sábado, 26 de agosto de 2023

Relíquia da siderurgia do Brasil está desaparecida há mais de 50 anos, FSP

 Naief Haddad

SÃO PAULO

A busca por uma peça fundamental dos primórdios da siderurgia brasileira ganhou ares de obsessão para Fernando Landgraf, professor de metalurgia da Escola Politécnica da USP.

Não é uma relíquia histórica de presença discreta, que poderia se perder facilmente no vaivém de um museu a outro. O Santo Graal da siderurgia do país, desaparecido há 52 anos, pesa seis toneladas. Trata-se, segundo Landgraf, da mais antiga moenda de cana feita de ferro produzida no Brasil.

Moenda de ferro para produção de cana produzida na Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, no interior de São Paulo, em 1841 - Folhapress

Uma placa, instalada na base da peça, registra: "4ª Máquina Brasileira - Santa Cruz - Ypanema 1841 Bloem". O major João Bloem era o diretor da fábrica em 1841.

"É um grande símbolo da agroindústria do açúcar no Brasil, e poucas coisas são mais importantes para a história do país do que o açúcar. Só isso bastaria para demonstrar a relevância dessa moenda", diz Landgraf, ex-presidente do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).

"Além disso, é um dos mais sofisticados objetos fabricados pela Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, um projeto de desenvolver a siderurgia no Brasil, com um monte de percalços e sucessos."

Localizada no município de Iperó (SP), perto de Sorocaba, Ipanema é um desses lugares que merecem ser mais conhecidos pelos brasileiros. A produção de ferro no local começou, de forma incipiente, em meados do século 18, mas só deslanchou a partir de 1808, quando dom João 6º permitiu o estabelecimento de fábricas e manufaturas no país. A partir de 1840, dom Pedro 2º visitou Ipanema diversas vezes.

Além de considerada pelos estudiosos o berço da siderurgia no Brasil, foi a única indústria desse ramo que funcionou praticamente de modo ininterrupto no país no século 19. Produziu milhares de toneladas de ferro fundido e forjado —canhões, ferramentas agrícolas, arames, pregos e, claro, moendas.

A peça de 1841 não foi a primeira feita de ferro a ser usada no Brasil. Nos anos anteriores, o país havia importado moendas com essa característica, afinal, a transição da madeira para o ferro fazia toda a diferença para a indústria açucareira.

"Além de mais resistente, a moenda de ferro fundido dava mais eficiência à produção", diz Luciano Regalado, analista ambiental da Flona Ipanema (Floresta Nacional de Ipanema) e responsável pelo centro de memória da instituição. Regalado é um dos estudiosos que têm apoiado a busca de Landgraf pela relíquia.

As construções remanescentes da fábrica de Ipanema estão no território da Flona, cuja administração responde ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), do governo federal. Estão abertas à visitação do público.

Landgraf visitou a fábrica de Ipanema pela primeira vez há duas décadas, mas só soube da moenda poucos anos atrás. E levou um susto.

Em 2020, em meio a uma pesquisa sobre canhões fabricados no século 19, ele e sua equipe receberam uma dica: valia a pena ler um artigo sobre a exposição ocorrida no quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954, na revista Anais do Museu Paulista, nome oficial do Museu do Ipiranga.

O texto assinado pelo historiador David William Aparecido Ribeiro citava "uma moenda de ferro, produto da fábrica de São João de Ipanema".

"Como a gente nunca tinha ouvido falar desse negócio?", indaga a si mesmo. "Tínhamos visto muitos documentos primários nos arquivos de São Paulo e do Rio de Janeiro e não existia nenhuma menção àquela moenda."

Fernando Landgraf em laboratório do departamento de engenharia metalúrgica da USP, onde é professor; ele lidera busca por uma relíquia histórica, uma moenda de ferro fabricada em 1841 - Karime Xavier/Folhapress

Era o começo da saga em busca da relíquia, uma procura que já dura três anos e permanece inconclusa. Landgraf conseguiu, porém, rastrear alguns dos momentos da longa trajetória da moenda.

Em 1920, a peça estava na propriedade do imigrante português Antônio Pereira Ignacio, que havia fundado a fábrica de tecidos Votorantim dois anos antes a empresa se expandiu mais adiante graças à iniciativa do genro de Ignacio, José Ermírio de Moraes.

