sábado, 26 de agosto de 2023

Com fábrica, BYD lançará elétrico de R$ 100 mil em 2024, FSP


BRASÍLIA

Alexandre Baldy é de uma família de empresários, mas fez sua carreira na política. Conhece como poucos o funcionamento das engrenagens do governo. Sua trajetória o colocou na presidência do conselho da montadora chinesa BYD, que disputa a liderança global dos carros elétricos e escolheu o Brasil como peça-chave de sua expansão.

Baldy, principal peça para fazer esse plano funcionar no país, ajudou a costurar o acordo para a instalação da fábrica na Bahia. A ideia é inaugurá-la em outubro e, a partir de 2024, colocar o Seagull no mercado, um veículo na faixa de R$ 100 mil. É a aposta da fabricante para que os brasileiros migrem do carro tradicional, a combustão, para o elétrico.

O plano da BYD se encaixa com o da reindustrialização pelo governo? É um símbolo importante reabrir, nesse momento, uma fábrica que já foi ícone para o Nordeste para criar cinco mil empregos.

Por que o governo da Bahia interferiu na negociação entre a BYD e a Ford pela fábrica de Camaçari?
A tratativa com a Ford se iniciou no fim do ano passado e foi tomando muito tempo, sem muitos argumentos para fazer sentido a demora.

A rivalidade entre China e EUA pesou? Não saberia dizer. Para que não fôssemos para outro local, o governo [da Bahia] acionou uma cláusula contratual de reversão da propriedade, porque ela estava parada. Foi amigável.

Alexandre Baldy, conselheiro da BYD
Alexandre Baldy, conselheiro da BYD - Lucas Seixas - 28.ago.2019/Folhapress


Terão um contrato similar? Será nos mesmos moldes.

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Ganharam incentivos fiscais? Basicamente, uma redução de 95% do ICMS e de 75% do Imposto de Renda.

Qual o potencial de vendas? Em dois meses, foram vendidas cinco mil unidades do Dolphin. Ele tem preço acessível [R$ 149 mil] e acessórios de um carro de meio milhão de reais. Chega para alavancar 60 mil unidades ano. O Dolphin tem potencial para 36 mil. Em 2024, chegaria o Seagull, de R$ 100 mil, para concorrer com o E-JS1 [JAC] e o Ora [GWM]. Com ele, adiciono mais volume com preços na faixa do Polo [da Volkswagen] só que mais equipado.

Qual será a produção inicial? Partimos de 150 mil unidades, sendo 80 mil só para o Brasil.

Ou seja: vocês estimulam a migração do carro tradicional para o elétrico. Isso só ocorre com escala e a China tem esse papel de massificação. O que caberá ao Brasil? Será o segundo mercado. Partirá daqui a produção e distribuição para a América Latina.

Quase toda a produção da BYD foi vendida. Isso mostra interesse pelo elétrico ou somente um desequilíbrio entre oferta e procura? O Dolphin oferece autonomia de 400 km com uma bateria de 44.9 kW (kilowatt). Ao custo de 1 kWh (kilowatt-hora) em São Paulo, você carregaria essa bateria com R$ 32. No carro a combustão, o desembolso seria de R$ 250. Isso desperta o interesse.

Já entraram nos EUA?
Só oferecendo baterias para a Tesla.

E na Europa?
Estamos na Itália e na Inglaterra. Estamos tentando entrar na França.


RAIO-X | Alexandre Baldy, 43

Formação: Direto pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Goiás

Carreira: Iniciou sua carreira na vida pública como secretário de Indústria e Comércio de Goiás, foi deputado federal, ministro das Cidades, secretário dos Transportes Metropolitanos de SP e atualmente preside o conselho da BYD no Brasil

 

Os escombros de São Paulo, Antonio Prata, FSP

 A longevidade nem sempre é uma virtude. Pega a esperança, por exemplo. Talvez, por ser a última que morre, seja a que mais sofre. Vai definhando, murchando, atrofiando, até que sobra só uma esperancinha.

Aos 15 eu sonhava com justiça para todos. Nos últimos anos eu torci apenas para não haver golpe. Agora, se o Zanin não propuser pena de morte pra preto que for pego com três gramas de maconha, já é um alívio. (PQP, né, Lula? Atitude mais estúpida do que a indicação do Zanin para o STF, só se você decidisse, sei lá, explorar petróleo na foz do Amazonas).

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 27 de Agosto de 2023, mostra o desenho de uma retroescavadeira coberta por um monte de terra com apenas o braço da máquina à mostra
Adams Carvalho

Sou discípulo do mestre Celso Rocha de Barros, meu vizinho aqui na Folha. Concordo quando ele afirma que uma das coisas mais importantes para a democracia brasileira seria o surgimento de um partido democrático de direita. O que havia nesta seara foi lavado pela Lava Jato, deixando espaço pros terraplanistas sem ideia na cabeça e com uma arma na mão.

Eis a minha esperancinha: sonho com o dia em que tivermos conservadores que lutem pela conservação. Afinal, os que hoje se dizem conservadores são os que queimam a Amazônia, minam as instituições, defecam dentro de prédios públicos invadidos a golpes de marreta e contratam hackers pra corromper urnas eletrônicas.

