quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Exótica sabatina 2 em 1 coloca o político Dino no centro do palco, Igor Gielow, FSP

 A exótica sabatina 2 em 1 proposta por Davi Alcolumbre para dar um caráter expresso ao processo de avaliação de candidatos a cargos vitais da República teve um efeito que provavelmente não estava nos planos do senador pela União Brasil do Amapá.

Explicitou, acima de tudo, o animal político que é Flávio Dino. O maranhense, ministro confirmado pela Casa ao Supremo, driblou provocações, agradou senadores gregos com palavras de respeito ao Legislativo e togados troianos com a negativa da narrativa da ditadura judicial, e mostrou segurança mesmo ao enrolar a plateia.

Dino fala na sabatina observado por Alcolumbre, enquanto Gonet mexe em seu celular
Dino fala na sabatina observado por Alcolumbre, enquanto Gonet mexe em seu celular - Adriano Machado/Reuters

Isso estaria mais ou menos no plano, e aí a colocação dele ao lado de Paulo Gonet, o candidato ungido pelo consórcio Gilmar Mendes-Alexandre de Moraes para a Procuradoria-Geral da República, poderia diluir o enfadonho processo.

Aqui cabe um parêntese à admissão de Alcolumbre de que considera sabatinas uma perda de tempo, em palavras mais gentis. Foi talvez seu único acerto no dia, ainda que isso diga mais sobre a má qualidade da representação do que ao instrumento, é claro.

Isso dito, Gonet na bancada serviu para o inverso: a sabatina virou o show de um homem só. O subprocurador aprovado na Comissão de Constituição e Justiça para a PGR é conhecido com um conservador de poucas palavras, que na dúvida penderia para posições favoráveis a Jair Bolsonaro (PL) no fla-flu em que a vida pública brasileira está imersa.

Quando teve holofote, foi quase desastroso, ao dizer que não tinha ideia do que se tratava o inquérito das fake news, peça central da vida pública hoje. Para seus adversários, a prova de uma ditadura togada comandada por Moraes. Para seus defensores, o instrumento que evitou o descenso do país à categoria de uma autocracia bananeira.

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Bastaria a Gonet, tivesse mais traquejo, remeter suas opiniões aos autos. A prática, que deveria ser norma, tornou-se uma raridade nas altas esferas do sistema judicial, em que magistrados dão opinião sobre tudo e todos, inclusive seus eventuais objeto de julgamento.

Há quem veja nisso ativismo indevido, refletida na queda na aprovação dos magistrados. Outros, a ocupação gravitacional do espaço deixado por um Legislativo anódino e pelos períodos de turbulência institucional no Executivo nos últimos dez anos. O embate atual entre Senado e Supremo, que na figura do decano Gilmar chamou de "pigmeus morais" os autores da proposta de limitação de decisões monocráticas, não surgiu do nada.

Seja como for, Gonet deu a deixa para Dino dar a resposta certa, afirmando a certa altura que só se pronunciaria nos autos. Por evidente para quem conhece seu temperamento, uma risada teve de ser contida: será uma surpresa se Dino conseguir conter sua famosa verve fora do apertado plenário do Supremo.

O mesmo pode ser dito de seu posicionamento acerca dos malfeitos democráticos de Bolsonaro, alvos de críticas desde que era governador do Maranhão e aliou-se ao grupo de mandatários que buscava uma condução mais científica no manejo da crise sanitária da Covid-19.

Ele quis evitar se declarar impedido previamente, sem convencer muito, embora tenha levado sem dificuldade o diálogo com o filho do ex-presidente presente, o senador Flávio (PL-RJ) —para não falar nas amabilidades trocadas com o ex-juiz ícone da Lava Jato, Sergio Moro (União Brasil-PR).

A votação acabou evitando sustos maiores para Dino, apesar do placar magro já esperado no plenário. Já Gonet cumpriu sua tabela, aprovado por antecipação como estava, restando saber agora adotará a linha moderada que ele mesmo se atribuiu ou se guarda alguma surpresa à la Rodrigo Janot.

