terça-feira, 10 de março de 2026

Pão de Açúcar pede recuperação extrajudicial e cita dívidas de R$ 4,5 bilhões, FSP

 

São Paulo

A incerteza sobre a "continuidade operacional" do GPA (Grupo Pão de Açúcar), uma das maiores e mais tradicionais empresas do varejo brasileiro, que havia sido mencionada pela administração do grupo no último balanço, foi conhecida com mais detalhes nesta terça (10), quando a empresa anunciou acordo com os seus maiores credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial, que engloba dívidas de R$ 4,5 bilhões.

Diferentemente do plano de recuperação judicial, pelo qual passa a Americanas, por exemplo, em que todas as dívidas do grupo (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça, na recuperação extrajudicial a empresa escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao judiciário.

No caso do GPA, os maiores credores são os bancos. O acordo foi assinado com instituições que concentram 46% dos créditos sujeitos ao plano (R$ 2,1 bilhões). "Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas", afirmou, em comunicado.

Loja do Pão de Açúcar na avenida Brigadeiro Luís Antônio, zona sul de São Paulo - Bruno Santos - 30.set.21/Folhapress

As ações da empresa estão em forte queda no pregão da B3 desta terça e chegaram a entrar em leilão logo no início das negociações, quando o tombo era de mais de 8%. Às 10h30, caíam em torno de 4%, cotadas a R$ 2,62.

A empresa faz questão de destacar que o pagamento dos fornecedores segue normalmente. No último dia 3, o GPA enviou uma carta a fornecedores para tentar conter temores de ruptura no abastecimento das lojas. No documento, o CEO Alexandre Santoro afirmou que as negociações em curso envolviam apenas credores financeiros —principalmente bancos e detentores de dívida— e não afetariam os parceiros comerciais da rede.

A carta veio no dia seguinte ao rebaixamento da nota do grupo de "A" para "CCC" pela agência de classificação de risco Fitch. A nota indica risco substancial de calote e capacidade muito fraca de pagamento. Foi o segundo corte consecutivo desde novembro, quando o grupo já tinha perdido o grau "AA". A agência apontou o aumento do risco de refinanciamento das dívidas, a piora da liquidez e a expectativa de fluxo de caixa livre negativo nos próximos anos caso o endividamento não fosse reduzido.

Segundo a companhia, o plano já produz efeitos imediatos e prevê a suspensão temporária das obrigações financeiras junto aos credores incluídos no processo. Com isso, a empresa tem 90 dias para ampliar a adesão ao acordo e negociar uma solução definitiva para sua estrutura de capital.

O período funciona como uma trégua nas cobranças enquanto a varejista tenta reorganizar o perfil de seu endividamento e buscar um equilíbrio financeiro. O que está sendo muito difícil, conforme apontam ex-executivos da empresa e fontes próximas ao atual comando, ouvidas pela Folha.

O Casino, que comandou o Pão de Açúcar entre 2012 e 2023, fez uma "limpa" nos ativos do grupo, na tentativa de aliviar o seu próprio endividamento na França. Entre 2012, quando passou às mãos do grupo Casino, e 2023, quando os franceses deixaram o controle, a rede encolheu 64% em receita bruta.

Entre 2024 e o início de 2025, o Casino foi abrindo mão da sua participação, mas continuou como principal acionista. Essa posição, porém, mudou em maio do ano passado, quando a família Coelho Diniz, dedicada ao varejo no interior de Minas Gerais, se tornou o acionista mais relevante do grupo, somando 24,6% de participação.

A varejista ressaltou estar em dia com pagamentos a fornecedores e parceiros comerciais —grupos que foram excluídos do plano justamente para evitar impactos na operação do negócio. A companhia disse ainda que a recuperação extrajudicial foi desenhada para preservar a operação das lojas. Segundo a empresa, as unidades seguem funcionando normalmente e o abastecimento não será afetado.

No fato relevante, a empresa afirmou que o objetivo da reestruturação é fortalecer o balanço e melhorar a sustentabilidade financeira no longo prazo. A decisão foi autorizada de forma unânime pelo conselho de administração da companhia e faz parte de negociações que vinham sendo conduzidas nas últimas semanas com instituições financeiras e detentores de títulos da empresa.

O GPA informou que divulgará detalhes adicionais sobre o processo e os documentos da reestruturação em seu site de relações com investidores nas próximas semanas.

BALANÇO INDICAVA ROMBO

A divulgação do balanço de 2025, em que a administração mencionava "incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia", já expôs a dimensão do problema. O GPA possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento já em 2026 e terminou o último trimestre com capital de giro líquido negativo em aproximadamente R$ 1,2 bilhão. O endividamento total do grupo girava em torno de R$ 4 bilhões.

