terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A normalização do radicalismo -Wilson Gomes, FSP

 As vitórias de Javier Milei, na Argentina, e do partido de Geert Wilders, nos Países Baixos, só não são mais preocupantes do que as sucessivas demonstrações de que Donald Trump pode voltar ao poder nos Estados Unidos, apesar de tudo o que aprontou na Presidência.

Os radicais, definitivamente, continuam na moda e nada indica que deixarão de fazer sucesso nas passarelas eleitorais nas próximas temporadas.

Isso deveria ser suficiente para desmentir a hipótese de que uma conjunção rara de fatores excepcionais produziu o surpreendente inverno democrático dos últimos anos. Que se tratou de uma singularidade permitida por um vacilo das forças democráticas, mas que agora que estamos vigilantes e não acontecerá de novo.

Ao que parece, não é bem assim, como tenho insistido ao longo das últimas semanas.

Abandonar a hipótese da excepcionalidade, acredito, exigiria dos progressistas a revisão, quando não o descarte, de crenças há muito sustentadas.

Primeiro, a convicção de que a educação, entendida como escolarização, é uma barreira contra escolhas políticas estúpidas e radicais. Basta ver as sondagens eleitorais em países que apostaram em candidatos e partidos extremistas para notarmos que parte considerável dos seus votos veio da fração da sociedade com mais anos de educação formal.

A espantosa figura do "médico bolsonarista" já deveria ser suficiente para afastar essa tese e nos obrigar a buscar outras explicações.

Na ilustração, uma parede de painéis, amarelos e cinzas alternadamente, em perspectiva. Frente a parede, uma série de indivíduos encaixam suas cabeças em buracos para ver do outro lado. Os indivíduos, vestem ternos e faixas presidenciais de diferentes cores, verde o mais próximo do espectador, azul claro o que segue, vermelho e verde o seguinte, laranja o próximo e finalmente roxo o último visível e o mais longe. Todos eles, seguram na sua mão direita uma maleta aberta e vazia.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 12 de dezembro de 2023 - Ariel Severino/Folhapress

Aliás, um clássico do viés cognitivo da autoestima exacerbada —o ego enhancement— consiste justamente em pensar que os outros só votam diferentementemente de mim porque alguma coisa lhes falta.

O voto nordestino no PT já foi chamado de "bovino" por Mainardi; o seguimento a Bolsonaro também. Jornais do Sudeste já publicaram gráficos mostrando que IDH baixo era preditor do voto à esquerda, enquanto três refeições ao dia e muito estudo na cabeça justificariam o sofisticado voto de Higienópolis.

Contudo, se já representa um desafio renunciar ao modelo que explica o voto contrastante com o meu através da hipótese do déficit cognitivo ou moral, é ainda mais complicado conceber o inverso. Ou seja, ponderar que o voto de quem estudou e tem os meios intelectuais e recursos para estar bem informado, possa, afinal, ser tido como um voto destituído de sabedoria, inconsequente e radical.

Segundo, há que ser reconsiderada a crença de que uma população politizada tende a ser mais progressista e a tomar decisões políticas mais razoáveis. Por politização se entende um interesse disseminado em questões políticas, que deveria levar a um acompanhamento intenso do noticiário e a um maior engajamento em discussões e atividades políticas.

Não conheço gente mais politizada do que italianos e argentinos e não descarto a ideia de que justamente essa tal politização esteja na raiz da preferência que vêm demonstrando por propostas e candidatos singularmente radicais.

Terceiro, é preciso repensar a reconfortante ideia de que nos jovens podemos depositar as esperanças de sociedades mais progressistas e mais democráticas. Os jovens brasileiros, da primeira geração em mais de um século que nunca havia experimentado viver sob um regime autoritário, foram dos primeiros a se inscrever nos exércitos do bolsonarismo.

O "mileísmo" é marcadamente um movimento de jovens das primeiras gerações da renascida democracia argentina. Não há radicalismos políticos no mundo hoje sem a energia, a generosidade da entrega e a inconsequência da juventude.

Aceitar a hipótese da normalização das vitórias dos extremistas, além disso, exige entender como chegamos a isso.

Considero, por exemplo, que o desaparecimento, como forças eleitorais significativas, do centro político e de uma direita democrática são um sintoma de sociedades ávidas por conflito, radicalismo e intolerância. Não foi por falta de oferta de posições e candidaturas políticas moderadas que o centro praticamente desapareceu, mas por falta de eleitores interessados em moderação.

