quarta-feira, 23 de junho de 2021

O Senado não sabe quem é, Antonio Delfim Netto, FSP

 

As discussões em torno do necessário projeto de desestatização da Eletrobras deixaram claro, mais uma vez, a recusa do Senado Federal em desempenhar o papel que dele espera a sociedade, conforme determinado pela Constituição.

O tema do (tardio) aperfeiçoamento do setor elétrico é complexo e o debate envolve interesses regionais, intrasetoriais e de grupos políticos.

No entanto, ao fim e ao cabo, trata-se de um problema técnico que deve ser resolvido de forma a produzir um sistema robusto e eficiente. Ele deve ser estável e ter confiabilidade o suficiente para suportar as intempéries climáticas e garantir que o crescimento econômico não seja abortado subitamente.

A situação atual, com o encarecimento vertiginoso da energia e a ameaça de racionamento, mostra que falhamos miseravelmente nessa tarefa.

Há muito a Eletrobras não é capaz de realizar o volume de investimentos necessários. A medida provisória original enviada à Câmara era razoável, mas recebeu os já famosos “jabutis” que produziram um projeto de qualidade duvidosa. A sociedade esperava que o Senado, na capacidade de Casa revisora, cumprisse sua missão de melhorar o teor do texto a partir dos apontamentos dos especialistas do setor, minimizasse as ineficiências e os estragos em potencial para produzir o que se almeja ao final desse processo: um sistema mais competitivo e eficiente.

Esperava-se que os ilustres senadores contivessem a demagogia e os interesses menores. Infelizmente, mais uma vez, abdicarem de seu papel como instrumentos de debates e transformações mais profundas na aprovação das mudanças que o país tanto precisa.

Teve de tudo no acolhimento dos destaques ao texto apresentado inicialmente para votação: a prorrogação por mais oito anos dos subsídios ao carvão mineral para usinas termoelétricas (para atender ao “pleito” dos senadores de Santa Catarina), a concessão a pequenos grupos de pressão do funcionalismo ao garantir que trabalhadores eventualmente desligados de suas atividades após a desestatização seriam realocados em outras estatais, o detalhamento da localização geográfica das usinas para contemplar a interesses específicos, dentre outros exemplos. Alguns jabutis caíram da árvore, mas outros subiram no texto final.

O leitor não precisa ser muito arguto para notar que faltou atenção às necessidades maiores do país. A Constituição de 88 ampliou os poderes do Senado, que efetivamente detém o controle dos rumos da sociedade brasileira. Tem-se, entretanto, cada vez mais a sensação de que suas respostas ficam desconfortavelmente aquém dos desafios apresentados.


O QUE A FOLHA PENSA França incerta, FSP

 O primeiro turno das eleições regionais da França, realizado no domingo, trouxe más notícias tanto para o presidente do país, Emmanuel Macron, como para sua principal contendora, Marine Le Pen.

Favorito em 6 das 13 regiões em disputa, o ultradireitista Reunião Nacional, partido comandado por Le Pen, teve um saldo bastante aquém do previsto. Conquistou o primeiro lugar em apenas uma localidade, e ainda assim por margem estreita, granjeando, no cômputo geral, 19% dos votos.

Trata-se de um resultado bem mais modesto que o da disputa regional anterior, ocorrida no final de 2015, quando a agremiação foi a mais votada no primeiro turno, com quase 28% dos sufrágios —embora, no segundo, tenha perdido para as alianças contrárias.

O revés representa um banho de água fria nas pretensões de Le Pen, derrotada por Macron em 2017, que pretendia transformar a votação numa catapulta para a corrida presidencial do ano que vem. Evidencia também os limites da estratégia de dar nova cara à sigla.

Nos últimos anos, Le Pen vem tentado suavizar a imagem do Reunião Nacional, marcada pelo discurso xenofóbico e pela defesa de políticas anti-imigração, com o objetivo de conquistar novos eleitores e, assim, romper as barreiras que até hoje impediram a ultradireita de alçar voos maiores no país.

As coisas tampouco transcorreram bem para o atual mandatário. O seu República em Marcha amealhou pouco mais de 11% dos votos, e nenhum dos ministros que concorreram obteve votos suficientes para chegar ao segundo turno.

Ainda que Macron lidere as pesquisas para a próxima eleição, o malogro regional acende o sinal amarelo num governo que principiou cercado de enormes expectativas, mas cujo capital político foi se esvaindo ao longo de seguidas crises —dos “coletes amarelos” aos protestos contra a reforma previdenciária e a nova lei de segurança.

Numa votação em que nada menos de 66% dos franceses se ausentaram, os vitoriosos acabaram sendo os partidos tradicionais, que haviam perdido terreno nos últimos anos. Os Republicanos, de centro-direita, obtiveram 27% dos votos, e os socialistas, quase 18%.