Passados alguns anos, Ignacio doou a moenda para o Museu do Ipiranga. Então administrada por Afonso Taunay, a instituição via seu acervo se expandir, com especial atenção às obras que enaltecessem os feitos paulistas. Nesse sentido, a incorporação da moenda, um fruto da indústria do interior do estado, vinha a calhar.

Mas havia um problema, conta Landgraf. A peça era grande demais para ser instalada no interior do edifício histórico e, assim, passou décadas na área externa do museu.

Mais de 90 obras do acervo do Ipiranga, a moenda entre elas, foram emprestadas para a exposição de 1954, que ocorreu na Oca. Acontece que aquele mastodonte de ferro foi para o parque Ibirapuera e não voltou —a razão para ter ficado por lá é desconhecida.

Encerrada a exposição do quarto centenário, a Oca passou a abrigar alguns museus, entre eles o da Ciência, que incorporou a peça ao seu acervo. Chegamos, enfim, ao último registro da moenda obtido por Landgraf: uma foto em 1971 tirada por Paulo Varela, então estagiário da planetário, para onde o acervo da Ciência havia sido transferido depois de deixar a Oca. Naquele mesmo ano, o museu foi desmontado.

Último registro da moenda que se tem notícia; foto foi tirada por Paulo Varela em 1971, ano em que o Museu da Ciência foi desmontado - Paulo Varela-1971-Acervo pessoal

Nas pesquisas do professor da Poli e da sua equipe, não existem mais rastros da relíquia daí em diante.

O último diretor deste Museu da Ciência —existiram outros desse tipo em São Paulo nas décadas seguintes— foi o físico e professor Aristóteles Orsini, que dá nome ao planetário do Ibirapuera, outro local sob os cuidados dele. Como Orsini morreu em 1998, Landgraf procurou a filha dele, Maria Stella, que não encontrou qualquer registro sobre a moenda nas anotações do pai.

A busca foi muito além desse contato com ela. Visitaram dezenas de entidades, como museus e universidades na capital e no interior de São Paulo. Entre elas, o Museu da Cana, em Pontal (SP), e o Centro de Tecnologia Canavieira, em Piracicaba (SP).

Pesquisaram longamente no Arquivo Histórico Municipal e em acervos de jornais, como a Folha há uma foto da moenda publicada em uma reportagem de maio de 1980 sobre a fábrica de Ipanema, mas sem indicação da sua localização. Além disso, eles entraram em contato com diversos empresários e pesquisadores ligados à cana e à siderurgia. Nada.

O leitor talvez esteja se perguntando: será que a moenda foi roubada e vendida para sucata? Landgraf não descarta essa hipótese, mas a considera improvável. "Ferro fundido é um material muito barato, por isso quase não ouvimos falar de roubos de tampas de bueiro."

O mistério continua.

Guia do visitante na expo histórica do IV centenário.
Trecho do guia do visitante da exposição do quarto centenário da cidade de São Paulo, que aconteceu em 1954 na Oca, no parque Ibirapuera; menção à moenda está destacada em vermelho - Reprodução

Plano Verde para transformar a economia terá de ser plenamente assumido pelo governo Lula, Celso MIng OESP

 


Na história recente do Brasil, os grandes planos econômicos integradores foram o Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek (1956 a 1960) e o Plano de Ação Econômica do Governo – o Paeg – (1964 a 1967), do então titular do Ministério Extraordinário para o Planejamento e Coordenação Econômica, Roberto Campos.

Mais de 50 anos depois, se os projetos do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, derem certo, o Brasil poderá ter mais um amplo programa galvanizador, que leva o nome de Plano de Transformação Ecológica.

Quem no Ministério da Fazenda trata de formatar esse plano é o assessor especial Rafael Ramalho Dubeux. Está ainda em elaboração e pretende ser mais abrangente do que puramente estabelecer diretrizes para uma política ambiental.

Ou seja, não está sendo desenhado para cuidar apenas da regulação dos créditos de carbono ou da definição de políticas de substituição de combustível fóssil por combustível renovável. Pretende transformar todos os setores da economia e, mais que tudo, informar novo esforço de aumento de produtividade e desenvolvimento da indústria, hoje em processo de rápida desidratação, com base na absorção de tecnologias e de novos mercados, visando à economia verde.