Caberá ao novo ministro do Supremo cumprir o papel que lhe foi dado por Lula (PT) de levar sua densidade política à corte. Como o passado mostrou para o próprio presidente, isso não é garantia de blindagem, mas ajuda um bocado.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

ANALFABETO EM EMOJIS, Marcelo Knobel, Gama

 

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  • Durante uma conversa numa confraternização de fim de ano, após algumas cervejas, alguém finalmente teve a coragem de me dizer que eu era muito rude, algo que aparentemente estava entalado na garganta de algumas pessoas. Eu confesso que não entendi, pois sempre tento ser cordial e amável no relacionamento interpessoal. Ao perguntar de onde veio essa sensação, as pessoas responderam: –

    Você frequentemente só responde com joinha 👍 às mensagens de WhatsApp. Fiquei espantado, pois não tinha ideia que isso era considerado rude. E não só isso. Percebi ali que o meu repertório de emojis era bem limitado (se resumindo ao👍 e 🙂), o que me caracterizava, muito provavelmente, como um dinossauro ranzinza. O pior é que mais recentemente também descobri, por meio de meus próprios filhos, que eu cometia o deslize de usar pontuação nas mensagens do WhatsApp, algo também considerado MUITO grosseiro (assim como o uso de caixa-alta). Como faço para me adaptar?

    Os emojis surgiram há cerca de 20 anos na plataforma de mensagens instantâneas da Microsoft, que inseriu a possibilidade de usar dezenas de pequenos ícones que representavam não só objetos cotidianos, como bandeiras, ovelhas, carros, mas também emoções, como surpresa, confusão, alegria, entre outras. Gradualmente os emojis se espalharam pelas mídias sociais, e-mails, e hoje são pervasivos em todas as áreas.

    Alguns pesquisadores afirmam que emojis permitem alcançar uma camada mais complexa de significados que as palavras não conseguem exprimir

    Na realidade, os emojis têm uma história ainda mais longa, pois são derivados dos chamados emoticons, sequências de caracteres comuns que costumamos usar no dia a dia, que nos remetem a alguns sentimentos (como por exemplo a precursora da carinha feliz :), e tantos outros, como ;), 0:), :-), :-(, etc.

    O artista japonês Shigetaka Kurita desenhou o primeiro conjunto de 176 emojis (do japonês e-imagem moji-letra) para uma empresa de telefonia celular, mas a grande maioria eram símbolos cotidianos para usar em lugar de palavras, como bola, casa, orelha, telefone, etc. Mas a expansão do uso não ocorreu até 2011, quando a Apple decidiu deixar emojis disponíveis em seu teclado, com o Android seguindo a tendência dois anos depois. Em 2015 o Dicionário Oxford nomeou 😂 a palavra do ano. Hoje em dia o Consórcio Unicode, que governa o uso dos emojis, lista mais de 3.500 símbolos diferentes, mas que aumentam a cada dia.

    Essa expansão do uso de emojis não veio sem controvérsias, com muitos intelectuais criticando o seu uso, que empobreceria a linguagem escrita tão bem estabelecida em nossa civilização. Mas há diversas pesquisas que têm desafiado essa visão simplista. Alguns linguistas e cientistas cognitivos que têm estudado o assunto afirmam que os emojis permitem alcançar uma camada mais complexa de significados que as palavras não conseguem exprimir. De fato, em seu livro “The Emoji Code” o linguista Vyvyan Evans descreve os emojis como “a primeira comunicação universal verdadeira”.

    Como os emojis têm se tornado cada vez mais populares na comunicação mediada por computador e tem tanto funções emocionais quanto semânticas, diversas áreas de pesquisa têm tentado entender o fenômeno de diferentes perspectivas, incluindo ciência da computação, comunicação, marketing, ciência comportamental, neurociência, linguística, psicologia, medicina e educação. Conforme as pesquisas vão avançando, os cientistas começam também a ficar mais interessados nas incríveis nuances possíveis que ocorrem com o uso dos emojis, como o uso e entendimento diferenciado dos símbolos para diferentes grupos sociais e culturais, bem como para grupos etários e identidades sexuais diferentes.

