terça-feira, 21 de abril de 2026

IA: mais produtividade, mais desigualdade, FSp

 Cecilia Machado

Relatórios recentes da Anthropic, empresa por trás do modelo Claude, trazem novas evidências sobre o impacto da inteligência artificial no trabalho.

Os números são impressionantes: tarefas realizadas com auxílio de IA podem ser concluídas, em média, 80% mais rapidamente, e, sob certas hipóteses, a difusão dessas ferramentas poderia elevar o crescimento da produtividade do trabalho na economia americana para cerca de 3,2% ao ano na próxima década —aproximadamente o dobro do ritmo observado de 2021 a 2025, de 1,4% ao ano.

À primeira vista, trata-se de uma transformação revolucionária, ainda que os ganhos em potencial variem substancialmente entre ocupações e tarefas.

Para professores, por exemplo, estima-se que a elaboração de um conteúdo programático —que levaria cerca de quatro horas e meia— possa ser realizada até 96% mais rapidamente com o Claude, em pouco mais de dez minutos. Já para assistentes administrativos, tarefas como a produção de relatórios e textos apresentam economias de tempo em torno de 60%.

Logo da Anthropic; estudos da empresa mostram otimização do trabalho com uso do Claude, mas desigualdades entre países tende a aumentar - Dado Ruvic/Reuters

Há, entretanto, motivos para cautela quanto à magnitude desses ganhos. As estimativas não consideram, por exemplo, o tempo que os trabalhadores levam para verificar e refinar os resultados gerados pela IA. Além disso, tarefas que não se beneficiam diretamente da tecnologia tendem a se tornar gargalos, limitando os efeitos sobre a produtividade agregada.

PUBLICIDADE

Mais importante, porém, é que esses resultados pressupõem uma adoção ampla da IA na economia. Na prática, a difusão dessa tecnologia tem sido altamente desigual. Seu uso é mais intenso em países de renda elevada, com quase metade do uso global per capita concentrado em um grupo restrito de 20 países.

Mesmo dentro dos países, a adoção se concentra em regiões e setores com maior presença de profissionais de formação técnica, como computação e matemática. O nível educacional do trabalhador importa, já que tarefas mais complexas exigem maior capacidade de interação com a ferramenta.

Essa desigualdade de adoção traz implicações maiores. Se há uma curva de aprendizado no uso da IA, os primeiros países e indivíduos a adotá-la tendem a ser justamente os que mais se beneficiam dela —e a evidência disponível aponta nessa direção.

Isso ocorre porque a ferramenta exige habilidades que são adquiridas por meio de uso e experimentação. Em outras palavras, quem sai na frente tende a permanecer à frente, já que a capacidade de extrair valor dessas tecnologias depende, de forma decisiva, do domínio acumulado no seu uso.

Usuários mais familiarizados com a tecnologia não apenas a utilizam com maior frequência em atividades produtivas como também obtêm melhores resultados. Direcionam a ferramenta para tarefas mais complexas e de maior valor econômico e interagem de forma mais complementar à tecnologia. Aprendem, portanto, a usá-la melhor —e, ao fazê-lo, ampliam os ganhos que podem extrair dela.

Assim, para que os ganhos do uso da IA se materializem de forma ampla, é importante que empresas e trabalhadores consigam incorporá-la ao processo produtivo.

No caso brasileiro, os dados sugerem que estamos ficando para trás. Em termos de uso, o país ocupa a 61ª posição entre 116 economias, com um índice de utilização de 0,79, enquanto os Estados Unidos —quinto colocado— atingem 4,58.

A conta de não termos avançado em uma educação de qualidade tende a se tornar cada vez mais elevada, já que os ganhos da adoção inicial da IA tendem a se perpetuar ao longo do tempo, amplificando as desigualdades.


A esquerda perdeu o pulso do Brasil?, Joel Pinheiro da Fonseca -FSP

 A economia do Brasil não está em crise. A inflação fechou 2025 abaixo do teto da meta. O PIB cresceu 2,3%. O desemprego está na mínima histórica, e os empregos com carteira assinada, na máxima. A renda média do trabalho em 2025 subiu acima da inflação. Há milhões de pessoas que não tinham emprego e agora têm. Que pagavam Imposto de Renda e agora não pagam. E, no entanto, a aprovação do governo vai mal.

Sempre que isso ocorre, o instinto é procurar algum dado econômico ruim para explicar o mau desempenho. A bola da vez é o endividamento, que de fato está alto. Antes, era o preço dos alimentos. Sempre dá para achar alguma coisa. Mas o fato de sempre termos de procurar me indica que há algo mais profundo em jogo; algum fator que vai além da economia e que pode inclusive estar colorindo a percepção das pessoas sobre a economia.

Apoiadores de Lula durante a posse, em Brasília, em 2023 - Gabriela Biló - 1.jan.23/Folhapress

Pode ser um cansaço com Lula, por ele ter sido presidente por tantos mandatos? Pode ser. Mas alguém da esquerda iria melhor do que ele nas pesquisas nacionais? Dificilmente. Olho para as eleições em nosso continente do ano passado até agora: a direita levou praticamente todas. A esquerda cansou.

Acredito que vivemos uma mudança de valores na sociedade. E no centro dessa mudança está a valorização da responsabilidade individual. O indivíduo é capaz de agir e responde por seus atos. Isso vale tanto na hora de exaltar o empreendedor construindo sua ascensão social quanto na hora de punir o criminoso, visto como o responsável por suas más escolhas. As pessoas querem trabalhar, crescer e receber a recompensa de seus atos.

