terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Pelas circunstâncias, 2023 foi melhor que a encomenda, Bernrdo Guimarâes, FSP

 Há um ano, Fernando Haddad era nomeado ministro da Fazenda. Simone Tebet e Geraldo Alckmin assumiriam os ministérios do Planejamento e o da Indústria e Comércio, respectivamente. O novo governo Lula começava a mostrar sua cara. Nós fazíamos prognósticos.

Passado um ano de governo, é hora de avaliarmos nossas previsões e pensar no que o futuro deve nos trazer.

Em dezembro de 2022, Haddad era o ministro que desagradava aos analistas do mercado financeiro e à maior parte dos economistas preocupados com a situação fiscal. Essa impressão foi mudando com o tempo.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad - Jardiel Carvalho/Folhapress

Nos embates de 2023, a Fazenda esteve com frequência do lado da disciplina fiscal. Hoje em dia, Haddad parece ser mais criticado por congressistas do PT do que por economistas que querem a redução do déficit público.

Propostas de subsídios e de medidas protecionistas têm saído predominantemente do Ministério da Indústria e Comércio ou do BNDES, não da Fazenda. Na semana passada, por exemplo, Geraldo Alckmin falou sobre aumentos nas tarifas de importação e subsídios à indústria química.

Não era essa a expectativa reinante em dezembro de 2022.

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A situação fiscal está longe de ser resolvida.

O déficit primário será maior que 1% do PIB em 2023. A tarefa é complicada, os obstáculos políticos são enormes, não seria fácil obter um resultado muito melhor de qualquer modo. Porém, o trabalho do Ministério da Fazenda tem sido dificultado pela resistência do próprio presidente Lula —e de bastante gente dentro do PT.

Geraldo Alckmin e Simone Tebet durante encontro do Mercosul no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro - Mauro Pimentel/AFP

Isso levanta questões sobre a condução da economia a partir de 2024.

Este ano de 2023 era para medidas fiscais mais ambiciosas. Neste século, as reformas da Previdência que ceifaram despesas aconteceram no primeiro ano do mandato de Lula, Dilma ou Bolsonaro (em 2003, 2015 e 2019).

Deverá ser mais difícil aprovar medidas duras nos próximos anos.

Ainda assim, se a Reforma Tributária for aprovada como se espera, ainda que cheia de mudanças, 2023 terá sido um ano de relativo sucesso para a Fazenda, considerando as dificuldades, com batalhas vencidas, outras perdidas, mas com objetivos importantes alcançados.

Em 2023, questões fiscais dominaram a agenda econômica.

Quando Simone Tebet assumiu o Planejamento, não era claro quais seriam suas atribuições e o que ela faria.

O anúncio de sua equipe rendeu manchetes e elogios. Na posse, secretários falavam sobre avaliação de políticas públicas, algo importante para melhorar a qualidade dos gastos públicos. Parecia que Tebet capitanearia essa agenda e, dessa maneira, ocuparia um espaço político importante. A equipe está trabalhando nisso, mas ela foi menos vocal do que eu esperava na defesa dessa agenda.

Com isso tudo, como se comparam o crescimento e a inflação em 2023 com o que se esperava ao final de 2022?

Uma grande surpresa positiva foi o crescimento do PIB, próximo de 3%. Há um ano, esperava-se uma variação inferior a 1%. Parte desse crescimento se deve ao bom desempenho do setor agrícola, que puxou o PIB e o superávit da balança comercial.

O desemprego está abaixo de 8%, como não se via desde 2015.

A inflação deve fechar o ano perto de 4,5%, um pouco abaixo da expectativa ao fim de 2022. Apesar da aparente controvérsia em torno da política monetária, a taxa Selic deve encerrar 2023 em 11,75%, exatamente o que se esperava há um ano.

No fim das contas, pelas circunstâncias, 2023 foi um ano melhor que a encomenda. Que 2024 nos traga boas surpresas!


Festa dos Batista esgota jatinhos em Brasília, FSP

 Os irmãos Batista promovem, nesta quarta (13), uma festa na fazenda Santa Luzia, em Aruanã (GO), para comemorar os 90 anos do pai, José Batista Sobrinho. Conhecido como Zé Mineiro, ele fundou a JBS, coração do que hoje é a J&F, a holding que controla o grupo da família.

A lista não foi divulgada por questões de segurança e conta com mais de 1.000 convidados, segundo pessoas próximas aos Batista. Metade é de executivos do grupo. A outra metade conta com empresários e, principalmente, políticos.

Os irmãos Wesley (dir.) e Joesley Batista, donos da JBS
Os irmãos Wesley (dir.) e Joesley Batista, donos da JBS - Zanone Fraissat - 29.ago.2013/Folhapress

A movimentação em Brasília para o evento é tão grande que, nesta terça (12), já não havia mais jatinhos para locação.