O conservador brasileiro vai a Paris, Londres, Buenos Aires e volta encantado. "Que beleza!". "Quanta história!". "Quanta cultura!". Aí, no Brasil, faz lobby pra aprovar plano diretor que permite botar a cidade abaixo e construir outra inteirinha nova por cima —estilo neoclássico, chamado "Maison Venice", "visite o decorado".

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Fica lá o brasileiro pagando pau pro East Village, pra Palermo, pra Portobello Road, sem perceber que se não demolíssemos tudo, teríamos bairros tão bonitos quanto. Não faz muito tempo, 1998, fui estudar na PUC. Os quarteirões em torno eram de sobrados com jardins na frente. Do ponto de ônibus pra faculdade eu passava por roseiras, jasmins, casais de velhinhos sentados em varandas, vendo o movimento da rua. Nasci e cresci na Vila Olímpia, também um bairro de sobrados, pequenas casas geminadas, charmosas, com uma vida de bairro. Da mesma forma era Pompeia, Pinheiros, Vila Madalena, Moema, Itaim. Tudo foi ou está sendo posto abaixo.

Os arautos do empreendedorismo demolitório afirmam que São Paulo tem uma densidade populacional muito baixa, comparada a outras metrópoles. Que é preciso verticalizar. Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o plano tanto assim. É preciso apagar a cidade e começar de novo?

Meus filhos estudavam numa escola linda, um casarão feito sob medida para crianças, em Santa Cecília. O imóvel, alugado, foi vendido e posto abaixo em uma semana. Eu passei muitas noites da minha juventude no bar Ó do Borogodó, aqui em SP: no "túmulo do samba", era um dos possíveis novos quilombos de Zumbi. Todo mundo do samba paulistano passou (passa) por ali. De novo: o dono do imóvel o vendeu. O quarteirão vai abaixo. O bar Balcão, onde uns trinta anos da vida cultural paulistana se desenvolveu, também vai virar entulho.

Estou citando apenas os lugares que são caros a mim. Certeza que o leitor da zona norte, sul, leste ou oeste tem uma dúzia de outros exemplos. É chato escrever certas platitudes, mas vá lá: lugares são importantes para além do seu valor comercial. Não à toa, há imóveis que são tombados por sua importância histórica e cultural. O problema é que São Paulo não dá tempo para que esse valor se cristalize. Aqui, a gente corta o bem pela raiz.

Muniz Sodré Tempo de mortos-vivos, FSP

 

tema dos zumbis tem sido recorrente no imaginário atual. Nada da qualidade de um clássico do horror como "A Noite dos Mortos Vivos" (1968), de Georges Romero, nem da comédia "Os Mortos não Morrem" (2019), de Jim Jarmusch, mas de uma profusão de livros, filmes e séries que deixa entrever uma estranheza de época: além do espetáculo, esse enredo espaventoso ajuda a correr voz entre atores da vida pública.

No âmbito partidário, pergunta-se qual o potencial de uma militância semimorta, porém, com suposto amplo capital político. É bem o caso do ex-mandatário: uma interdição a prazo fixo, cujos efeitos ultrapassam o formalismo jurídico do ato, considerando-se o uso da expressão "bolsonarismo" (golpismo, milicianismo) como presença moribunda de algo politicamente significativo.

Vale, assim, retomar a conhecida referência de Gramsci ao interregno social, em que "o velho morre e o novo não pode nascer" ("Cadernos do Cárcere"). O pensador italiano considera "morbosa" essa circunstância, exemplificada na separação entre massas e partidos tradicionais. Entre nós, vem ocorrendo desde o fim da ditadura civil-militar.

Zumbis em 'Hogwarts Legacy'
Zumbis em 'Hogwarts Legacy' - Divulgação

Fica implícita uma advertência contra a possibilidade de fenômenos monstruosos. É que o sofrimento material e psíquico dos pobres pode encontrar alguma saída expressiva nos discursos bárbaros da ultradireita. Explica-se: o pensamento progressista oriundo do racionalismo letrado não consegue comunicar-se com as formas moleculares da pobreza. Chovem no molhado os intelectuais eurocentrados que Gramsci denominou de "moscas varejeiras", por apenas sobrevoarem as aspirações das massas.

O interregno é feito de indeterminação entre vida e morte. Isso caracteriza mutações em tecnologia e em condições de existência no novo desenho social. Daí a temática obsessiva dos zumbis no imaginário, intensificada pela percepção coletiva de uma ameaça latente de vírus, fungos e microrganismos à espécie humana. Semimorto, determinado patógeno (Covid-19) é mais letal do que plenamente vivo. Igualmente, no plano político, dá-se o retorno do que se supunha morto em termos civilizatórios, exumado dos túmulos da sociedade civil pelo neobarbarismo ascendente.

Por isso, a "deszumbificação" da sociedade não é figura de linguagem, mas estratégia cultural de uma contraofensiva política.

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O inelegível garante que "não está morto politicamente". Tem meia razão, pois, semimorto, logo finalmente mito, zanza como zumbi à cata de ex-votos dos romeiros de expectativas frustradas: na prática, o fluxo exorbitante de Pix dos beatos, sangue de patriotários. Mas, oficialmente, é alimentado por vampiros de fundos públicos, na falta de coisa viva por inteiro, algo penoso de se encontrar fora da febre morbosa do interregno.