Ao contrário do que pensa o míope militante de esquerda, a existência da direita democrática evitava que conservadores e darwinistas sociais escorressem para a extrema direita para satisfazer seus interesses.

Quando o centro some e os eleitores da direita democrática, com raízes no liberalismo, migram para alternativas políticas que desconhecem os combinados da democracia —ou não se importam—, é que a mesa está posta para desventuras radicais, cada vez mais presentes na ordem do dia.


Em ano de recordes, Brasil ganha espaço dos Estados Unidos, FSP

 No relatório de oferta e demanda mundial deste mês, o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) apontou que os americanos estão perdendo espaço importante na agropecuária em mercado tradicionais.

Um dos que estão entrando em espaço americano é o Brasil, afirma o órgão do governo dos Estados Unidos. A comparação do comportamento das exportações dos dois países para o mercado da China aponta a forte evolução do Brasil.

A China, que está entre os principais importadores de alimentos do mundo, é importante tanto para a balança comercial do Brasil como para a dos Estados Unidos.

Os americanos perdem espaço nos grãos e nas carnes por vários fatores. Um deles é político. O enfrentamento de Donald Trump com grandes importadores de commodities, principalmente com a China, abriu caminhos para outros concorrentes durante seu governo.

Os chineses, a exemplo de Trump, colocaram barreiras tarifárias nos produtos dos EUA no período de seu governo. O país perdeu espaço e abriu frente para outros.

PUBLICIDADE

Os americanos tiveram também períodos de baixa oferta de produtos, devido a quebra de safras, o que reduziu a capacidade de exportações. Perderam também na relação de preços, tanto nos grãos como nas carnes.

Criação de gado de corte em Tailândia, no Pará - Pilar Olivares/Reuters

Os Estados Unidos podem ter uma recuperação no milho no próximo ano. No primeiro, a concorrência com o Brasil será intensa, desde que a safrinha responda com boa produção. A China, que comprou 34 milhões de toneladas do cereal no acumulado de 2021 e 2022 dos Estados Unidos, adquiriu apenas 4,8 milhões do produto de janeiro a outubro últimos.

Já o Brasil, depois que os chineses abriram as portas para o milho brasileiro, vendeu 1,16 milhão de toneladas no ano passado e 11,4 milhões neste ano até novembro.

A participação brasileira no mercado chinês deixou de ser apenas de soja, como era há cinco anos, e se espalhou por uma gama de produtos antes oferecidos pelos americanos.

Lavoura de milho no norte do Paraná - Mauro Zafalon/Folhapress

Nos últimos cinco anos, os Estados Unidos exportaram 135 milhões de toneladas de soja para a China. O Brasil colocou 300 milhões no mesmo período naquele mercado.

No setor de carnes, o Brasil também chegou mais tarde no mercado chinês, mas as vendas brasileiras somam 9,61 milhões de toneladas nos últimos cinco anos, 79% a mais do que os 5,37 milhões exportados para os chineses pelos americanos.

Preços e oferta disponível de produtos foram essenciais para o Brasil atingir esse patamar de venda para a China. Apenas neste ano, as vendas de soja para os chineses já somam 71,2 milhões de toneladas. Somados os volumes para outros mercados, as exportações brasileiras da oleaginosa superarão 100 de toneladas neste ano.

Recorde O volume de grãos e de farelo que vai sair pelos portos brasileiros deverá atingir 183 milhões de toneladas neste ano, 25% a mais do que em 2022, conforme estimativas da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais). Os números consideram apenas soja, farelo de soja, milho e trigo.

Recorde 2 Apenas a soja, se confirmados os 3,9 milhões de toneladas deste mês, atingirá 101 milhões de toneladas em 2023. Milho poderá subir para 56,7 milhões; trigo, para 2,4 milhões; e farelo de soja, para 22,5 milhões, segundo a Anec.

Sustentabilidade A Tereos, do setor de açúcar, etanol e energia elétrica a partir da biomassa de cana-de-açúcar, neutralizou 100% das emissões de carbono provenientes do consumo de energia elétrica da Bienal de São Paulo, realizada no parque ibirapuera.

Sustentabilidade 2 Segundo a empresa, a neutralização ocorre por meio de créditos gerados a partir da certificação I-REC, um sistema que permite à Tereos garantir que a energia produzida em suas unidades é proveniente de fontes renováveis e limpas.

Sustentabilidade 3 A certificação gera créditos de energia renovável que podem ser comercializados. Cada 1MWh de energia renovável gerada pela empresa equivale a 1 I-REC (crédito de energia renovável) que pode ser negociado.