Deputados e senadores começaram, então, a procurar os principais advogados da capital federal que possuem aviões.

Sob anonimato, dois deles confirmaram ao Painel S.A. pedidos de empréstimos das aeronaves feitos por parlamentares e até ministros de Lula.

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Os nomes não foram revelados, mas, segundo relatos dos advogados, causou espanto que delatados pelos irmãos Batista estejam tentando participar do evento. Um deles ironizou, dizendo que a República voltou ao normal.

Isso porque Joesley e Wesley Batista foram o pivô de uma série de delações premiadas de executivos da J&F e da JBS que abalaram o país, entre 2017 e 2018. Tudo começou em abril de 2017, quando Joesley gravou uma conversa com o então presidente Michel Temer (MDB). No áudio, o então mandatário pede a manutenção de pagamentos, principalmente para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ).

O conteúdo foi vazado e o desembocou em uma operação da Polícia Federal, que culminou em uma série de delações de executivos do grupo —entre eles Joesley e Wesley— envolvendo políticos importantes.

NADA DE IMAGENS

Joesley e Wesley decidiram fazer a festa na fazenda porque é o local preferido do pai. A propriedade fica a cerca de 500 km de Brasília e há uma pista de pouso. Não haverá hospedagem e, por isso, os convidados terão de fazer bate-volta de avião.

Quem aceita o convite também se compromete a não postar qualquer tipo de imagem (vídeo ou foto).


MDMA na reta final para tratar estresse pós-traumático, Marcelo Leite, FSP

 Nesta terça-feira (12) a agência de fármacos americana FDA, equivalente da Anvisa, recebeu uma requisição de novo medicamento para MDMA (ecstasy) como tratamento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Se tudo der certo, em um ano poderá estar autorizada a primeira psicoterapia com apoio de substância psicodélica.

O pedido de autorização da droga partiu da Maps PBC, braço empresarial da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps, em inglês). A ONG foi criada há 37 anos por Rick Doblin, um ex-hippie inconformado com a proibição de MDMA pelo governo americano em 1985.

A batalha para devolver a droga à farmacopeia psicoterápica consumiu três décadas, diante da dificuldade de obter dezenas de milhões de dólares para custear ensaios clínicos aleatorizados e controlados (RCTs, em inglês). Todos os recursos obtidos pela Maps vieram de organizações privadas, pois órgãos oficiais de fomento estavam impedidos de financiar estudos com uma substância proibida.

Alguns especialistas preferem chamar MDMA de empatógeno, e não de psicodélico. Isso porque essa substância modificadora da consciência não atua como os psicodélicos clássicos mescalina, LSD, psilocibina e dimetiltriptamina (DMT, presente na ayahuasca), que imitam o neurotransmissor serotonina. Ela age mais sobre a ocitocina, um neuro-hormônio que favorece a empatia.

A Maps realizou dois testes clínicos de fase 3 com MDMA para TEPT e obteve resultados positivos. Esse transtorno afeta 13 milhões de adultos nos EUA, cujo tratamento não é muito eficaz.

A condição gera num custo para a sociedade norte-americana calculado em mais de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão) anuais. Entre os mais afetados estão veteranos de guerra, entre os quais há cerca de 800 mil com problemas de saúde mental e uma taxa de mais de 17 suicídios por dia.

O prazo de um ano para sair a licença é bem otimista. Se a FDA considerar o requerimento satisfatório, explicou o boletim Psychedelic Alpha, a decisão sairia em 6 a 10 meses, normalmente, mas pelo caráter inédito da terapia a tramitação pode ganhar dois meses de acréscimo.

Também é possível que a agência peça avaliações de risco e estratégias de mitigação, o que viria atrasar ainda mais o processo. Por outro lado, a FDA já conferiu ao protocolo da Maps PBC a condição de terapia inovadora ("breakthrough therapy") e acompanhou o desenho dos testes clínicos, algo que deve acelerar a análise.

Noves fora, uma coisa contrabalançando a outra, é factível que tudo se resolva no prazo de 12 meses e a autorização saia até o fim de 2024, avalia Psychedelic Alpha.

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AVISO AOS NAVEGANTES - Psicodélicos ainda são terapias experimentais e, certamente, não constituem panaceia para todos os transtornos psíquicos, nem devem ser objeto de automedicação. Fale com seu terapeuta ou médico antes de se aventurar na área.

Sobre a tendência de legalização do uso terapêutico e adulto de psicodélicos nos EUA, veja a reportagem "Cogumelos Livres" na edição de dezembro de 2022 na revista Piauí.

Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro "Psiconautas - Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira".