terça-feira, 22 de agosto de 2023

Caso de Faustão reforça a importância de manter o Ministério da Saúde longe do apetite do Centrão, Monica Gugliano- OESP

 O apresentador Fausto Silva terá que ser submetido a um transplante de coração. Desde que ele mesmo divulgou a informação em suas redes sociais, entre os comentários, chamaram a atenção aqueles que mostram o grau de desconhecimento sobre um dos mais importantes programas do Ministério da Saúde, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Faustão entrou para a lista única de transplante de coração que vale para todos os pacientes, independentemente da origem – sistema público ou privado – e organizada de acordo com a gravidade do caso, ordem de entrada e tipagem sanguínea. E muitos se perguntaram: Como assim? Não teria a estrela do showbusiness algum tipo de privilégio?

Não. O SNT é considerado democrático, solidário, humanitário e é parte de um dos grandes modelos que estruturam os serviços de saúde pública em muitos países, como o Brasil, que seguem o conceito de universalidade do Sistema Único de Saúde (SUS). Na lista que inclui o nome de Faustão há, neste momento, 386 pacientes catalogados pelos critérios citados acima. A relação total tem 65.911 nomes. E todos eles – mesmo que seus transplantes sejam feitos na rede privada – neste caso, usuários do SUS, o pilar de uma das políticas públicas mais inclusivas no Brasil e que provou sua resiliência e força durante a pandemia da covid-19.

O apresentador Fausto Silva foi incluído na lista nacional de transplantes em razão de problemas no coração
O apresentador Fausto Silva foi incluído na lista nacional de transplantes em razão de problemas no coração Foto: Reprodução / Instagram
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E é por isso que, entre tantas outras razões, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) posterga a reforma ministerial e mede o quanto pode ceder aos interesses partidários, o caso de Faustão reforça a importância de manter o Ministério da Saúde à margem do apetite das legendas e com profissionais reconhecidos no setor.

É bem verdade que Lula já anunciou que a ministra Nísia Trindade ficará onde está. Melhor que assim seja. Nunca se sabe, porém, o tamanho da cobiça dos políticos, sobretudo do Centrão, e a necessidade do presidente de negociar, em troca de governabilidade e votos no Congresso Nacional. Em Brasília, muitas vezes, o combinado, ao contrário do que se costuma dizer, sai caro. Nesse caso, ninguém sabe o que pode acontecer com a Saúde.

Assim como também é bem verdade que o SNT, seja quem for que estiver no comando da pasta, vem passando por mudanças - apenas no sentido de aperfeiçoar e dar melhores condições aos envolvidos no trabalho - e ainda não apareceu um aventureiro querendo reformular regras que funcionam há décadas. “É uma política sedimentada que ao longo de todos estes anos tem demonstrado a importância dos transplantes e o quanto esse trabalho é sério e salva vidas. Não se modificou nem desvirtuou”, disse à coluna o diretor da divisão de cirurgia cardiovascular, vice-presidente do InCor, Fábio Jatene,

Entretanto, mesmo sedimentada, para que a política de transplantes possa avançar, ela precisa de gestão técnica e recursos. O Ministério vem mantendo uma média entre, aproximadamente, R$15 milhões a R$17 milhões de seu orçamento para o SNT. Mas especialistas na área têm considerado ampliar as verbas via emendas destinadas principalmente à área que trabalha com a captação de órgãos. Por que se as equipes médicas estão mais do que preparadas e a rede hospitalar estruturada, a captação é o calcanhar de Aquiles do SNT.

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Lula já reiterou que não pretende tirar Nísia Trindade do cargo, mas pasta é alvo de cobiça do Centrão, em razão da capilaridade e do volume de verbas que movimenta.
Lula já reiterou que não pretende tirar Nísia Trindade do cargo, mas pasta é alvo de cobiça do Centrão, em razão da capilaridade e do volume de verbas que movimenta. Foto: Wilton Junior / Estadão

Em países desenvolvidos como a Espanha, uma das pioneiras na área, o percentual de recusas para doar os órgãos de um familiar está entre 15% e 18%. No Brasil, no ano passado chegou a 43%, segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). “Precisamos fazer e temos condições de fazer muito mais transplantes do que conseguimos. Mas esbarramos na insuficiência de doações de órgãos”, explica Jatene.

