita do que a esquerda. O voto moralmente conservador é certamente muito maior do que o voto moralista dos progressistas, porque na direita ele é base, numeroso, e na esquerda ele é elite, minúsculo. A pirâmide social aqui é fatal. Identitários de direita transformam indignação moral em bancadas enormes nas casas legislativas; identitários de esquerda produzem barulho, não mandatos. Assim, a cada Erika Hilton eleita nos campeonatos morais, corresponderá um monte de Nikolas Ferreira, Pavanatos e Maltas eleitos do outro lado.

O que significa que a pauta pode favorecer mais um candidato presidencial de direita do que de esquerda. O bolsonarismo, por exemplo, conseguiu acoplar uma base conservadora a uma elite hiperliberal, o que lhe dá condições numéricas de vitória. A esquerda não consegue acoplar sua elite progressista a uma base popular tão numerosa. Dá para eleger um Bolsonaro com essa equação, não um Lula.


Nova fronteira do desemprego está entre os jovens qualificados, Cecilia Machado ,FSp

 No passado, transformações tecnológicas —como a disseminação do computador pessoal, nos anos 1980— reconfiguraram profundamente o mercado de trabalho, a estrutura de salários e as desigualdades.

Os ganhos de produtividade foram expressivos, mas favoreceram mais os trabalhadores qualificados, em comparação aos de menor escolaridade ou inseridos em ocupações rotineiras que foram automatizadas, ampliando a desigualdade.

Agora, a inteligência artificial generativa (IAG) sinaliza nova onda de mudança. Algumas ferramentas, como assistentes virtuais em serviços de atendimento, aumentam a produtividade em torno de 15%, chegando a 30% em alguns casos. Já os impactos em emprego variam conforme o perfil dos trabalhadores.

Em frente a um fundo vermelho com padrão de bolinhas, há uma mesa branca com um monitor de computador sobre ela. A tela exibe uma explosão estilizada, com cores amarelas e vermelhas. No chão, à frente da mesa, está uma cadeira de escritório caída, sugerindo que alguém pode ter saído de forma abrupta ou ocorrido algum imprevisto.
Ilustração - Catarina Pignato/Folhapress

Muitas aplicações concentram-se em geração de textos, sínteses e códigos —tarefas típicas dos recém-ingressos no mercado de trabalho. Não por acaso, a taxa de desemprego entre jovens recém-formados está, pela primeira vez em 30 anos, acima da média da economia americana. Evidências recentes confirmam que os efeitos recaem sobretudo sobre eles.

Dados de milhões de trabalhadores nos EUA mostram que jovens de 22 a 25 anos em ocupações expostas à IAG sofreram queda de emprego de cerca de 13% desde 2022, período de forte expansão do uso dessas ferramentas no ambiente de trabalho.

Para as demais faixas etárias, nas mesmas funções, o emprego continuou crescendo. Já em ocupações menos expostas, jovens e adultos tiveram trajetória semelhante.

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Isso sugere que a IAG está moldando de forma decisiva o início da carreira de muitos jovens, especialmente daqueles que investiram em "conhecimento codificado", adquirido em cursos formais, mas facilmente replicado pelos algoritmos.

Nem todo uso da IAG, contudo, está associado à queda do emprego: quando as aplicações complementam o trabalho humano —apoiando processos, transmitindo boas práticas, difundindo conhecimento—, o emprego de jovens até cresce. A redução concentra-se nas aplicações que automatizam tarefas.

Esta dinâmica é inédita: em vez de abrir espaço para os jovens mais escolarizados, como ocorreu em ondas tecnológicas passadas, a IAG tende a restringir as oportunidades iniciais. Se a tendência se consolidar, os jovens encontrarão menos portas abertas não por falta de qualificação, mas porque parte de seu conhecimento já foi absorvida pelos algoritmos.

De um lado, os ganhos de produtividade são reais, podem dinamizar a economia e até produzir novas ocupações. De outro, se a substituição recair sobre os jovens, os custos sociais poderão ser elevados e duradouros.

O risco não é apenas de maior desemprego entre os recém-formados, mas de erosão do processo de aprendizado no trabalho —momento crucial de acumular "conhecimento tácito", construído pela prática e menos suscetível à automação. Sem esse processo, compromete-se a formação da experiência que sustenta o futuro da força de trabalho.

A regulação da IAG não deve se restringir aos riscos de segurança ou aos vieses algorítmicos: é essencial incorporar também seus efeitos distributivos.

Isso significa incentivar aplicações que fortaleçam o aprendizado dos recém-ingressos, atualizar currículos universitários para incluir as novas competências demandadas e apoiar a realocação dos trabalhadores afetados. A forma como conduzirmos essa transição determinará se a revolução da IAG será motor de inclusão produtiva ou, ao contrário, obstáculo para toda uma geração.