Intenções à parte, além da mensagem de que o País está retomando com responsabilidade a agenda ambiental, poucos países estão em condições tão privilegiadas como o Brasil nessa corrida inicial para a transição energética que o mundo passou a exigir.

É tamanha a urgência para substituição de combustíveis fósseis e tão curto o prazo para seu cumprimento, que o País não pode ser ignorado pelos trilhões de dólares em investimentos que começam a ficar disponíveis nos orçamentos públicos dos países avançados e no mercado global de capitais. Bastam para isso duas condições: que se estabeleçam regras claras e seguras de jogo; e que não se destrua a confiança por meio de políticas de qualidade duvidosa ou sem a vontade política necessária para levar adiante os acordos internacionais de descarbonização da economia, a que o Brasil se comprometeu.

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Plano de Transformação Ecológica reúne cerca de 100 ações para aumentar a produtividade do País e descarbonizar a economia

Em nenhum momento os textos do PT dedicados à política econômica e à distribuição de renda sugeriram projetos dessa envergadura. Os companheiros do partido limitam-se a pregar mais intervenção do Estado, derrubada voluntarista dos juros, políticas protecionistas para a atividade econômica, revisão da reforma trabalhista implantada pelo governo Temer e limitação do trabalho terceirizado às atividades-fim das empresas – seja lá o que isso signifique.

Para que dê certo, o chamado Plano Verde é agenda que terá de ser plenamente assumida. Nela terão de ser engajados não apenas todos os ministérios e repartições do governo federal, mas, também, as forças políticas do País.

Como isso tende a mexer com a questão sucessória, dá para imaginar os obstáculos políticos que poderá enfrentar.

Hélio Schwartsman - Um campeão da democracia, FSP

 Se havia uma figura improvável para tornar-se um campeão da democracia, era Alexis de Tocqueville. Filho da nata da aristocracia francesa, ele teve vários de seus ancestrais guilhotinados durante a fase de terror que se sucedeu à revolução. Mais, a maior parte de seus familiares que sobreviveram a Robespierre era de legitimistas, isto é, apoiavam a monarquia absolutista dos Bourbon contra a dos Orleans.

A ilustração de Annette Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo no dia 27 de agosto de 2023, mostra, sob um fundo vermelho, uma figura masculina que representa o filósofo e historiador francês Alexis de Tocqueville, usando roupas de sua época, e pensando na Casa Branca.
A ilustração de Annette Schwartsman mostra, sob um fundo vermelho, uma figura masculina que representa o filósofo e historiador francês Alexis de Tocqueville, usando roupas de sua época, e pensando na Casa Branca.

Ainda assim, Tocqueville se tornou um dos primeiros e mais influentes teóricos da democracia, adotando uma abordagem que lembra bastante a dos modernos institucionalistas. Quem conta essa história com detalhes é Olivier Zunz em "O Homem que Compreendeu a Democracia". Foi numa viagem aos EUA que a democracia "fisgou" Tocqueville. O então jovem advogado que cruzara o oceano para estudar diferenças nos sistemas prisionais se deu conta de que algumas especificidades da vida social norte-americana favoreciam a democracia, a qual, por sua vez, exercia influências benfazejas sobre a sociedade. A viagem virou "Democracia na América", que logo se tornou um clássico.

De volta à França, Tocqueville enveredou para a parte prática da política, tornando-se deputado e ministro. Ele se opunha tanto aos reacionários como aos socialistas. Seu foco era tentar conciliar a liberdade com a igualdade. De modo geral, buscava a moderação, mas houve momentos em que se radicalizou, especialmente quando se tratava de defender a soberania francesa e a colonização. Embora fosse veementemente contra a escravidão, se opôs com igual veemência à campanha dos ingleses de apreender navios negreiros de bandeira francesa.

O sucesso de "Democracia na América" lhe abriu portas na Inglaterra e nos EUA. Tornou-se um bom amigo de John Stuart Mill. É a Tocqueville que Mill deve a noção de tirania da maioria.

O texto de Zunz se lê como um romance, e o autor não esconde as muitas contradições de seu biografado.