A lei dos transplantes estabeleceu que os órgãos da pessoa morta pertencem ao Estado. Isso não dá ao Estado o direito de retirá-los sem autorização de um familiar, mesmo que em vida o doador tenha manifestado esse desejo. Mas dá, sim, autonomia para decidir a quem e como serão destinados. Só que ninguém ainda inventou uma fórmula ideal para dizer a uma mãe, cujo filho teve morte cerebral, que ela, nesse momento, pode ter o altruísmo e a generosidade de doar os órgãos daquele que não terá mais chance de voltar a viver.

É difícil dizer que em um país com tantas e tão grandes carências na área de saúde e no próprio SUS, resguardar programas como o dos transplantes deva ser uma prioridade. Mas, mesmo com tantas outras demandas, esta é uma tarefa que a população deve assegurar, independentemente de classe social. A lista é uma garantia de direitos iguais em uma sociedade tão desigual como a nossa. E a esta altura nenhum país do mundo pode se dar ao luxo de jogar fora um critério – e um sistema - como esse.

Com supersafra, PIB da soja e do biodiesel sobe 20%, mas renda do setor fica para trás, FSP

 Safra recorde de soja, reajuste do percentual de mistura de biodiesel ao diesel e uma aceleração das atividades ligadas ao agrosserviço devem gerar um PIB (Produto Interno Bruto) da cadeia de soja e de biodiesel de R$ 691 bilhões neste ano, 19,9% acima do de 2022.

O número é expressivo. A renda a ser incorporada pelo setor, porém, nem tanto. Devido a uma queda relativa (considerados custos e inflação) de 16,2% nos preços do setor, a renda a ser auferida pelos participantes dessa cadeia terá evolução real de apenas 0,42%.

"Apesar do bom volume de produção, vai ser um ano diferente financeiramente. A renda não repete o desempenho de anos anteriores e deve ficar quase estável." A avaliação é de Nicole Rennó Castro, pesquisadora do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

O produtor Renato Fonseca que transformou sua produção de gado, milho e soja com a aquisição de novos equipamentos
O produtor Renato Fonseca que transformou sua produção de gado, milho e soja com a aquisição de novos equipamentos - Arquivo pessoal

O Cepea, em parceria com a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), fez um acompanhamento da cadeia da soja e do biodiesel no primeiro trimestre. Com base nesses números, em relação aos de igual período de 2022, projetou a evolução do setor para 2023. Os números deverão ser reajustados durante o ano.

Nicole diz que olhar essa cadeia na perspectiva do PIB mostra o quanto ela cresce e a contribuição que vem dando para o PIB nacional. Os 19,9% de evolução vão ajudar no crescimento econômico do país, diz.

A cadeia da soja e do biodiesel, pelo tamanho que está atingindo no Brasil, é uma grande processadora industrial, geradora de serviços e crescente empregadora, segundo a pesquisadora.

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Para Nicole, a cadeia gera bons empregos, tem salários elevados e é formalizada. Poderia, no entanto, melhorar na inclusão de mulheres nessa atividade.

Daniel Amaral, diretor de Economia da Abiove, afirma que a safra foi grande, mas os efeitos dessa evolução não ficam restritos à produção. Eles recaem sobre toda a cadeia industrial, esmagamento e produção de biodiesel e de farelo.

Os dados do estudo apontam, aliás, caminhos para a tomada de decisão em políticas públicas. A ampliação do setor aumenta a arrecadação de impostos, abre espaço para uma economia mais limpa e agrega valor às exportações, afirma Amaral.

A maior variação do PIB dessa cadeia deverá ocorrer dentro da porteira, uma vez que a produção de soja atingiu 155 milhões de toneladas. Devido a esse volume recorde, o PIB crescerá 38,5% no campo. A queda real de 29% nos preços da oleaginosa, no entanto, fará com que a renda dos produtores recue 2,2%, em relação à do ano anterior.

Dos R$ 691 bilhões da cadeia, a soja participa com R$ 184 bilhões. O biodiesel, que soma R$ 7 bilhões, terá a menor evolução. Quando considerado o PIB com base no volume que é produzido, o crescimento será de apenas 1,2%. Sendo que os preços recuaram 28% nesse segmento, a renda dos participantes da indústria de biodiesel terá queda de 27% neste ano.

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Campo de soja e arroz no Rio Grande do Sul - Divulgação/Fagner Almeida/Federarroz

Essa evolução leva em consideração os números do primeiro trimestre. Para o ano, no entanto, a demanda de biodiesel deverá aumentar em 18%, segundo estimativas da Abiove.

A agroindústria como um todo —­inclui esmagamento e refino de soja, produção de rações e biodiesel— terá evolução de 3,9% no PIB. Com a queda relativa de 4,3% nos preços, porém, a renda recuará 0,6%.