Assim, a dez meses do pleito presidencial, o panorama político que se delineia na França é profundamente incerto, com os principais postulantes enfraquecidos, enquanto as forças que reinaram no passado ganham novo impulso.

editoriais@grupofolha.com.br


terça-feira, 22 de junho de 2021

Amigo de dom Paulo, Ricardo Carvalho deu nome às vítimas da ditadura, Humanos da Folha, FSP

 


SÃO PAULO

Grandalhão, emotivo, falante, o repórter Ricardo Carvalho formava um par inusitado com a figura franzina e angelical de dom Paulo Evaristo Arns, de quem foi amigo durante mais de 40 anos.

A partir da segunda metade dos anos 1970, jornalista e arcebispo estiveram lado a lado, durante a fase final do regime militar.

O jornalista Ricardo Carvalho, que morreu no último domingo (20), em imagem de fevereiro de 2020 - Mathilde Missioneiro - 11.fev.2020/Folhapress

Dom Paulo, morto em 2016, liderando a sociedade civil e pressionando pela abertura. Carvalho, repórter da Folha, dando nome às vítimas da repressão. O jornalista morreu no último domingo (20), aos 72 anos, de uma infecção causada por pancreatite.

Em 30 de março de 1978, uma histórica reportagem dele colocou um ingrediente a mais de tensão na visita já atribulada do então presidente dos EUA, Jimmy Carter, ao Brasil.

As cobranças públicas de Carter por respeito aos direitos humanos irritavam o general Ernesto Geisel.

Na edição daquele dia da Folha, Carvalho publicou uma lista de 23 desaparecidos políticos, até então sigilosa, que dom Paulo havia entregue a Carter. Incluía nomes como o ex-deputado Rubens Paiva e a professora da USP Ana Rosa Kucinski.

Era uma das primeiras relações do tipo a aparecer na imprensa. E o jornalista foi além, elencando outros 15 nomes que constavam de pesquisas feitas por entidades de direitos humanos.

“Ele foi um dos primeiros repórteres a cobrir sistematicamente a área de direitos humanos naquele período”, lembra o jornalista e amigo Ricardo Kotscho.

Foi nessa condição que Carvalho se aproximou de dom Paulo, e acabou escrevendo dois livros e produzindo um documentário sobre o arcebispo.

Também acompanhou de perto outras entidades que pressionavam pela abertura do regime, como a OAB e a Comissão Justiça e Paz.

"Conheci o Ricardo há quase 50 anos, numa reunião da OAB em Curitiba que ele foi acompanhar. Sempre foi um jornalista corajoso e fundamental na defesa dos direitos humanos”, diz o advogado José Carlos Dias, presidente da Comissão Arns.

Carvalho estava finalizando uma biografia de Dias, e ambos conversaram na última sexta-feira sobre o livro (18) por telefone, marcando de se encontrar na segunda-feira (21).

“Ele me disse que ia fazer uma cirurgia de vesícula, mas que estava bem. A notícia da morte me causou um impacto violentíssimo, não só pela amizade, mas pelo respeito que tinha por ele”, afirma o advogado. O livro agora deve ser lançado postumamente.

Carvalho trabalhou na Folha até o início dos anos 1980. Passou depois por veículos como IstoÉ e TVs Cultura, Record e Gazeta, além de ter sido editor-chefe do Globo Repórter. Foi um dos primeiros jornalistas a falar de meio ambiente, muito antes de esse assunto virar prioridade no noticiário.

Em 1985, montou uma produtora de vídeos, onde fez programas de TV e documentários, além de participar de algumas campanhas eleitorais. Atualmente, era diretor da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) em São Paulo.

Chamado de “Ricardão” por amigos pelo porte avantajado, é lembrado por amigos como uma pessoa afável e sociável. “Ele era um sedutor nato, mal chegava na mesa do bar já estava abraçando todo mundo”, afirma o cartunista Paulo Caruso, que o conheceu no final dos anos 1960, quando os dois começavam a carreira.

Carvalho foi casado oito vezes, e deixa uma filha. Como lembra Kotscho, ele fazia piada com o fato de que a cada casamento desfeito a ex-mulher levava a geladeira. "Ele dizia que na vida tinha comprado oito geladeiras. Mas conseguiu ficar amigo de todas as ex-mulheres.”

RICARDO CARVALHO (1948-2021) 

Estudou no Colégio Jesuíta São Luís e cursou jornalismo na Unip (Universidade Paulista). Trabalhou na Folha nos anos 1970 e depois teve passagens por diversos veículos, como a revista IstoÉ e as TVs Cultura, Globo e Gazeta. Foi produtor de vídeos, roteirista e autor de livros sobre dom Paulo Evaristo Arns e o maestro João Carlos Martins. Deu aula de reportagem no curso de jornalismo da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Era diretor licenciado da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).