Além disso, a companhia revelou em suas contas a existência de cerca de R$ 16 bilhões em disputas tributárias classificadas como "perdas possíveis" —valores que não estão provisionados no balanço, mas que representam um risco potencial.

O excesso de discrição da família Coelho Diniz piora o cenário. Desde que se tornaram os principais acionistas do grupo, em maio do ano passado, no lugar do Casino, os Coelho Diniz não deram entrevistas. A família mineira controla uma rede de supermercados de mesmo nome, no leste de Minas Gerais. Faturam cerca de R$ 2 bilhões ao ano e passaram a dar as cartas em uma empresa que fatura mais de R$ 20 bilhões.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

  • 13

Tópicosrelacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Georges Abboud - A 'decisão de Gilmar em socorro de Toffoli': escárnio ou clickbait?, FSP

 Georges Abboud

Professor de direito constitucional da PUC-SP e do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa)

Se um observador externo chegasse ao Brasil e se informasse exclusivamente pela mídia, teria uma certeza: o mal do Brasil é o STF. No Brasil, não haveria pobreza, violência ou má administração; tudo que há é uma disfuncionalidade advinda da Suprema Corte. Os atores dessa narrativa não são novos, são as doidivanas moralistas órfãs do lavajatismo em busca de um novo juiz herói, mesmo que ele venha de uma CPI.

Nesse cenário, li com pesar editorial desta Folha (3/3) dedicado a supostamente abordar a decisão do ministro Gilmar Mendes que suspendera a quebra de sigilos da empresa Maridt em sede de pedido de extensão a ele dirigido. Digo "supostamente" porque é pesaroso verificar que um dos mais tradicionais jornais brasileiros tornou costumeira a falta de tecnicidade na análise das decisões do Supremo, de modo a usar expressões pueris como "achincalha os ritos processuais" —ou que os membros do tribunal precisariam compreender que "não estão acima das leis" no tratamento de temas tão relevantes.

Dois homens vestidos com togas pretas e gravatas conversam em ambiente interno. Um deles usa óculos e ambos têm expressão séria.
Os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes em sessão no STF, em Brasília - Adriano Machado - 12.jun.2026/Reuters

Igualmente lamentável foi o comentário do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que chegou a acusar o ministro de ter cometido fraude processual; acusação de evidente teor populista. Prova disso é que, embora tenha sido apresentado pedido para a instauração de uma CPI destinada a investigar o banco Master, tal comissão nem sequer foi instalada, razão pela qual se buscou contornar o próprio Congresso por meio da ampliação inconstitucional do escopo da CPI do Crime Organizado, presidida pelo próprio senador, desviando-lhe a finalidade para abarcar praticamente qualquer tema e conferindo ao Parlamento uma espécie de salvo-conduto investigatório contra praticamente qualquer indivíduo. Aliás, quantas milícias e líderes de facções tiveram seus sigilos quebrados por essa CPI?

Fraude, na visão do senador, e escárnio, para a Folha —muita adjetivação para pouca informação, o que tem feito ficar cada vez mais difícil distinguir desinformação de redes sociais da atuação da mídia profissional. Mas, como sou otimista e acredito no diálogo (li mais de uma vez a história de Augusto Matraga, e me iludo com a possibilidade constante da redenção via esclarecimento para fazer com que a vilania se converta em virtude), prontifico-me sempre a estabelecê-lo.

Vamos aos aspectos jurídicos. Em primeiro lugar, houve, no caso, quebra de sigilo sem correlação adequada com o objeto da investigação, prática que tem se tornado cada vez mais frequente e que explica por que o STF é reiteradamente chamado a intervir em favor de indivíduos das mais diversas colorações políticas.

Não me recordo, infelizmente, de ter lido editoriais denunciando abusos dessa natureza, nesta ou em outras oportunidades. Em segundo lugar, parece desconhecer-se o funcionamento de um pedido de extensão, instrumento por meio do qual se requer a aplicação de uma tese anteriormente fixada a um caso objetivamente similar em termos jurídicos.

Maridt, corretamente, considerou que seu sigilo foi quebrado ilegalmente por uma CPI. Diante dessa situação, ela peticionou em uma ação em que o STF declarou abusivo, por meio de CPI, a quebra de sigilo de uma outra empresa. É nada mais, nada menos que a aplicação isonômica de um precedente; isso é segurança jurídica. Nesses casos, a distribuição ocorre automaticamente ao ministro relator do processo originário, por meio de encaminhamento da secretaria; logo, não há qualquer "desarquivamento" artificial de processos.