O agrosserviço, setor que tem um PIB de R$ 387 bilhões, 56% de toda a cadeia, apresentará crescimento de 15,7% em 2023. A evolução da produção de soja acelerou também atividades como transporte, armazenagem, comércio e área financeira, entre outros. O segmento terá renda real de 3,5%, a maior da cadeia.

Os insumos, uma atividade que vem antes da porteira, deverá obter crescimento de 6,2%, devido ao aumento de área de plantio. A queda real de 17,6% nos preços, porém, reduzirá a renda em 12,5%, conforme os dados do Cepea.

O processo interno de industrialização da soja é um grande fator gerador de PIB. Uma tonelada de soja em grão no campo gera um PIB de R$ 2.140. Se industrializada, a geração direta e indireta é de R$ 5.973.

O crescimento da produção e da industrialização de soja provocou um aumento considerável do setor no PIB brasileiro. Em 2010, a cadeia da soja representava 9% do PIB do agronegócio. Neste ano, deverá atingir 28%. Em relação ao PIB total do país, a participação sobe de 1,9% para 6,3% no mesmo período.

O levantamento do Cepea indicou que a população ocupada na cadeia de soja e de biodiesel é de 2,4 milhões de pessoas, 11% da população total empregada no agronegócio e com crescimento de 111% na última década. A população ocupada dentro da porteira soma 549 mil pessoas.

Para cada mil toneladas de soja produzidas na agricultura estão sendo gerados 7,4 empregos direta e indiretamente em 2023. Esse é o menor patamar em nove anos. Já na agroindústria, para cada mil toneladas processadas, é gerado o recorde de 20,4 empregos.

A pesquisa mostrou que os trabalhadores com carteira assinada, os empregadores e os que trabalham por conta própria representam 86% da categoria. Outros 14% não têm carteira assinada. As mulheres somam 35% da força de trabalho, com maior representatividade no segmento de agrosserviços, onde são 29%.

Quanto à escolaridade, apenas 1,6% da população ocupada não tem nenhum grau de instrução. Esse grupo, no entanto, foi o que mais cresceu na comparação do primeiro trimestre de 2023 com o primeiro de 2022: mais 21%. O Cepea apontou que 46% têm ensino médio; 27%, ensino fundamental, e 25%, ensino superior.

No primeiro trimestre de 2023, o rendimento médio da cadeia de soja e de biodiesel é de R$ 3.051, sendo que o campo, ao somar R$ 3.517, registra o maior rendimento médio da cadeia. A agroindústria, com R$ 2.276, teve o menor patamar.

As exportações somaram US$ 61,3 bilhões no ano passado, 38% do agronegócio. No primeiro trimestre deste ano atingiram US$ 14 bilhões, 2,5% a mais do que em igual período de 2022.


'Se está no Brasil, você não tem o direito de vir para este país', diz Ron DeSantis, FSP

 Ecoando pelo canal direitista Newsmax e sites de seu estado, o governador da Flórida, Ron DeSantis, respondeu à rádio WGIR como será sua política para imigrantes, se eleito presidente:

"A forma como eu vejo a imigração é: se você está na Polônia ou no Brasil ou em qualquer outro lugar, você não tem o direito de vir para este país. As pessoas vêm porque o povo americano pensa que é do nosso interesse ter as pessoas vindo."

Seu eventual governo vai "focar em capacidade, não em imigração em cadeia". Um cidadão poderá, prosseguiu ele, "trazer sua mulher estrangeira ou filhos, mas trazer esses primos e essas coisas, não".

O site Florida Politics sublinhou que a Polônia hoje não é um país de imigração para os EUA, "mas a brasileira parece ser uma questão diferente: em 2019, os EUA tinham a maior população de imigrantes brasileiros do mundo, 502 mil, e a Flórida é o lar de 22% deles".

INVASÃO DE CRIANÇAS

Imigrantes não chamam a atenção só na Flórida ou de políticos republicanos. A revista New York traz na capa os latino-americanos que tomaram o metrô vendendo doces, muitos ainda crianças (acima).

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A cidade tem "57 mil recém-chegados sem documentos, superando pela primeira vez a população de sem-teto". No início do mês, "centenas de imigrantes tiveram de dormir na rua porque a cidade não achou camas para eles". Do prefeito democrata Eric Adams:

"Já passamos do nosso ponto de ruptura. A compaixão dos nova-iorquinos pode ser ilimitada, mas os nossos recursos, não."