quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Elio Gaspari- O nome do jogo é Cuba, FSP

 Donald Trump conseguiu o imaginável (sequestrou Nicolás Maduro) e o inimaginável (a vice chavista, Delcy Rodríguez, assumiu a Presidência da "República Bolivariana", prometendo priorizar "uma relação respeitosa e equilibrada" com os Estados Unidos). Vice virando casaca não é novidade, mas a calma bolivariana surpreendeu. Num de seus primeiros atos, Delcy Rodríguez expulsou dois diplomatas franceses depois que o presidente Emmanuel Macron expressou sua preferência pela oposicionista María Corina Machado, que acabou de ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Na esteira da captura de Maduro, Trump ameaçou o presidente colombiano, Gustavo Petro, voltou a reivindicar a Groenlândia e soltou uma frase críptica: Cuba não vale uma invasão porque seu regime comunista está pronto "para cair". Há 67 anos presidentes americanos acham que o governo cubano está prestes a cair. Fidel morreu, e seu irmão Raul completou 94 anos.

Grupo de pessoas reunidas em praça sob sol forte seguram bandeiras de Cuba e Venezuela. Edifícios altos e céu azul compõem o cenário urbano ao fundo.
Manifestação em apoio ao ditador deposto Nicolás Maduro em Havana, Cuba - Adalberto Roque - 3.jan.26/AFP

Venezuela tem petróleo, e a Colômbia tem um presidente de esquerda, mas a joia da coroa que Trump busca é Cuba. Derrubar o regime dos irmãos Castro é coisa que vários presidentes americanos perseguiram. Um regime comunista a 145 km da Flórida justifica malquerenças, mas, para Trump, um empresário do setor imobiliário, lá está um tesouro, maior do que todos os butins dos piratas que vicejavam no Caribe nos séculos passados.

Cuba Libre hospeda um patrimônio imobiliário estimado em centenas de bilhões de dólares. Livres do castrismo, empresários americanos e cubanos teriam a porta aberta para operações de ganha-ganha. Ganhariam as famílias que perderam propriedades ao serem indenizadas, ganhariam as famílias que vivem em propriedades confiscadas, indo para imóveis com escritura passada em cartório. Ganhariam os empresários interessados em fazer negócios imobiliários na ilha. Finalmente ganhariam os americanos interessados em comprar uma casa ensolarada a uma hora e meia de voo.

Trump está de olho em Cuba pelo prestígio político que o triunfo lhe daria e pelos negócios que viriam junto. Quando ele diz que o regime está pronto "para cair", certamente baseia-se em informações de seus serviços secretos. Nas últimas semanas ele deu diversas pistas mostrando que armava alguma para Maduro. Deu no que deu.

Um projeto cubano seria também do agrado de Marco Rubio, seu secretário de Estado, um político da Flórida, filho de cubanos que deixaram a ilha. Houve tempo em ele dizia que seus pais fugiram do castrismo. Era mentira, eles deixaram Cuba durante o governo do sargento Fulgencio Batista, deposto por Fidel em 1959.

Cuba é um tema tóxico para os presidentes americanos. No dia 22 de novembro de 1963, o chefe das operações especiais da Central Intelligence Agency estava reunido em Paris com um cubano que mataria Fidel. A conversa foi interrompida por uma notícia vinda de Dallas. John Kennedy foi substituído pelo vice. Lyndon Johnson morreu em 1973 convencido de que havia o dedo cubano no tiro de Lee Oswald.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ao atacar o jornalismo para defender Moraes, a esquerda erra muito feio, Wilson Gomes, FSP

 Sim, eu sei que esta semana deixamos de ser especialistas em jornalismo investigativo, conspirações da mídia e condutas inapropriadas de membros da Suprema Corte porque nos tornamos experts em direito internacional, democracia e geopolítica.

Mas gostaria de retomar aspectos de um debate ainda incompleto —e decisivo para o futuro da democracia brasileira— que gira em torno das denúncias publicadas por grandes jornais sobre condutas impróprias ou insuficientemente explicadas envolvendo ministros do STF e, sobretudo, do modo como a esquerda reagiu a elas: assumindo a defesa de Alexandre de Moraes por meio de ataques ao jornalismo e à reputação de uma jornalista em particular, Malu Gaspar.