    Um exemplo interessante é o uso dos emojis para expressar ironia, ou seja, expressar exatamente o contrário do que você disse. No Brasil, tornou-se frequente o uso da hashtag #SQN, para deixar a ironia bem clara, o que de fato tira um pouco a graça da própria ironia. Com emojis isso pode ser feito adicionando camadas de drama, intensidade e significado, como quando alguém quer comentar no grupo da família que a comida no domingo estava ótima 😉, não é mesmo? Essa mesma ironia pode ocorrer em diferentes níveis e intensidade, que também dependem do significado dado por quem escreve e por quem recebe (🤥 🤮🤭), que também pode variar.

    O fato é que os emojis conseguem modificar o significado de uma palavra ou frase, deixando-as mais alarmantes, mais emotivas, mais divertidas. É complicado, mas por isso mesmo abre tantos caminhos interessantes para pesquisas comportamentais, que buscam entender um pouco melhor a nossa comunicação nesse mundo relativamente novo das redes sociais, por exemplo. Com a velocidade com que as coisas estão mudando, é possível que este texto fique logo obsoleto, e que logo os emojis se tornem uma coisa do passado, assim como o ponto final

    LEIA MAIS (em inglês):
    Your 🧠 On Emoji – Nautilus
    A Systematic Review of Emoji: Current Research and Future Perspectives – PMC (nih.gov)
    Monkeys and eggplants: how do men and women use emojis differently? | Life and style | The Guardian
    People Who Use More Emojis Have More Sex and Get More Dates | Psychology Today

    MARCELO KNOBEL Marcelo Knobel é físico e professor do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp. Escreve sobre ciência, tecnologia, inovação e educação superior, e como impactam nosso cotidiano atual e o futuro

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

    Curtas EPBR

     Até 03:00 am. A presidência da COP28 comunicou nesta terça (12/12) que as discussões para chegar ao texto final da cúpula climática se estenderão até 03:00 am de quarta, em Dubai (aqui no Brasil ainda será 20h de terça). 

     
    Até o fechamento desta edição, os únicos acordos alcançados na conferência climática das Nações Unidas são sobre os fundos para perdas e danos e para adaptação, além do texto sobre gênero e clima.
     
    Questões espinhosas como eliminar combustíveis fósseisfinanciamento de longo prazo e regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata do comércio de emissões, seguem sem acordo. 
     
    Crédito de carbono na B3. A bolsa brasileira anunciou na última sexta (8/12) a criação de uma plataforma para negociação de créditos de carbono em parceria com a ACX Group. O acordo prevê desembolsos por parte da B3 de até R$10 milhões.
     
    Com lançamento planejado para o primeiro trimestre de 2024, a plataforma funcionará como um ambiente de negociação entre os emissores dos títulos e empresas que compensam emissões de gases de efeito estufa por meio da aquisição dos ativos no mercado voluntário.
     
    Brasil taxa módulos solares e turbinas eólicas importadas. A justificativa é que já existe produção similar no Brasil, tanto para os módulos montados quanto para os aerogeradores. Módulos fotovoltaicos montados e turbinas eólicas de até 7,5 MW passarão a pagar tarifa de importação de 10,8% a partir de janeiro de 2024, decidiu nesta terça-feira (12/12) o Gecex-Camex.

    Subsídios para SAF de etanol de milho. O Tesouro dos Estados Unidos deve divulgar, até o final desta semana, orientações sobre a qualificação do etanol de milho para receber subsídios destinados à produção de combustível sustentável de aviação (SAF, em inglês). A pressão para facilitar a qualificação desta rota de SAF vem do Cinturão Agrícola dos EUA, uma importante base política antes das eleições presidenciais do próximo ano, informa a Reuters.