O que se busca é preservar a isonomia no tratamento de situações equivalentes, com fundamento expresso no art. 580 do Código de Processo Penal, diploma que igualmente autoriza a concessão de habeas corpus de ofício por qualquer juiz que se depare com uma ilegalidade (art. 647-A), ainda que venha posteriormente a ser reconhecido incompetente. No caso, Gilmar Mendes era competente. Todavia, ainda que não o fosse, isso não importava. Justamente por ser algo de competência originária do STF, a decisão monocrática é sempre recorrível; assim, a última palavra é do colegiado respectivo, ou seja, o verdadeiro juiz natural.

Trata-se de uma dinâmica muito distinta dos particularismos praticados pela Operação Lava Lato, cujo moralismo espectral ainda parece rondar parte da mídia profissional, que, a despeito de não precisar de clickbaits ("caça-cliques"), corre o risco de aproximar-se do colunismo escandaloso caso não invista seriamente em checagem de fatos.

Nesses casos, parece haver um irônico pastiche: os caçadores de clickbait são um simulacro imperfeito e odioso dos órgãos jornalísticos, os quais, por sua vez, imitam o próprio reflexo distorcido que veem. É lamentável sucumbir assim à própria sombra.

Com todo respeito, não há nada de errado na decisão. Aliás, ela teria sido dada por qualquer ministro que não tenha medo do moralismo midiático. Esse moralismo lavajatista ainda em voga talvez apenas revele que o jornalismo não renunciou a uma ilusão já abandonada pelos juízes e tão bem descrita por Bruno Latour: a de que "a vida civilizada é segura por um fio, o do direito".

O direito pressupõe um mundo estruturado, para o qual o jornalismo deve colaborar, mas ele próprio "não salva, não humaniza, não administra, não economiza aborrecimentos". Os maniqueísmos, que pouco espaço têm mesmo na ficção, deveriam ser deixados de lado no jornalismo sério. Mas vamos aos poucos: cada um tem sua a hora e sua vez.

Empresas não fracassam porque têm contadores demais, Rodrigo Spada, OESP

 Por Rodrigo Spada

A recente declaração do ministro Fernando Haddad, ao afirmar que há “mais contador que engenheiro” nas empresas brasileiras e sugerir que a Reforma Tributária poderá tornar a função contábil menos necessária, provocou forte e justificada reação do setor.

PUBLICIDADE

Durante décadas, o Brasil operou – e ainda opera, até que seja concluída a transição para o novo modelo – sob um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Nesse ambiente, os profissionais da contabilidade foram indispensáveis para que empresas permanecessem regulares, que tributos fossem corretamente apurados e que o Estado pudesse arrecadar. Onde a legislação entregava confusão normativa, os contadores ofereciam interpretação técnica e orientação qualificada. Em outras palavras, não foram os contadores que criaram a complexidade tributária, mas foram eles que impediram que ela paralisasse a economia.

A Reforma Tributária representa um avanço histórico. Como presidente da FEBRAFITE, atuei em sua construção e sempre defendi que simplificar o sistema é uma necessidade nacional. Mas simplificar não significa reduzir a importância da técnica. Significa elevá-la.

O contador não é um executor automático de obrigações acessórias. Ele é agente de segurança jurídica, guardião da conformidade fiscal e parceiro estratégico das decisões empresariais. Empresas não fracassam porque possuem contadores demais. Fracassam quando tomam decisões sem base técnica, quando ignoram riscos fiscais, quando deixam de planejar adequadamente seu fluxo de caixa ou quando subestimam o impacto tributário de suas operações. Em um ambiente econômico competitivo e regulado, cada escolha carrega implicações financeiras e jurídicas concretas. É exatamente nesse ponto que atua o profissional contábil: oferecendo leitura qualificada dos números, antecipando cenários, prevenindo contingências e transformando informação em segurança para o empreendedor.

Para você

Com a entrada em vigor do novo modelo, o que se projeta não é o enfraquecimento da contabilidade, mas sua transformação em uma atividade ainda mais estratégica. Livre da confusão normativa, o contador poderá dedicar mais energia ao planejamento, à governança, à análise de dados e à orientação de investimentos. Em vez de ser consumido por um sistema ineficiente, poderá contribuir de forma ainda mais qualificada para o desenvolvimento das empresas.

Publicidade

É preciso reconhecer que nenhuma Reforma Tributária se implementa por decreto. Ela se implementa no cotidiano das organizações. E quem fará essa travessia são os profissionais da contabilidade. A modernização do sistema tributário não diminui essa relevância. Ao contrário, exige ainda mais preparo, qualificação e protagonismo dos contadores.