Sobre um fundo em degradê rosa, duas mãos femininas aparecem em primeiro plano, vistas de perto. As mãos têm unhas pintadas de laranja e seguram uma granada. Uma das mãos segura o corpo da granada; a outra segura o anel da trava, no gesto exato que antecede sua ativação. A ilustração de Ariel Severino é estruturada como metáfora da Caixa de Pandora: ao invés de tradicional “caixa”, uma granada sendo acionada conscientemente. O desenho sugere que a ação de puxar o pino poderá libertar forças destrutivas difíceis de conter. A cena não mostra explosão, mas o instante anterior, quando o dano já se torna inevitável. O interior da granada não é metálico: ele é preenchido por uma massa verde brilhante, orgânica, mostrando cobras, fantasmas e lagartos em formas onduladas, criaturas, algo vivo e ameaçador prestes a escapar. O contraste entre a delicadeza das mãos, o gesto controlado e a energia caótica que emergirá da granada cria uma tensão visual clara.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes - 7 de janeiro de 2026 - Ariel Severino/Folhapress

O primeiro ponto que chama a atenção é o empilhamento de fatos. Não se trata de um episódio isolado, de uma frase mal interpretada ou de um indício frágil. São contratos, contatos telefônicos, relações profissionais sensíveis e omissões explicativas que, mesmo considerados separadamente, já exigiriam esclarecimentos públicos. Tomados em conjunto, formam um quadro que, no mínimo, merece escrutínio rigoroso. Afinal, até o negacionismo mais arbitrário tem nos fatos um limite incontornável, e, quando eles são muitos e se acumulam, é difícil fingir que não existem.

O segundo ponto é a pobreza estratégica da defesa. Toda a reação se concentrou numa única tática: afirmar que Malu Gaspar mentiu, que é "lavajatista" e que opera com uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo. Trata-se de uma investida moralmente duvidosa e intelectualmente frágil. Não há demonstração de falsidade, não há contestação factual consistente, apenas rótulos e suspeitas projetadas. Fora do círculo militante, isso não se sustenta.

Malu Gaspar entra nesse episódio com um patrimônio reputacional elevado, construído ao longo do tempo, sem histórico de partidarização ou militância disfarçada. Se alguém se dispuser a fazer a pergunta elementar —quem teria mais a ganhar mentindo: a jornalista, os juízes ou os banqueiros envolvidos?—, a aposta racional reafirmaria a credibilidade da jornalista. Atacar essa credibilidade sem prova não a enfraquece, apenas expõe quem a ataca.

Há ainda um efeito perverso aparentemente não levado em conta. Ao mobilizar uma defesa agressivamente partidária de Moraes, a esquerda faz um desserviço ao próprio ministro. Um juiz constitucional depende não apenas da legalidade de seus atos, mas também da aparência de imparcialidade. A adoção repentina e feroz de Moraes pela esquerda só reforça a impressão —ainda que mal-intencionada— de que ele seria um juiz parcial e antidireita. Ser defendido dessa forma é péssimo para a sua reputação institucional.

O problema se agrava quando se adota o assassinato de reputação de jornalistas como tática política legítima. No caso de Malu Gaspar, isso se expressou por um repertório bem conhecido: acusá-la de mentir sem demonstrar em quê; rotular sua apuração como "lavajatista" para dispensar o exame dos fatos; atribuir-lhe uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo; tratar o uso de fontes protegidas como prova de má-fé; e reinterpretar reportagens independentes como parte de uma conspiração coordenada da mídia. Não se rebate a informação —tenta-se interditar quem a produziu.

Esse método não é apenas feio, é autodestrutivo. Primeiro, porque iguala moralmente esquerda e extrema direita: o bolsonarismo faz exatamente o mesmo. Segundo, porque jornalistas, como qualquer outro campo profissional, tendem a reagir solidariamente a ataques injustos. O resultado previsível não será o silenciamento, mas mais investigação.

Além disso, foi exatamente esse tipo de jornalismo investigativo —com fontes protegidas, apuração persistente e enfrentamento de poderosos— que expôs o orçamento secreto, a "rachadinha" do clã Bolsonaro, o gabinete do ódio, a interferência política na Polícia Federal, a Abin paralela e, antes disso, práticas graves no governo Temer. O mesmo método revelou fraudes empresariais monumentais e desmontou a Lava Jato a partir da Vaza Jato. Em todos esses casos, a imprensa também foi acusada de conspirar, de ter agenda, de querer "desestabilizar o país". Hoje, poucos duvidam de sua importância democrática.

No fim, a estratégia adotada consegue um feito notável: transformar um escândalo envolvendo banqueiro e relações impróprias de poder num problema da esquerda. É difícil imaginar algo mais estúpido e contraproducente —para a esquerda , para a credibilidade do STF e para a democracia.