A esquerda atual não tem nada para quem acredita no indivíduo. Aquele que almeja subir na vida pelo trabalho ou estudo é visto como um coitado iludido pelas mentiras da meritocracia. Aquele que tem fortuna é um vilão que só está onde está por conta da exploração. E, por fim, aquele que delinque é uma vítima do sistema a ser tratado com compreensão. O cidadão, indefeso, só encontra sua salvação no Estado, que para isso deve taxar, regular, censurar e distribuir.

Não por acaso, esse conjunto de valores centrados no indivíduo é justamente aquele engendrado tanto pelo caráter mais individualista do protestantismo quanto pela dinâmica das redes, em que o indivíduo ganha voz própria, não mediada nem editada por instituições. É nas redes também que ele vislumbra a chance de buscar seu —incerto— sucesso econômico por conta própria, cuidando de seu tempo e de seus riscos nas plataformas ou mesmo empreendendo novos negócios. Essa promessa de empoderamento do indivíduo é forte.

PUBLICIDADE

Não estou dizendo que esse conjunto de valores é o correto, e que a visão mais coletivista e redistributiva seja sempre errada. A realidade é complexa e toda tentativa de encontrar uma fórmula universal acaba naufragando. Neste momento, contudo, as pessoas querem recompensar os bons e punir os maus, querem sentir que crescem por impulso próprio, e não terem seu sentido de agência negado ou menosprezado. E o Brasil, por sua vez, precisa decolar.

Isso não é uma previsão de derrota de Lula. Longe disso. Ele retém um contingente enorme de eleitores gratos a ele. Será uma disputa acirrada. A sociedade, contudo, caminha para longe do petismo histórico. Para a esquerda que vier depois de Lula, o desafio está lançado.

‘Time Flávio’ pode perder para si mesmo —como o Botafogo de 2023, Juliano Spyer, FSP

 

A notícia do apoio que Flávio recebeu da Assembleia de Deus Ministério Belém, no início do mês, já saiu de pauta. Mas o que aconteceu nos bastidores continua reverberando: o descontentamento de lideranças evangélicas com o pré-candidato do PL. Não é uma insatisfação isolada. Ela aparece sobretudo no silêncio —na ausência de adesões entusiasmadas. Mas ganhou voz, na própria reunião da AD Belém, com o pastor Marco Feliciano.

Em uma cobrança que talvez tenha sido tramada para vazar, ele perguntou a Flávio: "Quando é que você e sua família passarão a tratar os evangélicos com a reciprocidade que a gente merece, em vez de uma relação de via única?"

Dois homens em pé atrás de grade metálica em ambiente urbano. Homem à esquerda veste camiseta azul e fala ao microfone com expressão intensa. Homem à direita usa camisa amarela da seleção brasileira e observa com expressão séria. Prédios de vidro ao fundo.
Ato na avenida Paulista com o pastor Silas Malafaia e o senador Flávio Bolsonaro, em março - Allison Sales - 1º.mar.26/Folhapress

O pano de fundo é um acordo frustrado: a promessa de que um nome com ligações às igrejas —Feliciano e Cezinha de Madureira eram os cotados— ocuparia uma das vagas do PL ao Senado por São Paulo.

O que sobra para essas lideranças é criar constrangimentos calculados. Porque elas se tornaram reféns do bolsonarismo por ao menos três razões.

Primeiro: foram os grandes responsáveis por transformar Jair Bolsonaro em ser divino, no sentido literal —incensado como parte do plano de Deus para salvar o Brasil das trevas. Não podem agora ir contra essa suposta profecia.

PUBLICIDADE

Não são prioridade do PL também porque rejeitaram Flávio de saída —pior: foram dos primeiros a defender abertamente a dobradinha Tarcísio-Michelle.

Terceiro, e mais pragmático: se não apoiarem Flávio formalmente, quem apoiarão no segundo turno? Depois de duas eleições presidenciais demonizando a esquerda, sua única forma de permanecer próximo ao poder é se submeter.

O pastor Silas Malafaia, um dos que defenderam a alternativa a Flávio, resumiu sua perspectiva: "Todos os meus deputados estão no PL, não tenho como apoiar outro", disse a O Globo. Esse nó aponta para duas estratégias. A primeira já foi vocalizada: a Assembleia de Deus Madureira formalizou apoio a Caiado. A Universal pode seguir caminho parecido.

As duas têm musculatura real —membros, templos, pastores, infraestrutura de comunicação— e distância suficiente do bolsonarismo para negociar com quem chegar ao segundo turno.

As demais lideranças vão atuar —usando uma metáfora do futebol— jogando paradas. Farão o mínimo para continuar em campo, sem entrar em bolas divididas, mantendo distância suficiente para, ao longo da campanha, se protegerem dos escândalos de Flávio. A mensagem enigmática que Michelle Bolsonaro publicou nos stories no dia 13 captura esse clima: "Abraão perde o espaço, mas não perde os princípios."

Queiramos ou não, as igrejas se tornaram organizações políticas de peso. São espaços de sociabilidade, câmaras de eco para ideias, mobilizadoras de referências simbólicas fortes —e, no caso das grandes, detentoras de infraestruturas de comunicação sofisticadas e capilarizadas.

Em 2023, o Botafogo chegou às rodadas finais com 13 pontos de vantagem e viu o título quase certo escapar pelas mãos —por tensões internas que desorganizaram o próprio time. Quem aposta em Flávio está olhando para a tabela. Deveria olhar para o vestiário.